Todos os anos, a rede social mais famosa de todos os tempos, escolhe e seleciona por nós, os momentos mais marcantes do ano, que na verdade mais não é do que uma matemática dos post's e fotografias que originaram maiores reações por parte dos amigos. Seja como for, não deixa de ser um interessante retrato do que de mais importante aconteceu durante o ano. 

Inspirado nesse mural, eis as imagens do ano:

Janeiro

Em Janeiro, uma visita à SP Escola de Teatro e um encontro histórico - para mim, claro - com o grande diretor Antunes Filho, o mais marcante do teatro brasileiro do último século.

Fevereiro

Uma experiência marcante, encenar Quarto do Nunca, no Teatro Vila Velha, em Salvador. Foi um sucesso! Um energia só possível com gente boa e empenhada. Regresso cansado, muito cansado. Mas feliz, muito feliz!

Março

Estreia e temporada de Escola de Mulheres. Segundo vários comentadores, uma obra prima do teatro crioulo! Na foto, com Janaina Alves, grande atriz, mulher e companheira de todos os dias e Renato Lopes, um dos actores mais promissores da nova geração.


Abril
Auto-retrato de um assassino de peças de teatro. Aviso desde já que todos os meus cúmplices serão condenados comigo numa mesma fogueira!

Maio

Venho por este meio avisar que, segundos estudos científicos publicados recentemente pela tão aclamada Universidade da Vida, a tendência para mandar o politicamente correto para a puta que o pariu, aumenta de forma exponencial com a idade. Obrigado.

Junho

O divertimento com as filhotas Laura e Inês é sempre fundamental para manter a sanidade mental que os novos tempos exigem! E o espírito cloun está sempre presente cá em casa!

Julho

Foi pensando no meu querido amigo Bento Oliveira que dei o meu expediente em conseguir estas folhas de rosmanim, que logo tratei de defumar, para afastar koza rum e más energias da minha casa, da minha família e das pessoas que amo. A casa cheira maravilhosamente bem e eu, como não podia deixar de ser, estou pronto e cheio de força para responder aos próximos desafios! Muita paz e luz pa tud gent!

Agosto

A peça "Teorema do Silêncio" do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo ganhou todas as 4 categorias da Mindel Awards 2013 dedicadas ao Teatro: Melhor Peça, Melhor Dramaturgia (Caplan Neves), Melhor Ator Fonseca Soares) e Melhor Atriz Janaina Alves). 


Setembro

Setembro, mês de estreia para "Tempêstad". Temos que estar orgulhosos, claro! Foi um grande, magnífico e generoso trabalho de equipa! Onde tudo estava canalizado para não dar certo! E como Shakespeare tão bem sabia, é nessas alturas que as melhores coisas da vida acontecem!

Outubro

Atualizando o meu currículo, acabei de descobrir que "Tempêstad" foi a minha encenação número 50. Brutal, não?

Novembro

Sérgio Grilo, deixa-nos. E deixa um enorme vazio a quem o conheceu. Grande homem, grande ator, grande alma. Até sempre! (na foto, apresentação de Closer, no festival Mindelact 2012).

Dezembro

Hoje é o dia especial do meu amor, Janaina! Apenas quero que tenha um dia em que ela sinta que tem muita gente, espalhada por três continentes, que a admira, e que elogia a sua inteligência, talento e beleza. Ela merece tudo. Merece ser feliz, e essa é minha missão! E porque hoje ela merece, em todos os outros dias ela merece também e mais ainda. Hoje é o dia especial do meu amor, Janaina! Parabéns!



Começa o tempo onde a mulher começa, é sua carne que do minuto obscuro e morto se devolve à luz. Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras com uma imagem. Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade uma ideia de pedra e de brancura. És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves, que te alimentas de desejos puros. E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola, a sombra canta baixo. Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua, onde a beleza que transportas como um peso árduo se quebra em glória junto ao meu flanco martirizado e vivo.

- Para consagração da noite erguerei um violino, beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada darei minha voz confundida com a tua.


Helberto Helder





Como habitualmente, no Café Margoso, faço as minhas escolhas para os acontecimentos mais marcantes do ano, em Cabo Verde e a nível internacional.

Eis as escolhas do Margoso:

Figura Internacional do Ano



Papa Francisco

Nunca fui crente de nenhuma religião e não poucas vezes me incomodou a postura da Igreja Católica e seus acólitos sobre tantos assuntos. Considero o mandato do antecessor de Francisco um desastre e a sua renúncia uma boa notícia para a humanidade. A grande surpresa para mim foi a postura, as ações concretas - muitas delas de enorme coragem - e as opiniões, no sentido de conseguir recuperar um pouco o crédito perdido pelo Vaticano. Hoje, os católicos tem um Papa que sabe sorrir e entende qual o seu papel. Um avanço enorme que trás alguma esperança mesmo aqueles que, como eu, não se revêm na religião católica. 


Acontecimento Internacional do Ano



Morte de Nelson Mandela

Não podia ser outra a escolha. Foi uma figura global que desapareceu e as reações chegaram de todas as regiões, quadrantes, hemisférios. As cerimónias fúnebres foram um desfile que nunca mais acabava de líderes do mundo inteiro que não quiseram deixar de lhe prestar a última homenagem. Inclusive aqueles que anos antes foram contra a sua liberdade...


Figura Nacional do Ano



Jorge Carlos Fonseca
O Presidente da República tem vindo, neste seu segundo ano de magistratura, a melhorar o seu desempenho a todos os níveis, quer político ou institucional, quer na forma como se relaciona com o povo e, em particular, com os artistas. Como não podia deixar de ser, a sua mensagem alusiva ao Dia Mundial do Teatro teve um impacto enorme, principalmente fora de Cabo Verde, onde o espanto e a admiração por ter-se um Presidente que fale sobre e com os que fazem teatro foi a nota dominante. 


Acontecimento Nacional do Ano



O desempenho dos Tubarões Azuis
Uma seleção de futebol que uniu todos os cabo-verdianos, com uma prestação memorável na Copa Africana das Nações. Depois não só uniu, mas deixou os crioulos a sonhar com uma possível presença no Campeonato do Mundo, no Brasil. A utilização indevida de um jogador, ainda muito mal explicada, deitou por terra uma possibilidade que nem era assim tão longínqua quanto isso. E do sonho se passou ao pesadelo com a culpa a morrer solteira, mais uma vez.


