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Sou adepto ferrenho da blogosfera. Sendo certo que todos os dias nascem e morrem blogues à velocidade da luz, também é certo que num meio pequeno como Cabo Verde onde o receio de dizer o que se pensa ainda é mais regra do que excepção, todos os meios de expressão e de opinião, todos os campos que incentivem ao debate e a participação cívica dos cabo-verdianos, é mais do que bem-vinda. 

Sendo certo que as redes sociais vieram tirar um pouco do protagonismo que os blogues tiveram nos primeiros tempos, a verdade é que estes resistem e embora seja hoje menos espaços de debate do que já foram no passado, não deixam de ter a sua importância como espaço plural, democrático e criativo. 

É preciso que, cada vez mais, demos larga ao que nos vai na alma, sejam amores, desamores, paixões, ódios, indignações, desaforos, piadas, reflexões, pensamentos e pequenas pistas do nosso quotidiano. Não tem mal nenhum. Ajuda certamente quem escreve e, quem sabe, pode um dia ajudar quem nos lê e nos visita. 




«Na minha rua, na rua de ninguém, de «não lugar», lugar de trânsito, de evasão e de roubo. Cheira a torresmo e a imundice. A droga e o álcool reinam, num coquetel, de palavreados intimidatórios, de lutas e vinganças, onde entram a política, a polícia e os gangues rivais. O quadro sociopolítico reinante fere a autoridade, a harmonização social. Os jovens estão de costas voltadas das autoridades oficiais e familiar. Os grupos de amigos constituem palcos para novos recrutamentos para a «bandidagem». Não querem saber, querem fazer. Alguém vai ter que pagar. O corpo é que paga mesmo que a cabeça tenha ou não juízo.»


A visitar. A ler. A reflectir. Novo blogue cabo-verdiano, Diário de um Thug. Aqui.




Duas boas notícias, os regressos do Redy e do Abraão à blogosfera, em espaços novos. A conferir, aqui e aqui.

Longa vida.




Aproveito este espaço para anunciar os mais distraídos de um novo blogue, administrado por Joaquim Saial, dedicado à história de S. Vicente. Praia de Bote é o nome e vale a pena uma visita.

Aqui




E para o Café Margoso, o blogue cabo-verdiano do ano foi o 


Blogue de Rony Moreira (aqui)






"Tenho uma lua gigante a entrar pela janela da cozinha, passei a tarde em conversas nonsense, fiz do brufen o meu melhor amigo depois de um noite de gin, partilhei segredos, tenho o ego do tamanho do mundo depois de uma conversa à varanda e estou viciada em crepes com canela."










Duas belas imagens que falam por si (são as melhores), uma música que se ouve como se não houvesse amanhã, uma frase que resume um estado de espírito. Tudo retirado de um lugar onde impera o bom-gosto. Que mais se pode pedir?

Fotografias de Karen Collins e Brigitte Lacombe; Música: The National, Lucky You


Fonte: Sem Aviso





Rony Moreira, autor do blogue Geração 20.j.73, abriu um novo espaço, desta feita mais literário e menos político, onde se podem ler prosas e poemas do próprio. Como no primeiro blogue, o bom gosto impera e vale uma visita. Visitem o Caderno de Exercícios, aqui. A imagem é da artista  plástica japonesa Chiharu Chiota.







Depois não digam que não avisei: este blogue, Café Margoso, fica visualmente destruído, se  for consultado no Internet Explorer. Pela vossa saúde, mudem para qualquer outro navegador. Eu não sei o que raio a Microsoft tem contra os blogues, mas que se tem dedicado a acabar com o trabalho de tantas horas e de tanta gente, sem qualquer explicação, isso é um facto. O caso do Café Margoso não é único, é um entre milhões. Ficam distorcidos, modificados, feios. E depois nós, os gerentes da coisa, é que passamos por incompetentes. É muito fácil ir à net e arranjar um outro navegador qualquer. E o facto de ter sido tão fácil arranjar a imagem que ilustra este aviso, também é um forte sinal de que há muitos a queixarem-se do mesmo.





