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"O estudo da língua cabo-verdiana não prejudica o português", - defende professora. Antes pelo contrário, favorece a aprendizagem da língua portuguesa.

A professora Júlia Pereira comprova esta tese no seu estudo "Alfabetização de crianças cabo-verdianas na língua materna" levado a cabo no âmbito de um doutoramento na Universidade de Extremadura (Espanha).

Ler notícia completa, aqui


Se esqueço a minha língua materna
E as canções que o meu povo canta
Para que servem os meus olhos e as minhas orelhas?
Para que serve a minha boca?
Se esqueço o cheiro da terra
E não lhe sou útil
De que me servem as minhas mãos?
Que faço neste mundo?
Como pude admitir a insensata ideia
De que a minha língua é fraca e pobre
Se as últimas palavras da minha mãe
Foram pronunciadas em evenki?

Alitet Nemtushkin, um poeta evenki (minoria étnica da China)





Carta de uma mulher a seu marido embarcado em baleeira

"Meu quirido esposo da minha triste coração.

Receber onte sua carta que Narciso trazer e incommenda que me mandei, dezejar saúde e fortuna. Eu ficar bom e nós filho.

Minha marido, dentro da minha peto tenho na meu coração, uma lambique de prata, de palmanhã estar ferbendo cudado de tarde estar estilan sodade. Senhor eu ten muito que dizer mas senhor só de nha boca pa de sel, mas pacencia, dentro da minha peto in ten 24 gabetinha abrir com sodade fichar com cudado, in ten tanto sodade dél cumá conto folja tibe n'um albre, sodade é ambre é tambre é doce é sucre é mel, ma pacencia só cu boca terá fim, in ten tanto sodade dél cuma ôque el tâ subi na mastro de meio e cu ta subi na altura de Barras branca ai triste bide d'uma muljer sem sé marido, mas in stâ razando brija Maria pa trazeme el pa nu bem gozar nós casamento, se Deus prometer estou no "cutello Longavulonva" qui ca tem sono pa dormir, ai sede ai sodade qui acima é Deus, baxo de Deus é senhor que é minha Pai e mais e tudo, carta que tenho mandado é desenove, cum agora eu mandar um garrafa de ago de chero de Lavadura e um saco com mil qulidade de ramo, ter tanto sodade cuma canto estrella ter na ceo cuma pexe que ter na mar cuma que ter na lanxa cumâ arêa que ter na Praia, cuma canto pancada mar ta dei, ai mar di sodade, ai mar de baleia, désta sua muljer de vida unte a morte"

Cidade do Mindello, de S.Vicente de Cabo Verde, 31 de Julho de 1884»


Fonte: "Breves Estudos Sobre O Creôlo Das Ilhas de Cabo Verde" de autoria de Joaquim V.Costa de 1886. Um agradecimento ao Artur Mendes que nos fez chegar esta pérola.



*Diazá: termo do crioulo que significa, «há muito tempo».





Escreve o (conceituado) jornalista brasileiro Luiz Carlos Azenha, numa crónica publicada na íntegra pelo Djinho Barbosa, no Son di Santiagu: «Em Cabo Verde a população fala crioulo (95% português, 5% palavras de idiomas africanos). O português como falamos no Brasil é coisa dos letrados.» E pronto! Já está, nem é preciso dizer mais nada.

Daqui se percebe como é urgente a implementação de um Instituto da Língua Cabo-verdiana, porque há algo de errado na forma como estas informações sobre a língua são vinculadas, nomeadamente em muitos "guias turísticos". Até porque é uma contradição enorme: se 95% do crioulo é português e o português é coisa dos letrados, será que somos todos analfabetos de duas línguas e ninguém sabia? Haja saco para tanta leveza de argumentos!







Dentro da cacofonia inconsequente que tem caracterizado o debate sobre a oficialização da língua cabo-verdiana, vão aparecendo algumas posições e ideias que, não só contribuem para o debate por trazerem ideias novas, como incentivam a investigação e a promoção de medidas válidas e concretas para o avanço que todos querem na dignificação do crioulo. Na última semana apareceram duas posições sobre esta problemática que penso serem interessantee condensar neste modesto café:

1. Germano Almeida, que tem sido um dos maiores críticos da forma como o processo de oficialização tem sido conduzido defende uma ideia que, aparentemente, é paradoxal com o que vem defendendo nos últimos anos. Germano Almeida defende o ensino do português como língua estrangeira, uma vez que entende que a língua corre perigo, ao contrário do crioulo. O escritor cabo-verdiano considera que a língua oficial não é falada correctamente, apesar de ser o instrumento que mantém o povo cabo-verdiano em contacto com outros países. Germano de Almeida, em entrevista à Lusa, afirmou que no arquipélago há a ideia de que a população é bilingue, "o que não corresponde a verdade". (notícia completa, aqui)

