Um Café com José Maria

13 Comments


Devo-me ter cruzado pessoalmente com o Primeiro-Ministro umas três a quatro vezes. Sempre me reconheceu e cumprimentou com simpatia. Numa delas fui seu anfitrião, no encerramento de um festival Mindelact. Até hoje, foi o único que pôs lá os pés. Não tenho, pois, razões de queixa em relação ao seu trato comigo.

Lembro-me também de um discurso que ele proferiu em S. Vicente no encerramento de um Fórum sobre o desenvolvimento da ilha. Um longo discurso, de improviso, de cerca de uma hora, mas que me deixou espantado, não só pela qualidade da intervenção, como pela capacidade de raciocinio, assim como pelo próprio discurso, naquela que terá sido a mais bem elaborada declaração de amor que já ouvi fazer à minha ilha, campanhas eleitorais incluídas.

Não me incomoda nada, antes pelo contrário, poder dizer que tenho um Primeiro-Ministro que escreve e declama poemas, ou que tenha sido actor de teatro num dos grupos mais emblemáticos da história do nosso teatro, o OTACA, pois claro.

Isto para dizer que ao ler a longa conversa do Primeiro-Ministro com Carlos Veiga no jornal A Semana, podemos constatar que está ali um homem com uma fé imensa no seu país e no seu povo, que acredita, que se entusiasma, que quer fazer mais e melhor. Mesmo que queira fazer diferente do que nós pensamos que deveria ser feito, a verdade é que estamos perante um «acreditador militante» (isto para «roubar» o termo a um amigo meu). Mesmo que por vezes pareça estar a pintar uma realidade diferente daquela que sentimos existir no dia-a-dia. Eu acho bem. Como disse noutra ocasião, se ele não acreditar, quem acredita?

Mas nestas coisas, como parece que em quase todas as ocasiões, a cultura é mesmo parente pobre. Na longa entrevista, concluímos da vontade, da necessidade, da urgência de se investir, cada vez mais e melhor, na justiça, na educação, na saúde, na segurança, no apoio às PME, na agricultura, na energia, no ambiente, nas infraestruturas rodoviárias, nos portos e aeroportos. Quando chegamos à área da cultura...

«Vamos fazer agora um Fórum Internacional sobre a Indústria Cultural, não podemos, numa economia como a nossa, desenvolver a cultura com base em subsídios. Temos de estruturar uma autêntica indústria cultural e temos potencialidades nos domínios da música, do cinema, para chegar lá. Mas não podemos transformar o MC num ministério de transferência de subsídios para a cultura, nem devemos ter uma perspectiva de estatização da cultura.»

É, claramente, um discurso que destoa de tudo o resto. Quando vemos um PM que acredita, que sonha, que quer mais, que vê obra onde outros só vêm deserto, o que eu gostaria que ele dissesse, mais ou menos utilizando o mesmo espaço de tempo, e o mesmo entusiasmo tão característico, seria qualquer coisa como isto:

«Há muito por fazer. Temos que investir na educação artística, e estamos a fazê-lo; temos que investir na estruturação de locais para a cultura e aqui há ainda um longo caminho a percorrer, em todas as ilhas do arquipélago. Um país como Cabo Verde tem que ter um Teatro Nacional, uma Companhia Nacional de Dança, por exemplo. Temos que dar incentivos aos que queiram arriscar no negócio da exibição de filmes. Eu não posso chegar lá fora e dizer que não há um único cinema no meu país! No campo da edição, avançamos muito, mas temos que procurar entender porque se lê tão pouco e desenvolver programas efectivos de incentivo à leitura. Temos que incentivar um real desenvolvimento das artes plásticas contemporãneas. E o meu sonho maior, como PM de um país que vive e respira a música, é poder ver tocar, num grande auditório, bem gerido e equipado, uma orquestra nacional a tocar versões sinfónicas dos nossos melhores compositores. Nesse momento poderia dizer, a mim e aos outros, que parte substancial da minha missão estaria cumprida


Não teria sido uma forma fantástica de terminar uma entrevista?



