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Resistir é vencer, era este o lema dos guerrilheiros timorenses que durante décadas lutaram com armas desproporcionais contra o invasor indonésio. Acreditaram sempre e hoje, com todas as suas fragilidades, são uma nação livre e independente. 

 E é este mesmo o meu lema desde sempre. Resistir. Há vinte anos que resisto e que com inúmeros outros companheiros – que vão e vem – construo este caminho que muitos reconhecem relevante para o desenho do histórico teatral cabo-verdiano.

Contra compadrios, perseguições veladas, tratamentos desiguais, invejas e frustrações pessoais, dificuldades estruturantes, falta de incentivos e de respeito, condições de trabalho de extrema dificuldade, orçamentos mínimos, obstáculos vários, maus entendidos, julgamentos precipitados, silêncios e não respostas, falta de compromisso, seriedade e por vezes de caráter de uns quantos que se vão cruzando no meu caminho, o meu dia a dia, tem sido um não parar de produzir, de fazer o que mais gosto com paixão e entrega, de tentar – umas vezes melhor, outras pior – crescer enquanto artista, contribuindo para que a arte cénica crioula seja também ela maior, atrevida, criativa, ousada, competente e destemida. 

Como já disse tantas vezes, é lá que vou morrer. Fazendo. Em acção e movimento permanente. Não tenho vocação para poste, muito menos de eletricidade que, pelos vistos, falha em alturas bastante convenientes. Para mim, obstáculo é incentivo. Cada contratempo é transformado em energia que se renova a cada fôlego. E quanto este me faltar, é lá, nas tábuas do teatro, que vou estar até ao fim. 

O resto é digestão.


Fotografia de Diogo Bento






Nos últimos dias algumas pessoas entraram em contacto comigo perguntando se eu não teria algum "material", com exercícios de teatro, incluindo de expressão corporal, vocal, dinâmicas de grupo, improvisação ou informações compiladas de história da arte cénica. Fiquei curioso pela coincidência de, num curto espaço de tempo, receber o mesmo pedido, com poucas variações, sendo que o comum em todos eles era a urgência em poder ter algum material pedagógico nas mãos.

Claro que não era coincidência. Está a decorrer no sistema de ensino cabo-verdiano uma reforma curricular e em algumas turmas "experimentais" resolveu-se considerar a disciplina de Expressão Dramática. Essa é, sem dúvida, uma fantástica notícia. O que não se compreende é que não tenha havido qualquer formação em exercício para os professores que forem ministrar essa disciplina. E tirando uma ou outra excepção, estes professores não estão minimamente preparados para lidar com um conjunto de técnicas que podem ser valiosas ferramentas de ensino, mas que para o serem, tem que ter alguém com experiência, conhecimento e o mínimo de formação na área.

Sendo o teatro uma forma de expressão artística que mexe com o ser humano na sua globalidade - chamo-lhe a arte dos 3 "Cês" precisamente porque implica trabalhar com corpo, coração e cabeça - ter gente mal preparada à frente desta disciplina, é um ato da mais pura irresponsabilidade. Segundo informações que me foram dadas, temos professores formados em artes visuais, arquitectura, ciências sociais e até engenharia a quem foi dada a responsabilidade tremenda de desenvolver e experimentar a disciplina de Arte Dramática a adolescentes nos liceus de Cabo Verde. Não se percebe porque não houve uma formação prévia, uma preparação metodológica, uma abordagem pedagogicamente aceitável para que estes profissionais da educação possam fazer um trabalho nas mínimas condições.

Feito assim, às três pancadas e desta forma irresponsável, a introdução da Arte Dramática nas escolas de Cabo Verde pode vir a transformar-se num tremendo tiro no pé de todos os envolvidos, a começar pelo próprio sistema educativo. Já agora, coloquem-se licenciados em matemática a ministrar português, sociólogos como professores de educação física ou advogados a ensinar química-física. Se vale para o teatro não ser preciso saber o que se ensina, então que se estenda este criativo método a todas as valências do ensino e que o Google e a Wikipédia nos salve a todos! 

Que fique claro desde já para quem não sabia: ensinar teatro ka é brinkadera!





A noite de ontem foi especial por dois acontecimentos que passo a relatar de forma resumida: primeiro, apresentamos a peça "Teorema do Silêncio" em Nova Sintra, ilha Brava, para um público atento, ávido de teatro, curioso e, à medida que a peça avançava, emocionado e generoso. Este não é um espectáculo qualquer. É um texto difícil, um tema actual mas sempre complexo, uma encenação que é tudo menos óbvia, onde o que parece não é e o que é nem sempre parece. A reacção de quem muito raramente tem acesso a este tipo de bem cultural foi surpreendente. No final, várias pessoas chegaram até nós, agradecendo, de lágrimas nos olhos, o facto de termos, com a nossa arte, quebrado o silêncio para um assunto tão delicado (o abuso sexual de crianças). O nosso trabalho saiu valorizado e de novo se demonstra da profunda necessidade de trabalharmos para uma universalização do acesso aos bens culturais, em todos os cantos do nosso Cabo Verde. Seja lá onde for, existem pessoas que querem, precisam e estão dispostas a personificar esta troca tão bela. Como a que aconteceu nesta apresentação inesquecível.