2. O pessoal académico da Tertúlia Crioula, por sua vez, defende a necessidade urgente da implementação de um Instituto da Língua Cabo-verdiana. Por sua vez, José Luís Hopffer Almada, poeta e jurista, um dos defensores do projecto para uma língua cabo-verdiana, do grupo de trabalho que criou o alfabeto “Alupec”, para a sua escrita, lembrou os princípios da Unesco quanto ao respeito e aceitação das línguas maternas. Disse que “é necessário passar-se de uma diglossia para o bilinguismo” e que existe autorização legislativa para que o crioulo seja ensinado normalmente nas escolas em Cabo Verde. (reportagem, aqui)

Tudo isto é muito interessante e devo dizer que as duas posições acabam por ser até concordantes ou, no mínimo, caminham uma na direcção da outra. É que, se for implementado o ensino do português "como língua estrangeira", como afirma Germano, isso implicará necessariamente "que o crioulo seja ensinado normalmente nas escolas de Cabo Verde", como defende Hoffer Almada.








Hoje, dia 21 de Fevereiro, como habitualmente tem acontecido no Café Margoso, assinala-se o Dia Internacional da Língua Materna, aproveitando a data para lançar mais algumas achas para esta fogueira, onde qualquer opinião se transforma facilmente em gasolina, tal é a forma apaixonada - e tantas vezes inconsequente - com que se debatem as questões relacionadas com o crioulo.

Aqui, hoje e mais uma vez, declaro o meu reiterado amor pela língua cabo-verdiana, impregnada no mais íntimo do meu ser, quase 18 passados da minha vivência diária e quotidiana com um país que adoptei e escolhi para viver e trabalhar e que no futuro, certamente será o chão e mar por onde as minhas cinzas serão espalhadas. Dizer que as experiências teatrais que mais me marcaram estão indubitavelmente ligadas ao conceito de crioulização - relacionado com a arte cénica - e que considero as adaptações teatrais que fizemos na língua cabo-verdiana de peças como Casa de Bernarda Alba ou Sapateira Prodigiosa, de Garcia Lorca; de Romeu e Julieta ou Rei Lear, de Shakespeare; Médico à Força, de Molière; e À Espera de Godot, de Beckett, dos momentos mais felizes e inspiradores do meu percurso enquanto homem do teatro.

A minha língua materna é o português, como é natural. Mas foi em crioulo de Soncent que chorei a morte de quem me transmitiu as primeiras palavras, no funeral da minha mãe. É em crioulo de Soncent que comunico e me relaciono diariamente com as minhas duas filhas, é em crioulo de Soncent que sonho, que discuto, que lamento, que amo. A aprendizagem, primeiro, a imersão, depois e a impregnação que se seguiu da língua cabo-verdiana na minha vida transformou-me num homem mais rico, mais musical e mais feliz. Sou, também por isso - mas não só - um defensor incondicional da oficialização da língua cabo-verdiana, embora continue a dizer que a forma como o processo foi conduzido transformou o debate num ruído de fundo, onde todos gritam e ninguém se escuta.

Resta dizer que, não sendo linguista, não quero entrar no rol do acho isto ou acho aquilo sobre como se deve fazer para se dar maior dignidade institucional à língua materna do povo das ilhas. E sublinho o institucional, porque não há cabo-verdiano nenhum que não ame incondicionalmente a sua língua, seja qual for a sua posição relativamente a esta matéria. Não há heróis nem vilões nesta história. E penso que a dignidade passa sobretudo pela questão do ensino e de se criar as condições para que as crianças possam aprender a ler e a escrever na mesma língua primeira com que aprenderam a falar.

Dito isto, quero aqui reiterar que se tivesse que levar para um local deserto um, e apenas um, poema no bolso, escolheria, sem pestanejar este poema de Eugénio Tavares, que diz assim: Amor é carga? É carga grande, má el câ pesado! É culpa fundo, má el câ pecado!... Deus que fazel, el câ condenal! É Deus, nós Pai, el é que tempral… É Deus, é Deus que fazê Amor, El ca fazel pa bota cachor… Amor é culpa? Má el ca pecado, el cã perdição, Pamode é escada de salbação… Ami, de meu, já erguem nha bida… Ami, de meu, já limpam nha Céu… Se el é nha culpa, el ca nha pecado, Se el dam cudado, el lumiam nha bida…







Stória de Cinderela na linga de Soncent

(ou como contar a história da Cinderela às crianças de São Vicente para que não nos chamem gente bedje)


Já tem um data de time, tinha um eskurinha que sê pai já tinka rankód pa nha merkinha, entom el tive ke fcka ta môra ma kel chunga de sê madrasta e kesh sacana de sês irmã de criação (filhas de sê madrasta).