Muito interessante o trabalho de Anka Zhuravleva, "descoberta" pela minha digníssima e amada esposa Janaina. Descobri depois que ela é sagitariana - como a Jana - e que vive, desde 2013, na cidade do Porto.

Tudo coincidências, claro. Mas tão deliciosas quanto as suas imagens. 










Veja mais do incrível trabalho desta grande artista, aqui




10 mil contos. Pumba! Nem se pode argumentar que isto será com o dinheiro dos contribuintes, pois está anunciado que há patrocínios a cobrir a maior fatia dos custos. Mas agora eu pergunto: a troco de que contrapartidas? E quando aparecerem iniciativas privadas e essas mesmas empresas vierem dizer (como dizem quase sempre): "já gastamos todo o orçamento, não podemos fazer nada", como é que fica? Podem dizer que é prenda de natal, mas eu chamo a isto concorrência desleal. Mas o Mindelo festeja, não é? E isso é o que importa mais! Dexpox de sab, morrê ka nada! Boas festas!




Nesta polémica do concerto de final do ano em S. Vicente, este é o melhor texto que li sobre o assunto e aqui fica, com a devida vénia ao seu autor. 

"Tem Mandioca no fim do ano de São Vicente 

Kassav (palavra em crioulo antilhano que significa mandioca) é uma banda de zouk de Martinica e de Guadalupe formada em 1979. 

Realmente não entendo as vossas críticas pela vinda dos Kassav para nos dar música no final de ano no Mindelo quando se sabe que Cultura significa cultivar, e vem do latim colere. No final do ano estaremos a cultivar mandioca na Rua de Lisboa. Acho perfeitamente normal que o pelouro da Cultura da Câmara Municipal de São Vicente ofereça esta prenda (mandiocada) após um ano a investir a promover a Cultura da (na) ilha. Por exemplo, quem não se lembra dos vários concursos literários para jovens escritores/poetas, ou das exposições colectivas de jovens artistas promovidas pela CMSV ao longo de 2013? E dos projectos musicais que a CMSV aparece como co-financiador para jovens artistas e que hoje estão no mercado discográfico a enriquecer ainda mais Cabo Verde? Quem não se lembra do Roteiro Turístico da ilha que qualquer forasteiro pode adquirir e conhecer as belezas de São Vicente? Quem não se lembra dos livros co-financiados pela CMSV? Das formações aos jovens dançarinos, actores e outros agentes teatrais? Ou dos fóruns, seminários e palestras no âmbito cultural desenvolvidos ao longo do ano? Ou de acções com foco na cultura criativa, digital, artes visuais? Quem não se lembra do plano para exigir trabalhos definitivos no cinema EDEN PARK ou então a sua expropriação ao abrigo da lei que classificou como Património Nacional o Centro Histórico do Mindelo feita através da lei de Base do Património Cultural (lei 102/III/90 de 29 de Dezembro).

Bom... eu não me lembro mas isso não significa que não tenham existido, nera." 

 Dai Varela - jornalista




Qual crise! Qual dexmurs! Qual cluster do Mar! Mindelo é, cada vez mais, um Cluster da Paródia! Soncent é sab, é sab pa cagá, oh! Nada como a festa permanente para alimentar um estado de anestesia social! Crise na ilha do Porto Grande? Não me façam rir. I Love Mindelo!




Mais um belo passeio, proporcionado pelo Centro Cultural Português / Pólo do Mindelo, numa das actividades culturais mais originais dos últimos tempos.

Desta feita, o passeio é dedicado ao querido e saudoso António Aurélio Gonçalves, o nosso Nho Roque,

6º passeio: dia 21 de dezembro

Os lugares de António Aurélio Gonçalves
Guia: Dr. João Delgado Cruz
Ponto de encontro: biblioteca do CCP, às 9h00
Custo: 300$00
Inscrições na biblioteca do Pólo do Mindelo do Camões / Centro Cultural Português


“Sem ter feito parte do grupo fundador da revista Claridade, António Aurélio Gonçalves marca a diferença no panorama literário de Cabo verde. Inovador e arrojado, assenta na estética realista e naturalista oitocentista os alicerces da sua produção escrita, colaborando na fundação da modernidade literária cabo-verdiana. Apegando-se sobretudo ao mundo mindelense, procura temas pessoais e sociais, indicadores da decadência familiar, tão ao gosto naturalista. A análise é minuciosa e objectiva, dando especial destaque aos aspectos reais da vida social da sociedade e às personagens, cuja conduta é regida pela hereditariedade e pelo meio ambiente. Nesta condução pelos males sociais, Gonçalves dá primazia às personagens, em especial às personagens femininas, sobre as quais é centrada toda a narrativa.”

Maria João Gama in “O Universo Feminino em António Aurélio Gonçalves”, edição IC-CCP, 2009



Nelson Mandela
(1918 - 2013)





Porque isto das redes sociais como vem, assim vai, achei por bem publicar aqui na íntegra uma sequência de comentários de um post meu no Facebook, a propósito do Éden-Park. Não faço mais comentários, porque o que cada um escreve torna muito claro o que carácter de cada qual. Tomei a liberdade de colocar em destaque as partes que me pareceram mais interessantes. Também corrigi os erros ortográficos e gramaticais (e eram muitos), para amenizar um pouco a coisa. 

O texto inicial

"O Governo e a própria Câmara Municipal de São Vicente têm nas mãos o poder de ressuscitar o ex-cinema Eden Park. Eis a manchete do caderno cultural Kriolidadi. Para tanto, segundo a jurista Eva Marques, basta usarem as competências que lhes são atribuídas pela Lei de Expropriação, no caso do Governo, e o Código de Postura Municipal por parte da edilidade."

Afinal, o argumento de que "não se pode fazer nada porque é um imóvel privado" não é o assim tão óbvio! Parabéns Eva Caldeira Marques por ser a primeira eleita de Soncent a tomar uma posição pública em defesa do Éden Park.

