Tertúlia dos Mentirosos 35

14 Comments


Poesia não vende

No outro dia, fui à livraria do Centro Cultural do Mindelo à procura do último livro daquele que para mim é o maior poeta vivo cabo-verdiano, Arménio Vieira. O livro, editado pela Ilhéu Editora, em 2006, quebra um longo período sem qualquer publicação do autor em causa. Um acontecimento, portanto.

- Tem o último livro de Arménio Vieira, o «Mitografias»?
- Temos, sim.
- Queria um exemplar, por favor.

E como tinha uma nota de 200 escudos e outra de 1000, peguei na nota de mil, mas sem saber se seria suficiente para pagar a obra.

- Quanto é?
- 200 escudos.
- 200 escudos? Tem a certeza? Tão barato?
- Tem que ser. Poesia não vende...

Tenho pensado muito nisso. É bom ou mau sinal ter a preço de saldo um livro que representa um dos maiores acontecimentos editoriais dos últimos tempos em Cabo Verde? E saber que isso acontece, não porque é uma forma generosa de toda a gente ter acesso a livros de poesia, mas porque é um produto que «nem assim, vende»?

Poesia não vende? Eu diria, poesia não se vende. Mas isso já é outra história...




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14 comentários:

Anónimo disse...

"O maior poeta vivo cabo-verdiano"!! Ahn, esses superlativos que matam a poesia e os poetas... Sera que morreu o Vadinho ou sera que é grande demais?!!

Lilian disse...

Dica de leitura...Textos ácidos e sarcásticos, pra quem quer ficar por dentro dos assuntos políticos de forma leve.


www.mosaicodelama.blogspot.com

Boa leitura!

jlt disse...

Joâo, vou mandar reservar todos os exemplares do magnífico «mitografias» que o arménio teve a amabilidade de me dar a ler ainda inédito, para oferecer aos amigos.
Parece que o monumental «Exemplos» de João Vário vai ser publicado pela mais conceituada editora portuguesa de poesia. Mais vale tarde...
Quanto às poesia não vender, nem se vender, parece que o último livro de herberto helder «a faca não corta o fogo» (tiragem 3000 exemplares) se esgotou em apenas uma semana.
No próximo ano teremos uma nova edição, a terceira, de «paraíso apagado por um trovão», dessa vez bilingue.
Realmente, parece que a coisa não vende; nem se vende

João Branco disse...

Anónimo, escrevi «para mim». Felizmente, nesta como em todas as outras coisas, não há unanimismos, que é o pior que pode existir no conhecimento humano. Vamos ser mais tolerantes, sim?

É o meu poeta preferido, não posso? O Vadinho? Gosto muito, sim senhor. Como aprecio o José Luis Tavares e o Corsino Fortes (para falar dos vivos).

Ah e do Filinto Elisio, cujo primeiro livro de poesia (penso que era o primeiro) que editou em Cabo Verde, tive a honra de ajudar apresentar no Mindelo há quase 15 anos atrás (foi assim há tanto tempo, Filinto?)

Felizmente, Cabo Verde tem um conjunto de poetas que nos permite fazer escolhas como esta.

E finalmente, digo que adjectivar é uma forma de assumir opções, de forma descomplexada. Eu, por vezes, abuso. Está certo. Mas nunca com o Arménio!

Lilian, obrigado pela dica. Vou espreitar!

JLT, então o mal é nosso mesmo, não é? Em Cabo Verde é esta a realidade. O que fazer para a transformar, oh poetas do arquipélago?

Sisi disse...

Acho isso um absurdo, pois para mim a poesia é das formas mais explêndidas da escrita e desta forma, penso que ñ há dinheiro que o compre. No entanto,há que valorizar o trabalho dos poetas. 200 escudos??? pelo amor de Deus.

João Branco disse...

Foi isso mesmo que pensei, Sisi! «200 escudos, pelo amor de Deus» A sério, fiquei chocado!

pedromadeirapinto disse...

será que alguma alma caridosa me pode comprar um exemplar e enviar para portugal? posso pagar por transferência bancária ou quando for a s.vicente, que espero que seja em janeiro próximo.
obrigado.
abraço

Anónimo disse...