Um pouco mais tarde, pelas ruas de Nova Sintra, um grupo razoável de amantes da morna corporizaram uma belíssima serenata, com as mornas de Eugénio Tavares, cantadas de forma incrivelmente harmónica e afinada, principalmente pelas muitas mulheres do povo ali presentes. Foram horas inesquecíveis. Belas. Tocantes. Algumas mornas belíssimas que eu nunca tinha ouvido e que, segundo me informaram, nunca foram gravadas (para meu espanto!). A alma de Cabo Verde se revela quando a morna é cantada. E não só! Uma estrangeira que vive por cá há alguns anos, e assistia a tudo chorava ao ouvir o coro cantando em êxtase a morna "Força di Cretcheu". Perguntei-lhe porque chorava ela e disse-me: "não sei explicar o que é. Mas ouvir esta música faz-me sentir saudades de casa."

No Dia Nacional da Cultura de Cabo Verde a morna se revela, mais uma vez, o eixo que nos liga a todos, de ponta a ponta, de Sul a Norte, de Este a Oeste, que une todas as diásporas de todos os universos crioulos. Eugénio Tavares se revela, mais uma vez, o patrono ideal num dia que é um dos mais importantes de ser-se comemorado. E, mais uma vez, no cantinho deste querido arquipélago, sou tocado de novo de forma inapelável, por um povo generoso e belo, que transforma esta nossa passagem pela vida numa aventura mais do que fantástica.




Quando se descobre que alguma teoria científica explica um fenómeno com o qual somos confrontados praticamente todos os dias e nunca conseguimos explicá-lo apesar da forma arrebatadora como esse fenómeno perturba as nossas vidas, temos motivos para festejar. Mais ainda quando essa teoria, mesmo que possa ter uma designação complicada que advém do fato de ter obrigatoriamente o nome dos teóricos responsáveis pela sua criação, está explicada numa linguagem acessível a todos, sem grandes palavrões científicos ou conceitos que mal somos capazes de ler quanto mais entender.

Quantas vezes já nos cruzamos com indivíduos "que possuem pouco conhecimento sobre um assunto" mas que mesmo assim "acreditam saber mais que outros mais bem preparados, fazendo com que tomem decisões erradas e cheguem a resultados indevidos, porém esta própria incompetência os restringe da habilidade de reconhecer os próprios erros."? Não é espantosa a familiaridade com esta descrição?

Segundo ainda explica a teoria "estas pessoas sofrem de superioridade ilusória. Por outro lado, a competência real pode enfraquecer a auto-confiança e algumas pessoas muito capacitadas podem sofrer de inferioridade ilusória, achando que não são tão capacitados assim e subestimando as próprias habilidades, chegando a acreditar que outros indivíduos menos capazes também são tão ou mais capazes do que eles." Onde é que já vimos e ouvimos isto? Não foram já vezes demais?

A campanha de vacinação nacional que vai começar em Cabo Verde contra o sarampo e a rubéola é uma excelente notícia para a saúde pública nacional. Mas faço desde já aqui o apelo para que no dia em que se encontrar uma vacina para combater o Efeito Dunning-Kruger - o nome complicado do simples mal que assola os dias de hoje - se faça uma campanha de vacinação com a mesma extensão, de preferência começando pelo maior grupo de risco, os detentores dos diferentes poderes que de forma tão incompetente, empatam as nossas vidas. 





Se houvesse algum índice para medir a nossa capacidade de sacudir a água do capote e colocar a culpa dos nossos fracassos nos outros, esse seria certamente mais um item onde Cabo Verde se poderia orgulhar de ficar nos lugares cimeiros. 

Já não há paciência. Ninguém assume as responsabilidade de nada neste país. A culpa nunca morre solteira, ao contrário do que diz o ditado. A culpa tem uma série de amantes com as quais nunca se deitou nem sabia da sua existência. Então se é necessário alguém com um cargo de maior responsabilidade assumir a sua quota parte no esterco que por qualquer motivo ficou à vista de todos (por alguma razão, se utiliza muito a expressão, "isto ainda vai dar merda!"), nada mais fácil do que atirar a culpa para cima do vizinho, do subalterno, de um qualquer anónimo que, de um dia para o outro, se vê obrigado a carregar todo o peso do universo inteiro nas suas costas. 

O último dos bodes expiatórios, que provavelmente se vai tornar uma celebridade instantânea, é uma até aqui anónima secretária da Federação Cabo-verdiana de Futebol. Segundo revela um jornal da nossa praça, "antes do jogo contra a Tunísia, a FIFA comunicou à FCF que o castigo de quatro jogos ao defesa Fernando Varela mantinha-se, pelo que não deveria jogar a última partida da fase de grupo. Mas o documento foi arquivado sem que o presidente da FCF, Mário Semedo e o seleccionador Lúcio Antunes tomassem conhecimento do assunto. " E pronto, assunto esclarecido! 

Um processo em cima da senhora e as centenas de milhares de cabo-verdianos iludidos com a possibilidade - bem real - de ver a sua selecção nacional de futebol num campeonato do mundo, ficarão logo descansados e aliviados. Foi encontrada a culpada! Claro que o facto de haver um castigo a um jogador, num jogo depois anulado, e de os regulamentos da FIFA claramente dizerem que a anulação do jogo não anula a penitência em caso algum, não vem aqui para o caso. 

