Café Visual





Desfocada, mas presente...



Romance Fragmentado 11





Febre de Sábado à noite. Todo o cerimonial tem que ser bem preparado, não é algo que se possa desprezar ou minimizar, é como ir à missa aos Domingos. Sim, no fundo, isto é uma espécie de missa, tem os preliminares encontros à porta da igreja, o reconhecimento do terreno, as piscadelas inocentes e as trocas de olhares aparentemente ocasionais, vidas futuras que se desenham por entre sombras e arrepios, a eucaristia propriamente dita, música, bolachas de água e sal com vinho acompanhar, todo um colectivo celebrando o sofrimento de um terceiro que deu a vida pelos pecadores do universo. Febre de Sábado à noite. Escolher bem a roupa, a primeira fase é fundamental para o sucesso do resto da noite. A noite dos vampiros, dos chupadores de sangue, dinheiro e esperma. A noite dos fluídos. Dos cheiros. Sim, não abuses do perfume, na medida certa, as mulheres hoje não apreciam homens a cheirar a cavalo, mas também não é preciso tomar banho em colónias baratas, o mais certo é ficarmos tipo loja de chinês ambulante, fazendo grogue na Praça Nova. Febre de Sábado à noite. Sim, tudo na medida certa. Tecidos, líquidos, percings e tatuagens. Finalmente, colocar a render as horas de sofrimento passadas nos salões de beleza, autênticas câmaras de tortura da modernidade. Preliminares encontros, reconhecimento de terreno, troca de olhares mais ou menos inocentes, vidas futuras que se adivinham por entre cheiro de marijuana e passos perdidos no cimento, seduções, repelentes vários, a dança propriamente dita, todo um colectivo celebrando a arte do esfreganço ou da passada conforme a ocasião e a oportunidade, todo um colectivo celebrando o sofrimento daqueles que não podem querer. No Sábado à noite na cidade do Mindelo celebra-se, sim, é isso mesmo, a eucaristia dos vampiros. O sangue, também aqui, presente no momento mais alto da cerimónia.

Perguntas Cafeanas




Porque é que as mulheres que casam por estarem convencidas que encontraram o homem ideal mesmo assim não param de tentar mudá-lo, sabendo-se que acaba sempre por ser pior a emenda que o soneto?



À melhor resposta, ofereço um café






SMS Cafeano




"Vivemos a mais despida das épocas. A nudez feminina perdeu todo o suspense e todo o mistério."

Nelson Rodrigues - escritor e dramaturgo brasileiro


[Na imagem, a actriz Darren Keith]


Sonata de Outono








Melody Gardot, cantando Worrisome Heart. Aqui fica uma das belas vozes femininas do jazz que se vem fazendo hoje por esse mundo fora. Um nome para fixar, porque o talento é muito. Estilo e swing é o que não falta nesta jovem senhora.


Tertúlia dos Mentirosos 84





"Vieram buscá-lo ao amanhecer. A luz clara e dura bateu contra seu rosto enquanto a mulher se debruçava na janela para vê-lo ir embora. Olhou quase com ódio para a mulher saciada depois daquela noite que suspeitavam a última. Mas ao ódio sucedeu a compreensão: ela não podia fazer nada. Entendendo que ela nada pudesse fazer além de olhá-lo desaparecer no fim da rua, sorriu e disse:

— Eu não vou voltar.
— Nunca mais? — perguntou a mulher.
— Nunca mais.

Ele sacudiu a cabeça repetidas vezes, irremediável. Não, nunca mais. Julgou ver um movimento qualquer de desamparo no canto da boca da mulher e novamente sorriu. Mas ela se manteve imóvel até que os guardas irritados o empurrassem com a ponta das espingardas. Ele sacudiu os ombros e saiu andando. A mulher ficou na janela observando as silhuetas que um sol recém- nascido espichava no calçamento de pedras irregulares. Depois fechou devagar os postigos, sentou-se na sala escurecida e sem compreender começou a chorar.

Mas ele voltou, um mês depois. Magro, cansado, faminto. Veio devagar pela mesma rua em que se fora, na mesma hora — e desta vez pisava a própria sombra, sem raiva, apenas voltando."


Caio Fernando Abreu in A Modificação

Crónica Desaforada





Os méritos e deméritos do Ensino Superior

1. A entrevista que Corsino Tolentino deu na última edição do jornal A Nação é arrasadora. A todos os níveis. A visão crítica do professor e investigador cabo-verdiano é transversal a praticamente todos os sectores relacionados com o ensino superior do país, desde a actuação do Governo no sector, passando pela referência à "falta de autonomia intelectual" (utilizou este termo por várias vezes) dos actuais responsáveis públicos pela área, arrasando a qualidade do ensino público e privado, e lamentando a falta de apoio e da aposta na investigação.

