Crónica Desaforada

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Oh amor, dam un koza!

1. Na passada quarta-feira, enquadrado no ciclo de cinema "Cinco Filmes Cinco Livros", organizado pelo Centro Cultural Português, no Mindelo, tive oportunidade de rever a adaptação que o realizador Francisco Manso fez do romance de Germano Almeida, "O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo", todo ele rodado na cidade do Mindelo, no ano de 1996. Há 17 anos, portanto.

2. Foi com um misto de nostalgia e saudade que vi as imagens da cidade, dos amigos que tiveram papeis no filme - como Manuel Estevão, Paulo Miranda ou Euclides Sequeira - vi-me a mim próprio com um estilo de apresentador de Cabaret (a foto que ilustra esta crónica foi tirada no dia da filmagem com a Cize), e suspirei por ilustres figuras que apareciam no filme e que já nos deixaram, como o Sr. Nena, o Sr. Mário Matos (pai) ou Luís Morais. 

3. Recordei a noite mágica que foi a estreia do filme num Éden-Park completamente lotado, com uma anfitriã - Maria Luísa Marques - feliz e satisfeita, um conjunto bastante razoável de gente mais ou menos importante, mais ou menos conhecida, políticos, intelectuais, artistas e muitos anónimos que participaram nas filmagens como simples figurantes. 

4. O entusiasmo daquela primeira vez foi retumbante, lembro-me do orgulho do mindelense ao ver-se retratado num filme como aquele, dos risos ao se reconhecer esta ou aquela pessoa no grande ecrã, da basofaria e satisfação estampada no rosto de todos e de cada um quando rodeando a Praça Nova, se comentava o filme por todos os cantos e recantos da praça.

5. Tive outra sensação: recordando aqueles tempos, parece-me claro o quanto o nosso Mindelo se transformou, e não foi para melhor. Os cinemas fecharam, a Praça Nova deixou de ser aquele lugar aprazível que tanto gosto dava em passear, conversar, namorar, ver os amigos. Sair há noite pressupõe cuidado, com o medo dos assaltos, cada vez mais violentos, sempre presente. O alcatrão não é tudo e eu senti saudades da calçada nas ruas da morada.

6. Hoje, sempre que passo na Praça Nova, sinto uma energia ruim de que algo mau nos pode acontecer a qualquer instante, a que não será alheio o fato da praça ser uma montra e um resultado dos problemas sociais na ilha, com meninas cada vez mais novas em claras posturas de prostituição, muitas crianças pedindo dinheiro à porta da Fragata, drogados deambulando pelos cantos, jovens alcoolizados, mendigos deitados, não se sabe se a dormir, desmaiados ou mesmo mortos, porque ninguém se dá ao trabalho de verificar o que se passa. Até os loucos, que chegaram a ser símbolo da cidade - quem não se recorda do saudoso K'me Deus? - são hoje corpos estranhos que a maioria prefere ignorar. 

7. Mindelo, a minha cidade amada, mudou muito em 17 anos. Mudou ao ponto de uma grande amiga minha ter resolvido, depois de um período de 10 anos a estudar e trabalhar em Portugal, decidir-se a voltar a viver em S. Vicente e passado algumas semanas, ter voltado a colocar os seus poucos pertences numa mala e regressado, desencantada, à sua antiga condição de emigrante. "Aqui é muito nhê, nhê, nhê, muito falatório, muita riola. Não estava para isso."

8. Percebe-se que hoje seja a Júlia um dos grandes símbolos humanos e sociais da cidade do Mindelo. "Oh amor, dam un koza!". O encanto está lá, a vontade de seduzir também. Mas ninguém mais pode esconder a miséria e a degradação. "Oh, lindo, dam un koza!", parece pedir a cidade do Mindelo aos seus cidadãos. Mas a cidade fica sem resposta e um dia o Monte Cara se transformará no Monte Cala, aquele que fica em silêncio e por isso, consente. 

Mindelo, 04 de Outubro de 2013






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1 comentário:

zito azevedo disse...

Meu Deus! Se piorou assim tanto em 17 anos, quanto terá mudado em 36?