Mais do que incompetência, tratou-se aqui de irresponsabilidade. Ou se quisermos ir mais longe, de estupidez. Só isso explica a utilização de um jogador nas circunstâncias em que o defesa Varela foi utilizado.No entanto, nada disso importa mais. Segundo se descobriu agora, a culpa foi da secretária da federação. Cabo Verde pode, finalmente, dormir tranquilo.




Hoje em dia não é muito difícil preencher a página do Facebook com frases bombásticas, citações fantásticas de artistas, intelectuais e figuras históricas (o que não falta por aí são sites especializados em citações) cuja utilização nos fazem sentir mais inteligentes do que somos na realidade. A bem da verdade, eu próprio faço uso dessa estratégia de comunicação, portanto o problema não está aí.  O que me irrita é que, na maioria dos casos, fazemos uso dessas máximas sem conhecer minimamente nem o autor nem o contexto histórico em que elas foram proferidas. Não lemos, não estudamos, não aprofundamos, não refletimos. Nada. Isso sim, me irrita profundamente.

Estamos cheios de iletrados armados em doutores disto e daquilo, e o pior é que quanto maior o poder que tem em mãos - e há a considerar aqui muitos tipos e géneros de poder - maior é a soberba, maior a tendência de se armarem em chico-espertos, de se acharem melhores que todo o mundo e, no fundo - no fundo não! bem na superfície - o que mais se vê por aí é um bando de gente com o poder nas mãos mas que não sabe construir uma frase quanto mais elaborar um discurso digno desse nome. 

Falta estudo, falta leitura, falta profundidade, falta pesquisa, falta interesse. O nosso país está invadido de doutores de pacotilha sentados nos seus cadeirões, que falam do que não sabem querendo nos convencer que sabem mais do que todos os outros. Por isso se dizem impunemente tantas barbaridades e ninguém reage, ninguém diz nada. 

Talvez isso aconteça porque a sociedade civil que temos é também causa e consequência dos seus chefes, responsáveis, superiores hierárquicos ou líderes políticos. Anestesiada por uma ilusão de festa e abundância, de facilitismo e compadrio, não reage porque não tem nem a informação nem o conhecimento para o fazer. Está manipulada pelos mais variados cordelinhos que de forma frágil seguram o seu emprego, a sua posição, as suas benesses e a posição social que julgam possuir por mérito próprio. São moldados por um sistema educativo que não propõe desafios, não provoca a discussão, não exige pesquisa, não tolera a diferença.  

Temos que entender que apenas com o conhecimento nas suas mais variadas vertentes - através do estudo, da leitura, da investigação, do questionamento - conseguiremos tirar a cabeça da areia onde estamos atolados e perceber que há uma pergunta desarmante que sempre podemos fazer a esses donos da verdade: e tu, qual foi o último livro que leste?





Há atitudes, posturas e até percursos que apenas o vicio consegue explicar. Escrevo isto a propósito de um comentário do diretor e grande amigo Márcio Meirelles, numa conversa recente. Ao saber que tínhamos montado a nossa versão crioula da “Tempestade” de Shakespeare em apenas 45 dias, com uma equipa de 24 elementos onde só por raras vezes se conseguiam juntar todos na sala de ensaio, com parte do elenco em viagem para fora de Cabo Verde por terem compromissos relativos a outras apresentações, e somado a tudo isto, o fato de a estréia se dar em pleno epicentro do Festival Internacional de Teatro do Mindelo – Mindelact, fez com que nos olhasse incrédulo e sorrisse, com aquela aparente mansidão de quem acolhe um vulcão no peito. “Somos loucos, não somos?”, perguntei-lhe. “Não”, respondeu ele, “o que vocês são é viciados!”

Esta coisa do teatro é algo que poucos conseguem explicar mesmo sabendo que muitos – quase todos nós – temos prontas para atirar em cima da mesa nas conversas e discussões entre os nossos pares, múltiplas teorias de índole a mais variada, seja na área da teoria e história de arte, sociologia, psicologia social, antropologia ou ciência política. Porque fazemos, porque teimamos, porque nos importamos, porque nos sacrificamos, porque nos sujeitamos, porque sentimos prazer na morte inevitável a cada criação que passa, porque somos por vezes tão masoquistas. Numa oficina que tive o prazer de realizar com o mesmo Márcio Meirelles no mítico e fenomenal Teatro Vila Velha, em Salvador, esse foi o questionamento básico: porque fazemos teatro? Cada um dos cerca de trinta participantes deu o seu depoimento, necessariamente curto e improvisado ali, no momento. Uma das respostas que me ficou na memória foi esta “eu faço teatro porque não sei não fazer teatro”. Querem melhor definição de vicio do que esta? Mas o teatro é um vicio diferente, embora seja também uma droga que pode provocar perigosos efeitos colaterais, tais como, ataques de ansiedade, desequilíbrios emocionais, atritos familiares, crises financeiras, hecatombes matrimoniais, lesões físicas, momentos de delírio, períodos mais ou menos prolongados em que os cuidados com a alimentação ficam relegados para segundo plano, e por aí vamos, nesta estrada sempre sinuosa que por mais extraordinária que nos possa parecer tendo em conta todas essas aparentes seqüelas, não tem nada nem ninguém que nos faça desviar do nosso caminho. Uma vez nela, sempre nela. O teatro é assim, vicia a gente. Não podemos passar sem ele e todas as justificações que cada um de nós possa dar para essa insanidade que invade nossas vidas, só piora a situação. Como nos viciados, não há justificação. Apenas desculpas esfarrapadas. Ou no nosso caso, ainda pior, teorias pretensamente científicas. 