Felizmente reparei a tempo. Este é o café 2.500. São muitos grãos de café mesmo. Nada mau, não acham? O que poderia fazer para comemorar mais esta meta? Só vi uma possibilidade: café & música. E o violoncelo único de Yo Yo Ma e o acordeão de Astor Piazzola combinam muito bem com esta ocasião.

Boa escuta.








Pelo menos durante esta semana, o ritmo aqui do Café Margoso vai abrandar um pouco. Assim que for possível, voltaremos ao ritmo a que este estabelecimento já vos tem habituado. Só pedimos um pouco de paciência. Pode ser? 





Duas boas novas na blogosfera cabo-verdiana: Brito Semedo e Ondina Ferreira, cada um à sua maneira, já estão aí para dar o seu contributo para o enriquecimento desta grande comunidade blogueira. O primeiro, deu ao seu blogue a designação de Na Esquina do Tempo (ver aqui) e a segunda, escolheu como nome de baptismo do seu espaço Coral Vermelho (ver aqui).

Brito Semedo, no seu texto de apresentação refere que "depois de alguns desafios e incentivos da minha mulher para sair da oralidade, decidi, finalmente, pelo registo da “colecção” das minhas histórias, daquelas que contam de mim e de um tempo cujas vivências são diferentes das de hoje, como forma de sublimar as experiências e as emoções fortes que me marcaram."

Ondina Ferreira, por sua vez, escreve o seu blogue "pretende ser um espaço de diálogo interactivo, salutar e fraterno entre todos os que nele entrarem e queiram connosco, através de temas e de assuntos vários enriquecer este painel coralino."

Aos dois o meu mais sincero abraço e sobretudo, agradecimento pela construção de mais dois blogues que serão, certamente, dois espaços de partilha e fraternidade.







E eis que foi anunciado, sem muita pompa e menos circunstância, que o Primeiro-Ministro de Cabo Verde, José Maria Neves, tem o seu próprio blogue. Aqui no Café Margoso apoia-se a iniciativa, mas com a pretensão habitual, deixamos alguns conselhos, porque isto de ser blogueiro em Cabo Verde tem muito que se lhe diga, principalmente para quem assina e dá a cara pelas suas próprias opiniões. Então é assim, como quem não quer a coisa:

1. Faça do blogue não um espaço do Primeiro-Ministro, mas sim do cidadão. Um blogue é um espaço pessoal, como que uma impressão digital e já se diz nalguns estudos que se tem mais hipótese de se conhecer bem um blogueiro que se leia todos os dias do que um colega de trabalho;

2. Não faça do blogue um espaço de propaganda /disputa política ou de anúncio / justificação de medidas; há outros fóruns mais apropriados para o fazer, seja na página oficial do Governo, dos vários ministérios ou do seu próprio partido;

3. Coloque-se, em primeiro lugar, no papel de cidadão e procure expor as suas ideias de forma clara, concisa, directa e, principalmente, crítica;

4. Um dos segredos para o sucesso de um blogue é a sua dinâmica, pelo que seria importante actualizá-lo, diria que pelo menos uma vez por semana, e que responda directamente aos comentários que lhe pareçam mais pertinentes; uma actualização mais desenfreada também não é aconselhável, porque senão ainda vão dizer que não tem mais nada para fazer e sujeita-se a ouvir comentários desagradáveis (que serão inevitáveis);

5. Não caia na tentação de deixar a escrita dos textos pessoais e das respostas aos comentários a cargo de colaboradores; se não for o próprio a escrever, vai-se certamente acabar por notar e será pior a emenda que o soneto;

6. Aproveite o espaço do blogue, sendo pessoal, para se dar a conhecer; nos seus gostos pela poesia, pela música, pelos livros, pelos filmes;

7. Prepara-se para duras batalhas: um blogue transforma-se, de quando em quando, num local pouco recomendável, até pela falta de hábito que ainda temos na discussão descomplexada de temáticas diversas;

8. Não se deixe levar demasiado pela emoção, mas também não faça do blogue apenas um espaço de racionalização e conceptualização de medidas ou ideias políticas; aqui, como noutros domínios, no meio é que está a virtude.

