Declaração Cafeana

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Se houvesse algum índice para medir a nossa capacidade de sacudir a água do capote e colocar a culpa dos nossos fracassos nos outros, esse seria certamente mais um item onde Cabo Verde se poderia orgulhar de ficar nos lugares cimeiros. 

Já não há paciência. Ninguém assume as responsabilidade de nada neste país. A culpa nunca morre solteira, ao contrário do que diz o ditado. A culpa tem uma série de amantes com as quais nunca se deitou nem sabia da sua existência. Então se é necessário alguém com um cargo de maior responsabilidade assumir a sua quota parte no esterco que por qualquer motivo ficou à vista de todos (por alguma razão, se utiliza muito a expressão, "isto ainda vai dar merda!"), nada mais fácil do que atirar a culpa para cima do vizinho, do subalterno, de um qualquer anónimo que, de um dia para o outro, se vê obrigado a carregar todo o peso do universo inteiro nas suas costas. 

O último dos bodes expiatórios, que provavelmente se vai tornar uma celebridade instantânea, é uma até aqui anónima secretária da Federação Cabo-verdiana de Futebol. Segundo revela um jornal da nossa praça, "antes do jogo contra a Tunísia, a FIFA comunicou à FCF que o castigo de quatro jogos ao defesa Fernando Varela mantinha-se, pelo que não deveria jogar a última partida da fase de grupo. Mas o documento foi arquivado sem que o presidente da FCF, Mário Semedo e o seleccionador Lúcio Antunes tomassem conhecimento do assunto. " E pronto, assunto esclarecido! 

Um processo em cima da senhora e as centenas de milhares de cabo-verdianos iludidos com a possibilidade - bem real - de ver a sua selecção nacional de futebol num campeonato do mundo, ficarão logo descansados e aliviados. Foi encontrada a culpada! Claro que o facto de haver um castigo a um jogador, num jogo depois anulado, e de os regulamentos da FIFA claramente dizerem que a anulação do jogo não anula a penitência em caso algum, não vem aqui para o caso. 

Mais do que incompetência, tratou-se aqui de irresponsabilidade. Ou se quisermos ir mais longe, de estupidez. Só isso explica a utilização de um jogador nas circunstâncias em que o defesa Varela foi utilizado.No entanto, nada disso importa mais. Segundo se descobriu agora, a culpa foi da secretária da federação. Cabo Verde pode, finalmente, dormir tranquilo.



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3 comentários:

Criola di terra disse...

JB, em Cabo Verde tudo é culpa da secretária, mesmo quando as coisas acontecem quando ela está de férias ou ausente por outras razões. Já vi isso acontecer tanto. Coitadinhas. E depois, devido a "incompetência" das ditas cujas elas nunca são demitidas ou suspensas, o que nos faz pensar muito. Um café que não cai bem esse.

Carlos Parreira disse...

Eu diria que a questão está numa fronteira muito terno entre o dever do certa e o dever do errado.

É fácil esquivarmos nas entrelinhas do dever das responsabilidades (sim porque nem sempre clarificamos a quem as imputar no final, e, criamos terrenos pantanosos infindáveis neste campo da (in) responsabilidade) o que fazemos algumas vezes é procurar o "elo" menos forte, para atribuir as culpas por algo que falhou, isto porque a culpa nunca pode morrer solteira e muito menos sem sem o devido castigo.

Pessoalmente defendo que os erro deve ser assumido de forma colectiva (claro que o(s) Chefe(s) tem uma responsabilidade acrescida), mas uma falha é do grupo da mesma forma que as vitórias o são também. Ninguém falha sozinho e ninguém vence sozinho, por mais que possa parecer que sim lógico.

Houve um erro que custou o sonho de uma Nação inteira, mas essa mesma Nação não pode sucumbir a esse erro ao ponto de deixar de sonhar e de levantar a cabeça, respirar fundo (aceitar o erro) e continuar a caminhar em frente, porque mostramos ao mundo que somos capazes de sonhar e não de ficar a lamentar a "topada" que demos.

Abraç a todos

JB disse...

Carlos, a mim o que me choca mais que o erro é essa desculpa mais do que esfarrapada de que a culpa é de uma mera secretária que arquivou uma carta sem conhecimento dos maiores responsáveis. Se é assim que funciona a FCF, então pior a emenda que o soneto!

Abraço e obrigado pela colaboração!