Uma atriz cabo-verdiana escreveu há poucos dias num comentário no Facebook, a seguinte frase: “falta de tiatre ta faze gent menus gent” (a falta do teatro faz a gente menos gente). É uma das melhores frases dos últimos tempos sobre este assunto e uma claridade se apresenta perante nossos corações e, sobretudo, as nossas cabeças. É isto mesmo. Garcia Lorca já o tinha escrito, "o teatro é poesia que sai do livro e se fsaz humana", e muitos outros disseram também, frases e poemas, recados e obituários, ditados e pequenos hinos, sobre o quão fundamental é o teatro nos tempos que correm, principalmente nos tempos que correm, tal como já o tinha sido no passado, nos tempos que correram então, há dezenas, centenas ou milhares de anos atrás. Por coincidência, ou talvez não, as mais fantásticas palavras escritas sobre a arte cênica tem o denominador comum de terem sido escritas por gente de teatro, dramaturgos, atores e atrizes, diretores, artistas plásticos, cenógrafos, poetas, dançarinos e acrobatas, palhaços, ilusionistas. Sim, é um clichê mas é isso mesmo: outra coincidência com a droga – só quem experimentou pode entender o que é isto do teatro nas nossas vidas! 

Aqui na cidade do Mindelo, bem no meio do Atlântico, no próximo fim-de-semana, vai nascer uma nova companhia de teatro. A Trupe Pará Moss – TPM, vai se apresentar com três espetáculos diferentes em três dias, um deles em estréia. Neste novo grupo, que tive o prazer de acompanhar durante os dois anos de formação teatral, existe de tudo um pouco, caleidoscópio social da cidade e do amor que esta dedica ao teatro: uma psicóloga, um cortador de vidro, vários estudantes, um militar em inicio de carreira, uma brasileira apaixonada, um monitor de um centro de apoio a tóxico-dependentes, um operário de uma fábrica de enlatados de peixe, alguns desempregados, dois ou três licenciados. Muitos deles, depois de oito horas de duro trabalho nos respectivos empregos, vão para os ensaios com uma energia e uma disponibilidade que envergonha muitos atores ditos profissionais com quem me tenho cruzado nesta caminhada. É por isso que faz sentido falar de vicio. E hoje também faz sentido, recordar uma belíssima frase dita por um conceituado diretor português, Luis Miguel Cintra: “por cada nova companhia de teatro que nasça deviam nascer mil estrelas no céu”. O céu de Cabo Verde, esse, ficará um pouco mais brilhante nos próximos dias.

Fotografia de Diogo Bento




A cada dia que passa tolero menos as campanhas eleitorais. Eu sei que deveria alertar o meu sentido de cidadania e ter em consideração que estes são os momentos em que aos dirigentes políticos é dada oportunidade de contactar o povo que o irá eleger e a este último a possibilidade de colocar aos primeiros questões que possam ser relevantes para os interesses pessoais e da sua comunidade. 

No entanto, nada disto acontece. Ao ouvir em altos berros um carro publicitário - que só por si revela uma falta de consideração completa pelo cidadão votante - anunciar que o partido do candidato que sempre se candidata e nunca fica a cumprir o mandato para o qual foi eleito "está farto desses políticos descarados que nunca cumprem as suas promessas", dei comigo a pensar que  o povo não pode ser assim tão estúpido e alienado.

O esbanjamento desta campanha é inaceitável. Camisolas, bonés, cartazes gigantes, comícios diários transformados em bailes populares, alguns em municípios conhecidos por não terem como pagar os seus compromissos mais urgentes, incluindo as suas obrigações sociais. Não precisamos disto para sermos convencidos de votar neste ou naquele. 

Debates públicos, sessões de esclarecimento e porta-a-porta seria o quanto baste. E acabava-se de uma vez por todas com esta insuportável e insultuosa poluição sonora e visual. O período que deveria ser de esclarecimento, apresentação de propostas e debate de diferenças transforma-se cada vez mais, no actual estado de coisas, num carnaval da arrogância, má-criação e descaramento. Não devia ser isto, a democracia.





"Moss, ele é mau!" Este foi o comentário que um dos meus alunos de teatro fez sobre o jovem jornalista Odair Varela que tem sido o único em Cabo Verde que de forma reiterada tem escrito no seu blogue textos sobre peças de teatro - ou discos, concertos e livros - dentro de um estilo próximo do que conhecemos da crítica especializada. E porque é que Odair Varela "é mau"? Porque diz o que pensa, sem nenhum problema com o que possam pensar dele pelo facto dele não pensar como aqueles que são alvos das suas opiniões. 