Cinderela (Cindy p'á maltas), tava vive móda se el tava estóde na djelz, tude dia na lómba e sem time pa mandá uns mail pa gang.

Ke tude es trapaiada na sê vida, tude o ke Cindy kria era fgi d'casa e ranki, mod sê madrasta tava tral merda. Entom um dia Cindy fcka ta sabe que maltas d'zona tava ta organiza um fistinha de kel bom. El fcka logue atente na muve, ma kesh filha de sê madrasta bai logue te cortal eskema.

Ai, el fcka flipóde, ma depôs de andá um time desanimóde, sômá um fada madrinha que dal speed num rupinha fashion e konde el pestil, el fcka ta parce kum suco +, prope sexy.

Sô ke kel fada dzel k'el podia fcka na festa sô até meia-note. Bzôte tita tcheká eskéma?!!!! Baby curty ideia e el desmarcá logue logue pa fistinha, chei de speed.

Konde el entra na fistinha, el tchecá um tipzat chei de paus, um moss dekel bom, ke ba logue ta metel frase. Entom Cindy ma brodix começá um góma e eje curti ól naite long, até k'el uvi kesh 12 badalada de meia-note e el dá kel tipzat um descontra pa desaparce na fmaça.

Brodix fcka completamente atoada konde baby ranka sem konde de nada, e el ranka trás del logue, ma infelizmente el incontra foi um sapatim de kel kuzinha na camin.

Na dia seguinte, tipzat mete na se diabom de córre e el anda de brock em brock ta espiá kem ke kel sapote tava sirvi. Chei de sorte, e depôs de esprimenta kel sapóte num data de Kamak de amdjer, el incontra kel doida, pa azar de um data de metrera ke já tava k'oi na kel broxi. E assim eje vive fliz pa psuda.

The End

*Ainda não consegui parar de rir com esta tradução genial, que me foi enviada por mail. Não sei quem é o autor, mas merece um forte aplauso.






O Parlamento cabo-verdiano acabou de chumbar a paridade entre as línguas cabo-verdiana e portuguesa no processo de Revisão Constitucional em curso, tendo o debate terminado neste preciso momento. Estranhamente, não me apercebi de nenhum deputado que tenha levantado a questão da (eventual) inconstitucionalidade da medida que aprovou o Alfabeto Cabo-verdiano (ex-Alupec), na senda do que foi defendido pelo Dr. Virgílio Brandão nos seus artigos no blogue Terra Longe. Dado importante: o Ministro da Cultura, o maior defensor deste processo de oficialização, não esteve presente por motivos de agenda, facto que foi, naturalmente, criticado pela oposição. De resto, os argumentos esgrimidos primaram pela superficialidade e pela rivalidade partidária.

A UCID votou contra porque considera que não foram criadas as condições para esta oficialização e que o povo de Cabo Verde não foi tido nem achado nesta matéria.

O MpD absteve-se porque considera que esta oficialização seria só uma operação de cosmética e que não existem condições, neste momento para que isso possa acontecer.

O PAICV votou a favor porque considera que este seria o único passo válido para uma dignificação da língua cabo-verdiana, e que passados 10 anos da última Revisão Constitucional, esta era a hora para dar este passo em frente.

E agora? Quo vadis, kriolus?





E Manuel Veiga, mais o linguista e cidadão do que propriamente o Ministro da Cultura reagiu (aqui) ao autêntico vendaval de discussões que segue na Internet, seja no Fórum de ASemana seja no Tertúlia Crioula (aqui), este último batendo autênticos recordes de participação, com mais de 500 comentários até à data (e com esta longa reacção de Veiga, promete continuar).

