Café Final

7.22.2012



Meus amigos, até breve. Foi bom enquanto durou. Sigo para outros projectos. O Café Margoso começou como blogue e transformou-se numa imagem de marca. Graças a vocês todos. Um dia há-de haver um café de verdade com este nome (não é, Paulino?). 

Aquele abraço de sempre e um bem-hajam!

João Branco

Dia do B

7.01.2012





















Peço licença aos frequentadores desse espaço maravilhoso, pois é dia do gerente.
João Branco a pessoa mais simples, trabalhadora, honesta, família, amiga que conheço ( e acho que partilhamos todos da mesma opinião). Em sua homenagem vamos todos tomar um café.

Parabéns João da sua também agora J.B

Grande abraço a todos por me deixar invadir esse espaço!

Legenda Cafeana

6.25.2012





Que legenda para esta imagem?

À melhor legenda, ofereço um café 





Café Nação Teatro

6.24.2012




Para um artigo do jornal A Nação fui entrevistado pela jornalista Maguy Gonçalves a propósito do livro "Nação Teatro - História do Teatro em Cabo Verde". Aqui ficam, de forma integral, as perguntas e respostas que serviram de base ao referido artigo.


- Quanto é que resolveste escrever um livro sobre a história do teatro? O que o motivou a isso?

O teatro é uma arte que vive do momento vivido, ou seja, só existe, enquanto forma de expressão artística, nos instantes em que é colocada frente a frente com um público. Depois o que fica são os registos e as memórias. Se não cuidarmos de fixar essas provas testemunhais, o acontecimento cénico apaga-se com o passar do tempo. Daí a importância de arquivar e registar tudo. Ora, eu sempre tive essa preocupação, não só em relação ao meu trabalho enquanto encenador e professor de teatro no IC - Centro Cultural Português, mas também enquanto público. A dada altura comecei a constatar que já tinha material que justificava um arranque para uma investigação mais profunda referente à história do teatro em Cabo Verde. No início dos anos 2000, meti mãos à obra, organizando o material que tinha e recolhendo muito outro, nomeadamente com a realização de inúmeras entrevistas de pessoas que estiveram directamente envolvidas no movimento teatral cabo-verdiano, algumas delas já falecidas.

- Foi muito difícil reunir documentos e informações sobre esse aspecto? Porquê?

Foi e não foi. Por um lado foi porque a informação era, na época, muito escassa. Por exemplo, fiz uma pesquisa profunda em toda a imprensa escrita dos primeiros anos da independência e entrevistei muitos intervenientes e testemunhas do teatro de outras épocas. Li muitos documentos históricos procurando entender um pouco de como e onde se fazia teatro nos tempos antigos. Acabei fazendo algumas descobertas interessantes que estão no livro. Mas por outro lado, foi muito prazeiroso, porque o objecto de investigação, o teatro, é parte importante da minha vida e, como se sabe, quem corre por gosto não cansa.

- Quanto tempo levou a preparar este livro?

Cerca de dez anos de investigação e dois de escrita e revisão.

- Contou com a colaboração de quem?

De todos os que aceitaram partilhar informações, que foram preciosas. Destaco ainda o papel da Dra. Ana Cordeiro, na correcção final da obra, da Luisa Queirós que ilustrou a capa e da Dra. Zelinda Cohen, na altura responsável pelas edições da Biblioteca Nacional, que acreditou neste projecto. Aliás, o livro foi o primeiro de uma nova linha editorial e gráfica do IBNL e tenho algum orgulho nisso.

- Porquê o título "Nação Teatro - História do Teatro em Cabo Verde"?

Porque a primeira expressão é uma metáfora da segunda. Cabo Verde é, sempre foi, uma Nação profundamente apaixonada pela arte cénica, e eu quis que esse aspecto fundamental do povo cabo-verdiano estivesse patente no título da obra.

- De onde conseguiu reunir todas as informações reunidas neste livro?

Testemunhos, directos e indirectos, imprensa escrita, documentos oficiais e materiais referentes a peças de teatro como programas, bilhetes, cartazes e fotografias.

- Algumas personagens criticam este livro a dizer que não reúne ou não versa, da melhor forma, a história do teatro em Cabo Verde. Qual a tua posição?