Posto isto, só me resta desejar-lhe boa sorte e que o seu blogue traga uma real mais valia num aspecto que terá sido uma das principais motivações: torná-lo mais acessível e mais humano aos olhos de todos os cabo-verdianos.

Ah, e coloque o logótipo da blogosfera cabo-verdiana no seu espaço. Afinal, já é um dos nossos!


Eis o link do blogue, aqui





Duas novidades dignas de referência:

1. O regresso de Redy Wilson Lima e do seu Ku Frontalidadi, com novo visual e a mesma irreverência tão pessoal que o caracteriza. O autor enfatiza, no seu manifesto, o facto do seu blogue não ser "um espaço de lamentações e do me myself and i como alguns outros cantos desse mundo virtual", prometendo, por outro lado, ser "mais consistente". Começa bem. (aqui)

2. Virgílio Brandão deixa o Terra Longe apenas para os assuntos mais "sérios" e avança com um blogue exclusivamente dedicado ao erotismo. Com um título sugestivo, Cunnus, o blogue tem já alguns artigos de grande interesse e imagens a condizer. Sublinhe-se o facto de o ilustre causídico avançar nesta empreitada sem a necessidade de se esconder por detrás de nenhum pseudónimo. Longa vida, pois. (aqui)






Por altura das comemorações do segundo aniversário do Café Margoso um cliente sugeriu um interessante desafio para mim e para os leitores: adicionar uma rúbrica ao blogue: o melhor contraditório. Por exemplo, por cada uma (ou mensalmente) das declarações cafeanas ou crónicas desaforadas, publicar um contraditório e editar, valorizando "a qualidade intelectual e a discordância ideológica. Pode parecer uma violência editares algo com o qual não concordas (o que já fazes nos comentários, diga-se em abono da verdade), mas todos os que pensam como tu terão oportunidade de contraditar em comentários não se resumindo apenas a comentários fáceis e elogiosos às tuas crónicas."

Ora bem, este é um bom dia para começar o Café Contraditório, nova rúbrica desta casa, já que no dia de ontem vários se entreteram a aqui vir para me colar várias etiquetas na testa, desde machista a arrogante, um tipo cheio de manias de estrelato ou sem qualquer humildade, entre outros mimos do género. Um dos motivos de polémica foi a interpretação que fiz de um comentário do Marco Além - que até já tem um blogue inaugurado com uma Carta Aberta ao Café Margoso! (seja bem vindo, blogueiro, todos somos poucos) - no Bianda. Uns apoiaram, outros acharam exagerado, outros ainda partiram para a ignorância.

Por mim, tranquilo. A minha luta continua, outras haverá e estou satisfeito com os resultados da petição, que não vai ficar por aqui. Mas não deixa de ser pertinente estrear esta rúbrica com um excerto da tal carta aberta, já que me foi dirigida directamente, realçando antes de tudo não ser verdade que eu tenha censurado seja o que for dos comentários do Marco Além aqui no Café Margoso, ao contrário do que ele acusa. Apenas não são publicados aqui comentários insultuosos e não me parece que esse seja o estilo da pessoa em questão.

Sobre o Éden-Park, escreveu Marco Além:

"O edifício em causa, não tem o valor de Património Arquitectónico como você advoga. Não encaixa em nenhuma corrente arquitectónica de relevo. Nem modernismo nem pós-modernismo português. Para ser considerado património arquitectónico, teria que pertencer a uma corrente arquitectónica (por ex. gótico, modernista, pós-modernista etc.) ou representar uma evolução em termos de técnicas construtivas ou de estilo, para além de outros critérios internacionalmente aceites para certas e determinadas situações (ou tão simplesmente por decreto-lei de um par de ignorantes…). Não vamos confundir o que é velho ou antigo (…) com património arquitectónico. Acredito sim que o edifício tenha valor patrimonial de âmbito cultural, social e recreativa. Convém esclarecer e informar as pessoas e não as induzir em erro omitindo factos.

Quanto à importância que atribui às suas 650 assinaturas, todos sabemos que esses nomes que aí aparecem, não têm qualquer força jurídica ou moral, para além de que poderão ser de veracidade duvidosa, uma vez que a mesma pessoa pode assinar com 3, 4, 5 ou mais nomes fictícios (Não quero com isto dizer que alguém o tenha feito)."

Ler a carta na íntegra, aqui

E pronto. Aqui está um contraditório. A minha resposta, vem no post seguinte. Está lançado o debate.







Para iniciar o ano, uma boa e uma má nova. Comecemos pela má: Abraão Vicente desblogueou-se, e retirou o seu Cocaína Ya do espaço e agora ficamos sem saber dele, espera-se que não por muito tempo, porque ali está um rapaz que sempre teve coisas interessantes para dizer, tanto na forma como no estilo. Agora a boa nova do início do ano: o poeta Filinto Elísio, um dos pioneiros da blogosfera crioula com o extinto Albatroberdiano retoma a sua participação num novo espaço denominado Beira-mar desmedido. É verificar, aqui.

E para iniciar o ano, continuo a pensar que através dos blogues muito se pode fazer, dizer, criar, participar, enfim, ser cidadão na medida e possibilidade de cada um. Se ainda não tens um blogue, experimenta. Não custa nada e serás mais uma voz para ser ouvida. O gerente do Café Margoso predispõem-se para fornecer assistência técnica gratuita a quem o solicitar, para a elaboração de blogues esteticamente apresentáveis (quanto aos conteúdos, já não é comigo). Gostaria muito que este ano, por exemplo, alguma crioula, mesmo que sob pseudónimo, ganhasse coragem e avançasse com um blogue erótico, relatando as suas experiências e os seus pontos de vista, nomeadamente sob as performances dos machos crioulos. Aposto que alguns mitos iriam cair por terra...

Bom ano a todos os blogueiros, passados, presentes e futuros.






Hoje o Café Margoso cumpre o seu segundo aniversário. Sempre agitando as águas da blogosfera crioula. Depois de ter atingido as 150 mil visitas (50 mil, durante o primeiro ano) e os 15 mil comentários (5 mil, no ano transato) em mais de 2.000 artigos (sobre tudo e mais alguma coisa), por cá estamos ainda com a mesma vontade, força e sentido de cidadania com que iniciamos esta aventura, há dois anos atrás.

Este blogue obriga a uma busca diária; a uma reflexão permanente; ao exercício da escrita e do debate de temas e ideias; ao conhecimento de novos mundos na poesia, na literatura, no cinema, na sociedade e neste mundo global em que vivemos. Mas só faz sentido se houver quem o leia e quem o comente. Por isso, obrigado por tudo. Por cá continuaremos, por mais algum tempo. Abraço fraterno.






2009 foi um ano relativamente estável para a blogosfera cabo-verdiana. A dinâmica sentida ao longo de todo o ano anterior nem sempre se manteve durante o presente ano, ao que não terá sido alheia a crise sentida (embora quando as coisas correm menos bem, mais tinta deveria correr nos blogues pois mais deveria haver para comentar, dizer e/ ou criticar). O assunto mais debatido do ano foi, sem dúvida, a polémica à volta da oficialização do crioulo e do alfabeto cabo-verdiano (vulgo Alupec), tendo marcado presença o debate no blogue Tertúlia Crioula, que atingiu a espantosa soma de 1223 comentários. Não apenas pela pertinência e qualidade dos seus textos, e embora tenha nascido já no segundo semestre de 2009, o Tertúlia Crioula é considerado pela gerência como o Blogue Nacional do Ano 2009, substituindo o vencedor do ano passado, o Jornal da Hiena, que passa directamente de blogue do ano para a vergonhosa qualidade de "activista em hibernação" (deve ser do frio imenso que se faz sentir e por isso o Hiena vai, certamente, perdoar esta decisão...). Na vertente internacional, a minha escolha vai para o blogue Bitaites do português Marco Santos, que assim sucede ao Jumento, o escolhido no ano passado nesta mesma categoria.

O ano de 2009 viu acontecer também alguma movimentação blogueira colectiva graças ao Blog Joint que, por razões que ainda estão por explicar, acabou por morrer de morte matada, sem que os promotores tenham justificado este estranho fenómeno (nem tinham que o fazer, de facto). Destaco ainda o jornal "A Nação", por ter sido o único dos três semanários da praça a tirar real proveito da (muita) informação e opiniões que foram sendo publicados na blogosfera cabo-verdiana, numa página semanal que desde há meses vem dedicando aos blogues cabo-verdianos. Já no final do ano e como resultado da sua renovação gráfica do seu síte, o Semana online passou a promover a ligação a alguns blogues cabo-verdianos, entre os quais o Café Margoso.

Chegou, neste momento, a altura do Café Margoso atribuir as suas distinções, entre os blogues que mais se destacaram no ano de 2009. Bons comentários.


Blogómetro 2009 - Prémios & Distinções Margosas

Blogue Nacional do Ano


Blogue Internacional do Ano




Outras Distinções

Blogue Revelação do Ano (novo blogue em destaque) - Anarquista Burocrata (aqui)
Blogue Fodas do Ano (blogue mais cáustico) - Arco da Velha (aqui)
Blogue Literário do Ano (blogue com mais qualidade literária) - Cocaína Ya (aqui)
Blogue Político do Ano (blogue com melhor análise) - Geração 20j73 (aqui)
Blogue Desaparecido em Combate do Ano (activista em hibernação) - Jornal da Hiena (aqui)
Blogue Sempre a Postar do Ano (blogue com maior regularidade) - Amilcar Tavares (aqui)
Blogue Grafismo do Ano (blogue com grafismo mais original) - Bianda (aqui)
Blogue Cadáver Esquisito do Ano (blogue enterrado pelo autor) - Albatroberdiano (aqui)
Blogue Promessa do Ano (blogue que promete animar 2010) - ?

Comentador do Ano - Zito Azevedo (autor do blogue Arroz c'Atum [aqui])


Quanto ao Café Margoso, continua, por direito próprio, a ostentar o prémio de Blogue Basofo do Ano. Um grande 2010 para todos os leitores, blogueiros, crioulos e crioulas, em particular e população mundial, em geral





Caros clientes: daqui a uma semana precisa o blogue Café Margoso comemora o seu segundo aniversário. Sem querer receber parabéns por antecipação - até porque é sinal de má fortuna - deixo aqui o desafio para que deixem sugestões, dicas, críticas sobre como melhorar este blogue na entrada do seu terceiro ano de existência. Porque aqui como noutros locais, o cliente tem (quase) sempre razão. Abraço.





Costuma-se dizer que a classe média é uma espécie de barómetro social que, entre muitas outras características, é a mais sacrificada na aplicação de políticas fiscais do Estado ou é aquela que decide os resultados das eleições. Em Cabo Verde, só recentemente podemos afirmar que temos uma classe média, pois para esta existir é fundamental que haja também uma classe mais abastada acima do seu nariz, o que só mais recentemente, com o advento da aplicação das políticas liberais capitalistas e o desenvolvimento de alguns dos negócios do século (entre os quais os ligados ao narcotráfico), se tornou realidade no país. Hoje sim, podemos dizer que temos em Cabo Verde uma classe média com existência real e significado sociológico, pois que os seus membros já tem para quem ver quando olham para cima, já tem quem invejar e o que almejar para o seu futuro a curto-médio prazo: sair da condição miserável de membro da classe média e atingir, finalmente, o oásis dos novos ricos cabo-verdianos.

Claro que isto tudo tem latente, para quem ainda não tenha percebido, uma ironia que reflecte o actual estado de coisas e permite a partilha de uma das mais inovadoras e divertidas descobertas da blogosfera dos últimos tempos: um blogue dedicado a esmiuçar - diria mesmo, a autopsiar - a classe média (brasileira, neste caso, mas muito do que ali está se aplica ao nosso caso, o que nem é para admirar). Esta pérola tem a designação The Classe Média way of live e os seus textos são divertidos e poderosos. Alguns exemplos (títulos da minha responsabildiade):

1. Como encara o cidadão da classe média a possibilidade de um filho seu ir para a tropa: "Muitos pais de família medioclassistas guardam boas lembranças da época do serviço militar obrigatório. Normalmente o período é tido como uma fase de grande aprendizado e da conquista de boas amizades. Mas quando o patriarca pensa em seu rebento pós-adolescente às voltas com a possibilidade de enfrentar as situações que conhece bem, imediatamente aciona os mecanismos de superproteção em seu cérebro medioclassista. O Papai Classe Média sabe muito bem que aquelas mãos de pele fina, acostumadas apenas ao videogame, não são adequadas ao manuseio de fuzis, e aquele físico nada avantajado de “filho de apartamento” não é adequado para as flexões e para os terríveis cangurus diários. Imagine então ter que acordar o menino todos os dias de madrugada!"

2. Como encara o cidadão da classe média a questão da pena de morte: "Como representante da gente de bem deste País, o membro da Classe Média é contra a violência e pode provar isso, com muitas fotos em que veste branco nas “passeatas pela paz”. Mas quando se traz à baila o assunto “pena de morte”, normalmente se encontra na Classe dois tipos de posicionamento: os simpatizantes e os defensores."

3. O cidadão da classe média e o espírito de manada: "Um verdadeiro membro da Classe Média precisa estar em sintonia com seu grupo social, principalmente quando se trata do “instinto de manada” que lhe é característico. Como qualquer rebanho, este instinto é um recurso que o grupo possui para manter e perpetuar seu modo de vida, mesmo em qualquer adversidade. Como forma de justificar tudo o que faz de errado, ilícito, fora do padrão ou desaconselhável, ou mesmo algo que nada tem de errado, mas não se tem a mínima vontade de fazer, o médio-classista sempre pode apelar para o velho argumento: “todo mundo faz, então não tem problema se eu fizer”. (...) As aplicações para esta ferramenta são muitas: estacionar em fila dupla, comprar um produto que não precisa, deixar de assinar a Carteira de Trabalho da empregada, comer no McDonalds, sonegar imposto, beber e dirigir, gostar de música sertaneja."

4. O cidadão da classe média é, por definição, um sofredor e deve saber divulgá-lo: "Uma coisa que o aspirante à Classe Média tem que saber: dizer a todos que leva uma vida difícil. Na lógica médio-classista, sofrer de estresse com o trabalho e martirizar-se pagando impostos para manter o carro e a empregada faz com que a pessoa emane respeito e admiração. Por isso, nada melhor do que tornar-se um deprimido para em seguida poder tornar pública esta condição. A melhor maneira de mostrar a todos que você carrega o mundo nas costas é ser consumidor de antidepressivos de tarja preta."

Os exemplos são muitos e devo confessar que vergonhosamente me vi retratado em algumas das situações referenciadas, enquanto membro de uma classe média crioula invejosa, recalcada e desejosa para subir de posto e poder ter condições para, finalmente, comer no Poeta mais do que uma vez por mês e ir ao Kapa todos os fins de semana sem se preocupar com quantos uisquis (graças a Deus a classe média consome cerveja importada) vai consumir ou mesmo oferecer, isto sem falar de férias em destinos um pouco menos rascas que Fortaleza ou as Canárias que esses, desde que os TACV se lembraram de fazer voos directos, passaram a ser lugares banais, para não dizer outra coisa.




O blogue do Amílcar Tavares completou o seu primeiro aniversário. Com este tempo de vida, o espaço de Amílcar vem, paulatinamente, conquistando o seu lugar na blogosfera crioula e atrevo-me mesmo a dizer que hoje é (já) uma referência. Que se mantenha, pois, com a mesma postura directa, pertinente e sóbria a que nos habituou. Parabéns, pois.