Maguy Moniz: Expropriações só em casos convenientes...só em casos convenientes.
29/11 às 20:49 

João Branco: Pois!
29/11 às 20:49

Helena Fontes: Mas, isso de expropriações não são coisas de partidos comunistas????   
30/11 às 10:04

José Fortes Lopes: A batata quentíssima está nas mãos deles. Vamos ver como é que se desenvencilham. è importante que os cidadãos continuem a ser ser intervenientes
30/11 às 15:10

João Branco: Não se expropriaram terrenos para fazer estradas?
30/11 às 15:24

Maika Lobo: Éden Park é o único prédio em SV que se encontra fechado? Quantos prédios do Estado se encontram fechados e em ruínas? Porque sempre Éden Park?
1/12 às 3:30

João Branco: Porque não o Éden Park? Como subestimar a importância que este edifício histórico teve para Cabo Verde, em geral, e para o Mindelo, em particular. Sinceramente, e sem querer polemizar, não entendi o alcance do seu comentário, Maika Lobo! Brasa!
2/12 às 12:33

Maika Lobo: Deixe de disparate sr. João Branco! Prédio histórico? Quantos prédios que desempenharam no seu país o mesmo papel que o Éden Park é que demolidos? Dezenas, meu caro! E o senhor protestou alguma vez ? Deixe de falar de coisa que você não sabe e não percebe! Para sua INFORMAÇÃO nesta sexta feira chega a S. Vicente, dia 6 Dezembro, uma equipa de técnico que vem preparar os projetos e o inicio das obras de recuperação do Eden Park. Se a Câmara Municipal for ágil na decisão, essas obras iniciarão antes do fim do ano! Expropriação? Isso já nem se faz nem na Rússia nem na China! Aplicação das posturas municipais? Vocês não sabem do que falam! Procurem assuntos importantes e deixem de perseguir os investidores privados!
há 13 horas 

João Branco: Essa foi muito boa! O senhor Maika Lobo, que pelos vistos está mandatado para defender os interesses desses tais "investidores privados" que deixaram o Éden Park apodrecer aos olhos de todos, vem agora com essa grande novidade e fala "se a CMSV agir"? Se? Mas afinal em que ficamos? O Éden Park é a mais importante sala de espetáculos e de cinema de Cabo Verde. O senhor, que parece que está tão bem informado sobre o futuro do Éden Park, esclareça-nos a todos então: qual o projeto de recuperação, quais os prazos, o que vai acontecer àquela zona NOBRE da cidade? Agradecimentos!
há 13 horas 

David Medina: "Investidores privados" foi muito bom 
há 13 horas

Maika Lobo: Eu represento esse investimento privado e senhor Branco não tem nada a ver com isso. Estou informado e o senhor Branco nada tem a ver com isso. O sr. Branco passa a vida a fazer teatro e este é mais um teatro que faz! Não tenho nada para lhe informar sobre os prazos e sobre os projetos! Continue a fazer teatro e talvez é disso que o sr. percebe. Quem é o senhor para estar a pedir satisfações aos outros?
há 12 horas

João Branco: Eu tenho ver com isso como todos os mindelenses tem a ver com isso! Acho que o senhor está enganado. E está tão nervoso, porquê? Qual o problema? Não se vai resolver tudo a bem? Então: ainda vamos festejar juntos, porque ambos queremos o melhor para aquele lugar, não é senhor Maika Lobo! Paz e amor na terra, que estamos quase na época natalícia!
há 12 horas 

Maika Lobo: Não, não estou nervoso e nunca estive. Eu não tenho medo de nada nem de ninguém! Se eu tivesse algum medo, não assumiria esse papel publicamente! Mas quando vejo pessoas a fazer politiquices com tuta e meia, não fico calado, mas nunca! Quem disse ao sr Branco que o Eden Park é um património histórico está tão tão equivocado que o Sr.
há 12 horas

João Branco: Eu não falei de medo, o senhor é que falou. Eu falei que o senhor está nervoso e isso vê-se em cada intervenção que tem aqui. Não deixa de ser curioso... depois de virem a público possibilidades LEGAIS de resolução pelo Estado ou pelo Município desta vergonha, eis que aparece um representante dos donos! Não é uma coincidência interessante?
há 12 horas

Maika Lobo: Mais uma vez, deixe de disparate! Ninguém teme qualquer intervenção de quem quer que seja! Com quem é que o sr Branco pensa estar a dirigir?
há 12 horas

João Branco: Não sei. Não faço a mínima ideia. Apenas sigo o que vem sendo dito na comunicação social. Sinceramente, não faço a mínima ideia de quem seja o senhor. Perdoa-me a ignorância. Devia saber?
há 12 horas

Maika Lobo: Tudo o que o sr Branco diz é baseado em preconceitos e presunções! Mas isso é seu problema e é teatro medíocre, sr Branco.
há 12 horas

João Branco: Pronto, está mesmo nervoso. Facto!
há 12 horas

Maika Lobo: Não queira me ver nervoso! O sr é uma cassete? Repete sempre?
há 12 horas

João Branco: Eu não. O senhor é que fala, fala, fala e não diz nada. Porque ninguém tem nada a ver com o que o senhor possa ter a dizer sobre o Éden Park, não é? O senhor é dono da verdade e tudo o que foi escrito desde que o Éden Park foi abandonado e largado à sua sorte, servindo de latrina pública, na principal praça da cidade, é mentira, porque o senhor é que tem a verdade. Uma verdade com a qual ninguém tem nada a ver com ela! E como advogado (?) devia saber que quando uma das partes segue para o insulto é porque lhe começam a faltar argumentos... Será?
há 12 horas

Aldirley F. B. Gomes: Mas Sr. Maika Lobo o que seria preciso mais para considerarmos o Éden Park um património histórico?
há 12 horas

Maika Lobo: Então todos os prédios do mundo que alguma vez serviram de salas de espetáculos ou cinemas seriam património histórico. Nunca vi isso em parte nenhuma do mundo!
há 12 horas

João Branco: Vê-se mesmo que o senhor não é do Mindelo para dizer uma barbaridade dessas. Enfim!
há 12 horas 