2. Numa das frases mais marcantes da entrevista, afirma Tolentino que hoje "não existe uma política de Investigação em Cabo Verde” afirmando ainda que “a principal missão das instituições de Ensino Superior tem sido a ocupação temporária de uma fracção cada ano mais importante da juventude cabo-verdiana”, para rematar que faltam critérios de rigor no sector. Ou seja, as universidades tem servido mais para "ocupar o tempo dos jovens" e dessa forma disfarçar indices de desemprego e desocupação que, de outra forma, seriam ainda maiores do que são hoje.

3. Devo dizer que concordo com muito do que ele diz nessa entrevista e algumas dessas questões já foram levantadas neste blogue. E concordo também quando ele refere que a sua visão crítica não deve ser entendida como um ataque pessoal a ninguém (embora por vezes pareça), mas antes um contributo para um debate sério e descomplexado sobre uma temática que é, todos o sabemos, absolutamente decisiva para o futuro desenvolvimento deste país.

4. Não tenho qualquer problema em admitir, dentro da realidade que conheço pessoalmente, que a qualidade do ensino que se pratica nas nossas universidades é (ainda) muito precária; que há muitos alunos que estão numa instituição do ensino superior com a mesma postura preguiçosa e facilitista que provavelmente tiveram nos liceus por onde passaram; que há falta de rigor, método, condições de trabalho e uma tendência evidente para fazer deste ramo uma espécie de galinha dos ovos de ouro a explorar até ao tutano, independente dos critérios de validação dos cursos e das escolas, entre muitas outras questões que se podem apontar.

5. Bem podem as entidades estatais afirmar que a lei tem sido cumprida e que esta é rigorosa, que continuo conhecendo ditas universidades que tem professores pouquissimo qualificados para dar aulas a este nível; que continuo a ter conhecimento de instalações precárias e inadequadas; que continuam a contar-me da dificuldade que representa estudar-se numa universidade que não tem, sequer, uma biblioteca própria, que fará agora laboratórios ou salas de informática.

6. Mesmo assim há que pensar onde estamos hoje e onde estávamos há algum tempo atrás. As coisas levam o seu tempo, não se monta uma universidade pública de um dia para o outro. Erros foram e serão cometidos, certamente, mas há que dar o crédito a quem tem dado o seu melhor para a edificação de um ensino público de qualidade. Há que admitir que nem tudo é mau, que há muito boa gente, preparada, bem intencionada, com espírito de missão, a contribuir para a construção deste edifício civilizacional.

7. Há pouco mais de cinco anos atrás a grande maioria dos jovens cabo-verdianos chegavam ao final do liceu e tinham apenas duas hipóteses: parar de estudar ou ir para o estrangeiro. Hoje, o panorama é completamente diferente e um autêntico vendaval universitário tomou conta do país. Para se ter uma ideia, a ilha de S. Vicente, com os seus parcos 75 mil habitantes, tem nada mais nada menos do que 7 universidades distintas, entre públicas e privadas (contas feitas por defeito). É obra!

8. O próprio Corsino Tolentino referia, numa entrevista que deu em Agosto deste ano ao blogue Palavras Criativas que "a Universidade Pública de Cabo Verde já é uma realidade jurídica mas ainda é apenas um projecto pedagógico, científico e cultural. Necessita de visão, tempo e recursos, sobretudo humanos. Afirmo-o sabendo que posso desagradar: Cabo Verde ainda não tem uma universidade a sério, mas está reunindo condições para a ter, talvez daqui a uma década." (fonte: aqui).

9. Sendo a Universidade Pública de Cabo Verde (ainda) um projecto pedagógico, científico e cultural ainda em construção, como afirma o professor, há que admitir que está no terreno e hoje é uma realidade. Não o era há três anos atrás. Que esta Universidade Pública necessita de "visão, tempo e recursos", será questionável apenas a componente da "visão" (não é obrigatório que todos tenham uma visão semelhante), mas de tempo e recursos, certamente precisa, porque a excelência custa dinheiro. O prazo de 10 anos para se montar uma universidade pública de qualidade parece-me, pois, perfeitamente aceitável e deve lisongear quem está hoje à frente do processo.