Não sei quem são essas pessoas nem nunca li essas críticas, possivelmente porque as primeiras nunca deram a cara e as segundas nunca foram publicadas. Por alguma razão continuamos sem ter uma tradição de crítica artística em Cabo Verde. Mas é normal que um estudo desta natureza nunca esteja completo. A História vai-se construindo, nunca é um produto completo. Lembro-me bem do que disse o historiador António Correia e Silva na apresentação, ao referir estarmos "ante um estudo de inegável valor científico, dotado de rigor metodológico e epistemológico." Aquele que é por todos reconhecido pela sua competência na investigação histórica, afirmou também que "quanto ao compulsar de informações o livro em análise só tem paralelo no monumental Os Bastidores de José Vicente Lopes" o que me orgulhou especialmente porque sou um admirador confesso da obra do JVL. Entretanto foram-me chegando em mãos outras fontes e informações preciosas que poderão enriquecer, e muito, uma futura nova edição. 

- É necessário que se estude melhor o teatro em Cabo Verde, mesmo que por diversas vezes seja colocado em outros postos em relação às artes em Cabo Verde, ganhando expressão maior no Março, mês de Teatro ou no Mindelact?

Mais uma vez sublinho: sendo o teatro uma arte que só tem existência efectiva no acto da sua concretização enquanto espectáculo cénico, é fundamental a preservação da sua memória por todos os meios possíveis. Quanto maior e mais variada for a informação a respeito, melhor.

- Falando nestas duas datas marcantes para o teatro em Cabo Verde, este tornou-se mais expressivo no momento em que surgiram estas duas datas. Já é necessário que as autoridades e os cidadãos comuns tenham mais em conta, o teatro em Cabo Verde e a sua importância?

Eu penso que isso já acontece e esta entrevista é apenas mais uma prova disso. O teatro em Cabo Verde conquistou o seu espaço e duvido muito que alguém o venha tirar de onde ele está, ou seja, num patamar bem razoável do ponto de vista de adesão e criação. Sabendo isso, é natural que se defenda um maior investimento das autoridades e do Mecenato para esta forma de expressão artística. Garcia Lorca escreveu que "um povo que não ajuda e não fomenta o seu teatro, se não está morto, está moribundo.” Eu acredito cada vez mais nisto.

- Neste momento estás a pensar em mais alguma obra sobre o teatro, ou uma reescrição da história do teatro tendo em conta os 8 anos que passaram em cima da apresentação "Nação Teatro - História do Teatro em Cabo Verde"?

Gostaria de fazer uma re-edição aumentada do que já existe. Tenho já muito material acumulado que poderia ser uma mais valia de uma obra que por si já tem muita informação reunida nas suas mais de 550 páginas. Mas neste momento estou concentrado num outro estudo, de investigação artística e sociológica, que é tentar entender a identidade do teatro cabo-verdiano, nas suas diversas vertentes. 

Mindelo, 23 de Junho de 2012



Cafeína

6.22.2012




“A ficção para ser purificadora precisa ser atroz. O personagem é vil, para que não sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de cada um de nós.(....). E no teatro, que é mais plástico, direto, e de um impacto tão mais puro, esse fenômeno de transferência torna-se mais válido. Para salvar a platéia é preciso encher o palco de assassinos, adúlteros, de insanos e, em suma de uma salada de monstros. São os nossos monstros, dos quais eventualmente nos libertamos, para depois recriá-los.” 

 Nelson Rodrigues - dramaturgo


Café Fotográfico

6.19.2012











"Teorema do Silêncio", de Caplan Neves. Com Janaina Alves e Fonseca Soares.
Grupo de Teatro do CCP-IC

Fotografias de Kizó Oliveira 

Perguntas Cafeanas





De onde vem tanto dinheiro?


À melhor promessa, ofereço um café



Declaração Cafeana




A cada dia que passa tolero menos as campanhas eleitorais. Eu sei que deveria alertar o meu sentido de cidadania e ter em consideração que estes são os momentos em que aos dirigentes políticos é dada oportunidade de contactar o povo que o irá eleger e a este último a possibilidade de colocar aos primeiros questões que possam ser relevantes para os interesses pessoais e da sua comunidade. 