Aldirley F. B. Gomes: Meu caro...qualquer caboverdiano nas ilhas ou no mundo sabe que o Éden Park não é e nunca foi apenas uma sala de espectáculos e/ou de cinema. Agora que não queira ver ou que nos interesses "subjacentes" não caiba esta definição são outros quinhentos.
há 12 horas

Maika Lobo: Sou de Cabo Verde! Também defendo que o cinema da Praia não é nenhum património histórico. Quer puxar a discussão para o bairrismo? Isto prova que esgotou os seus argumentos! Algumas pessoas que nada representam nos seus próprios países, ignorados completamente nos seus próprios países, acabam de pisar os nossos aeroportos, viram-se intelectuais, especialistas em tudo, dão opiniões sobre tudo, e acham que aqui só há tolos e tontos. Sima ta flado na nôs terra: ba pisca grilo
há 12 horas

João Branco: As palavras a quem as escreve. E quem quiser tentar compreender o que se passa, é tão simples, tão claro, que eu encerro a minha intervenção por aqui. Boa noite, meu caro!
há 12 horas

Maika Lobo: Boca fechada, a mosca não entra.
há 12 horas


Mindelo, 04 de Dezembro de 2013






«A multiplicação de identidades é infinita: para além das identidades sexuais, étnicas, históricas, religiosas, etc., podem-se imaginar as comunidades que multiplicam as marcas de pertencimento e, portanto, de exclusão. "O isolamento identitário, traz à luz a recusa do outro". Porém, o que será pior: o isolamento identitário comunitarista ou a multiplicação ao infinito e à absurdidade das identidades que decompõem o ser humano? Não é, no fundo, a mesma coisa?»

Patrice Pavis in "O teatro no cruzamento de culturas"





Que o fogo resolva

1. Um excelente trabalho do Notícias do Norte (de onde tirei a fotografia que ilustra a presente crónica) veio nos lembrar, mais uma vez, como está a situação do Éden Park. Mais uma vez. Mas para fortalecer o impacto, publicou imagens, em vídeo e fotografias. Que não surpreendem mas continuam a chocar. Porque não é novidade. Há anos que andamos a falar disto e nem era preciso. 

2. O Éden Park está na principal praça da cidade do Mindelo, porra! Está ali, à vista de todos. Eu, que uma vez chamei ao Éden Park de Cinema Paraíso, já invejo a sorte deste último, onde pelo menos houve a coragem de aprovar uma demolição e deitar aquilo tudo abaixo.

3. Agora, parece que corre riscos de pegar fogo. Um incêndio, mesmo ali no coração do Mindelo talvez funcionasse para acordar a cidade adormecida. No mínimo, correríamos todos para lá, saltando a fogueira a gritar, Soncent é sabe, é sabe pa cagá, op! E no final, entre cinzas e destroços, íamos para casa certos de que no dia seguinte não estaríamos sujeitos a presenciar o hediondo espetáculo que todos os dias somos obrigados a engolir. 

4. Lembro-me, numa das muitas FIC's do Mindelo, (cuja utilidade questiono, aliás), o Primeiro Ministro ter anunciado, alto e bom som que a cidade iria ter um novo, moderno, amplo e equipado auditório. Apesar de ser na anterior legislatura, lembro-me porque estava lá e o jornalista José Leite veio logo atrás de mim a perguntar "alguma reação?". Lembro-me de ter sorrido para ele e ter dito, "prefiro não comentar. " Foi na há alguns anos e o Éden Park já estava na triste situação em que hoje se encontra. Talvez com mais algumas telhas do que as que tem hoje. 

5. Também ainda não ouvi uma palavra dos responsáveis camarários sobre esta situação. Como se não tivessem nada a ver com a história da cidade que juraram servir quando foram eleitos. Como se o Éden Park não fosse um monumento da urbe que gosta tanto de gritar aos sete ventos que é a Capital Cultural de Cabo Verde. Ainda não ouvi nem vi na comunicação social nem lamentos, nem pressões, muito menos propostas ou soluções. Apenas um silêncio, tão absurdo quanto cúmplice. Mas devo ser eu que ando distraído, só pode!

6. O argumento, quando este assunto vem à baila de tal forma que não se pode evitar um comentário de algum responsável político, seja da administração municipal ou governamental, é que o edifício é privado. Não podem fazer nada. Mas e o interesse público, não conta? O facto de o edifício ter importância histórica e estar ali a apodrecer, não interessa? Não acredito que não possa haver uma solução legal para a aquisição daquele imóvel. Simplesmente, não acredito.

7. O teatro e o cinema continuam a ser artes que provocam grandes paixões numa cidade que curiosamente ou não, não tem nenhuma sala de cinema e apenas um auditório razoável para teatro, muito embora equipado apenas com material de som. Os grupos de teatro da cidade são obrigados a pagar pequenas fortunas para utilizar aquele espaço público. Ao cinema, ainda vá que não vá, a sala é cedida gratuitamente ao cine-clube do Mindelo todas as quintas-feiras. 

8. Mas a arte cénica, por incrível que pareça, continua a ser menosprezada e os grupos hoje procuram desesperadamente vender os seus bilhetes dos seus espetáculos não tanto porque tem muita vontade de ter público - o que seria o natural - mas porque tem que juntar o dinheiro suficiente para pagar pela utilização do auditório, mais os técnicos, mais os custos de montagem, mais isto e mais aquilo.

9. O teatro, que tem sido, é preciso dizê-lo, um importante embaixador da cidade e do país, merecia um pouco mais de consideração e respeito. Mas não. Continuamos sem espaços para apresentar espetáculos, sem salas para ensaiar, sem saber muito bem como concretizar as produções, dependentes de um "dá fala" que resulta melhor ou pior conforme a maior ou menor capacidade de convencer quem decide.

10. O Éden Park corre o risco de arder? Que arda! Duma vez por todas. Quem sabe assim o nosso Primeiro Ministro possa finalmente cumprir a promessa que fez nessa distante FIC e aproveitar o choque nacional, a tragédia patrimonial de um desastre tão tremendo quanto previsível, para em vez de mais uma barragem, um campo de futebol relvado ou uma estrada alcatroada, avançar para a construção de uma infra-estrutura cultural para a cidade que sirva realmente quem precisa e que honre a memória do edifício que de forma tão irresponsável todos deixamos ruir.