10. Há trabalho feito. Há caminho percorrido. Há vontades mobilizadoras conquistadas. Há também muito por fazer e melhorar. Pricipalmente na vertente da regulação e inspecção dos institutos e pólos universitários que nascem como cogumelos. Por isso mesmo, todos somos poucos para dar a nossa contribuição, incluindo aqui, como é lógico, a visão crítica e a caracterização negra que sobressai do discurso de Corsino Tolentino que, com a sua experiência e conhecimento, certamente não deixará de dar o seu contributo para colmatar muitos dos aspectos que tão veementemente criticou.

11. Fundamental é remarmos para o mesmo lado e não deixar que a edificação do ensino público cabo-verdiano se transforme numa espécie de feira das vaidades onde todos saem chamuscados, poucos se salvam e o principal derrotado seria, em suma, o próprio projecto que se pretende com raizes fortes e com qualidade tal que transforme a universidade cabo-verdiana num espaço imune a quem coloque as ambições pessoais acima do interesse colectivo.


Mindelo, 27 de Novembro de 2009




Café Concerto





Concerto com Hernany Almeida.

Quando: dia 28 de Novembro / 21:30 horas
Onde: Marina do Mindelo (entrada livre)


Cafeína





"Precisamos estar dispostos a nos livrar da vida que planejamos, para podermos viver a vida que nos espera. A pele velha tem que cair para que uma nova possa nascer."

Joseph Campbell - Mitólogo norte-americano


Um Café com uma Cadeira(da)




Andou por aqui um cibernauta a escrever em praticamente todos os blogues, acusando o pessoal de querer passar um pano sobre um acontecimento aparentemente extraordinário de um deputado ter ameaçado um outro de uma cadeirada, em plena Assembleia Nacional.

Devo dizer que o episódio não só não me espantou como não me pareceu digno de merecer um post próprio, porque este caso foi apenas mais uma demonstração do nível de debate médio que os sujeitos parlamentares nos vem habituando desde há algum tempo.

Em relação a isso já estou como um cibernauta que comentou este caso num outro blogue: ao menos que se fizesse a cadeira vooar e se assumisse a batatada a sério, como gente grande, seguindo o exemplo daqueles parlamentos asiáticos que de vez em quando nos aparecem nas televisões. Ali, pelo menos, chega-se a vias de facto e depois, trabalha-se a sério. Quem sabe, com o desenvolvimento da modalidade, a pancadaria parlamentar não se tornaria modalidade olímpica e assim sempre teríamos algumas possibilidade de ganhar alguma medalha na maior competição desportiva do mundo.

Mas não. Como habitualmente, depois do caso, terá terminado tudo em palmadinhas nas costas e copos de uisqui nos bares intra e extra parlamento, até porque como qualquer guerreiro, também os nossos deputados têm direito aos seus momentos de trégua e confraternização, depois de mais uma árdua batalha. Mesmo que esta seja menos batalha do que parece querer à primeira vista. Entenderam? Eu também não, mas o caso nem merece o esforço.


Café Visual & um Aviso





Há imagens fantásticas e esta é uma delas, com Paulino Vieira a cumprimentar o menino Noah Andrade que tem feito furor no meio musical crioulo. O maior génio da música de Cabo Verde vai dar um concerto único na capital, no próximo Sábado, no Auditório (dito) Nacional. Ficam já avisados.

Fotografia de Jo Andrade, sacada daqui. Ao respectivo, os meus agradecimentos.


Declaração Cafeana





Hoje, 25 de Novembro, comemora-se o Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher. Hoje é, pois, o dia ideal para lembrar que em Cabo Verde mulheres continuam a ser espancadas, violentadas, física e psicologicamente torturadas e mesmo assassinadas, com a complacência de muitos que lhes são mais ou menos próximos, sejam eles familiares, vizinhos, amigos, conhecidos, forças de segurança ou entidades públicas e privadas. Hoje é, pois, o dia ideal para lembrar que, ao contrário do que diz o ditado popular, entre marido e mulher, se deve meter a colher sim. Denunciando situações domésticas que indiciem qualquer tipo de violência; chamando a polícia quando se presencia na rua a algum homem ou jovem rapaz a bater na mulher ou na namorada; intervindo directamente se dessa atitude depender a salvação da mulher de um espancamento sumário.