Sou daqueles que pensa este tipo de discussão pode ser não só útil como bastante elucidativo sobre a forma como cada um defende os seus pontos de vista, assim como nos mostra como a intolerância, o ódio e a maledicência entre cabo-verdianos está demasiado presente na discussão desta temática da língua. Uma discussão que, pela forma e conteúdo que a caracteriza, pode tanto ajudar a esclarecer quanto a confundir os mais incautos, até porque há argumentos válidos de "um e do outro lado". Além de que acontecem fenómenos curiosos, como o facto de haver alguns indivíduos que acabam dominando o debate, assumindo os mais diversos pseudónimos mas cujo estilo de escrita facilmente indicia se tratar de uma só pessoa; ou o caso curioso de eu próprio ter "aparecido" no debate do blogue Tertúlia Crioula sem ter feito nada para que tal acontecesse (alguém colocou, no meu nome, um dos textos que escrevi aqui sobre o tema.)

Mal ou bem, chama-se a isto socializar uma temática. Ou seja, dar à sociedade a oportunidade de dizer de sua justiça, de se informar melhor, de debater e propor. E o grande avanço que está a ser dado na actualidade, com décadas de atraso, é-nos permitido pelas novas tecnologias, onde centenas de pessoas situadas em locais diferentes do planeta, podem participar, praticamente em tempo real, numa discussão sobre qualquer assunto. Isso é algo que nunca foi feito de forma convincente, sendo que, volto a dizer, o maior erro que se cometeu em todo este processo foi a opção pela política do facto consumado.

Volto a chamar atenção para a postura equilibrada assumida pelo Corsino Tolentino sobre esta matéria (aqui), assim como para a frase final do texto de Manuel Veiga que originou a presente declaração: "Fico por aqui, na certeza de que o debate vai prosseguir de forma serena, assumida, fundamentada, respeitadora, e melhor ainda, se for com a morabéza que tem caracterizado a tradicional idiossincrasia do nosso povo." Sinceramente, pela forma desastrosa como este processo tem sido conduzido, e pelo que se tem lido e ouvido um pouco por todo o lado, parece-me que já vai um bocado tarde. Por aqui ficamos à espera dos próximos capítulos.


Adenda: aconselho a leitura atenta de mais um extenso e elucidativo texto sobre a matéria, desta vez dando ênfase ao aspecto legal e jurídico de todo este processo. A ler, este texto de Virgílio Rodrigues Brandão "A inconstitucionalidade da institucionalização do Alupec - o ius abutendi do cabo-verdiano", aqui.





Esclarecedora (ou talvez não), rica (muitos argumentos e participação) e com condimentos para todos os gostos, na discussão sobre a oficialização da língua cabo-verdiana que se desenrola no sítio Tertúlia Crioula, já com mais de 350 participações.


A conferir, aqui.





Passou-me ao lado, por me encontrar fora de Cabo Verde, a (excelente) entrevista que Corsino Tolentino deu ao Expresso das Ilhas e cujas opiniões sobre o crioulo se aproximam bastante do que tenho vindo a defender aqui no Café Margoso.

E porque nunca é demais conversar e debater sobre este tema tão apaixonante, aqui ficam as opiniões deste ilustre académico e quadro cabo-verdiano sobre a língua cabo-verdiana. Ao ler e ouvir Corsino Tolentino só tenho pena desta ser uma pessoa cuja capacidade é pouco aproveitada pela nação, sendo certo que não sei avaliar se este aparente afastamento é o resultado de uma vontade própria ou se tem outras razões que a própria razão desconhece.

Mas isso são contas de um outro rosário. Por agora, aqui ficam os destaques sobre o tema:

"Os partidos ganham eleições e formam governos como consequência de um jogo do tipo publicidade enganosa que a sociedade aceita. São promessas que, se tivessem sido analisadas com rigor ético e técnico nunca teriam sido feitas nem aceites. O PAICV terá prometido a oficialização da língua cabo-verdiana num prazo irrealista. "

"Não faz sentido andar por aí a perguntar às pessoas se são por ou contra a oficialização da língua cabo-verdiana. O crioulo cabo-verdiano fez-se antes de nós e continuará depois de nós, não valendo a pena dar ares de estar a inventá-lo. Novidade seria prepará-lo para ser utilizado nas escolas, nas igrejas, na universidade, na administração e na comunicação oficial. A língua cabo-verdiana não está preparada para todas estas funções e prepará-la é uma tarefa gigantesca para várias gerações."

"O processo parece viciado e é contra este modo de ver e agir que muita gente estará. Ninguém está contra a língua cabo-verdiana. A mão invisível ou a conspiração não existem, mas, coisa diferente, a sociedade exige rigor e verdade, porque qualquer das duas línguas nacionais é assunto demasiadamente sério para ser deixado exclusivamente aos linguistas profissionais ou amadores, os quais são merecedores do meu respeito e admiração"

"Somos analfabetos em cabo-verdiano e a meia dúzia de estudiosos e escritores nas variantes da língua materna são os pioneiros que constituem a excepção à regra geral"


Comentários?