No entanto, nada disto acontece. Ao ouvir em altos berros um carro publicitário - que só por si revela uma falta de consideração completa pelo cidadão votante - anunciar que o partido do candidato que sempre se candidata e nunca fica a cumprir o mandato para o qual foi eleito "está farto desses políticos descarados que nunca cumprem as suas promessas", dei comigo a pensar que  o povo não pode ser assim tão estúpido e alienado.

O esbanjamento desta campanha é inaceitável. Camisolas, bonés, cartazes gigantes, comícios diários transformados em bailes populares, alguns em municípios conhecidos por não terem como pagar os seus compromissos mais urgentes, incluindo as suas obrigações sociais. Não precisamos disto para sermos convencidos de votar neste ou naquele. 

Debates públicos, sessões de esclarecimento e porta-a-porta seria o quanto baste. E acabava-se de uma vez por todas com esta insuportável e insultuosa poluição sonora e visual. O período que deveria ser de esclarecimento, apresentação de propostas e debate de diferenças transforma-se cada vez mais, no actual estado de coisas, num carnaval da arrogância, má-criação e descaramento. Não devia ser isto, a democracia.

Cântico do Homem

6.11.2012




        Apetece cantar, mas ninguém canta.
        Apetece chorar, mas ninguém chora.
        Um fantasma levanta
        A mão do medo sobre a nossa hora.

        Apetece gritar, mas ninguém grita.
        Apetece fugir, mas ninguém foge.
        Um fantasma limita
        Todo o futuro a este dia de hoje.

        Apetece morrer, mas ninguém morre.
        Apetece matar, mas ninguém mata.
        Um fantasma percorre
        Os motins onde a alma se arrebata.

        Oh! maldição do tempo em que vivemos,
        Sepultura de grades cinzeladas,
        Que deixam ver a vida que não temos
        E as angústias paradas!

        Miguel Torga

Café Eleitoral




Após a escuta de alguns dos debates pré-eleitorais promovidos pela Rádio de Cabo Verde, facilmente se chega a uma espécie de cartilha eleitoral que encaixa na perfeição, seja qual for o município em questão. Não seria mau, perante os slogans que se perfilam, que alguma instituição ligada e/ou com o apoio do Instituto do Emprego e Formação Profissional, promovesse uma formação intensiva de criatividade e marketing eleitoral que isto vai ser, pela amostra, um vira o disco e toca o mesmo. 

Candidato do partido no poder que se recandidata a um novo mandato: "queremos continuar com a obra feita que, graças a uma acção concertada com o Governo no âmbito da agenda para o desenvolvimento, estamos certos conduzirá o município a um novo patamar."

Candidato do partido da oposição que se recandidata a um novo mandato: "queremos continuar com a obra feita que só não é maior porque o Governo não tem cumprido com as suas obrigações perante o nosso município."

Candidato do partido no poder que tenta conquistar a câmara ao candidato da oposição que se recandidata: "o município está parado devido à incompetência da actual equipa camarária e estamos certos que connosco, com uma acção concertada com o Governo no âmbito da agenda para o desenvolvimento, entraremos no caminho certo."

Candidato do partido da oposição que tenta conquistar a câmara ao candidato do partido no poder que se recandidata: "o município está parado devido à incompetência da actual equipa camarária e do Governo e estamos certos que connosco tudo será diferente."

E assim vamos navegando nas doces águas da democracia cabo-verdiana. 


Mural Cafeano

5.30.2012




Cafeína

5.29.2012




"Um mundo novo não se constrói procurando esquecer o antigo. Um mundo novo alicerça-se num espírito novo, em novos valores. O nosso mundo poderia ter começado daquela maneira, mas hoje é somente uma caricatura. O nosso mundo é um mundo de coisas. É todo ele constituído por comodidades e luxos, ou então pelo desejo de os alcançar. O que mais tememos, ao alcançar o débâcle iminente, é sermos obrigados a abandonar as nossas futilidades, as nossas engenhocas, todos os pequenos objectos cómodos que nos tornaram tão desconsolados. Não há nada de admirável e de cavalheiresco, de heróico ou de magnânimo, nas nossas atitudes. Não somos almas tranquilas; somos presunçosos, tímidos, demasiado escrupulosos, enfastiados e instáveis."