Não sejamos ingénuos: a maior parte dos crimes ocorridos neste país em que violência é usada por seres humanos contra outros seres humanos, ocorre dentro das casas, dos lares que de doce tem muito pouco e entre pessoas que se conhecem muito bem. Quando não é com mulheres, é com crianças. E quando essas crianças são do sexo feminino, a tendência é para ser ainda pior, porque não há semana que passe em que não se ouça ou leia na comunicação social de algum caso de violação, em forma tentada ou consumada, de uma menor por um familiar seu, muitas vezes o próprio pai.

Tolerância zero para com este tipo de crimes, meus caros. Não há outro caminho. Não há outra forma de luta. E essa tolerância zero passa muito por nós, homens, mas também pela educação dos nossos filhos, que devem aprender, por exemplo, que não é motivo de orgulho o menino vir para casa dizer que tem "várias namoradas", para regozijo dos pais que acham que isso é "muito macho". São mensagens como estas que geram, posteriormente, comportamentos sociais que conferem ao homem justificações de índole social, cultural e até antropológicas para sustentar atitudes de violência contra as mulheres.

Nunca é demais dizê-lo: pela parte que me toca, não violentarei, não usarei de nenhum tipo de violência contra mulheres e crianças e, fundamentalmente, não calarei e não deixarei de lutar contra o que considero ser uma das mais hediondas formas de violência humana. Um filme dizia "este país não é para velhos". A mim apetece-me dizer "este país não é [não devia ser!] para cobardes mentecaptos que batem nas mulheres."




Café da Semana




Volta esta rúbrica das 4ªs feiras do Café Margoso, partilhando descobertas que vamos fazendo por este mundo fascinante dos blogues. No meio de muita estrada que passamos sem parar, de quando em quando nos deparamos com algo que nos faz querer parar e ficar, até estarmos certos que o guardamos na memória, para que seja possível voltar. Seja um jardim, uma paisagem, uma montanha ou um rio que passa. É o caso deste blogue que, sem aviso, fez passar por mim uma leve brisa, como quem não quer a coisa, de tão bem feito que é. A visitar, sem hesitação. Aqui.


Um Café com Estilo



A editora da Vogue Russa, Aliona Doletskaya, ao celebrar o 10º aniversário da revista, desafiou artistas russos para criarem 31 Matryoshkas, essas simpáticas bonecas tradicionais russas, estilizadas e exclusivas, representando os mais famosos estilistas da história da moda, pintadas à mão. Ah, cada uma destas bonecas exclusivas custa a módica quantia de 5.000 euros. Aqui se mostram alguns exemplos. Quem dá mais?


Georgio Armani



Ralph Lauren



Versace



Yves Saint Laurent



Nina Doris



Via: aqui


Perguntas Cafeanas




As chamadas que fazemos para um telemóvel de mulher, que por azar está dentro da sua bolsa, acabam invariavelmente por ir parar à caixa do correio ou eu é que sou um tipo muito azarado?



À melhor resposta, ofereço um café






SMS Cafeano






"A selecção não precisa do Scolari para nada, mas precisa dos jogadores do FCP como de pão para a boca."

Badgirl, a propósito da dupla vitória de Portugal sobre a Bósnia (fonte: aqui)



Sonata de Outono






Hoje acordei assim...




[música de... vejam lá se gostam]


Declaração Cafeana




O meu país está invadido por um estranho fenómeno metereológico mas que, ao que parece, está a ter repercussão em muitos outros sectores da actividade do arquipélago. "Cabo Verde está sob influência de um fluxo anticiclónico zonal que favorece o transporte de poeira espessa, proveniente da costa da Mauritânia. É a chamada bruma seca.", pode-se ler num jornal online. Mas logo de seguida fazemos a nossa volta diária pela imprensa e blogues nacionais e ficamos com aquela sensação de que a bruma seca invadiu tudo e todos porque o que se deveria ver não se vê e muito do que parece não é. Um caleidoscópio de miragens. Uma imagem que, em termos poéticos, até pode ser interessante, mas que na realidade real confunde quem anda por aqui.

O aeroporto internacional de S. Pedro já é internacional, mas ainda não é. Faltam não sei quantos testes, parece que vai haver um "último e decisivo" por estes dias e ai sim, poderemos fazer a festa, lançar os foguetes, apanhar as canas e dizer alto e bom som "Aleluia!"... Embora já se garanta que antes de 2010, voos directos entre S. Vicente e Lisboa nem pensar. Por causa... da bruma seca, certamente. O parlamento continua a fazer claras demonstrações do seu nível geral na discussão do orçamento para o próximo ano e para além de algumas das intervenções em particular, a roçar o indigno de uma casa parlamentar, voltamos a acordar para a nossa triste realidade: para os da oposição, tudo mal; para os da situação, tudo bem; a UCID, como sempre, na expectativa. Por causa... da bruma seca, certamente. A epidemia do dengue está dominada, hip hip hurra, mas ao que parece o pessoal de saúde de S. Vicente está aflito porque não tem sequer meios de diagnóstico para entender o que se passa, meios esses que ainda não chegaram certamente por causa da... bruma seca.

