Crónica Desaforada

12 Comments


Os imbróglios do Sistema

Saiu um artigo na Semana online onde uma proprietária descreve o drama que está a viver por causa do imbróglio que tem sido a obra no espaço onde estava o antigo Café Royal, que fica lado a lado com a sua casa, espaço esse situado na rua mais nobre da cidade do Mindelo.

Essa mesmo, a Rua de Lisboa, há meses (anos?) com um buraco horroroso, e em cuja zona não há sequer um passeio para os peões. Para piorar a situação, transformou-se num lugar de estacionamento. Ou seja, quem quiser passar por ali, não tem outro remédio senão andar no meio da rua, correndo o risco de ser atropelado. Tudo tranquilo, não tivessemos nós na rua mais movimentada da cidade.

Não estamos a falar dos célebres factos consumados. Aqueles prédios horrendos que nascem e quando damos por ela, pimba!, levamos com uma novidade colorida na paisagem urbana, para animar o nosso quotidiano. Estamos a falar de imbróglios mesmo. Coisas que não andam nem desandam. Não atam nem desatam. Nem para cima, nem para baixo. O termo certo é parado mesmo. Ou se quisermos, já que vivemos numa ilha, encalhado.

Nestas coisas de imbróglios, a culpa morre sempre solteira. A culpa é de todos em geral, e não é de ninguém em particular. Não é dos proprietários, nem das autoridades, nem dos tribunais, muito menos dos cidadãos que todos os dias se cruzam com estas aberrações, com os olhos tão habituados ao terror urbanístico, que já nem dão por ela, ou se dão, ficam onde estão sem levantar muitas ondas, não vá o Diabo tecê-las. Quando isso acontece, sacamos da fórmula mágica que sempre nos desenrasca desta chatice que é ter que prestar contas ou assumir responsabilidades: a culpa é do sistema!

O buraco deixado pelo Café Royal não é o único & actual imbróglio da cidade. Eles estão aí, que nem elefantes brancos, mas o certo é que não parece haver muita gente preocupada com isso. Se há - e deve haver, certamente! - tem que se fazer ouvir muito mais do que até aqui. «Não é nada comigo», «não posso fazer nada», «o assunto está nas mãos das autoridades competentes», e cada um segue o seu caminho e trata da sua vidinha e pronto, quem não se cuidou que o fizesse. Exemplos? Há muitos:

  • Buraco do ex-Café Royal, na Rua de Lisboa, Situação já referida.
  • Imensa parede de cimento a tapar quase toda vista para a Baía do Mindelo. Tapou a vista a nós, mindelenses, e a um dos maiores simbolos da cidade, a estátua com o pássaro antes voltado para o mar e agora obrigado a falar com uma parede... de cimento.
  • Enorme construção por acabar, mesmo no centro da Marginal, num prédio cuja placa ainda se pode ler o anúncio de um futuro e luxuoso hotel. Qualquer dia aquilo tudo cai em cima da nossa cabeça e depois?
  • Palácio do Povo, ao cimo da Rua de Lisboa. Quando o Tribunal passar para as novas instalações - praticamente prontas - vão voltar a encerrar aquele espaço nobre da cidade?
  • Cine-Teatro Éden Park, na Praça Nova do Mindelo. Fechou há praticamente um ano e está tudo na mesma. Quer dizer, na mesma é uma forma de dizer. O histórico edifício está entregue ao abandono, à espera que fique tão podre que não haja outro remédio a não ser deitar tudo abaixo.
  • Réplica da Torre de Belém, Rua da Praia. A cooperação portuguesa entregou a obra de restauro há tanto tempo que quando se quiser entrar lá dentro para fazer algo de nobre com o edifício, vai ser preciso restaurar tudo de novo.
Todos estes imbróglios, que não tem solução à vista, estão nas zonas mais nobres da cidade do Mindelo. Rua de Lisboa, Baía do Mindelo e Praça Nova. Acham isto normal?


Mindelo, 07 de Outubro de 2008

Imagem: fotografia «Mindelo Doors» de Felix h




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12 comentários:

Catarina Cardoso disse...