Mindelo, 26 de Novembro de 2013






Por achar que é de interesse geral, aqui fica a mensagem enviada por Vasco Martins, a qual subscrevo na íntegra e por isso publico aqui no Café Margoso. Na imagem, coloco dois dos maiores embaixadores da Morna, que admiro muito, Celina Pereira e Bana.

O Dia Nacional da Morna: 3 de Dezembro

Vasco Martins, compositor, músico e musicólogo, propõe que seja instaurado o Dia Nacional da Morna, que seria no dia 3 de Dezembro, dia que o genial compositor de mornas B.Léza nasceu no Mindelo em 1905.

B.Léza compôs das mornas mais originais de Cabo-Verde. Cada uma das suas pelo menos cinquenta Mornas, é um diamante lapidado, uma obra – prima de beleza melódica. Foi o primeiro compositor a sistematizar os famosos ‘meio-tons’ (acordes de passagem), como também os acordes modulativos, e os seus textos ‘mornisticos’ são uma inspirada referência poética.

As mornas ‘Talvez’, Eclipse’, ‘Resposta de segredo cu mar’, ‘Isolada’, ‘Miss Perfumado, ‘ Mar azul’, ‘Noite di Mindelo’, ‘Terra Longe’, ‘Lua nha testemunha’, para citar algumas, constituem um tesouro eterno não só nacional mas também internacional, como já foi evidenciado em muitas partes do mundo.

As suas mornas foram cantadas pelos grandes intérpretes vocais e instrumentais. Podemos citar Bana, Cesária Évora, Titina, Marino Silva, Ildo Lobo, Humbertona, Bau e tantos outros.

Na verdade as mornas de B.Léza , sobretudo as citadas atrás, constituem para qualquer intérprete vocal a sua ascendência à mestria, à perfeição do ‘cantar a Morna’.

B.Léza  inspirou gerações de compositores e intérpretes da Morna e continua a inspirar.

A Morna, no seu sistema de forma musical que requer um criador, um compositor, parte primeiro do princípio da criação, para depois se expandir pelos outros sectores importantes: os intérpretes, o público, os produtores, os investigadores, como não podia deixar de ser em todas as situações interdependentes.

É interessante apontar que existe atualmente o Dia Nacional do Choro no Brasil (ou popularmente chamado ‘Chorinho’), mas que estranhamente foi instaurado primeiramente um Dia do Choro em França e no Japão por melómanos do Choro desses países.

Vasco Martins sugere que talvez não devêssemos cometer o equívoco do Brasil. Que sejamos nós, cabo-verdianos, a instaurar o Dia Nacional da Morna e termos a honra de ‘convidar’ o luminoso compositor B.Léza para ser o símbolo do Dia Nacional da Morna, tendo como data o seu aparecimento neste universo, numa das ilhas deste Arquipélago magicamente ‘mornista’.


Agradecemos o vosso interesse.
Os nossos cumprimentos.

‘Alauda razae divulgação’
(‘Alauda razae divulgação’ dedica-se à divulgação e promoção da obra de Vasco Martins em todos os domínios que a sua obra abrange)




A todos os níveis, em todas as diferentes realidades sociais, políticas e económicas, central ou municipal, a diferença entre o discurso e a realidade, entre a teoria e a prática, entre o expectável e o alcançável é tão grande, que mais uma vez se comprova que em Cabo Verde aquilo a que tão facilmente se chama de "sociedade civil" é tão real como o petróleo anunciado de tempos em tempos como uma possibilidade séria para o súbito enriquecimento do arquipélago. A lógica é uma e só uma: fala pela minha cartilha e terás uma recompensa diretamente proporcional ao teu entusiasmo e capacidade de defender a causa. Seja ela qual for, sê convincente e o que é teu, está guardado. E assim continuamos, neste sono profundo, de quando em quando perturbado por anúncios de execuções sumárias em plena via pública, na verdade, coisa pouca se comparada com o oásis que todos os dias nos procuram impingir.






"Passamos de analfabetos funcionais a intelectuais funcionais, contudo, a nível socioeconómico, desenvolvemos muito, uns mais de que outros, tanto mediante os parâmetros do BM e FMI, como de acordo com os parâmetros dos que estão no poleiro. A boa governação, a tal ferramenta da continuidade colonial, usando o termo de Varela, nos diz que somos os maiores em África e arredores, fortalecendo a teoria salazarista de pretos especiais… e o cabo-verdiano continua com a tal vaidade de julgar que sabe muito e que é o maior, tal e qual Cabral deu conta… e na ausência do suicídio de classe apontada acima, uma espécie de homicídio de classe aparece como uma opção bastante viável. Mas pronto, realismos à parte, o que fica é que derrotamos o colonialismo, tornamo-nos independentes e viva nós!"

Redy Wilson Lima - ler o artigo completo, aqui




O Tocador de Boxer's


SP - Opções para esta história: depois da febre dos intelectuais, dos opinion lideres, dos experts, dos artistas, dos investigadores, vem aí o dos activistas e dos cabralistas. nada como a auto-promoção/proclamação, já dizia o leite matinal "se eu não gostar de mim... quem gostará?"

JH - Eu cá estou esperando pacientemente a minha vez... quando é que a febre dos tocadores solitários de cavaquinho vai chegar? Bom, de qualquer forma, quando chegar, que esteja acompanhada de uma cavala frita com malagueta...

SP - Auto proclama-te Jeff Hessney. Começa pelo Facebook: coloca no campo ABOUT "tocador solitário de cavaquinho", depois escreve um artigo sobre a tua história enquanto tocador solitário de cavaquinho. Como foste o primeiro, como és o maior, como poderás ensinar o povo das ilhas a ser 1. tocador 2. solitário 3.de cavaquinho e, mais difícil, os 3 ao mesmo tempo. E se alguém ousar contribuir para a tua prática como se já o fizesse há muito tempo ou simplesmente queira trocar experiências, incorpora uma postura autista e simplesmente ignora o interlocutor atrevido. Afinal, só tu sabes o que é ser tocador solitário de cavaquinho e todos os outros devem-no a ti! Aproveita e dita um feriado, mês, ano, semana alusiva à coisa.... os media irão adorar. Simples Jeff, lamento informar-te que não estás só: mas acredita.