Dedico-lhe esta declaração porque é um valor raro. Além de que, no que ao teatro diz respeito, tem vindo a aprimorar os seus textos sobre as peças que tem visto nos últimos tempos. De um ponto de vista técnico e do domínio das terminologias que a esta arte são exigidas, as críticas de Odair Varela são hoje muito mais do que meras opiniões pessoais, porque sustentadas, fundamentadas e bem escritas. 

Há anos que ando a lutar para a promoção de crítica teatral em Cabo Verde. Para quem não sabe, o curso de teatro tem uma disciplina dedicada a esta vertente onde todos os alunos são obrigados a escrever sobre todas as peças que vêem e estes textos estão sujeitos a avaliação. Dos que se destacaram nesta difícil tarefa nenhum deles encontrou motivação ou espaço para desenvolver este potencial, a maioria julgo que por opção pessoal.

É que ter opiniões próprias sustentadas, mais ainda sobre objectos artísticos e estar sujeito dessa forma aos sempre imprevisíveis egos dos nossos criadores não é para qualquer um. Daí o destaque dado aqui ao trabalho de Odair Varela que merece ser enaltecido e incentivado. Um oásis no deserto. 




Se há algo que me tem causado alguma mágoa tem sido verificar o desaproveitamento absurdo que a classe de actores e actrizes do Mindelo tem sido vítima, por não haver uma aposta séria e competente numa produção audiovisual que do talento dela já justifica há longa data. 

O máximo que tem acontecido tem sido a oportunidade de participar uma vez por outra nalguma produção cinematográfica estrangeira que tem, na maioria dos casos, o elenco todo pré-definido e ditado por exigências de produção, ou seja, os principais papeis entregues a vedetas de novelas brasileiras ou portuguesas.

É por isso com enorme agrado e renovada esperança que tenho acompanhado, mesmo que à distância, o trabalho feito pela equipa que está a produzir a série de televisão Soncente Talqualsesent, com o actor e dramaturgo Emanuel Ribeiro à frente das operações e uma equipa técnica totalmente nacional. Dá gosto ver actores de diferentes gerações tendo a oportunidade de mostrar o que valem e eu sei que valem muito.

Espero que esta série seja, mais do que um sucesso, um exemplo e uma prova de como se pode e deve aproveitar a nossa mão-de-obra para produzir obras do género, que a televisão nacional abra os olhos e que comece a apostar, a sério e de forma sustentada, no que de melhor temos por cá e que tem sido desaproveitado de forma quase obscena. Também assim se produz riqueza e valoriza um país.

Bem hajam.




Sou adepto ferrenho da blogosfera. Sendo certo que todos os dias nascem e morrem blogues à velocidade da luz, também é certo que num meio pequeno como Cabo Verde onde o receio de dizer o que se pensa ainda é mais regra do que excepção, todos os meios de expressão e de opinião, todos os campos que incentivem ao debate e a participação cívica dos cabo-verdianos, é mais do que bem-vinda. 

Sendo certo que as redes sociais vieram tirar um pouco do protagonismo que os blogues tiveram nos primeiros tempos, a verdade é que estes resistem e embora seja hoje menos espaços de debate do que já foram no passado, não deixam de ter a sua importância como espaço plural, democrático e criativo. 

É preciso que, cada vez mais, demos larga ao que nos vai na alma, sejam amores, desamores, paixões, ódios, indignações, desaforos, piadas, reflexões, pensamentos e pequenas pistas do nosso quotidiano. Não tem mal nenhum. Ajuda certamente quem escreve e, quem sabe, pode um dia ajudar quem nos lê e nos visita. 




Vivemos numa época triste. Não há ideais a não ser aqueles que possam engordar a nossa conta bancária. Hoje não há coragem, há desvios conforme as conveniências. Hoje não há luta, há defesa de grupos de interesses políticos, partidários ou económicos. Como escreveu a actriz Milanka: "esta nossa geração desgraçada tem a responsabilidade de despoletar a nossa revolução, aquela que merecemos, pois já não nos resta muita coisa. Temos que reinventar os nossos próprios modelos, nunca esquecendo aqueles que antes de nós acreditaram na igualdade do povo!"

Antes a cantiga era uma arma, hoje é entretenimento. Antes a cultura era alma do povo, hoje é factor primordial de crescimento económico. Antes a criação artística era alavanca para mudança de mentalidades, hoje é o caminho mais directo para a massagem dos nossos egos. Dizem-se, sabem-se, ouvem-se as maiores barbaridades de altos signatários do poder, da oposição, dos candidatos a poleiros e cadeirões almofadados e nós, que nos dizemos artistas, continuamos a assobiar para o lado, muito ocupados com os nosso estimados, geniais e insubstituíveis projectos. 

Onde estão os nossos hinos, manifestos, gritos? Não deixa de ser irónico, tristemente irónico, que o único sector artístico que coloca o dedo na ferida, seja conotado com a marginalidade urbana. Refiro-me aos grupos de rappers e hip-hop, claro. Desdenhamos os loucos das nossas cidades mas são eles que estão à frente do nosso tempo. Nós estamos parados. Neste dia em que se comemora mais um aniversário de uma revolução que foi abafada pelas mentiras mediáticas e pela passagem do tempo, devíamos reflectir sobre o que raio andamos aqui a fazer. 