É tão engraçado ler esta crónica desaforada depois de ter estado aí!
Eu não reparei em nada disto!!!!!!!
Estava completamente deslumbrada.

Queremos sempre mais e melhor não é vero?

Um abraço
P.s: café adiado

João Branco disse...

Catarina, fiquei á espera por um telefonema, para uma visita guiada aos imbróglios do Mindelo! E um café.,,claro!

Kuskas disse...

Oh João
Realmente tens razão. Nada disso é normal. Eu pergunto-me as vezes o que é que se passa em Mindelo para que o pessoal esteja tão apatico e com um INÉRCIA CRÓNICA????

PS: Com que então a Catarina foi a Mindelo e não telefonou ao João???

Que pena. Terias conhecido lugares bem fixes e com certeza terias reparado na obra inacabada que se encontra ao lado do Café Lisboa.

Pelo menos foste ao café Lisboa?

João Branco disse...

Kuskas, a própria inércia aos comentários a esta crónica não deixa de ser sintomática, não é? Anda tudo muito caladinho...

Anónimo disse...

Concordo "vivamente" com a experiência da Catarina. Experimentem viver uns dias connosco, cá na Praia, para saberem o paraíso que é Mindelo...

gilia disse...

Terra Sab... mesmo à distância vamos acompanhando estas situação.
Pena pena é do Cine-Teatro Éden Park (João, não existe maneira de reaver para a Cultura este edificio e suas envolvências? Estamos a precisar de um cinema e não só...)
A réplica da Torre de Belém, estive lá o ano passado e já tinha notado que está a precisar de uns "retoques"...
Enfim, vamos com calma
Bijim

João Branco disse...

Anónimo, o pior que podemos fazer é querer desculpar os nossos males com os males dos outros... (e no caso, em particular, também são nossos!)

Gilia, tarde demais. E o muro de betão à beira-mar, a tapar metade da marginal? Vocês acham isso normal?

Catarina Cardoso disse...

Olá Kuskas,

É verdade- estive no mindelo e não vi o pa....ooops o João Branco!!!! heheheheh

A agenda estava apertada....

A vossa terra é tão sabinha!!!

Claro que fui ao café Lisboa e claro que reparei na obra embargada mesmo ao lado- mas de novo o que é isso comparado com todos os atropelos arquitectónicos, paisagísticos, etc da Praia.

O Mindelo é lindo, respirase um ar leve que suporta bem um ou dois buracos.... digo eu!

Virgílio Brandão disse...

João,
Acho que o muro de betão é para não vermos que o pássaro voou; é que, ao que parece, a terra está melhor – em tudo. O Nuno Ferro Marques deveria estar aí para avançar com uma Acção Popular (com razão, pelo que dizes), pois a apatia grassa na terra e são precisos, não raras vezes, alguém que faça de kamikaze social (no bom e louvável sentido).

Ah, o Palácio do Povo deveria ser o local de excelência para o Tribunal estar instalado; pois a Justiça é administrada em nome do povo e para o povo. O simbolismo deste facto daria uma maior dignidade à Justiça. Mas quem decide...

O Eden Park vai acabar nas mãos de uma instituição financeira que namora (platonicamente, por enquanto), há já algum tempo, o local.

A verdade é que o povo pode se queixar, mas não deve, pois não foi quem escolheu «mais do mesmo» nas últimas eleições? Normal, João, é: está tudo como antes. Agora, «não se atrevam» a afrontar o poder da ilha...

E depois, os buracos na rua disfarçam bem os outros; não é?

Abraço fraterno

João Branco disse...

Tás a ver, Virgilio, afinal parece que Mindelo é lindo! Mas alguém disso aqui o contrário?

Virgílio Brandão disse...

É, João...

Mas, é como digo sempre às vaidosas e emproadas: «a beleza gastar-se-á e, depois, só ficarás tu». Por isso deve ser cuidada...

Abraço fraterno (haverá um abraço mindelense? - se ouver, vai um)

João Branco disse...

Há certamente, e havemos de o dar, junto com um café e uma boa conversa!