JH - Posso fazer tudo isso de boxer?

SP - Se quiseres... mas há muitos reis a andarem nus por aí, achas que boxer fará a diferença?

JH - O meu boxer, sim!

SP - By the way, vem ao barlavento, dado que queres cavala frita, e aproveita o festival kavala fresk.

JH - Período de defesa já kabá?


Texto inicial e conversa de Samira Pereira com Jeff Hessney, no Facebook




“A Tempestade”, escrita pelo grande dramaturgo William Shakespeare foi provavelmente a sua última obra teatral e a mais singular, na opinião de alguns críticos. Essa extraordinária narração é, ao mesmo tempo, uma história de vingança e de perdão, de dor e de reconciliação, de traição e de lealdade, de amor e de ódio, em suma uma história de contrastes, concebida algures numa pequena ilha provavelmente perto da Itália, no início da segunda década do século dezassete. 

 Transportada no tempo e no espaço físico, e com cenário fincado nas ilhas Cabo-verdianas de Santiago e Santo Antão, o grupo de teatro do Centro Cultural Português do Mindelo e o grupo de teatro Craq’Otchad, recriaram e montaram “Tempêstad”, para gáudio de uma plateia rendida à magia de uma representação surpreendente e de qualidade monumental, onde não faltaram elementos visuais e sonoros, desde a sobriedade do cenário, o primor nos figurinos, a luminotecnia com efeitos muito bem rebuscados, uma sonoplastia inventiva com música ao vivo (coros, percussão, violoncelo, flauta e saxofone), e sobretudo uma representação e interpretação exímia dos actores, de todos sem excepção. 

Gostaria, contudo, de ressaltar três interpretações que em minha opinião marcaram de forma destacada a peça “Tempêstad”. 

Emanuel Ribeiro (que regressa ao teatro, quase duas décadas depois), com uma pujança de fazer inveja, e empresta ao seu personagem Próspero, rico proprietário da ilha de Santiago e exilado na ilha das montanhas, uma verve admiravelmente poética de versos do texto original de Shakespeare, que nos chegam à catadupa, adaptados com requinte, à nossa língua materna. 

João Branco mais uma vez nos relembra a sua polivalência e competência nas diversas áreas do teatro, pois além de responder pela encenação e direcção artística, composição e direcção musical, e figurinos da peça, interpreta Caliban, ser disforme e bestial, pelo que forçosamente teve de recorrer a uma caracterização bem aprimorada com resultados visual e estético bem condizente com a figura. Não passa despercebido a ninguém, a forma como o João Branco se entrega por inteiro e parodia com gozo o seu personagem, numa capacidade de doação completa. 

Christian Lima interpreta Ariel, o espírito multifacetado do ar, da água e do fogo. Uma soberba actuação que marca não só pela excelente caracterização, mas também e mais uma vez, pelo preciosismo de uma deliciosa linguagem prenhe de poesia que chega como sussurros, vindos do etéreo, e preenchem os espaços e penetram os corpos dos espectadores. 

Depois de Romeu e Julieta, e Rei Lear, “Tempêstad”, é o terceiro parto bem sucedido, dessa tríade Shakespeariana, magistralmente encenada em crioulo Cabo-verdiano, por João Branco, uma obra prima que é mais um contributo para o crescimento e afirmação do teatro que se faz em Cabo Verde, com o selo da crioulização dos grandes clássicos do teatro Mundial.


 Texto sobre a peça "Tempêstad", de João  Faria; fotografia de Diogo Bento






Excelente! Adoro este pessoal da AOJE. Grande abraço para o Diogo e Doca. Fantásticos companheiros e grandes apaixonados pela arte da fotografia. Durante um mês, na cidade do Mindelo vão-se ouvir muitos clic's, clic's. clic's!




Esta tarde, no Jornal das 5 da Rádio Morabeza, a deputada nacional do PAICV, Filomena Martins, proferiu declaração em que justifica a alta taxa de desemprego em São Vicente com o aumento da natalidade, explicando que "o número de nascimentos é superior à capacidade da economia gerar empregos."

Sinceramente, esta é a primeira vez que vejo um facto ligado ao outro assim de uma forma tão umbilical (o termo aqui encaixa como uma luva, diga-se de passagem), e muito embora demografia e economia até sejam ciências se não irmãs, pelo menos primas, não deixei de ficar espantado com tão original teoria.

Duas coisas podiam acontecer desde já: em primeiro lugar, ocupar o imenso espaço vazio e desaproveitado do tão prometido e falado parque industrial de S. Vicente e colocar no muito curto prazo lá a funcionar várias unidades fabris para o fabrico de preservativos - camizinhas, em linga di terra - em que metade da produção fosse para exportação e a outra metade para distribuição gratuita pela população. Matavam-se dois coelhos numa cajadada só, por um lado fomentando o emprego com os milhares de postos de trabalho criados com a indústria de camisinhas, projetando a marca Mad in Cabo Verde, quiçá de Soncent, por todo o mundo (imaginam um eslovaco ou um canadense, cada um dos respectivos países, a meter a mão no bolso para a urgente camisinha e verificarem que aquilo foi fabricado em Cabo Verde? Nem Cesária conseguiu ir tão longe como embaixadora do país!). Por outro lado, como é lógica imediata, a utilização massiva de camisinhas por parte da população, principalmente a mais jovem, permitiria uma diminuição abrupta da natalidade. Uma medida, duas consequências imediatas: mais emprego, menos natalidade. Genial, não?

O segundo acontecimento é ainda mais óbvio: a deputada deve ser tida em conta, pelo menos ao nível das nomeações, para o próximo Prémio Nobel da Economia. É o mínimo! 



Faleceu hoje uma das mais extraordinárias pessoas que conheci.
Sérgio Grilo, até sempre!

(foto Jorge Martins)




Resistir é vencer, era este o lema dos guerrilheiros timorenses que durante décadas lutaram com armas desproporcionais contra o invasor indonésio. Acreditaram sempre e hoje, com todas as suas fragilidades, são uma nação livre e independente. 