Entrevista completa: aqui
Via: aqui





Psamético, um dos últimos faraós do Egipto (século VII a. C.) desejoso de saber qual seria a língua original dos homens, mandou que dois gémeos recém-nascidos fossem isolados de qualquer comunicação verbal até à idade de 2 anos, e a dada altura privados de alimentação, para se saber que língua usariam: contam os relatos que as crianças pediram pão em cíntio (uma língua falada na zona do que hoje é a Ucrânia) e o faraó decretou que o cíntio seria então a língua original da humanidade; 19 séculos mais tarde, o rei germânico Frederico II (1194-1250) resolveu repetir a experiência, mas desta vez os gémeos morreram.

A que propósito vem isto? De nada. Mas ao ouvir mais uma discussão oca e sem sentido sobre os crioulos, a valorização da língua portuguesa, a oficialização, o ALUPEC ou de que "um crioulo acabará, inevitavelmente, por prevalecer", lembrei-me desta história. Ainda não percebi porquê, mas pode ser que por aí haja quem saiba. Doutores em linguistica e em psicologia é o que não falta neste país. 

 


Uma entrevista esclarecedora

1. Nada me move, a título pessoal, contra Manuel Veiga, titular da pasta da Cultura do Governo de Cabo Verde desde 2004. Antes pelo contrário, sempre que nos temos encontrado em várias situações, sempre foi educado, simpático e nunca transpareceu da sua parte qualquer inimizade pela minha pessoa ou alguma atitude que me pudesse ter feito embirrar com o homem por alguma razão especial;

2. Já fui seu anfitrião duas vezes, na primeira das quais foi assinado um protocolo entre o Ministério da Cultura e a Associação Mindelact, a segunda no encerramento do festival Mindelact do ano passado, onde o ministro, tal como já aconteceu em várias outras situações, teceu rasgados elogios à obra que esta associação cultural vem desenvolvendo em prol das artes cénicas no país;

3. Por me interessar especificamente e de forma empenhada por assuntos relacionados com aplicação das políticas públicas para a área da cultura aceitei ainda o amável convite que me foi endereçado pelo seu ministério para participar no Fórum da Economia da Cultura em Outubro passado e nele participei de forma activa, empenhada e construtiva, como dei conta nesta crónica;

4. Finalmente, procuro em todas as críticas que faço, evitar uma postura destrutiva, azeda ou demasiado tempestuosa, procurando, pelo contrário, escrever de forma fundamentada as análises que neste espaço foram sendo feitas sobre política cultural, em geral, e sobre a actuação deste ministro, em particular;

5.  Dito isto devo dizer que achei a grande entrevista que o Ministro Manuel Veiga concedeu ao jornal A Nação bastante esclarecedora e a principal conclusão que podemos tirar não é novidade para ninguém: estamos perante um linguista de excepção, com o qual podemos não concordar, mas que está, sem qualquer sombra de dúvida, absolutamente preparado para defender as suas ideias nesta área;

6. O seu discurso em defesa da língua cabo-verdiana é claro, directo e não deixa margem para muitas dúvidas. Reflecte, como é óbvio, a obra extraordinária que possui na defesa da língua cabo-verdiana e tira as dúvidas que possa haver em relação a muitos dos equívocos que vem alimentando a sociedade cabo-verdiana nesta questão basilar da oficialização do crioulo;

7. Manuel Veiga mostra, nesta entrevista, e no que ao crioulo diz respeito, não só capacidade de argumentação. Mostra também humildade e jogo de cintura perante a onda de críticas. Fala num processo em construção, quando os críticos insistem na imposição; defende a pluralidade de opinião, quando os críticos falam em autismo propositado; está aberto a propostas e refere que no processo de padronização do alfabeto - que não da língua - todos são livres de usar e defender outros modelos, mas que seria bom que os sustentassem cientificamente, o que até agora não aconteceu;

8. Também concordo com o Manuel Veiga quando ele fala de equívocos referentes ao Alfabeto  cabo-verdiano, sendo certo que se alguns destes equívocos são provocados por pura ignorância ou vontade de provocar confusão deliberada à custa de bairrismos exacerbados, também é verdade que isso acontece porque a proposta agora aprovada não foi socializada, nem sujeita a amplo debate, o que poderia ter evitado o que está acontecer hoje na sociedade cabo-verdiana;