Eu faço o mea culpa que me é devido. Com a minha arte tenho lutado para sobrepor o colectivo ao individual, a imaginação à banalidade, a exigência ao facilitismo, a humildade à arrogância, a entrega à paralisia cerebral. Mas podia fazer mais, devo fazer mais, tenho que fazer mais. Tenho que ser digno dos genes que herdei. Se não o conseguir, serei apenas mais um bluff e imerecedor da arte secular que abracei. 

Fotografia de Fredrik Ödman






Desde as estrondosas vitórias eleitorais de Onésimo Silveira nas suas primeiras batalhas autárquicas que os candidatos procuram utilizar a mesma fórmula de vitimização sustentada num abandono das autoridades centrais em relação a S. Vicente. A força do então autarca estava alicerçada nessa assunção de que estaríamos perante um político que estava ali para colocar os interesses da ilha acima de tudo e de todos. Tanto foi assim que quando o até então invencível autarca volta para concorrer contra Isaura Gomes, mas desta vez a defender as cores de um partido instalado nesse mesmo poder central que tanto havia atacado, se viu derrotado de forma inapelável.

Por outro lado, o conhecido candidato a tudo e a todas as eleições de Cabo Verde do chamado partido charneira também veio com o mesmo discurso durante várias campanhas misturando umas pitadas de sentidos apelos aos pobres e remediados desiludidos com as grandes forças políticas e conseguiu com isso vereadores, deputados e algum capital político que tem vindo a desbaratar à mesma velocidade com que não toma posição sobre coisa alguma e se disponibiliza para concorrer a uma eleição seguinte, abandonando os cargos anteriores para os quais havia sido eleito. 

E se há algo que tem caracterizado o eleitorado de S. Vicente no historial das eleições é o de ser imprevisível podendo, em eleições próximas, dar vitórias a lados opostos da barricada partidária. Por isso vejo com alguma ironia essa tentativa actual dos candidatos ao cadeirão da Praça da Igreja voltarem com a mesma cantilena de que todos os males que afectam a ilha tem responsáveis de fora. Pode pegar com alguns mas duvido que convençam a maioria. É que corremos o risco de estarmos tão habituados a deitar as culpas nos outros que nos esquecemos de olhar para nós próprios. E isso, sim, seria a morte do Mindelo enquanto cidade capaz, orgulhosa, criativa e ousada que todos queremos que não deixe de ser.     




Não exagero: praticamente todas as semanas ouço, por vias directas ou indirectas, relatos de violência sexual contra crianças ocorridas no Mindelo. Meninos ou meninas. Crianças de cinco, seis, sete, oito, nove anos e até bebés. Isto para além do que se vai sabendo pela comunicação social que também nos relata, com uma frequência assustadora, os tenebrosos casos que vão acontecendo um pouco por todas as ilhas de Cabo Verde. 

E o maior problema parece ser o medo ou a apatia dos educadores (?) destas crianças e das próprias autoridades. Ou a morosidade e mão leve da justiça. Não há crime mais hediondo do que este. Mas continuamos a assobiar para o lado como se não fosse nada de especial. Continuamos a fazer a festa permanente e a promover esta morabeza de pacotilha. 

O mais preocupante é que estas acções ocorrem quase sempre por via de adultos que são muito próximos das crianças: professores, familiares mais ou menos distantes e até progenitores. Mas neste caso particular, somos todos responsáveis. Continuamos a calar e a pactuar com situações como estas e seremos cúmplices de toda uma geração perdida. 

Há que estar alerta. Denunciar. Sem apelo nem agravo. Não pode haver perdão para quem faz coisas destas. Não pode.






A notícia hoje vinda a público de que, para a organização Repórteres Sem Fronteiras, os primeiros 10 países do mundo em termos da liberdade de imprensa são (por esta nova ordem): Noruega, Finlândia, Estónia, Holanda, Áustria, Islândia, Luxemburgo, Suíça, Cabo Verde e Canadá, é digna de orgulhar o país. Como habitualmente nestas situações, e talvez como espelho dessa mesma liberdade de imprensa, este dado foi recebido com mais entusiasmo por uns e menos por outros.

Jorge Badiú, no seu blogue (que aprecio particularmente) dá-nos o outro lado desta moeda quando escreve que continua "sem perceber os critérios e as motivações dos repórteres sem fronteiras em teimar na classificação rasteira de uma realidade que mal conhecem. Um País que nem faz jornalismo de investigação por medo de represálias; um país dividido, em constante contra-informação onde se manipulam os dados; um país com falta de massa crítica… E mais: com muita sujeira que ninguém quer pôr as mãos."

Ele tem alguma razão no que diz, mas sou daqueles que pensa que melhoramos bastante nos últimos tempos. A pequenez do arquipélago, onde todos se conhecem, relacionam ou são mesmo familiares próximos, transforma a tarefa do jornalismo de investigação bem complicada, porque muito mais exposta. Certas fontes são facilmente identificáveis e poucos sentem confiança de relevar certos podres com medo de represálias (e não falo apenas de represálias políticas, mas daquelas que implicam perigo de vida).