Depois, a um nível mais micro, este fenómeno, que provoca em simultâneo cegueira e turbulência, nos dá um nó no coração, fica mais penoso respirar, a paisagem fica agreste, o monte cara mais tímido, os escapes dos automóveis mais barulhentos, a nossa paciência mais curta. Maldita poeira da Mauritânia! Voos são cancelados, medidas importantes são adiadas, discursos que marquem pela diferença não se materializam e nós, aqui, que temos que escrever algo sobre o que se passa à nossa volta (e não se passando nada), ficamos com uma névoa a invadir o cérebro, desejosos que venha um vento forte que leve esta poeira para outras margens e nos faça ver o mar e as montanhas de Santo Antão, ali, do outro lado.

Legenda Cafeana




Que legenda para esta imagem?

À melhor legenda ofereço um café

[Fonte: Jumento]


Tertúlia dos Mentirosos 83




Paixão Cega

Certa vez, nessa alucinada realidade, ele encontrou uma mulher de mil belezas.

Quando a aparecida lhe tocou no braço e ele a fitou, um frio o golpeou: a moça não tinha olhos. No lugar das órbitras, o que se vislumbrava eram dois vazios, dois poços sem paredes nem fundo.

- O que aconteceu com seus olhos? - tremeluziram-lhe as palavras.
- O que têm os meus olhos?
- Bom, não os vejo.

Ela sorriu, espantada com o embaraço dele. Que ele devia estar nervoso, incapaz de acertar as visões.

- Os olhos de quem se ama nunca se vêem.
- Entendo - afirmou Ntunzi, recuando às mil cautelas.
- Tens medo de mim, Ntunzito?

Mais um passo atrás e Ntunzi se desamparou num abismo e ainda hoje ele está tombando, tombando, tombando. Para o meu irmão o ensinamento era claro. A cegueira é o destino de quem se deixa tomar de assalto pela paixão: deixamos de ver quem amamos. Em vez disso, o apaixonado fita o abismo de si mesmo.

- Mulheres são como as ilhas: sempre longe, mas ofuscando todo o mar em redor.


Mia Couto in "Antes de nascer o mundo"


Um Café Curto (sem) Dengue?





Acabei de ler na A Semana online:

"No âmbito das suas competências, aquela comissão realizou com a ajuda das Forças Armadas a desinfestação em quase todas as ilhas de Cabo Verde, sobretudo naquelas onde o número de casos de dengue se mostraram mais fortes. Hoje, na ilha da Boa Vista, está prevista uma acção de terreno nos focos já localizados. Artur Correia acredita, inclusive, que foi graças a esse tipo de acção de terreno, reforçado com campanhas de limpeza, que a dengue foi praticamente dominada."

Não é um bocadinho cedo para se fazer uma afirmação como esta? Isto não poderá fazer, ainda, com que se "baixe a guarda" e se volte a cometer os mesmos erros de sempre? Em que consiste, em termos concretos, "dominar" um surto epidérmico? Se, de facto, Cabo Verde conseguiu essa proeza fantástica de erradicar uma epidemia com esta rapidez e competência, que se importe, de imediato, toda o nosso pioneirismo crioulo nesta matéria para outros locais do planeta, onde uma situação como esta demora anos - gerações - a resolver. A humanidade agradece.

Notícia completa: aqui


Chegando...






Está quase...

Chegar é muito bom, mas será que é mesmo o melhor de cada viagem? E quem tem o Mundo como sua casa?


Café Literário





Primeiras frases:

"A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi subitamente tão desarmado que desabei em lágrimas."

Mia Couto em Antes de Nascer o Mundo (versão brasileira de Jesusalém)


Nota Cafeana: as primeiras frases de um romance são como a primeira vez em que se faz amor: marcantes e decisivas. Desde "Amor em Tempos de Cólera" que isso é muito claro para mim. Aqui, com o pretexto de falar e escrever sobre livros, inaugura-se uma nova rubrica do Café Margoso, com primeiras frases dos romances que vou lendo na estrada da vida. Boa viagem.