Crónica Desaforada

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Que o fogo resolva

1. Um excelente trabalho do Notícias do Norte (de onde tirei a fotografia que ilustra a presente crónica) veio nos lembrar, mais uma vez, como está a situação do Éden Park. Mais uma vez. Mas para fortalecer o impacto, publicou imagens, em vídeo e fotografias. Que não surpreendem mas continuam a chocar. Porque não é novidade. Há anos que andamos a falar disto e nem era preciso. 

2. O Éden Park está na principal praça da cidade do Mindelo, porra! Está ali, à vista de todos. Eu, que uma vez chamei ao Éden Park de Cinema Paraíso, já invejo a sorte deste último, onde pelo menos houve a coragem de aprovar uma demolição e deitar aquilo tudo abaixo.

3. Agora, parece que corre riscos de pegar fogo. Um incêndio, mesmo ali no coração do Mindelo talvez funcionasse para acordar a cidade adormecida. No mínimo, correríamos todos para lá, saltando a fogueira a gritar, