Parabéns, Inês, nha filha querida!



Figuras Nacionais do Ano


Jorge Carlos Fonseca


Eleito Presidente da República à segunda volta, numa vitória incontestável e histórica, já mostrou no pouco tempo que tem no exercício das suas funções, que irá dar um toque diferente e pessoal ao seu mandato, denotando uma sensibilidade cultural que faz a diferença em relação ao seu antecessor.


Mário Lúcio Sousa


Assumiu a pasta da Cultura, depois de anos de estagnação do sector. Apresentou muitos projectos, consegue unir a classe artística à sua volta, com uma equipa renovada e ambiciosa. Há quem o considere o melhor ministro do actual Governo, mas muitos vaticinam que será engolido pelo sistema vigente.


Figura Internacional do Ano


O Manifestante da Primavera Árabe


A força do povo e das redes sociais, ficou bem provada durante o ano, com as improváveis revoluções ocorridas nos países árabes do Norte de África. Ditaduras de décadas ruíram, com mais ou menos sangue e aquela região do globo nunca mais será o que já foi.


Acontecimentos Nacionais do Ano


Lancha Voadora


O rude golpe dado na rede de tráfico de droga de Cabo Verde com a operação Lancha Voadora foi o acontecimento do ano, até pelas dimensões que tomou com a prisão do ex-Presidente da Bolsa de Valores. Há quem chame a esta operação de Lancha Arrasadora e sente-se que outras surpresas estão ainda para vir. Alguns dos endinheirados do país devem estar a fazer contas à vida temendo que a Pj lhes um destes dias bata na porta.

Morte de Cesária Évora


Não era preciso que esta fatalidade acontecesse para se ter uma ideia da dimensão global de Cize e da sua importância para a projecção de Cabo Verde no mundo. Como disse o Ministro da Cultura na emocionante cerimónia fúnebre, graças a Cesária Évora, descobrimos o mundo com pés descalços. Lágrimas e aplausos que não acabarão mais.


Acontecimento Internacional do Ano


A crise na Europa


Os gregos bem que tentaram cortar as amarras, mas o que está em jogo é todo um sistema vigente dominado por banqueiros e capitalistas, que tem tanto poder que há quem defenda que estamos hoje a caminho da "ditadura do Euro". No final das contas, é no lombo dos mais desfavorecidos e das espremidas classes médias que o peso da crise mais se faz sentir. Prevêem-se dias difíceis para 2012.





Vamos lá, qual a promessa mais criativa para 2012?

À melhor promessa, ofereço um café






"O Elogio da Loucura. Preocupa-me bastante o estado da saúde mental em Cabo Verde. Os cabo-verdianos são especialistas em incentivar, elogiar e aplaudir publicamente actos de demência. Se alguém estiver stressado, com problemas psicológicos e disposto a enlouquecer, que venha a Cabo Verde [período de incubação de 15 dias]. A cada esquina há um "novo" doido. A taxa de reabilitação social por cá é nula, senão uma miragem, porque mesmo que estes queiram, o povo não ajuda. É o elogio da loucura no seu esplendor..."

Suxano Costa - fundador do Tertúlia Crioula




Para o ano que aí vem, com mais arte, mais criação, mais poesia, mais amor.






Nestes dias antes da entrada de mais um ano, o nosso pensamento entra em balanço, o que foi bem, o que foi menos bem, o que poderia ter sido melhor. Preparamos as nossas juras e promessas para o que aí vem, como se a passagem de um minuto para o outro - porque é disso que se trata - fosse resolver alguma coisa. 

Mas como não quero ser desmancha prazeres, aqui ficam os meus desejos para este ano: que haja menos hipocrisia, menos estupidez, menos cinismo, menos maledicência, menos ignominia. A tentativa de linchamento público ocorrido nestes últimos dias contra Abraão Vicente, e tudo por causa de um texto, claramente irónico, por ele escrito num blogue, e que só a ignorância transformou em notícia, mostrou uma vez mais o quanto navegamos à superficie das coisas, o quanto estamos prontos para atacar em vez de contrapor, de ofender em vez de defender pontos de vista, de julgar um carácter em vez de procurar conhecer a pessoa, de alimentar o preconceito em vez de elogiar a diferença, de chafurdar na lama em vez de ter a sabedoria suficiente de esperar que a terra poise e possamos, então sim, beber um pouco de água fresca, fonte de toda a vida.

Somos e vivemos num meio pequeno que padece de todos os males característicos dos meios pequenos. Caímos com demasiada facilidade no provincianismo tacanho, na pequenez dos anonimatos, no uso de máscaras como defesa pessoal, pela falta de coragem que temos em dar a cara pelos nossos ideais. Temos muitas feridas históricas e sociais por sarar e em vez de deixar que o tempo, a reflexão, a investigação e a honestidade curem as mazelas, estamos o tempo todo a escarafunchar, a pisar na carne viva, a voltar as costas à poesia e ao amor.

Os nossos espelhos apenas servem para reflectir as nossas virtudes e quando isso não acontece, olhamos um pouco mais abaixo e fixamos o nosso olhar no umbigo. Cada qual parece ser o centro do universo e quem aparece com o atrevimento de nos querer desviar desta rota comodista é de imediato alvo de um ataque feroz que apenas dislustra e define os seus autores. Somos demasiadas vezes vítimas da nossa forma redutora de olhar para a realidade, o nosso ponto de fuga aponta apenas para um caminho. Essa é a nossa maior desgraça.

A diferença entre o ano que está a terminar e o que vai começar bem que podem ser apenas os trinta segundos que separam o último minuto de 2011 do primeiro de 2012. Mas como seria bom se soubéssemos olhar para o mundo que nos rodeia de uma outra forma. Que fossemos capazes de olhar para o nosso concorrente (no trabalho, na arte, na política, no desporto, na escola) como um colega que nos motiva a ser um pouco melhor hoje do que fomos ontem. Que os abraços que damos uns aos outros, no calor da festa e da paródia, trouxessem à nossa forma de estar nesta sociedade um outro prisma, algo com um pouco mais de profundidade e, sobretudo, uma maior capacidade de entender quem opta por navegar rumo a outras latitudes, vestindo outras roupas, gritando outros slogans. 




Dois mil & 11

Janeiro. O mês da campanha eleitoral. Nada de novo. Do amor à terra à teoria do nós ou o caos, tudo valeu nesses dias em que se esbanjou dinheiro e injúrias. Um prolongado carnaval que meteu informação e contra-informação, vídeos publicados na internet, disfarces, e-mails forjados, golpes palacianos. Gente que veste camisolas ao contrário para confundir o adversário, cortes de electricidade com timing cirúrgico, a lei da selva para a conquista do poder. Valeu tudo, perdemos todos.

Fevereiro. Ano tremendo para as vozes que cantam a alma de Cabo Verde. Calou-se a maior filósofa popular que, por via do Finason, transformou sabedoria em musicalidade e vice-versa. Ficamos com as suas memórias, com a sua tremenda herança, com os seus seguidores. Grande e digna como a ilha de Santiago que tão bem cantou, Nácia Gomi deixa todo um país em lágrimas, no momento em que abandonou o mundo dos vivos.

Março. Foi revelado o novo elenco governativo, com um número de ministérios bem acima das necessidades, um dos quais seria mesmo extinto como consequência de uma feroz disputa entre irmãos, nas presidenciais. Mas se há ministério que faz sentido em Cabo Verde, é o da Cultura, onde foi anunciado o nome de Mário Lúcio Sousa. Conhecedor do meio, enquanto artista multifacetado, com formação jurídica de base, o novo ministro pegou na empreitada de iniciar praticamente do zero a aplicação de políticas públicas culturais com o mesmo espírito com que escreve, compõe ou canta: com ousadia, criatividade e atrevimento. Espera-se que não seja engolido pelo sistema.

Abril. É lançado em Lisboa, uma obra maior: “Me-xendo no Baú, Vasculhando o Ú”, do poeta Filinto Elísio, uma complexa proposta artística, com 35 poemas, belos e inovadores, numa edição de luxo, nunca vista em Cabo Verde. O livro inclui trabalhos do artista plástico Luís Geraldes e um CD com os poemas declamados por mim e por Nancy Vieira. Orgulho por estar associado a esta empreitada artística de grande valor que precisa de ser apresentada e divulgada nas nossas ilhas, com carácter de urgência.

Maio. O jogador Rolando festeja a conquista da Liga Europa pelo FC Porto com a bandeira de Cabo Verde nas costas: a audiência global foi proporcional ao orgulho de toda uma Nação. Entretanto, na cada vez menos pacata cidade do Mindelo, o Grupo de Teatro do CCP-IC estreia “Ñaque – Piolhos e Actores” onde partilho a cena com Manuel Estêvão, actor maior da sua geração. O teatro como espaço de homenagem. A arte cénica como lugar de celebração da vida.

Junho. Estreia o filme Éden, de Daniel Blaufuks, numa comovente sessão no auditório do Centro Cultural do Mindelo. Um documentário sobre as memórias do cinema numa espécie de requiem final ao cineteatro Éden-Park, que lá continua, a apodrecer aos olhos de todos na principal praça da cidade. Num tempo em que o mar e o cinema eram as únicas formas de escapar das ilhas. O valor das coisas e a falta de respeito pelo nosso património maior. O testemunho do cinema.

Julho. Um abraço sentido entre um ex-presidente da Câmara da cidade da Praia e um candidato a Presidente da República deu o mote para uma luta sangrenta que deixaria mossas no partido que sustenta o Governo: está na estrada a campanha eleitoral para as eleições presidenciais, e nada mais será como dantes na politica crioula. Será? Nem por isso, porque na politica o que parece, muitas vezes não é. No final, amigos como sempre. Com palmadinhas nas costas.

Agosto. Novo Presidente, uma surpresa para muitos ou a prova definitiva da maturidade democrática do povo cabo-verdiano. Num mês de enxurradas na cidade do Mindelo, o vendaval politico trouxe à baila Jorge Carlos Fonseca como o mais alto representante da Nação. Um presidente como coração de poeta. Desta vez, ficamos todos a ganhar.

Setembro. O mês do teatro, da festividade artística, da partilha em torno de uma mesma paixão, a arte cénica. Bodas de Sangue, um Garcia Lorca revisitado em crioulo, casamento, bodas, paixão, morte. Foi gratificante e cansativo, como é quase sempre quando nos entregamos de corpo e alma às coisas da vida. Os Saltimbancos, os meninos do coro Jorge Barbosa, um musical para as crianças que celebra a liberdade. Valeu cada gota de suor, cada lágrima de desespero. Assim sim.

Outubro. Deixa-nos o Presidente Aristides Pereira. Luto nacional. Homenagem aos fundadores da Independência. Há que ser digno das heranças deixadas. Éramos um país improvável, hoje somos uma nação orgulhosa e que quer ser melhor. Para alguns, já somo exemplo. Há que procurar a excelência. Para isso, urge mudar de mentalidades.

Novembro. Crise. Não se fala de outra coisa. Na Islândia, processaram e prenderam os banqueiros responsáveis pelo descalabro e o povo voltou a ter poder nas decisões. Os gregos não tiveram a mesma sorte. A fortuna dos primeiros foi não pertencerem à tirania capitalista, comandada pelos senhores do FMI. Parece que há outros caminhos. Pena que sejam tão pouco divulgados.

Dezembro. Adeus Cize, luz de nôs vida. Lágrimas. Mar de gente. Depois deste dois mil & 11, há que ser dignos das heranças deixadas.




Há pouco mais de dois anos, quando de forma inesperada a minha mãe faleceu, desloquei-me a Portugal acompanhado da minha filha Laura, com quem ela tinha uma ligação muito forte. A morte ocorreu no dia 15 de Agosto e as cerimónias fúnebres tiveram lugar dois dias depois, precisamente no dia de aniversário da Laura. Sempre vi isto como um sinal de continuidade, a neta que continua a avó, tal era a força do que as unia e as semelhanças que as caracterizam. A morte e a vida ligadas, como sempre acontece.

Ontem, foi um dia tremendo para Cabo Verde, o da despedida de Cesária Évora. Com choros, cânticos, lágrimas e a alma profundamente ferida. Foi também o dia de aniversário da minha mulher, meu amor meu grande amor, e por isso vi-me mais uma vez confrontado com a situação de partilhar, numa mesma hora, a dor provocada pela morte com a celebração da vida. Queria ter feito mais, abraçado melhor e por isso me penitencio, Jana. 

É estranho e mexe com as nossas entranhas. A tristeza e o vazio convivendo com a vontade de celebrar uma vida, o amor e a pessoa luminosa que partilha connosco todos os nossos dias e noites. Mas é também resultado da nossa existência e da nossa passagem pelo mundo. Estaremos sempre em contacto com essa outra realidade, que não é outra, afinal, mas tão natural como a própria vida. 

Ilustração: "vida & morte", de Klimpt




A forma como Cabo Verde se despediu de Cesária Évora foi bela, emocionante e histórica. Pela primeira vez em muitos anos, que eu me lembre, o ironicamente designado Palácio do Povo, foi realmente do povo e foi o palco escolhido para homenagear a sua maior representante. O povo, esse, disse presente de uma forma extraordinária, prestando um tributo que vai ficar para a história do arquipélago. Esteve bem o Governo, esteve bem o Presidente da República, esteve bem S. Vicente e Cabo Verde. Os discursos, tanto do Mário Lúcio como o do Presidente, foram sentidos, poéticos e reveladores da dor sentida por todo um povo. O tributo foi feito, mas muito mais há por fazer.

Duas medidas urgem, no imediato: em primeiro lugar, um novo baptismo, tão rápido quanto possível, do Aeroporto Internacional de S. Pedro, com o nome de Aeroporto Internacional Cesária Évora, de onde ela tantas vezes saia para espalhar o nome de Cabo Verde pelo mundo. Em segundo lugar, a preparação, com gente empenhada, preparada e tecnicamente qualificada de uma candidatura da Morna a Património Universal da Humanidade, canção nacional de Cabo Verde, como aconteceu com o Tango, na Argentina e, mais recentemente, com o Fado, em Portugal. Duas iniciativas que não nos vão trazer a diva de volta ao nosso convívio diário, mas irão, certamente, contribuir para engrandecer toda a monumental herança que ela nos deixou. É hora de sermos dignos dela.

@Foto de João Barbosa, todos os direitos reservados





Cesária Évora, no filme "O Testamento do senhor Napumoceno"




Um país inteiro de pés descalços

A primeira vez que chorei em Cabo Verde, há quase vinte anos, foi por ter ouvido a voz de Cesária Évora, que se apoderou de mim como um furacão de alma e sentimento. Tinha acabado de chegar ao Mindelo e pela mão do músico Vasco Martins fomos a um bar de amigos, para um serão tranquilo de boa conversa. Estava sentado, distraído com uma qualquer leitura, quando aquele espaço foi invadido por uma voz única, grave, possante. O disco era o Miss Perfumado, o CD que haveria de catapultar Cesária para a fama internacional, por via do mercado francófono e a transformaria na maior embaixadora da história do arquipélago, hoje no mapa global muito por responsabilidade do retumbante e espantoso sucesso da sua ímpar carreira.

No saudoso Café Royal, da mítica Rua de Lisboa, para onde ela ia quase diariamente, numa época em que ainda não tinha que viajar constantemente, com tournées que a obrigavam a ficar tão longe da sua cidade querida, a sua chegada de carro, sempre com um condutor próprio, e a entrada com os pés descalços no estabelecimento, eram dignos de um cerimonial que nunca mais esquecerei.

A mesa onde se sentava Cesária ia-se enchendo e esvaziando, à medida que ela recebia amigos, familiares, conhecidos ou curiosos. Pagava bebidas a todo o mundo, dava dinheiro aos pedintes, brincava constantemente com aqueles que a rodeavam, muitos já adivinhando que ali estava uma fonte inesgotável de talento e projeção. Na sua casa, sempre tinha a porta aberta, com o mesmo espírito generoso, próprio de uma grande matriarca.

Hoje, depois do choque inicial, a voz de Cesária Évora ecoa por toda a cidade do Mindelo. Nas ruas, nos cafés, nos bares, nos carros, nas vozes das pessoas. Um mendigo grita no centro histórico do Mindelo: Cesária já morrê! Hoje, Cabo Verde, é uma Nação que se curva, de pés descalços, perante a sua maior Diva.






Cesária Évora
(1941 - 2011)

Que dia tão triste. Que dia triste...






Qual a melhor posição para dormir e porquê?




À melhor resposta, ofereço um café





A amnésia do leão é a glória do caçador

"Soube, com espanto, que a Universidade do Mindelo decidiu atribuir um doutoramento honoris causa ao Professor-Doutor Adriano Moreira, escolhendo para tal o dia 10 de Dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

De acordo com o site da dita Universidade, farão o elogio e o apadrinhamento do homenageado dois respeitáveis cidadãos cabo-verdianos: Onésimo Silveira e Germano Almeida.

Não pondo em causa as qualidades académicas do Professor-Doutor Adriano Moreira, não posso deixar de pensar que conceder-lhe o Doutoramento Honoris Causa no Dia Internacional dos Direitos Humanos, tendo sido ele o autor da Portaria 18539, de 17 de Junho de 1961, que instituiu o Campo de Trabalho de Chão Bom – onde estiveram presos, em condições de inumanidade, mais de duas centenas de nacionalistas de Angola, Guiné e Cabo Verde – é, além de uma notável demonstração de humor negro, uma afronta à memória dos homens e mulheres que lutaram pela libertação dos seus países do jugo colonial português. Não se trata de perpetuar ódios, mas de respeitar a memória das vítimas.

No cemitério da Vila do Tarrafal permanecem ainda os restos mortais dos guineenses Cutubo Cassamá e Biaba Nabué, falecidos no campo a 12 e 24 de Novembro de 1962. Morreram também, em consequência da sua detenção no campo, os angolanos António Pedro Benge (13 de Setembro de 1962) e Magita Chipóia (13 de Maio de 1970). Muitos outros presos – alguns dos quais cabo-verdianos – vivem ainda as consequências dos maus tratos sofridos no campo mandado reabrir pelo agora homenageado no Dia Internacional dos Direitos Humanos.

Estranho o menosprezo da Universidade do Mindelo pela história recente do seu próprio país. É certo que vivemos tempos de amnésia e indiferença, mas temo que um povo que ignora o seu passado ponha em causa o seu futuro. Até por que, como lembra o provérbio africano, “enquanto o leão não escrever a sua História, a glória será sempre do caçador”.

Diana Andringa


Adenda: nada a acrescentar ao que a jornalista Diana Andringa escreve aqui. Esta homenagem é apenas mais um (triste) sinal dos tempos que correm. Margoso mais margoso, não há...




Mulheres experimentam, em média, 21.000 peças de roupa durante a vida
(fonte: aqui)


Nada que um homem que acompanhe habitualmente a sua cara metade às compras não saiba já!








Muito bom para começar a semana! E só para contrariar, adoro segundas-feiras!






A pior forma de encarar determinadas realidades é pensar que certos males só vão acontecer aos outros. Isso continua patente, por exemplo, na forma como encaramos a prevenção contra doenças sexualmente transmissíveis, como não nos preocupamos em poupar energia, ou como continuamos a apontar o dedo aos problemas do vizinho. Estamos perante o conhecido - e quase tradicional - meter a cabeça na areia ou tapar o sol com uma peneira, expressões que combinam com as características naturais e geográficas do arquipélago cabo-verdiano, já que. como sabemos, areia e Sol são elementos que nunca faltaram por estas paragens.

E tem dias em que tudo isto mete medo. Continuamos a olhar para S. Vicente duma forma superficial, redutora, escolhendo o ângulo que melhor serve os nossos interesses ou a empatia que temos pelo lugar. Costuma-se dizer que o amor é cego, mas neste caso não é apenas cego, é perigoso. Amar a cidade e a ilha requer abrir o olho para a realidade que nos cerca e não sair cantando alegremente que Soncent é sab pa cagá, mesmo que essa "melodia popular" já tenha sido utilizada como exemplo na rádio por um convidado ilustre, como uma música característica da ilha do Porto Grande (ao que isto chegou!).

Na passada semana, uma senhora e uma jovem, mãe e filha, foram brutalmente baleadas, à porta da residência e dentro da própria viatura, para onde se dirigiram, numa fuga desesperada. Foram disparados quatro tiros, com uma arma de guerra. Todos eles acertaram nas vítimas, que só escaparam por milagre, embora ainda estejam no hospital em estado considerado grave. Foi uma execução. Falhada, mas foi, porque quem disparou, atirou para matar. Tudo isto aconteceu em Alto de S. Nicolau, onde vivi recentemente durante alguns anos. Numa zona movimentada. Por onde eu passava todos os dias, com as minhas filhas. Se isto não é suficiente para reflectirmos sobre o estado a que isto chegou, abrir os olhos e não cruzar os ombros, à boa maneira mindelense, e dizer que estas coisas "só acontecem na Praia", não sei o que mais será preciso.

Não dar atenção aos sintomas é o primeiro e definitivo passo para definhar de uma doença terminal. Falar que S. Vicente está falido e ver a fila monumental de gente à porta do Ponta d'Agua todos os Sábados, pronta para pagar por mais uma valente paródia de fim-de-semana, não combina. Há muita coisa que não bate certo nesta história. Mais: afirmar, nos discursos políticos, que "S. Vicente tem tudo para dar certo", tem o mesmo peso e a mesma redundância, que os cânticos do povo no já célebre Sab pa Cagá. 

Um dia, acordaremos para esta triste realidade e por amor à minha ilha e à minha cidade, só espero que esse despertar não chegue tarde demais.




Que legenda para esta imagem?

À melhor legenda, ofereço um café 




Li isto no Facebook, não tenho como não partilhar:

"A Alemanha atribuiu um orçamento extra de 50 milhões de euros para a Cultura. O ministro alemão da cultura declara à imprensa "Não se trata de um subsidio. Trata-se de um investimento significativo no futuro da sociedade alemã". Todos os partidos, desde a esquerda à direita, aplaudem o Ministro Alemão da Cultura e congratulam esta medida. A cultura passa a ser assim 5,1% do Orçamento de Estado na Alemanha."

E isto, em plena crise, provavelmente a maior desde o final da Segunda Guerra Mundial.

Ver o link da notícia, aqui.


Imagem: "The Rite of Spring" de Pina Bausch




Para que a gente nunca se esqueça de que, apesar de hoje ser oficialmente o Dia Internacional de Luta Contra a Violência à Mulher, essa luta deve ser feita diariamente e a todo o momento. Quem cala consente. Há que denunciar e acabar com essa hipócrita e cínica desculpa de que entre marido e mulher não se mete a colher. Oie viv na melon e mai nada!








"A economia de São Vicente é muito baseada no tinha. A ilha tinha o maior complexo de frio do país onde armazenava peixes e outros congelados mas este pegou fogo e nunca mais foi reconstruído. Tinha fábricas de sapato e vestuário que fecharam e hoje os operários estão no desemprego. Tinha a intenção de receber grande número de embarcações no seu Porto Grande que já foi muito frequentado mas que hoje recebe poucos navios anualmente. Tinha o desejo de incrementar o turismo com vários vôos no Aeroporto de São Pedro mas na verdade recebe escassos voos internacionais por semana."

Odair Varela - Jornalista (crónica completa, aqui)






Porque raio é que as mulheres continuam a justificar-se com o misterioso TPM, quando o mau-humor feminino pode aparecer a qualquer momento independentemente dos ciclos menstruais ou das fases da Lua?

À melhor resposta, ofereço um café













Estas imagens tem muito de teatral, não tem? 

Magnífico trabalho do fotógrafo Dariusz Klimczak (galeria completa, aqui)






Depois do comportamento dos senhores deputados na sessão da manhã da Assembleia Nacional só me vinha à cabeça uma frase do dramaturgo Nelson Rodrigues:

"Hoje é muito difícil não ser canalha.
Todas as pressões trabalham para o nosso
aviltamento pessoal e colectivo."

Se estes senhores são representantes do povo, estamos mesmo entregues à bicharada! Se os dois maiores partidos, que constitucionalmente representam mais de quatro quintos dos cabo-verdianos tivessem um pouco de coragem, a solução seria simples: processos disciplinares nos dois deputados que pisaram o risco e extravasaram uma discussão política para o campo do insulto pessoal. Inadmissível. Mas claro que todos sabemos que isso nunca irá acontecer...

Além disso, esta sessão só veio demonstrar, mais uma vez, que o senhor Presidente da AN não tem pulso para dominar o plenário. Não o respeitam e não se faz respeitar. Parece o actual treinador do FC Porto, credo!




VIDA DO AMERICANO
iPhone
iPad
iPod
iMac
iCloud

VIDA DO CABOVERDIANO
Ai Electra
Ai Tacv
Ai TCV
Ai Caço Body
Ai Zap
Ai Net
Ai Vidaaaaaaaaaaaaaaa


Sempre abominei mini-misses. Essas pseudo-actividades socio-culturais que promovem o culto do corpo em meninas de 5 a 10 anos de idade, com desfiles que já são de gosto duvidoso com mulheres adultas, sempre me causaram algum asco. Mais ainda tendo em conta, por um lado, a indumentária que as crianças são obrigadas a usar, com mais corpo à mostra do que protegido e o fundo musical que acompanha a coisa, com qualidade directamente proporcional ao triste espectáculo que se depara em frente dos nossos olhos. 

Sentia-me ainda mais horrorizado e revoltado ao verificar que muitas dessas actividades eram promovidas por educadores (?) e encarregados de educação (??) das crianças envolvida nas famosas "festas de zona" da cidade do Mindelo. O que raio é que passa na cabeça dessas pessoas, num país onde os casos de pedofilia crescem a olhos vistos e onde a maioria destes casos acontecem no lar onde as crianças vivem e dormem ou nas escolas onde estudam?

Com este vídeo, batemos no fundo do poço. O início do vídeo é apenas asqueroso pelo mau gosto pornográfico que o caracteriza, mas o final é mais do que isso, é criminoso. O local é identificável, as crianças também, os adultos que assistem passivamente e aplaudem esta pouca-vergonha também. Isto para mim só tem um nome: é um caso de polícia.

É hora de dizer basta.



Outubro, chuvas em S. Vicente




Os Amadoristas

1. Quando participei no último Fórum Nacional da Cultura, em 2008, na cidade da Praia, a convite do então Ministro Manuel Veiga, fi-lo com grande empenho e entusiasmo. Participei dos trabalhos, preparei uma comunicação, fiz parte de um dos grupos de trabalho, escrevi crónicas calorosas sobre o sucedido. Durante dois dias, a Biblioteca Nacional fervilhava de gente de todas áreas criativas, desde a literatura, o teatro, a música, as artes plásticas, a fotografia, o design e o audio-visual. Do encontro saíram várias intervenções entusiásticas, muitos dados para se trabalhar, dezenas de recomendações concretas e inúmeras promessas. Lançaram-se novos paradigmas para a cultura, falou-se dos diamantes por lapidar e prometeu-se, com toda a pompa, um Plano Nacional para a Cultura que nasceria inevitavelmente depois de um parto natural nunca superior a seis meses de duração. Nada aconteceu e eu, decepcionado, jurei que nunca mais me apanhariam numa dessas.

2. Ora, acontece que a nova equipa do Ministro da Cultura Mário Lúcio Sousa, cuja ambição em termos de objectivos de implementação de medidas, reveladas nas últimas e públicas intervenções, combina com a qualidade da equipa que se juntou à sua volta, com muitas pessoas que entendem do assunto, que são também eles artistas, que viveram e sofreram na pele muitos dos constrangimentos que muitos de nós vivemos e sofremos no dia-a-dia, ora acontece, dizia eu, que a nova equipa deste ambicioso Ministério da Cultura, se prepara para organizar um novo Fórum Nacional da Cultura, na ilha de S. Nicolau. Tremi com a ideia. Pensei “outra vez?”. E de novo, com os meus botões, “para quê?”. Mas finalmente, veio a conclusão lógica para estes devaneios, “Porque não?”. Se for para reflectir e ouvir os artistas, vamos a isso! Só peço é que depois, com o entusiasmo que tais encontros sempre acarretam, não venham com promessas que não possam concretizar.

3. Queria pois, a partir desta simbólica e humilde plataforma dar uma contribuição. Para já, é preciso definir, e o quanto antes, sobre essa coisa que é a condição do artista em Cabo Verde. Quem é artista e porquê? O que o define? Que percurso, na formação, informal ou académica, ou na actividade concreta no terreno, é necessário para se conseguir aceder a esse estatuto? Essa definição do Estatuto do Artista é urgente e não pode nem deve, do meu ponto de vista, passar pela questão da profissionalização, pelo menos para já. Não andarei muito longe da verdade se disser que mais de 90% das pessoas que trabalham na criação artística não o fazem de forma profisisonal, ou seja, não tiram dessa actividade rendimento suficiente que permita o seu sustento e o de quantos dependem dele. E isto contando também a vertente musical, que domina em larga escala, o leque da criação cultural cabo-verdiana.

4. Muitos destes artistas criam e desenvolvem a sua actividade porque tem um emprego que lhes permite retirar o sustento que a arte nunca lhes deu. Mas nem por isso deixaram de dar a sua contribuição. O ideal seria que todos conseguissem se profissionalizar, mas permite o nosso mercado que isso aconteça? A internacionalização da cultura cabo-verdiana vai, um dia, contribuir para que tal meta possa ser atingida por alguns? Parece-me consensual que hoje (ainda) não permite. Cesária Évora é excepção, está longe de ser regra. E daí que se chegue à tão temida palavra “amador”, que vem quase sempre carregada de uma nuvem negra, com uma carga perjorativa, um assombro de desconfiança. Nada mais enganador. Amador é aquele que ama o que faz. Que não deixa de fazer, mesmo que saiba que não o faz por dinheiro ou outra qualquer outra razão que não seja o prazer que retira do processo de criação, seja no momento da concepção seja no momento da partilha com o seu público. É um amante por natureza. Ama, de paixão, e entrega-se. Um artista amador é um amadorista. A melhor classe de artistas que pode existir no mundo. A que mais existe em Cabo Verde.

5. Sendo a grande maioria dos nossos artistas amadores, e portanto com empregos que lhe garantem um sustento que a arte ou a criação nunca conseguirão assegurar, essa questão do Estatuto do Artista atinge uma importância nuclear. Por várias razões, sendo que as mais óbvias e conhecidas são duas: licenças laborais para a actividade artística e a conceção de vistos para apresentações internacionais. Uma e outra implicam autênticas odisseias homéricas que envolvem burocracias, tempo perdido, dinheiro e energia gastos e, quantas vezes, desistências de participações em eventos por não se ter conseguido a indispensável autorização ou o selo mágico no passaporte. É urgente, por um lado, chegar a algum acordo com as empresas e os próprios organismos do Estado, sobre o número de horas (ou dias) que um artista, com um estatuto reconhecido pelo Ministério da Cultura, pode, sem obstáculos burocráticos, usar de forma justificada no exercício dessa actividade. É urgente, ainda, no âmbito dessa misteriosa organização internacional chamada CPLP, se consiga chegar a um acordo para a criação de um Passaporte do Artista, que permita a circulação de toda essa gente entre os países de língua portuguesa, contribuindo assim para uma verdadeira e igualitária possibilidade de intercâmbio e trocas culturais.

Crónica publicada no jornal A Nação




Uma das maiores manifestações de ignorância que existe é fazer-se julgamentos de pessoas que não se conhecem. Tenho dito.




...e esta?





Dôs com Vasco Martins


Conversa com Vasco Martins, instrumentista versátil de raros recursos, e o único compositor de música sinfónica em actividade em Cabo Verde, com uma vastíssima obra, reconhecida de há muito internacionalmente. Muito discreto, raramente dá entrevistas e desta vez, em pleno Monte Verde, não hesitou em abrir a alma e mostrar um pouco mais do seu lado de homem e artista. Um precioso testemunho para se entender como é possível que num país como o nosso, um génio orquestrador se possa revelar, numa inspiração rara que mistura ritmos, pedras, mar, natureza e uma forma muito peculiar de estar na vida e no mundo da criação artística.

O PAPEL DO ESTADO

Que perspectivas é que tens em relação ao novo Ministério da Cultura, tendo em conta que quem está à frente da tutela é um teu colega de profissão e amigo pessoal? Achas que pode deixar a sua marca?

Vasco Martins: Eu e o Mário Lúcio somos amigos. E a partir daí, tudo o que eu possa dizer vem também do coração. Mas por aquilo que eu sei, até porque já falamos muito sobre estes assuntos, ele quer fazer muita coisa, está a avançar em muitos projectos. O Mário Lúcio viveu na pele a problemática do que é ser artista em Cabo Verde e agora que está na posição de ministro sabe perfeitamente o que é preciso fazer. É disso que estamos todos à espera.

E o que te parece que é mais urgente que seja feito no domínio da politica cultural? Qual deve ser, afinal, o papel do Estado no desenvolvimento cultural de um pais como Cabo Verde?

É a velha questão que se coloca praticamente desde a nossa independência. Acredito que a intervenção do Estado deva ser feita em três domínios principais: primeiro na educação, nomeadamente na educação artística. Depois, numa intervenção nos meios de promoção e divulgação das pessoas que já tem obra, que precisa de ser divulgada e, sobretudo, muito mais promovida. Finalmente, a questão dos direitos de autor, que é bastante delicada porque somos um pais com parcos recursos. Aí, como noutros domínios, penso que o Estado deve intervir. Deve ter sempre um papel motor fornecendo energia de ordem económica mas também moral. Uma outra questão é a dos concertos, isto no domínio da música. Cabo Verde é tão pequeno que não faz sentido não extrapolar para fora todas as energias criativas dos bons projectos que tem sido feitos e desenvolvidos cá dentro. Por exemplo, lembro-me do caso da Finlândia, até porque sou um grande admirador do compositor Sibélius, que logo depois da sua independência, investiu fortemente durante muitos anos na promoção e divulgação da sua música no estrangeiro, não só sinfónica mas também popular, em países da Europa e também nos Estados Unidos da América.

ORÇAMENTO PARA A CULTURA MAGRO

Que é o que faz o Brasil hoje...

Exactamente, o Brasil aposta fortemente na divulgação da sua música no exterior, com os resultados que estão à vista de todos.

Costumamos dizer que Cabo Verde é muito conhecido lá fora, sobretudo por causa da sua música, mas esse é um esforço que tem sido feito pelos próprios produtores e músicos. Aí, o Estado tem tido uma intervenção reduzida e a dificuldade no aparecimento de novos valores e na sua divulgação acaba por ser muito maior...

Para já penso que tem que haver um maior orçamento para a Cultura. Ouvi dizer que neste momento está em 1% do bolo orçamental e eu considero que isso é muito pouco. Tem que haver mais meios económicos, mais meios humanos, para extrapolar tudo isto, não só dentro do pais, como também no estrangeiro.

Podemos pensar no teu próprio percurso, não é? Estamos num país que, apesar de relativamente jovem, apenas tem um único compositor de música erudita ou sinfónica. Isso não é um comprovativo do acto falhado que tem sido a educação artística de base no arquipélago, o facto de tantos anos depois ainda seres uma espécie de pregador no deserto no que diz respeito a essa vertente musical?

Eu faço música sinfónica porque razão? Se Cabo Verde tivesse uma orquestra sinfónica, se houvesse um público, uma rádio que transmitisse música clássica sem ser nos enterros, poderíamos compreender o meu trajecto. O meu trajecto, na verdade, é muito individual, muito meu. E também por isso não me considero um exemplo. Tendo um pais como este, até parece surrealista e algo louco que haja aqui um compositor sinfónico. O certo é que há, mas foi um caminho solitário.

ARISTIDES PEREIRA, O MECENAS

Não és um exemplo, mas o teu caso deve ser visto com atenção. Foste criado por ti próprio, não pelas condições onde estás inserido.

A história vem de trás. Quando tinha vinte e poucos anos lancei uma cassete artesanal no Daniel Vitória. Ele tinha por hábito na época fazer esse género de gravações com música de baile, como com os Kinkgs, por exemplo, música revolucionária, música acústica. Ele também gostava muito de música clássica e um dia ouviu-me tocar. Disse-me, “Vasco, vamos fazer uma cassete!”. E gravamos num piano vertical, que depois o Chico Serra acabaria por adquirir para o seu piano bar. A venda dessa cassete rendeu oito contos e tal, o que era bastante dinheiro em 1976. O Daniel Vitória não quis saber de ficar com o dinheiro e eu pude comprar um piano alemão para mim, graças a ele. Essa primeira cassete, que tinha o nome pomposo “De Quando Nasce o Homem”, foi parar não sei como às mãos do Presidente Aristides Pereira. Um dia o Daniel Vitória chamou-me e disse-me que o Aristides Pereira gostaria de conhecer-me porque levava sempre essa cassete para ouvir nas viagens dele. É importante que se diga que o Presidente Aristides Pereira na época foi aquilo que nós designamos hoje um mecenas, e não foi só para mim. Foi um mecenas para muitos artistas cabo-verdianos. Organizamos então um sarau em casa do Djosa Marques, onde estava o Aristides Pereira, a esposa, o Abílio Duarte. Ele ficou encantado quando me ouviu tocar e disse-me “eu quero ajudar-te. Como é que posso fazê-lo?”. E eu disse-lhe, “preciso de papel de música”. E todos os meses, durante algum tempo, recebi através do banco dois contos que me permitia não só comprar papel de música, mas também mandar buscar livros de piano em Portugal e outros materiais. Portanto, foi alguém com um pensamento de Estado, porque o Aristides Pereira era um homem de Estado, um mecenas, um melómano, que me resolveu apoiar quando estava a começar. Não só a mim, mas muitos outros artistas. Isso deu-me uma grande força moral.

E houve mais contactos com o Presidente Aristides Pereira?

Sim, houve sim. Quando o Presidente recebeu um piano novo convidou-me, tinha eu vinte e dois anos, juntamente com a Tututa, para darmos um concerto íntimo em homenagem ao Presidente Senghor, que estava de visita a Cabo Verde. Entretanto, o jantar demorou mais que o previsto e o concerto acabou por ser cancelado. No dia seguinte, eu e a Tututa, como não demos concerto, quisemos tocar para nós, para pelo menos poder estrear aquele belo piano (risos). Eu toquei, ela tocou. Tocávamos a quatro mãos, divertidos, ela sempre do lado esquerdo porque tinha uma mão esquerda incrível, eu do lado direito a improvisar. O Presidente Aristides, ouviu, foi à sala e imediatamente organizou um concerto íntimo para aquela mesma noite com alguns convidados, onde com a Tututa estreamos o tal piano, agora oficialmente. Isto é bonito, sabes?

É uma bela história.

Esta é a minha história, compreendes? Quando eu saí do grupo Colá, fiz questão de escrever na acta: “saio porque quero ser sinfonista.” E assinei o meu nome. E aí começou a minha viagem.

FALTA DE SEGUIDORES

Vasco, porque é que não há seguidores? Mais compositores que se interessem por música sinfónica? Porque é que não há sequer uma pequena orquestra de câmara em Cabo Verde, que se auto-intitula tantas vezes um país musical? O que falta para construirmos canais de ligação entre os jovens e a chamada música clássica?

Tendo Cabo Verde como referência, conhecendo a nossa realidade, é difícil aparecer mais gente na área. Mas por vezes, pergunto a mim próprio se não serei um pouco culpado, por nesses vinte e cinco anos que estou por cá não ter também incidido mais a minha acção na educação e nas energias da acção. Por exemplo, organizar uma orquestra, uma escola, isso são acções. Não havia professores, temos que ir buscá-los, numa primeira fase. O que se passa é que, por temperamento, nunca estive muito voltado para esse género de acção. Por outro lado, também podemos compreender que se eu gastasse as minhas energias a fazer isso, não teria conseguido fazer o que fiz. Não teria tido tempo para fazer as nove sinfonias, a música de câmara, as Danças de Câncer, os concertos para piano, os concertos para violino. Olha, em França, o meu professor de composição avisou-me, “ninguém dá trabalho a um compositor, mas se tu estudares etno-musicologia certamente terás emprego.” Ouvi o conselho dele. Ao mesmo tempo que estudava composição, também estudei etno-musicologia e foi nessa última condição que regressei a Cabo Verde. Pouca gente sabe disso, até porque ninguém mo perguntou, mas eu desde 1986 que sou funcionário do Estado de Cabo Verde. Faço o trabalho de investigação sobre a música de Cabo Verde, publiquei o livro sobre a morna e isso também deu-me tempo para compor. Foi graças ao Estado, a essa minha condição de funcionário público, que consegui fazer o que fiz. Dai a minha gratidão a este país.

Não sentes a necessidade de, além da tua arte, dar algo mais em troca? Partilhar o teu conhecimento, conseguir criar algum discípulo nessa vertente da composição?

Na verdade, a única pessoa que encontrei durante todo este tempo realmente interessada em aprender composição e orquestração foi o Voginha. Nomeadamente, para aplicar esses conhecimentos na vertente do jazz ou da música mais tradicional. E concluímos que eu não seria a pessoa ideal para o ensinar, porque a minha via é mesmo a da música sinfónica.

E isso não te trás algum desconforto, alguma mágoa pessoal?

Não, porque eu acho que a música sinfónica é um chamamento. Aliás, como tudo na vida e, mais ainda, no mundo da arte. Quando não há apelo, é porque não há interesse. Mas olha, neste momento, tenho três alunas que estão a aprender piano comigo na Ribeira do Calhau. Uma tem nove anos e as outras duas, doze anos. Estão na idade ideal para este tipo de aprendizagem. Daqui a algum tempo, quem sabe? Agora, eu gostaria de transmitir aquilo que sei e aquilo que fui adquirindo ao longo dos anos em termos de poética musical, mas também não há apelos. Nem da parte das universidades. Já tentei alguns contactos informais, mas não houve qualquer feedback.






"Filho é um ser que nos foi emprestado para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo! Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado. Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo."

José Saramago





O Grande Mecenas

1. Um dos maiores prazeres das conversas que tenho tido com artistas e criadores, na sua grande maioria nacionais, para a rúbrica Dôs publicada no jonal A Nação, tem sido conhecer pessoalmente histórias de vida e episódios incríveis, que demonstram, se preciso fosse, o quanto tantos e tantos artistas são verdadeiros heróis por continuarem a batalhar, a acreditar, a criar, a contribuir para que Cabo Verde pudesse ainda hoje, e apesar de tantas e tantas promessas nunca cumpridas, ser considerado um país que vive e se revela, sobretudo, através da sua cultura e da arte dos seus criadores.

2. Por outro lado, a montagem de uma peça de teatro, por ser uma arte que envolve múltiplas facetas, implica que tenha a sorte de contactar e trabalhar com criadores de outras áreas, como músicos, artistas plásticos, coreógrafos, escritores e fotógrafos. A arte cénica tem nela todas as outras, costuma-se dizer. Quanto produzimos uma peça temos que dominar linguagens tão diversas como a expresão corporal e vocal, a arquitectura, as artes plásticas, a escrita, a música. E como não podemos trabalhar sózinhos, mais ainda se compreende como o teatro é ainda a arte do colectivo, que vive da força do grupo, ao contrário da pintura ou da literatura, que vive da capacidade de isolamento e de solidão dos criadores destas áreas.

3. Foi assim que ao longo do meu percurso enquanto encenador do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português – IC, que já produziu 46 peças de teatro em 18 anos de história, tive a sorte de me cruzar com grandes figuras que contribuíram, com a sua arte e generosidade, para o sucesso de cada um desses trabalhos, que vem marcando a história do teatro em Cabo Verde. Desde muito cedo entendi o quanto importante era esse envolvimento de artistas de outras áreas criativas, no só para potenciar o talento dessas pessoas, como também para mostrar que em arte não só é possível, como me parece indispensável, trabalharmos juntos para um bem que pode ser comum e património de todos nós.

4. Manuel Figueira, porventura o maior pintor da nossa ainda curta história, definiu e pintou, com as suas próprias mãos, os painés que constituíram o cenário da peça “As Virgens Loucas”, adapação teatral do célebre conto de Aurélio Gonçalves, levado à cena no ano de 1996 (e reposto em 1997), que contou ainda com a participação directa do mestre Luís Morais, tocando ao vivo nas apresentações. Orlando Pantera, outro genial músico, que nos deixou de forma mais do que prematura, compõs e gravou nos estúdios da Rádio de Cabo Verde, ali na marginal do Mindelo, perante meus olhares de admiração e espanto, temas inéditos e versões de outras músicas suas, para a peça “Os Dois Irmãos”, outra adaptação para o teatro, desta feita de um dos romances mais emblemáticos de Germano Almeida.