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13 comentários:

Teatrakacia disse...

Sem dúvida!!!
Mas apetece dizer que a culpa foi mais dos moderadores... é que existe sempre a ideia acabada de que a cultura... é dado adquirido, acontece sózinha, há-de haver sempre músicos e artistas natos a produzir em qualquer canto das ilhas... O que interessa mesmo, é a política, a economia, a (in)segurança...
Tchá

João Branco disse...

Eles tentaram, pelo menos duas vezes, ao longo da conversa, puxar o assunto para a área cultural, mas a verdade é que não deu certo. Continua a ser um mistério para mim que os políticos, sejam de que cor forem, não queiram falar destas coisas...

Anónimo disse...

Mas ó João Grande, digo, Branco (é pa "grande" deu bronca pa caramba e o café continua como dantes)dizia, não vês que os políticos cá do bairro mencionam e não falam da cultura. Estranha-me, ver grogue, kaxupa, ruas, avião, barco, bote, ponte, praça, avenidas, politicamente baptizados para serem cultura, enquanto não há parições de espaços onde afinar e refinar a arte de criar. Há muito desenrasque. Fica ciente disto: Enquanto existirem as paródias à beira mar, erigidas em festivais de cultura musical, onde os malcriadores da cultura (nalguns casos) tem direitos a cabeça de cartaz e por baixo grandes somas em cachês, o final do teu discurso (nosso discurso) permanercerá nas nossas fantasias.
Um Grande Abraço deste Sulistenho amigo. KKBB

João Branco disse...

Hahaha O KKBB, chamas-me «Grande» e o nosso complôt fica completamente desmascarado! Mas disseste muito, faltam espaços onde «afinar e refinar a arte de criar». E como não os há, nascemos artistas por geração espontânea...

Catarina Cardoso disse...

João, este post é uma delícia!!!! Cheio de afectos e de vontades!

A parte em que sonhas então é mesmo uma delícia- oxalá o PM venha ler este post e se emocione tal como eu.

João Branco disse...

Catarina, se vires o PM por aí, dá-lhe um toque. Quanto ao resto, duvido que ele tenha tempo para ler blogues... Até que lhe podia ser util, nalguns casos! Abraço!

Herminia Ferreira disse...

Gostei dos reparos. Em Cabo-Verde, precisamos de Mulheres e Homens assim!

De facto temos que fazer mais pela nossa Cultura.

Ela não poderáser o parente pobre (embora para mim, o parente pobre é aquele a quemdou mais atenção!!!).

Espero que em Novembro, no Fórum" Economia do Desenvolvimento Cultural Sustentado", organizado pelo MC, se possa discutir livrementee sugerir aspectos a serem considerados na nossa Cultura e acções aserem desenvolvidas para que, de facto, tenhamos tudo o que almeja na msg que me enviou. Eu fui Professora durante 34 anos (até 2001, ano em que fui eleita Deputada), mas a minha vida artística e cultural não começou dp de adulta. Fiz parte de um filme (acho que o 1º em CV, nos anos 50 em SV), "Segredo de um Coração Culpado", tinha eu os meus 12 anos, com o DanteMariano, Mário Matos(pai), entre outros.

Dediquei-me à escrita infanto-juvenil, desde os anos 60, tendo publicado o 1º livro só em 2000. O meu último foi dedicado a adultos e penso ir lançá-lo em S.Vicente, pois um dos contos fala desse espaço (onde nasci).

Tudo isso, para dizer que a Cultura é-me muito cara e de facto temos que avançar nessa área. Penso que independentemente do que o Governo possa fazer, os Agentes Culturais devem organizar-se à volta de uma ideia, que é : "Vamos todos agir para que a nossa Cultura avance!" Ah! É verdade. Já me tinha esquecido que tenho na Câmara de S.V., desde 2003 um conto infanto-juvenil " A Máscara", sobre o Carnaval em SV, para publicação. (concurso organizado por esse Municipio).

Um bom inicio de semana.

Cumpts Hermínia

Alfredo Monteiro disse...