Henry Miller - escritor

Imagem David La Chapelle


Declaração Cafeana





"Moss, ele é mau!" Este foi o comentário que um dos meus alunos de teatro fez sobre o jovem jornalista Odair Varela que tem sido o único em Cabo Verde que de forma reiterada tem escrito no seu blogue textos sobre peças de teatro - ou discos, concertos e livros - dentro de um estilo próximo do que conhecemos da crítica especializada. E porque é que Odair Varela "é mau"? Porque diz o que pensa, sem nenhum problema com o que possam pensar dele pelo facto dele não pensar como aqueles que são alvos das suas opiniões. 

Dedico-lhe esta declaração porque é um valor raro. Além de que, no que ao teatro diz respeito, tem vindo a aprimorar os seus textos sobre as peças que tem visto nos últimos tempos. De um ponto de vista técnico e do domínio das terminologias que a esta arte são exigidas, as críticas de Odair Varela são hoje muito mais do que meras opiniões pessoais, porque sustentadas, fundamentadas e bem escritas. 

Há anos que ando a lutar para a promoção de crítica teatral em Cabo Verde. Para quem não sabe, o curso de teatro tem uma disciplina dedicada a esta vertente onde todos os alunos são obrigados a escrever sobre todas as peças que vêem e estes textos estão sujeitos a avaliação. Dos que se destacaram nesta difícil tarefa nenhum deles encontrou motivação ou espaço para desenvolver este potencial, a maioria julgo que por opção pessoal.

É que ter opiniões próprias sustentadas, mais ainda sobre objectos artísticos e estar sujeito dessa forma aos sempre imprevisíveis egos dos nossos criadores não é para qualquer um. Daí o destaque dado aqui ao trabalho de Odair Varela que merece ser enaltecido e incentivado. Um oásis no deserto. 

SMS Cafeano

5.25.2012




"Muito cuidado com o teatro!"

Um dos lemas da censura salazarista



JMB 70





"O meu tema actual - que, como a palavra indica, está cheio de promessas - é o vazio. "Le creux de la vague". Não, ainda, o súbito recuo do mar na praia antes do tsunami, mas um intervalo côncavo de duração não mensurável entre dois ciclos históricos. Não creio que se possa descer mais fundo, e isso dá-me esperança. É preciso que a juventude "média" dê o salto para o lado de lá, onde estão os pobres a sofrer, muito calados, sem (des)tino. "Vou ao fundo da lama / Do outro lado / Do outro lado da mente / Do outro lado da gente / Do lado da gente do outro lado / Do lado da gente que vive de frente / Da gente que vive o futuro presente" (Margem de Certa Maneira, 1972).

Por isso... talvez apareça, não prometo. Estou a tratar do que está aqui perto: fazer música e mais música, inventar novas canções, novos espectáculos, ajudar outros músicos a serem melhores. Ler e ouvir música. Cantar de vez em quando as canções que tenho para dar ao público. É isso."

José Mário Branco - músico e poeta (e pai), que completa hoje a bonita idade de 70 anos. 

Parabéns!



Crónica Desaforada

5.24.2012





Os dois lados do Silêncio


1. Qualquer pessoa familiarizada com o mundo do teatro sabe o quanto o silêncio é um elemento fundamental. Não o silêncio imposto mas o que resulta de um tácito e prévio acordo entre quem faz e quem vê. O silêncio na arte cénica é precioso porque permite uma leitura. Ou melhor, várias. Vai-se construindo, ao longo de cada espectáculo, uma espécie de partitura do silêncio, onde este se manifesta a vários níveis. Na leitura desta partitura podemos sentir o pulsar de uma peça porque o silêncio não é sempre o mesmo. Há um silêncio atento, em que a plateia inteira está respirando junto com as personagens; há o silêncio desatento e desinteressado que promove, necessariamente, um outro tipo de energia; há ainda o que eu chamaria de silêncio ruidoso, aquele que acaba indubitavelmente com o público a ver as horas no telemóvel, a falar com o colega do lado ou a abrir o programa para disfarçar o tédio. 