O problema nao é o gosto de cada um que nao se discute mas a propensao (nao sei se a palavra existe?)em deslizar na absoluta subjectividade quando nao temos um panorama abrangido da poesia cabo-verdiana ou pior quando ignoramos os, muito discretos e afastados, que dao realmente essência a palavra Poesia/Poetry/Poésie. Toda gente cita por mimetismo o Joao Vario mas quem leu e entendeu a obra?! Igual questao em relaçao ao Vadinho! Leituras talvez inaccessiveis para muitos mas pouco importa, eles existêm e a poesia mesmo se nao vende continua a viver juntinha ao ser humano, "lapida" nele. Por isso, espuma cada dia o apetito de poesia, de textos, de expressoes eruditas ou espontaneas como o Slam dos "Last Poets" que entram na esflurida tabanka cabo-verdiana e universal... Mas nao esquecemos do essencial, ser poeta nao é somente um epiteto.

João Branco disse...

Anónimo, eu concordo com o seu comentário! E se não dá para ver que concordo neste post é porque, sinceramente, não o entendeu...

tameo disse...

Sinceramente, não percebo o alarido que suscitam alguns post da blogosfera da nossa terra. Será que já não se pode ter referências? Ou será que o objectivo de alguns comentários é mostrar o que se sabe?
Da mesma maneira que alguns comentários mostram preferência, deveriam permiti-lo ao autor do blog.
Não exageremos pessoal. Os comentários deveriam ter sempre em conta uma perspectiva de partilha de conhecimento,e, sempre tendo como fim último contribuir em vez de uma espécie de esgrima de umbigos.

Anónimo disse...

Umbigo nao esta em causa, rapaz!! Um blog mesmo pessoal nao é individual, pois tem a responsabilidade da publicidade que faz, boa ou ma, quero dizer a responsabilidade da tomada de palavra em publico e do uso do espaço e bens publicos, como da objectividade que exige quando se trata de assuntos culturais e de materiais artisticas, quanto mais nas terras caboverdianas!! Enfim ser sempre o melhor equilibrista possivel! Nada mais porque o moderador sabe bem disso, ele que esta "sous les feux de la rampe".

João Branco disse...

Anónimo, eu vou a um café porque gosto do gerente, do ambiente, da comida servida, do café expresso, da paisagem, da empregada do balcão, enfim, por alguma razão. Se deixa-me de agradar, deixo de lá ir. O gerente tem que ter a sabedoria de, primeiro, perceber que perdeu um cliente e, segundo, tentar entender porquê.

Com os blogues é a mesma coisa. Eu tenho um poeta que gosto mais do que os outros, alguns músicos de eleição, um artista plástico que adoro mais do que qualquer um (por acaso, até é uma mulher), um escritor que leio mais, etc. Estou no meu direito. Assumindo essas escolhas estou, de alguma forma, a sujeitar-me a comentários como o seu, mas não estou a fazer juizos de valor ou profundas análises de qualidade, de matéria de facto, sobre os produtos ou produtores culturais em causa.

Se houver alguém que pensa, «este gajo é um parvalhão, só diz coisas sem sentido, e tem a mania que é espero», e mesmo assim continuar a vir aqui todos os dias, então, ou não pensa no que pensa, ou se pensa, é mais parvalhão do que eu!

(Isto não é uma referência directa a ninguém!!!!)

Também para isso há a possibilidade de se comentar, não é? «Ah gostas mais desse músico, mas olha que eu prefiro este, porque isto e aquilo», e o debate segue, tranquilamente, sem complexos de qualquer espécie, nem «umbiguismos» de parte a parte!

Abraço Fraterno

Anónimo disse...

Pela ultima resposta, vejo mesmo que é somente questao de afecto, de gostar, de amiguismo, complacência, agradar... nao vamos a lado nenhum com sentimentos a venda!! Visitar os blogs nao significa gostar ou nao... Mime i moleza ka ta frutifica konbersa!!

João Branco disse...

Anónimo, o meu ultimo comentário foi claro. E pelos vistos não você nao entendeu nada de nada. Mas paciência!

Já estou habituado a este tipo de mentalidade: se gostamos é porque somos amigos, complacentes e queremos agradar. Se não gostamos, é porque temos inveja, ciumes e somos uns frustrados.

Está bem, então!