Tenho necessariamente de concordar na plenitude com o o João Branco sobretudo no tocante á cultura. A cultura é, de longe, a área em que Cabo Verde tem mais valores na cena internacional. Sobretudo se comparada com qualquer outra escala de indicadores que definem a posição hierárquica do país no mundo. Nas artes, em cada vez mais domínios, temos nomes que atingem um nível de notoriedade e protagonismo internacionais muito acima do potencial económico, político ou outro que o Estado semi periférico que somos projecta. Na literatura (Germano Almeida, Manuel Lopes), na música (Cesária Évora, Ildo Lobo), na pintura (David Lima, Kiki Lima, Manuel Figueira), no teatro e dança (João Branco, Manu Preto) e em tantos domínios da criação contemporânea, os nomes citados servem apenas para encurtar razões, Cabo Verde bate-se hoje na primeira linha do que de mais estimulante acontece no globo. A cultura deveria, pois, ser a guarda avançada da imagem do país no exterior. Estranhamente, não é. Ou seja, após um continuado esforço de quase uma década para projectar um Cabo Verde moderno e descomplexado parece que a cultura continua no pátio das traseiras das prioridades estratégicas nacionais apesar do reconhecido potencial da cultura como veículo de projecção exterior. A equação é relativamente simples: num mundo globalizado e aberto à multiculturalidade, a maior chance de um pequeno país é lançar os seus valores ao mundo de forma musculada e consequente. Quaisquer que sejam os seus pontos fortes, estabilidade, direitos humanos, democracia, no nosso caso, é a cultura o ponta-de-lança mais assiduamente distinguida. Ela poderia, mesmo no plano interno, ser aalavanca para ultrapassar muitas resistências que se verificam na sociedade caboverdiana.

Gosto e conheço o lugar de "diplomacia económica" mas, para mim a "diplomacia cultural " é um dos pilares para a afirmação de Cabo Verde neste mundo globalizado.

Culturalmente

Alfredo

João Branco disse...

Herminia e Alfredo, obrigado pela participação. Excelentes comentários! Abraço fraterno

Anónimo disse...

... a ideia da criação de "infraestruturas" (età! palavrinha complicada..espero alguma correção!) pode ser interessante, mas tb a que ciar "condições" para formação/educação (não sô artistica) mas a outros niveis , por exemplo a "comunicação" (para o exterior,por exemplo) falha muitas vezes, não por falta de "obra" mas pela falta de visibilidade...estruturas sim mas a que ter pessoas formadas ou com conhecimento na matéria senão é Agua na baloi frode...
Hiena

João Branco disse...

A questão da formação / educação artística esta´a ter avanços importantes, Hiena. Estão a introduzir-se matérias de Educação Artistica, assim mesmo, com esta designação, nos novos curriculos escolares. Existe uma universidade de educação artistica a funcionar, a Universidade de Cabo Verde está a iniciar todo o processo necessário para a institucionalização (eta palavra complicada!) de um Curso Superior de Música em Cabo Verde; há cada vez mais jovens a escolher cursos nestas áreas, quando vão lá para fora (coisa rara no passado). Então, estamos a fazer um caminho. Na área das infraestruturas, nem tanto, estamos mais a andar para trás do que para a frente.

Abraço

Anónimo disse...

concordo,com o que disseste, com tudo o està a ser feito e projectado, mas sublinho que existirão algumas lacunas a serem corrigidas , por exemplo, o que que vamos fazer com todas as pessoas formadas, artistas, musicos,bailarinos,etc? A via cultural,uma economia cultural,sim, mas hà que criar estruturas, não sô materiais,mas tb orgasnismos dependentes do estado ou não ,para a promoção, divulgação,comercialização, criação e gerência de fundos(capital, bufunfa, tchotchoca) ,etc. A criação de uma economia cultural pode parecer evidente (e nô têm materia),mas ao mesmo tempo el podé ser efemero,se ca for criode um base fôrte.
Hiena da Silva

João Branco disse...

Sem dúvida. Tudo isso é muito importante.