Por outro lado, também podemos pensar que se não houvesse uma liberdade de imprensa efectiva em Cabo Verde, dificilmente os órgãos de comunicação social, principalmente na imprensa escrita e na Internet, publicariam tantos disparates e se dariam no luxo de, impunemente, fazer tantos ataques pessoais às mais altas figuras do Estado, da situação e da oposição, não poucas vezes caluniosas, maldosas e com interesses políticos claros que em nada tem a ver com jornalismo.



Apenas para que conste, não sou nem nunca serei membro efectivo ou suplente, de nenhuma "maioria sociológica" imposta por qualquer dirigente partidário, cantor de zouk love ou adepto de clube de futebol. O meu voto, que é meu e de mais ninguém, não está nas mãos de um supra-sumo guru da estatística social e política que o define à partida e desconfio sempre de quem canta de galo antes do alvorecer, ou dito de uma outra forma, proclama vitória antes do jogo começar. Fosse assim, teríamos que dizer que a "maioria sociológica dos eleitores cabo-verdianos" se está nas tintas para as eleições e para quem os representa, já que caminhamos a passos largos para uma abstenção próxima dos 50%.

Tenham juízo.



Já fizemos várias referências a este assunto aqui no Café Margoso. Outras vozes tem se feito ouvir a reclamar ou reivindicar maior atenção a uma empreitada como esta. Depois, com o choque provocado pela morte física de Cesária Évora, nada é mais natural que o tema volte à baila: é preciso que se faça um esforço sério, concertado e cientificamente competente para que seja apresentada uma candidatura da morna, nossa canção nacional, a Património da Humanidade.

O último e sentido apelo foi feito pela querida amiga Celina Pereira que, conforme o noticiado aqui, redigiu e enviou um documento às mais altas instâncias de Cabo Verde, para que se “potencialize um dossier político, cultural e cientifico conducente a elevar a Morna a um patamar mais universal que beneficie o mundo nesta busca de paz”. Defende que, numa primeira fase, a morna seja elevada a “património nacional” para que depois possa concorrer a “património imaterial da humanidade”, como uma “valiosa contribuição dada à espiritualidade e à cultura universal da humanidade”.

Umas das componentes mais interessantes do documento preparado por Celina Pereira são as citações de alguns dos mais ilustres representantes da cultura cabo-verdiana, referente à importância da morna para a formação da matriz cultural, social e histórica da nação cabo-verdiana. Assim, cita Eugénio Tavares: “Morna intérprete maravilhosa de alma desse povo ilhéu e sonhador”; Pedro Cardoso: “Ritmo que polariza a alma cabo-verdiana”; José Lopes: “a dor da nossa raça”; Jaime Figueiredo: “Expoente único da nossa sensibilidade”; Jorge Barbosa: “Eco que evoca coisas distantes ou tragédia da nossa raça”; Gabiel Mariano: “Expressão da alma de um povo; e Manuel Ferreira: “É Incontestável que a morna, por vezes, atinge beleza notável. Pela sua delicadeza, pela inesgotável variedade de seus motivos, ela tem probabilidades de poder ser considerada a parte mais rica do nosso folclore”.

Sendo este um país musical, é inquestionável que praticamente todos os seus mais ilustres compositores e intérpretes passaram por este género musical, compondo ou cantando, desde Cesária Évora a Ildo Lobo, Orlando Pantera a B'Leza, Manuel d'Novas a Ano Nobo, Mayra Andrade a Tito Paris, Vasco Martins a Bana, Teté Alhinho a Mário Lúcio Sousa, entre tantos e tantos outros. Este desafio, agora lançado mais uma vez, devia fazer parte de um grande desígnio nacional, para que a morna possa ter o estatuto que merece.



Nestes dias antes da entrada de mais um ano, o nosso pensamento entra em balanço, o que foi bem, o que foi menos bem, o que poderia ter sido melhor. Preparamos as nossas juras e promessas para o que aí vem, como se a passagem de um minuto para o outro - porque é disso que se trata - fosse resolver alguma coisa. 

Mas como não quero ser desmancha prazeres, aqui ficam os meus desejos para este ano: que haja menos hipocrisia, menos estupidez, menos cinismo, menos maledicência, menos ignominia. A tentativa de linchamento público ocorrido nestes últimos dias contra Abraão Vicente, e tudo por causa de um texto, claramente irónico, por ele escrito num blogue, e que só a ignorância transformou em notícia, mostrou uma vez mais o quanto navegamos à superficie das coisas, o quanto estamos prontos para atacar em vez de contrapor, de ofender em vez de defender pontos de vista, de julgar um carácter em vez de procurar conhecer a pessoa, de alimentar o preconceito em vez de elogiar a diferença, de chafurdar na lama em vez de ter a sabedoria suficiente de esperar que a terra poise e possamos, então sim, beber um pouco de água fresca, fonte de toda a vida.