 E é este mesmo o meu lema desde sempre. Resistir. Há vinte anos que resisto e que com inúmeros outros companheiros – que vão e vem – construo este caminho que muitos reconhecem relevante para o desenho do histórico teatral cabo-verdiano.

Contra compadrios, perseguições veladas, tratamentos desiguais, invejas e frustrações pessoais, dificuldades estruturantes, falta de incentivos e de respeito, condições de trabalho de extrema dificuldade, orçamentos mínimos, obstáculos vários, maus entendidos, julgamentos precipitados, silêncios e não respostas, falta de compromisso, seriedade e por vezes de caráter de uns quantos que se vão cruzando no meu caminho, o meu dia a dia, tem sido um não parar de produzir, de fazer o que mais gosto com paixão e entrega, de tentar – umas vezes melhor, outras pior – crescer enquanto artista, contribuindo para que a arte cénica crioula seja também ela maior, atrevida, criativa, ousada, competente e destemida. 

Como já disse tantas vezes, é lá que vou morrer. Fazendo. Em acção e movimento permanente. Não tenho vocação para poste, muito menos de eletricidade que, pelos vistos, falha em alturas bastante convenientes. Para mim, obstáculo é incentivo. Cada contratempo é transformado em energia que se renova a cada fôlego. E quanto este me faltar, é lá, nas tábuas do teatro, que vou estar até ao fim. 

O resto é digestão.


Fotografia de Diogo Bento






Segundo Jornal A Semana "O Tribunal do Tarrafal de Santiago condenou Ismael dos Anjos Correia a três anos de prisão efectiva por abuso sexual de uma criança de cinco anos. O homem ainda deve pagar 250 contos de indemnização aos pais da menor." 

 Se o Código Penal crioulo aplica estas penas ridículas para crime tão hediondo, não é com campanhas de sensibilização que combatemos este flagelo nacional. Como dizemos em "Teorema do Silêncio", há que quebrar o silêncio e penalizar, de forma séria e responsável quem abusa sexualmente das nossas crianças. Como está, é uma vergonha!





Caliban, ban, ban! Esta personagem acaba comigo. Chego em casa todas as noites, cheio de dores, quebrado, cansado, esgotado, mas sempre com a sensação do dever cumprido. O meu único desejo é que todos os que possam, gente de teatro e gente que não seja de teatro mas que aprecie um trabalho de qualidade, possa estar nestes três dias para ver esta equipa incrível e generosa em cima do palco. Vinte e duas pessoas no palco, outras tantas que deram o seu contributo "deste outro lado", todos eles merecem, certamente, uma visita. E aí, vamos ao teatro este fim de semana?




Estamos todos enganados

1. Há dias, conversando com um amigo, chegamos à conclusão que o maior problema de Cabo Verde não é a pobreza de espírito, o descaramento, a falta de zelo, o compadrio, a lei do menor esforço, a falta de criatividade, a violência urbana, a incompetência, mas algo que reúne tudo isso numa coisa só. O nosso maior problema é mesmo um problema de mentalidade. E grave.

2. Voltamos ao mesmo. À mesma luta de sempre. Ao mesmo tema, porque não consigo ficar calado. A mais recente declaração aqui no Café Margoso, sobre a forma como está sendo implementada a disciplina de Expressão Dramática nos Liceus, teve até honras de primeira página num semanário da praça. A defesa da representante do Ministério de Educação foi inócua, vazia e encara o problema como quase sempre fazemos por cá: enfia a cabeça na areia, empurra com a barriga e siga o baile porque tudo está bem quando acaba bem. Problemas? Não! Há bagagem! Nós é que estamos todos enganados!

3. Mas a verdade é que não está bem. Não, não há bagagem, nem materiais pedagógicos de apoio, muito menos preparação metodológica para dar esta disciplina dentro das salas de aula. O último sinal foi-mo dado ontem. Como saberão, estamos em vias de apresentar no próximo fim de semana uma curta temporada de "Tempêstad", adaptação crioula da obra maior do génio da dramaturgia universal, William Shakespeare. Que melhor oportunidade do que esta, no Mindelo, para enriquecer uma disciplina que devia falar de teatro?

4. Fiz questão de entrar em contacto com os professores de Expressão Dramática aqui do Mindelo, enfatizando o fato de que a melhor forma de se falar e transmitir conhecimentos sobre esta arte, é vendo, é sentindo, é fazendo parte, é estando ali, na plateia. No teatro, tem que se ver para crer. Para se entender. Mesmo que seja para se concluir que aquilo não nos interessa para nada. Ver teatro para falar sobre teatro, essa sim é uma bagagem fundamental.

5. A resposta foi a esperada, mas mesmo assim, desanimadora. A única professora que se deu ao trabalho de falar com os seus alunos pediu que estes solicitassem autorização dos pais e encarregados de educação. A esmagadora maioria não obteve autorização dos pais para ir ao teatro! Isto é mesmo verdade? É uma comédia ou uma tragédia?

6. Não me espanta nada se alguém me disser que muitos destes jovens, agora não autorizados a usufruir de um bem cultural que pode vir a ser também uma importante ferramenta pedagógica numa disciplina curricular, fossem os mesmo que pululavam nas ruas do Mindelo, bebendo e fumando, na grande paródia do Halloween que as casas nocturnas ofereceram no passado fim de semana, a troco da módica quantia de mil e quinhentos escudos.

7. Depois, queixem-se! O mal começa em casa, nas famílias e continua na escola, até porque houve professores que nem se dignaram em responder à mensagem em que se fazia o convite aos seus alunos, procurando criar condições (leia-se, preços muito mais baratos), para irem ao teatro, ver uma obra de grande qualidade cénica, plástica, artística e toda ela, nossa, crioula, cabo-verdiana. Levar os alunos ao teatro? Eh, caramba, isso dá muito trabalho!

8. Mostrei-me disponível, mais uma vez, para ir às salas de aula, e depois do visionamento da peça, falar da mesma, das nossas opções dramatúrgicas, artísticas e estéticas. Ouvir as questões dos alunos - se as houvesse - e esclarecer todas as dúvidas e curiosidades. Mas assim, perante este silêncio, como fazer? Como avançar? Como crescer?

