
Os méritos e deméritos do Ensino Superior
1. A entrevista que Corsino Tolentino deu na última edição do jornal A Nação é arrasadora. A todos os níveis. A visão crítica do professor e investigador cabo-verdiano é transversal a praticamente todos os sectores relacionados com o ensino superior do país, desde a actuação do Governo no sector, passando pela referência à "falta de autonomia intelectual" (utilizou este termo por várias vezes) dos actuais responsáveis públicos pela área, arrasando a qualidade do ensino público e privado, e lamentando a falta de apoio e da aposta na investigação.
2. Numa das frases mais marcantes da entrevista, afirma Tolentino que hoje "não existe uma política de Investigação em Cabo Verde” afirmando ainda que “a principal missão das instituições de Ensino Superior tem sido a ocupação temporária de uma fracção cada ano mais importante da juventude cabo-verdiana”, para rematar que faltam critérios de rigor no sector. Ou seja, as universidades tem servido mais para "ocupar o tempo dos jovens" e dessa forma disfarçar indices de desemprego e desocupação que, de outra forma, seriam ainda maiores do que são hoje.
3. Devo dizer que concordo com muito do que ele diz nessa entrevista e algumas dessas questões já foram levantadas neste blogue. E concordo também quando ele refere que a sua visão crítica não deve ser entendida como um ataque pessoal a ninguém (embora por vezes pareça), mas antes um contributo para um debate sério e descomplexado sobre uma temática que é, todos o sabemos, absolutamente decisiva para o futuro desenvolvimento deste país.
4. Não tenho qualquer problema em admitir, dentro da realidade que conheço pessoalmente, que a qualidade do ensino que se pratica nas nossas universidades é (ainda) muito precária; que há muitos alunos que estão numa instituição do ensino superior com a mesma postura preguiçosa e facilitista que provavelmente tiveram nos liceus por onde passaram; que há falta de rigor, método, condições de trabalho e uma tendência evidente para fazer deste ramo uma espécie de galinha dos ovos de ouro a explorar até ao tutano, independente dos critérios de validação dos cursos e das escolas, entre muitas outras questões que se podem apontar.
5. Bem podem as entidades estatais afirmar que a lei tem sido cumprida e que esta é rigorosa, que continuo conhecendo ditas universidades que tem professores pouquissimo qualificados para dar aulas a este nível; que continuo a ter conhecimento de instalações precárias e inadequadas; que continuam a contar-me da dificuldade que representa estudar-se numa universidade que não tem, sequer, uma biblioteca própria, que fará agora laboratórios ou salas de informática.
6. Mesmo assim há que pensar onde estamos hoje e onde estávamos há algum tempo atrás. As coisas levam o seu tempo, não se monta uma universidade pública de um dia para o outro. Erros foram e serão cometidos, certamente, mas há que dar o crédito a quem tem dado o seu melhor para a edificação de um ensino público de qualidade. Há que admitir que nem tudo é mau, que há muito boa gente, preparada, bem intencionada, com espírito de missão, a contribuir para a construção deste edifício civilizacional.
7. Há pouco mais de cinco anos atrás a grande maioria dos jovens cabo-verdianos chegavam ao final do liceu e tinham apenas duas hipóteses: parar de estudar ou ir para o estrangeiro. Hoje, o panorama é completamente diferente e um autêntico vendaval universitário tomou conta do país. Para se ter uma ideia, a ilha de S. Vicente, com os seus parcos 75 mil habitantes, tem nada mais nada menos do que 7 universidades distintas, entre públicas e privadas (contas feitas por defeito). É obra!
8. O próprio Corsino Tolentino referia, numa entrevista que deu em Agosto deste ano ao blogue Palavras Criativas que "a Universidade Pública de Cabo Verde já é uma realidade jurídica mas ainda é apenas um projecto pedagógico, científico e cultural. Necessita de visão, tempo e recursos, sobretudo humanos. Afirmo-o sabendo que posso desagradar: Cabo Verde ainda não tem uma universidade a sério, mas está reunindo condições para a ter, talvez daqui a uma década." (fonte:
aqui).
9. Sendo a Universidade Pública de Cabo Verde (ainda) um projecto pedagógico, científico e cultural ainda em construção, como afirma o professor, há que admitir que está no terreno e hoje é uma realidade. Não o era há três anos atrás. Que esta Universidade Pública necessita de "visão, tempo e recursos", será questionável apenas a componente da "visão" (não é obrigatório que todos tenham uma visão semelhante), mas de tempo e recursos, certamente precisa, porque a excelência custa dinheiro. O prazo de 10 anos para se montar uma universidade pública de qualidade parece-me, pois, perfeitamente aceitável e deve lisongear quem está hoje à frente do processo.
10. Há trabalho feito. Há caminho percorrido. Há vontades mobilizadoras conquistadas. Há também muito por fazer e melhorar. Pricipalmente na vertente da regulação e inspecção dos institutos e pólos universitários que nascem como cogumelos. Por isso mesmo, todos somos poucos para dar a nossa contribuição, incluindo aqui, como é lógico, a visão crítica e a caracterização negra que sobressai do discurso de Corsino Tolentino que, com a sua experiência e conhecimento, certamente não deixará de dar o seu contributo para colmatar muitos dos aspectos que tão veementemente criticou.
11. Fundamental é remarmos para o mesmo lado e não deixar que a edificação do ensino público cabo-verdiano se transforme numa espécie de feira das vaidades onde todos saem chamuscados, poucos se salvam e o principal derrotado seria, em suma, o próprio projecto que se pretende com raizes fortes e com qualidade tal que transforme a universidade cabo-verdiana num espaço imune a quem coloque as ambições pessoais acima do interesse colectivo.
Mindelo, 27 de Novembro de 2009