5. Pude trabalhar e me cruzar com pessoas incríveis e generosas, como Vamar Martins, Mário Lúcio Sousa, Luísa Queirós, Bento Oliveira, Manu Preto e, mais recentemente, na produção “Bodas de Sangue”, com os criativos Fernando Morais, que confeccionou os adereços, Manu Cabral, que desenhou e coordenou a componente dos figurinos, Di Fortes, que dirigiu a componente musical e tocou o seu violoncelo eacompanhado de Dani Monteiro, no clarinete e Janaina Alves, que se responsabilizou pela maquilhagem. Isto, referindo apenas aqueles que fizeram o seu trabalho criativo fora do palco, ou seja, excluindo esses outros essenciais e indispensáveis à vida de qualquer peça de teatro, os actores e actrizes, que em palco, se dão e se despem, perante um público voraz.

6. Pelo respeito profundo que tenho por todas essas pessoas, e muitas outras com quem tive a sorte e o prazer de trabalhar ou, mais recentemente, de interpelar em agradáveis conversas, nunca me apanharão a utilizar este ou outros espaços de opinião, para maldizer, destratar, minimizar ou desrespeitar o trabalho dessa generosa gente. Também por isso, venho aqui recordar um episódio que foi relatado por Vasco Martins, precisamente na rública Dôs, sobre a importância do Presidente Aristides Pereira como pessoa que sempre apoiou os artistas da sua terra, por vezes de forma tão concreta, que o sinfonista não exitou em o apelidar de “o primeiro verdadeiro mecenas de Cabo Verde”.

7. Também por isso, embora compreendendo, respeitando e acatando a decisão, não entendi a anulação de várias actividades culturais que já estavam marcadas há muito, por motivos do luto nacional decretado pelo Governo de Cabo Verde. Penso que não haveria melhor forma de homenagear o homem e o Mecenas que foi Aristides Pereira, do que presentear por todos os cantos das ilhas, concertos de música, peças de teatro, espectáculos de dança, happenings envolvendo artistas plásticos, recitais de poesia, para nos lembrarmos dessa figura ímpar da nossa história. Porque há muitas formas de encararmos a morte, e a melhor de todas é, certamente, celebrarmos a vida. E nada melhor que a arte e a criação artística para o fazer.

Crónica publicada no jornal A Nação



Steve Jobs
(24 de fevereiro de 1955 — 5 de outubro de 2011)

"A Apple perdeu um génio visionário e criativo, e o mundo perdeu um ser humano incrível. Todos os que tivemos a sorte de conhecer e trabalhar com o Steve perdemos um querido amigo e um mentor inspirador. O Steve deixa uma companhia que só ele podia ter construído e o seu espírito será, para sempre, a base da Apple".

Nada a acrescentar a este comunicado oficial da Apple. O mundo nunca mais foi o mesmo depois do aparecimento daquela maçã mordida.




Não posso estar, de corpo; mas estarei, em espírito e por solidariedade. A situação é insustentável. As justificações inadmissíveis. As soluções propostas irrealistas. A falta de responsabilização dos responsáveis quase obscena. É hora da mobilização.





Qual a diferença entre o amargo e o azedo?

À melhor resposta, ofereço um café






No texto da peça Os Saltimbancos, o personagem Jumento diz, logo no início com alguma piada, que quando alguém não sabe o que pode fazer da sua vida, a melhor solução mesmo é virar um artista, já que hoje, diz ele, todo o mundo canta! Claro que todos sabemos que não é bem assim e devemos desconfiar, cada vez mais, de artistas que nasçam de geração espontânea, sem trabalho, sem aprofundamento, sem formação, sem questionamento, sem auto-exigência, sem humildade. Mas não é para falar dessas fraudes que aqui estou. Antes pelo contrário, quero dar um exemplo que me parece emblemático sobre o que representa ser um artista e o grau de entrega e generosidade que tal actividade deve representar para quem escolhe seguir por esta via, mesmo que para o fazer tenha que trabalhar noutras actividades, pois como sabemos, em Cabo Verde, a criação artística não permite na maioria dos casos que se encha uma dispensa ou se pague uma renda de casa.

O artista de quem quero falar é o palhaço Enano. A cidade do Mindelo já o conhece bem, pois pelo quinto ano consecutivo visita a urbe do Porto Grande deixando sempre grande animação em todos os cantos da cidade. Este ano, Enano, tinha três espectáculos marcados no âmbito do festival de teatro Mindelact. Pois bem, em nove dias, fez mais de dez representações. Enano esteve na Rua de Lisboa, invadiu o mercado municipal, atacou o mercado de peixe e mergulhou no mar da praia de catchorr. Fez de vagabundo e de polícia de trânsito. Promoveu uma divertida lição de culinária para as crianças, visitou o centro de nutricionismo do Mindelo e actuou num lar de idosos. Esteve no centro de pediatria do hospital, com o nariz verde característicos da associação dos Médicos do Riso, que por todo o mundo animam pacientes e crianças que, por infortúnios da vida, foram parar num hospital. Animou a entrada do Centro Cultural do Mindelo com um mimo que entregava beijos e corações, e um mestre de cerimónias que convidava os espectadores a passar por um tapete vermelho para, dizia ele de forma divertida, se sentirem importantes pelo menos por alguns segundos nas suas vidas. 

Na cerimónia de encerramento, o palhaço Enano foi homenageado. Mas não foi apenas o festival que se levantava para o aplaudir. Foi toda uma comunidade artística, toda uma cidade, todo um país. O discurso de Enano, que foi noticiado pela televisão de Cabo Verde, foi emocionante e deixou muitos assistentes de lágrimas nos olhos. Enano falou-nos do que é preciso: acima de tudo, não esconder as emoções, não ter vergonha de chorar, de ser ridículo, de arriscar, de se dar, de partillhar. Contou-nos como sofreu nos tempos de criança e na sua juventude, pelo facto de ser um gago crónico que mal conseguia dizer uma frase do princípio ao fim. Foi com a sua arte de palhaço de rua, de artista de rua, que ele se venceu a si próprio, ao mesmo tempo que se dava a todos os outros. 

Por mim, digo-vos sem problemas, por enquanto que ele quiser as portas do mindelact estarão sempre abertas para um artista fantástico e um ser-humano único como ele, porque ele representa, melhor do que qualquer outro que já encontrei ao longo do meu percurso de programador e encenador, o que deve ser o verdadeiro espírito e alma de um homem ou mulher que decide entregar parte substancial da sua vida à arte e à partilha humana. Que saibamos aprender com ele, é o que se pede e exige. Houvesse mais gente assim e o mundo seria, certamente, um lugar muito melhor para se viver.













"Bodas de Sangue", pelo Grupo de Teatro do CCP - IC. Fotografias de João Barbosa


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