Somos e vivemos num meio pequeno que padece de todos os males característicos dos meios pequenos. Caímos com demasiada facilidade no provincianismo tacanho, na pequenez dos anonimatos, no uso de máscaras como defesa pessoal, pela falta de coragem que temos em dar a cara pelos nossos ideais. Temos muitas feridas históricas e sociais por sarar e em vez de deixar que o tempo, a reflexão, a investigação e a honestidade curem as mazelas, estamos o tempo todo a escarafunchar, a pisar na carne viva, a voltar as costas à poesia e ao amor.

Os nossos espelhos apenas servem para reflectir as nossas virtudes e quando isso não acontece, olhamos um pouco mais abaixo e fixamos o nosso olhar no umbigo. Cada qual parece ser o centro do universo e quem aparece com o atrevimento de nos querer desviar desta rota comodista é de imediato alvo de um ataque feroz que apenas dislustra e define os seus autores. Somos demasiadas vezes vítimas da nossa forma redutora de olhar para a realidade, o nosso ponto de fuga aponta apenas para um caminho. Essa é a nossa maior desgraça.

A diferença entre o ano que está a terminar e o que vai começar bem que podem ser apenas os trinta segundos que separam o último minuto de 2011 do primeiro de 2012. Mas como seria bom se soubéssemos olhar para o mundo que nos rodeia de uma outra forma. Que fossemos capazes de olhar para o nosso concorrente (no trabalho, na arte, na política, no desporto, na escola) como um colega que nos motiva a ser um pouco melhor hoje do que fomos ontem. Que os abraços que damos uns aos outros, no calor da festa e da paródia, trouxessem à nossa forma de estar nesta sociedade um outro prisma, algo com um pouco mais de profundidade e, sobretudo, uma maior capacidade de entender quem opta por navegar rumo a outras latitudes, vestindo outras roupas, gritando outros slogans. 




A forma como Cabo Verde se despediu de Cesária Évora foi bela, emocionante e histórica. Pela primeira vez em muitos anos, que eu me lembre, o ironicamente designado Palácio do Povo, foi realmente do povo e foi o palco escolhido para homenagear a sua maior representante. O povo, esse, disse presente de uma forma extraordinária, prestando um tributo que vai ficar para a história do arquipélago. Esteve bem o Governo, esteve bem o Presidente da República, esteve bem S. Vicente e Cabo Verde. Os discursos, tanto do Mário Lúcio como o do Presidente, foram sentidos, poéticos e reveladores da dor sentida por todo um povo. O tributo foi feito, mas muito mais há por fazer.

Duas medidas urgem, no imediato: em primeiro lugar, um novo baptismo, tão rápido quanto possível, do Aeroporto Internacional de S. Pedro, com o nome de Aeroporto Internacional Cesária Évora, de onde ela tantas vezes saia para espalhar o nome de Cabo Verde pelo mundo. Em segundo lugar, a preparação, com gente empenhada, preparada e tecnicamente qualificada de uma candidatura da Morna a Património Universal da Humanidade, canção nacional de Cabo Verde, como aconteceu com o Tango, na Argentina e, mais recentemente, com o Fado, em Portugal. Duas iniciativas que não nos vão trazer a diva de volta ao nosso convívio diário, mas irão, certamente, contribuir para engrandecer toda a monumental herança que ela nos deixou. É hora de sermos dignos dela.

@Foto de João Barbosa, todos os direitos reservados







Um país inteiro de pés descalços

A primeira vez que chorei em Cabo Verde, há quase vinte anos, foi por ter ouvido a voz de Cesária Évora, que se apoderou de mim como um furacão de alma e sentimento. Tinha acabado de chegar ao Mindelo e pela mão do músico Vasco Martins fomos a um bar de amigos, para um serão tranquilo de boa conversa. Estava sentado, distraído com uma qualquer leitura, quando aquele espaço foi invadido por uma voz única, grave, possante. O disco era o Miss Perfumado, o CD que haveria de catapultar Cesária para a fama internacional, por via do mercado francófono e a transformaria na maior embaixadora da história do arquipélago, hoje no mapa global muito por responsabilidade do retumbante e espantoso sucesso da sua ímpar carreira.

No saudoso Café Royal, da mítica Rua de Lisboa, para onde ela ia quase diariamente, numa época em que ainda não tinha que viajar constantemente, com tournées que a obrigavam a ficar tão longe da sua cidade querida, a sua chegada de carro, sempre com um condutor próprio, e a entrada com os pés descalços no estabelecimento, eram dignos de um cerimonial que nunca mais esquecerei.

A mesa onde se sentava Cesária ia-se enchendo e esvaziando, à medida que ela recebia amigos, familiares, conhecidos ou curiosos. Pagava bebidas a todo o mundo, dava dinheiro aos pedintes, brincava constantemente com aqueles que a rodeavam, muitos já adivinhando que ali estava uma fonte inesgotável de talento e projeção. Na sua casa, sempre tinha a porta aberta, com o mesmo espírito generoso, próprio de uma grande matriarca.

Hoje, depois do choque inicial, a voz de Cesária Évora ecoa por toda a cidade do Mindelo. Nas ruas, nos cafés, nos bares, nos carros, nas vozes das pessoas. Um mendigo grita no centro histórico do Mindelo: Cesária já morrê! Hoje, Cabo Verde, é uma Nação que se curva, de pés descalços, perante a sua maior Diva.