2. Ao falar sobre o estudo aprofundado da Tradição – compreendendo este termo como um determinado número de doutrinas e práticas religiosas ou morais transmitidas de século a século pelo discurso oral ou pelo exemplo –, o físico Nicolescu aponta que esta sempre nos ensinou que devemos criar no nosso interior uma sensação de vazio, um espaço para silêncio a fim de permitir que haja um desenvolvimento total das potencialidades para conpreensão da realidade. Não é muito diferente no teatro, talvez a forma de expressão artística que mais vai beber aos costumes tradicionais naquilo que eles têm de cerimonial e mítico. Por isso, o silêncio em teatro é fundamental sem com isto querer dizer que o publico deva permanecer calado. Não é assim. Não tem público pior do que aquele que não se manifesta, querendo-o. Que trava o riso, o espanto ou as palmas. Também isso faz parte de uma comunicação que se quer e exige no acto solene da apresentação teatral. E é aí que o silêncio é mais válido: quando comunica e quer dizer alguma coisa.

3. A sensação de um bom silêncio é a melhor dádiva que podemos ter em teatro. Nos meus espectáculos gosto muito de ficar no lugar dos técnicos, que geralmente fica atrás da plateia, pois essa é um local que nos dá, por um lado, uma visão privilegiada e, por outro, nos permite ouvir e sentir a plateia com em nenhum outro lugar de um auditório. Quantas vezes me apanhei de ouvido apontado para os espectadores a saborear o silêncio conquistado por uma determinada cena! Quantas vezes já me voltei para colegas que comigo estão naquele lugar e digo-lhes bem baixinho (até para não estragar o momento) “ouve, ouve só este silêncio!” E fico ali, por vezes de braços abertos como quem saboreia uma doce vitória, mergulhado naquele silêncio atento, participativo, cúmplice. Uma peça de teatro que consegue em determinada altura conquistar um silêncio destes torna-se, certamente, um triunfo criativo. Mais ainda nos tempos de hoje, onde o ruído e a cacofonia insuportável dominam, de forma quase pornográfica, o nosso quotidiano.

4. Por outro lado, temos os tais silêncios que nos são impostos. Por vergonha, por medo, por conveniência, por hipocrisia, por cobardia, até por cinismo. Estes são os silêncios que o teatro deve combater. Escondemos realidades sujas debaixo dos nossos tapetes e é função da arte torná-las públicas. A humanização artística passa pelo cântico da beleza e da poesia mas também pela expiação dos nossos maiores demónios. Deve tocar pelo riso e pela ironia, mas também pelo confronto com realidades com as quais não sabemos ou não podemos lidar. E há silêncios que são ensurdecedores. O mais tremendo de todos é, sem dúvida nenhuma, aquele que esconde o abuso sexual de menores, de crianças. Esse é um silêncio que me dá vómitos porque não consigo conceber que algum ser humano se possa calar sabendo ou testemunhando, directa ou indirectamente, alguma história macabra que envolva o abuso sexual de alguma criança. Estamos cansados de saber que uma enorme percentagem destes casos acontecem com pessoas muito próximas das crianças. Com pais, padrastos, irmãos, primos, amigos dos pais, professores, vizinhos. E todos os outros, não sabendo, desconfiam. E sabendo, calam. E calando, tornam-se cúmplices de um dos mais hediondos crimes que a humanidade conhece ou é capaz de produzir. 

5. Por isso fazemos peças como “Teorema do Silêncio”, que estreia esta semana. Numa tentativa que tem tanto de arrebatada quanto de revoltada colocamos em palco um dos maiores tabus. Que é vergonhoso precisamente por ser considerado tabu. O silêncio à volta do abuso sexual de crianças não pode continuar. Este não pode ser um assunto tabu. Tem que ser um assunto sempre presente. Tem que estar no lugar mais destacado das denúncias. Tem que ter uma abordagem mais implacável da justiça. Promovendo uma sociedade que seja mais alerta, solidária e lutadora. Uma sociedade menos permissiva, cúmplice e obscena que é aquela em que hoje somos obrigados a viver. No fundo, procuramos através desta peça cumprir uma das mais nobres funções do teatro: ser catarse e caleidoscópio da natureza humana. Porque só conhecendo o mal, poderemos combater o mal.     