9. Não nos enganemos: os cabo-verdianos estão não só profundamente divididos, como completamente desinformados. Basta ir a qualquer fórum onde este assunto venha à baila para se verificar o nível do debate e a profunda ruptura que está a provocar entre cidadãos de uma mesma Nação, livre e independente já lá vão 35 anos, que pensa, sonha e ama em crioulo mas é incapaz de perceber que não faz sentido não dar um estatuto mais amplo, sistematizado e premente à sua própria língua materna;

10. E aqui chegamos à segunda conclusão da entrevista: Manuel Veiga tem falhado como Ministro da Cultura não apenas na aplicação das políticas da área, mas especificamente nesta que é a sua vertente de eleição: a oficialização da língua cabo-verdiana. Porque se há falta de informação, de debate, de esclarecimento, de procura de consensos mais amplos, de consultas, de conferências, de colóquios, ou seja, de socialização desta questão central, à inèrcia deste ministério o devermos e não fosse assim não estaríamos hoje com o mesmo nível de debate que existia há 15 anos atrás, quando se discutiam os excessos de chapéus e sinais do crioulo escrito e, curiosamente, com o mesmo protagonista;

11. Quando este ministro foi empossado, em 2004, nos discursos da praxe, e com o entusiasmo natural de quem vê um dos maiores linguistas da nossa historiografia assumir um cargo onde poderia, finalmente, colocar em prática tudo o que vinha defendendo nos circuitos académicos e intelectuais, foi dito, alto e bom som que "crioulo vai passar a ser língua oficial em Cabo Verde em 2005" (aqui). Passaram-se quatro anos e quase tudo está por fazer;

12. Sendo certo que esse amplo debate não pode estar confinado ou dependente apenas da vontade de um ministro e do seu gabinete, também não se pode assobiar para o lado e dizer que este não deve ser responsabilizado pela situação que vivemos hoje. Porque muito mais podia e devia ser feito a este nível, e num assunto onde, como se referiu atrás, o ministro domina a seu bel-prazer, com capacidade técnica, teórica e de argumentação acima da média, maiores são as suas responsabilidades políticas;

13. Além da forma pouco elegante como insinua que algumas das críticas feitas ao seu ministério surgem motivadas por ambições pessoais ou por falhadas expectativas de apoio instituicional, todos os outros assuntos abordados na entrevista confirmam a segunda conclusão: a política cultural, que ninguém sabe qual é, continua emersa num lodo estratégico que balança entre os acontecimentos casuísticos, as homenagens pontuais, a economia da cultura que continua por explicar e/ou definir, os planos estratégicos anunciados que nunca viram a luz do dia, a confiança (natural) nos seus mais directos colaboradores e a utilização de termos bombásticos, ontem o diamante do país, hoje o oxigénio da educação. 

Nota final: desejo, com toda a sinceridade, que no próximo dia 22 de Junho, a Cidade Velha de Ribeira Grande de Santiago possa vencer essa imensa batalha e transformar-se em Património da Humanidade para que possamos dar, por esse intermédio, uma importante vitória ao actual ministro da cultura. Porque acima de tudo, continuo acreditar que ele só quer o bem do país e está a fazer o melhor que sabe e pode. E digo isto sem qualquer ponta de sarcasmo ou de ironia.


Mindelo, 19 de Junho de 2009


Imagem: Ta sumara um aiam de Mito





Não é preciso fazer muitos dramas. Tudo é uma questão de hábito, já se disse. Agora é preciso passar a um próximo patamar. Tentar saber como aplicar isto no ensino, por exemplo. Com que dinheiro se vão fazer novos programas, acertar, definir e aprovar novas metodologias, publicar novos manuais de ensino (bilingues?). Enquanto isso não acontece, e vendo que o debate parece, finalmente, estar a tomar pulso na sociedade cabo-verdiana, nada como aprender alguma coisa das novas regras, mesmo que achemos que não servem ou não concordemos com elas. Mas sabendo efectivamente do que se trata, talvez possamos argumentar com um pouco mais de propriedade. Este sítio (aqui) é uma óptima solução. E kunhesimentu e medjor forma de kombatê prekonseitu.

A propósito, a conversa nesta Declaração Cafeana está muito interessante. Venham ver.