9. A minha parte está a ser cumprida. Coloco, com o meu trabalho e de uma enorme equipa de gente dedicada e competente, um produto artístico de altíssima qualidade (perdoem-me a imodéstia) ao serviço da comunidade. Incluindo a comunidade estudantil. Se isto não interessa, então mais uma vez estamos a ir pelo caminho errado e promover a disciplina de Expressão Dramática nas escolas é só mais um bluf, que apenas servirá os relatórios que, como tantas vezes acontece, são feitos para nos convencer que a realidade é muito melhor do que aquela que vemos todos os dias.

Mas nós, claro, é que estamos todos enganados!







Segundo a representante do Ministério da Educação, e em resposta ao meu artigo no Café Margoso, "Os professores estão devidamente capacitados" e que o MED "garante aos docentes essa bagagem" (para lecionar Expressão Dramática nas escolas e liceus de Cabo Verde). Fiquei muito mais descansado.





E pronto, mais uma vez Mindelo está em festa! Prepara-se ali na marginal um mega-super-potente trilho eléctrico, festas em pontos estratégicos nomeados a partir de filmes de terror famosos tipo Carrie, Psico etc e tal, o preço? uma pechincha, mil e quinhentos paus e não se fala mais nisso! Carnaval no Outono, batucada na morada, milhares de decibéis invadindo ruas e becos, roupas a condizer com a ocasião. Esta é também certamente mais uma actividade que vai incentivar a economia local, o comércio, os transportes, as telecomunicações e pronto, é isso, Mindelo está em festa novamente! Sabe pa cagá!

Que se lixem a crise, os representantes do Governo que estão prestes a ser nomeados para as ilhas - dejá vú, dejá vu! - a pasmaceira, a falta de produtividade, perspectivas ou emprego, as pequenas fortunas que se gastam cada vez que vamos fazer compras na Fragata, a tristeza, os cassubodis, os compadrios, as putas precoces a preço de saldo, os crimes contra o património da cidade ou as dezenas de vezes que crianças e medingos te estendem a mão a pedir esmola, quem sabe se para tentar juntar os tais mil e quinhentos paus que a paródia exige, que "nos também é fidje de deus e no tem dret a diverti também"! A cidade está em festa, é isso que interessa. 

E desta vez, é coisa séria, como sempre aliás! Afinal de contas, o halloween é "um evento tradicional e cultural, que ocorre basicamente em países de língua inglesa, mas com especial relevância nos Estados Unidos, Canadá, Irlanda e Reino Unido, tendo como base e origem as celebrações dos antigos povos Celtas do Século III". Mindelo não é, sempre foi, influenciado pelos ingleses? Então, está tudo bem! Let's go party!















E vocês, vão perder?





Há séculos que te esperava para fugirmos. E não sabia 
que a fuga era possível, pelas estradas de giestas em 
direção ao mar. Dorme, e consente que o meu coração 
escute o teu. Quero arder contigo, nesta eternidade feita 
de pontes atravessadas, kms noturnos e segundos de asfalto. 


 Al Berto, in "Dispersos"




Nos últimos dias algumas pessoas entraram em contacto comigo perguntando se eu não teria algum "material", com exercícios de teatro, incluindo de expressão corporal, vocal, dinâmicas de grupo, improvisação ou informações compiladas de história da arte cénica. Fiquei curioso pela coincidência de, num curto espaço de tempo, receber o mesmo pedido, com poucas variações, sendo que o comum em todos eles era a urgência em poder ter algum material pedagógico nas mãos.

Claro que não era coincidência. Está a decorrer no sistema de ensino cabo-verdiano uma reforma curricular e em algumas turmas "experimentais" resolveu-se considerar a disciplina de Expressão Dramática. Essa é, sem dúvida, uma fantástica notícia. O que não se compreende é que não tenha havido qualquer formação em exercício para os professores que forem ministrar essa disciplina. E tirando uma ou outra excepção, estes professores não estão minimamente preparados para lidar com um conjunto de técnicas que podem ser valiosas ferramentas de ensino, mas que para o serem, tem que ter alguém com experiência, conhecimento e o mínimo de formação na área.

Sendo o teatro uma forma de expressão artística que mexe com o ser humano na sua globalidade - chamo-lhe a arte dos 3 "Cês" precisamente porque implica trabalhar com corpo, coração e cabeça - ter gente mal preparada à frente desta disciplina, é um ato da mais pura irresponsabilidade. Segundo informações que me foram dadas, temos professores formados em artes visuais, arquitectura, ciências sociais e até engenharia a quem foi dada a responsabilidade tremenda de desenvolver e experimentar a disciplina de Arte Dramática a adolescentes nos liceus de Cabo Verde. Não se percebe porque não houve uma formação prévia, uma preparação metodológica, uma abordagem pedagogicamente aceitável para que estes profissionais da educação possam fazer um trabalho nas mínimas condições.

Feito assim, às três pancadas e desta forma irresponsável, a introdução da Arte Dramática nas escolas de Cabo Verde pode vir a transformar-se num tremendo tiro no pé de todos os envolvidos, a começar pelo próprio sistema educativo. Já agora, coloquem-se licenciados em matemática a ministrar português, sociólogos como professores de educação física ou advogados a ensinar química-física. Se vale para o teatro não ser preciso saber o que se ensina, então que se estenda este criativo método a todas as valências do ensino e que o Google e a Wikipédia nos salve a todos! 

Que fique claro desde já para quem não sabia: ensinar teatro ka é brinkadera!






«Quanto à mensagem, não sei... Não há mensagem. A melhor coisa é deixar a intuição e a imaginação agirem. É verdade que eu quero dizer com força qualquer coisa difícil de formular, qualquer coisa de escondido; mas são os espectadores que têm de o descobrir, senão tudo seria tosco e grosseiro; são vocês que têm de o descobrir, eu não posso proceder demasiado directamente. Frente a certos valores, é preciso, acima de tudo, sensibilidade.»

Pina Bausch






Uma iniciativa muito feliz do Centro Cultural Português - Pólo do Mindelo, fazendo a ligação entre a cultura, história e o passeio. No próximo Sábado, será a ver do teatro. Vamos?