Mindelo, 24 de Maio de 2012

Ilustração de Chiharu Shiota



SMS Cafeano

5.22.2012




" A Igreja diz: o corpo é uma culpa. A Ciência diz: o corpo é uma máquina. A publicidade diz: o corpo é um negócio. E o corpo diz: eu sou uma festa."

Eduardo Galeano - Escritor uruguaio

Na imagem: "Sagração da Primavera", de Pina Bausch



Desligue as Luzes



Espantosa campanha contra o abuso sexual de crianças. Confiram os cartazes com as respectivas explicações.


“Turn off the lights and help Annie overcome her fear of the dark”
Desligue as luzes e ajude Annie vencer o seu medo do escuro.



“Turn off the lights and help Emily overcome her fear of the dark”.
Desligue as luzes e ajude Emily vencer o seu medo do escuro.



“Turn off the lights and help Peter overcome her fear of the dark”.
Desligue as luzes e ajude Pedro vencer o seu medo do escuro.


“This is the original ad printed with flourescent ink, wich glows in the dark. With the lights on, u see the ad like this. When the lights are off, a new imagem will appear. Pedofolia. You might not see it, but it could be happening. 70% of child abuse cases take place in their own home.“

Este é o anúncio original impresso com tinta fluorescente, que brilha no escuro. Com as luzes acesas, você vê o anúncio desta forma. Quando as luzes estão desligadas, uma nova imagem irá aparecer.

Pedofolia. Você pode não ver, mas ela pode estar acontecendo.

70% casos de abuso infantil acontecem dentro do próprio lar.


Declaração Cafeana

5.17.2012




Se há algo que me tem causado alguma mágoa tem sido verificar o desaproveitamento absurdo que a classe de actores e actrizes do Mindelo tem sido vítima, por não haver uma aposta séria e competente numa produção audiovisual que do talento dela já justifica há longa data. 

O máximo que tem acontecido tem sido a oportunidade de participar uma vez por outra nalguma produção cinematográfica estrangeira que tem, na maioria dos casos, o elenco todo pré-definido e ditado por exigências de produção, ou seja, os principais papeis entregues a vedetas de novelas brasileiras ou portuguesas.

É por isso com enorme agrado e renovada esperança que tenho acompanhado, mesmo que à distância, o trabalho feito pela equipa que está a produzir a série de televisão Soncente Talqualsesent, com o actor e dramaturgo Emanuel Ribeiro à frente das operações e uma equipa técnica totalmente nacional. Dá gosto ver actores de diferentes gerações tendo a oportunidade de mostrar o que valem e eu sei que valem muito.

Espero que esta série seja, mais do que um sucesso, um exemplo e uma prova de como se pode e deve aproveitar a nossa mão-de-obra para produzir obras do género, que a televisão nacional abra os olhos e que comece a apostar, a sério e de forma sustentada, no que de melhor temos por cá e que tem sido desaproveitado de forma quase obscena. Também assim se produz riqueza e valoriza um país.

Bem hajam.

Café Google

5.15.2012



Todos sabemos que o Google é o grande motor de busca do planeta. Qualquer coisa, assunto, personalidade, acontecimento, relato, biografia, enfim, seja o que for, pode ser encontrado utilizando essa poderosíssima ferramenta da Internet.

Pois bem, acabei de descobrir que este post, denominado Kamasutra Cafeano, foi o que de longe teve mais visitas, desconfiando eu que isto tenha acontecido por causa do absurdo número de pessoas que anda pelo espaço virtual à procura com que se entreter...

Isto para dizer que se você veio aqui porque o Google o encaminhou para este blogue só por terem sido utilizadas neste texto as palavras "sexo, mulher pelada, oral, as melhores posições sexuais do universo, famosas nuas ou políticos travestis", devo informar que isto é apenas um teste para verificar se graças ao Google este post passa a bater o record do mais visto da história do Café Margoso.

Se ficou desiludido, até porque este é um estabelecimento sério, volta ao seu motor de busca que alternativas nunca hão-de lhe faltar.