Na semana em que o Blog Joint escolheu como tema a questão da(s) língua(s) houve um cabo-verdiano que comentou comigo, com algum enfado: "outra vez? Mas vocês não se cansam de discutir sempre a mesma coisa?". Entretanto, a edição desta semana do Expresso das Ilhas dedica parte do seu suplemento cultural ao debate sobre a oficialização do crioulo, com opiniões e depoimentos contrários e favoráveis, como é natural. Nos blogues e nos principais sítios de notícias de Cabo Verde, o crioulo continua a ser um tema debatido de forma apaixonada e, muitas vezes, irracional. Aliás, como sabemos, paixão e razão não costumam andar juntas...

Isto para dizer que quem pensa que esta não é uma questão fundamental para o Cabo Verde de hoje, está enganado. O processo de oficialização está em andamento, isso é inquestionável e de aplaudir. As regras da escrita, com o tão polemizado alfabeto unificado, está aí, com força de lei para ser aplicado. Mas o maior erro que se pode cometer é pensar que este é um assunto pacífico, esgotado ou que o tempo resolverá. Não é. Basta ler os comentários a qualquer artigo, seja a favor seja contra, para verificarmos como a Nação cabo-verdiana está completamente dividida em relação a este assunto. E não é só dividida: é também muito mal informada.

Já o disse várias vezes: a forma como os defensores do establishment linguístico entram no debate não tem contribuído para um esclarecimento da opinião pública. Continuam a utilizar-se os termos "alienados", "complexados", "iluminados" ou "neocolonialistas" para classificar aqueles que defendem outro caminho, por convicção ou porque, o que acontece em grande parte dos casos, por estarem mal informados. Há que continuar a debater, discutir, partir pedra, mas de uma forma muito mais pedagógica, arejada, tranquila e inteligente. Há que promover mais debates, conferências, encontros, mesas redondas, onde todos e cada um possam dizer de sua justiça, contribuir para o enriquecimento de uma questão central e, até hoje, fracturante: encontrar a melhor forma de assimilar o carácter bilingue da nossa sociedade.

Ao Estado cabe também fazer muito mais. Como proponente, continua a fazer pouco. E fazendo pouco passa uma imagem da política do facto consumado decidida por uns quantos por motivações pessoais, que mesmo que possa ser injusta se torna compreensível por uma ampla franja da população. A primeira grande medida seria, na minha opinião, a fundação, com carácter de urgência, de um Instituto da Língua Cabo-verdiana, que ficaria responsável pela recolha de toda a informação e estudos já existentes sobre a matéria, mas principalmente que pudesse ser elo e motor para um debate intenso, aberto e pedagógico, envolvendo todos e não apenas alguns, que esclarecesse e não dividisse, que recolhesse subsídios e não se fechasse numa ortodoxia redutora, que preparasse, enfim, o país para que finalmente se dê a dignidade devida a uma língua primeira como é a língua cabo-verdiana, património de todos.

Imagem: pintura de Mito





"Padronizason d'eskrita de lingua kabuverdiana e un vitoria y se kaminhu podê ser rezumid em 3 palavra: un kestão d'abitu."

(E ess li, mim e ke dzel)


Tradução: a padronização da língua cabo-verdiana é uma vitória e o seu caminho pode ser resumido em 3 palavras: uma questão de hábito.






Sobre a questão do crioulo e da sua oficialização, urge perguntar: estão os nossos linguistas a fazer um bom trabalho? Se sim, o que está a falhar na socialização da proposta? Sabendo que a questão da oficialização, hoje, está intimamente relacionada com a padronização da escrita do crioulo, porque é que se escreve tão pouco na língua materna? Porque é que nos jornais e nos blogues cabo-verdianos mais de 90% dos textos são escritos em português? Porque é que a maioria esmagadora da nossa ficção e poesia, os romances, contos, cónicas, não é escrita e publicada em crioulo? Referir que os jovens comunicam nos chat's em crioulo é suficiente para esconder esta realidade? O que falta fazer para socializar a escrita da língua materna? Estão os nossos políticos a fazer um bom trabalho? Se o crioulo não é uma questão que divide os cabo-verdianos, então porquê que os ânimos se exaltam de cada vez que o assunto vem à baila? 

Sobre estas questões, por hoje, só tenho perguntas a fazer. E é tudo.







A propósito do debate sobre a oficialização do crioulo, cito:

"E por tolerância, não entendemos aqui a piedosa inclinação para suportar o outro, sob genéricas alegações de humanidade ou de virtude, mas a capacidade para compreender para além das aparências imediatas, para compreender as motivações reais do comportamento alheio, e sobretudo, do nosso próprio comportamento. Por tolerância, não queremos significar a largueza de coração, mas acima de tudo, a largueza - possível - da compreensão."

João de Sousa Monteiro in "Tire a mãe da boca" (fonte: aqui)




Estou à vontade para escrever este post. Sempre fui - e sou - a favor da oficialização do crioulo, faço muito teatro em crioulo, falo e escrevo em crioulo, fazendo um esforço titânico para me habituar às regras alupekianas dessa escrita  e tenho ainda incentivado aqui e noutros círculos este apaixonante debate sobre a língua nacional cabo-verdiana. Sempre ouvi dizer, não só do Ministro Manuel Veiga como de outros defensores do sistema que está a ser implementado por intermédio do ALUPEC - que entretanto se reforçou pela força de Lei - que este alfabeto não impediria nunca ninguém de escrever o seu crioulo já que as regras seriam exactamente as mesmas, estivesse eu escrevendo o crioulo de Santiago ou de Santo Antão. A base desta teoria é claramente fonética: escreve-se como se ouve, com o argumento que tudo fica mais simples até porque o português "só complica". 

É um argumento discutível, mas é com ele que temos que lidar. Agora não deixei de estranhar este post de Redy Lima, logo calorosamente defendido pelo Marciano Moreira (que é quem tem mais dado a cara na comunicação social e até nos blogues em defesa deste crioulo), e onde ele escreve, taxativamente isto: 

"Como disse alguém no tal debate, o crioulo surgiu em Santiago, berço da nossa identidade que é a ilha mais habitada, mais cosmopolita e onde o crioulo possui uma estrutura mais rica. Com isso quero dizer, que não vejo nenhum acto ditatorial em ter o badio como a base do crioulo. Em Portugal, temos o português formal e as suas variantes açoriana, madeirense, algarvia, alentejana, angolana, brasileira, etc. e está tudo bem. Porque raio então não podemos ter aqui um crioulo formal com estrutura badia e as suas variantes foguense, mindelense, santatonense, salense, bravense, etc.? "

Bem, para além de questões bastante discutíveis relacionadas com pódios de cosmopolitismo ou de estruturas mais ou menos ricas de cada uma das variantes, e ainda do facto de o Redy fazer uma confusão terrível considerando o português de algumas regiões de Portugal, e ainda de outros países como o Brasil e Angola, como variantes de um "português formal" - o que é uma asneira de todo o tamanho - pergunta porque não se pode ter um "crioulo formal com estrutura badia". E eu que pensava que nunca foi essa a intenção! Que o ALUPEC defende a padronização dos processos de escrita mas que nunca porá em causa as características intrínsecas de cada um dos crioulos de cada uma das ilhas. E eu que pensava que aqueles que defendem argumentos contra esta oficialização do crioulo dizendo que o objectivo final é fazer um crioulo dominar os outros todos, eram exagerados e irrealistas.

Desculpem lá qualquer coisa. Mas perante esta posição clara e frontal eu pergunto: Redy, isso foi algum lapsus lingae ou fugiu-te a boca para a verdade? 


Ilustração: Jornal de Hiena





Hoj, dia 21 de Fevrêr, é
Dia Internasional d'Línga Materna

O poeta falou e disse:

"Notícia de última hora: depois de anos de debates encarniçados, em que foram utilizados os mais diversos argumentos, tais como peidos, arrotos, sovacos fedorentos, placas dentárias postiças, próteses ortopédicas, que provocaram inúmeras baixas dos dois lados da barricada, e deixaram sequelas visíveis, tais como iliteracia galopante, gaguez acentuada, entre os refractários, na pronúncia das palavras onde foram suprimidas as consoantes não-articuladas, a competente autoridade linguística reunida em conciliábulo, e assessorada por venerandos dicionários, gramáticas prontuários e guias, decidiu-se por um referendo para se determinar a nova grafia da língua portuguesa. Desconhece-se ainda o resultado da votação que teve lugar esta manhã em todos os territórios onde se fala o idioma. O ambiente geral é de expectativa calma, embora, reunidos na taverna dos poetas malcheirosos, uns diacríticos colocados na lista dos empecilhos a remover, reclamaram o seu direito à desobediência civil. No caso de as suas reivindicações não serem atendidas, equacionam marchar incansavelmente sobre todos os textos a produzir no futuro até que a razão lhes seja reconhecida. Mais desenvolvimentos depois dos folguedos do rei momo."


O debate continua, aqui


Imagem: foto de Baluka Brazão




O Alupec já é, pela força da Lei, o alfabeto cabo-verdiano.
E agora?


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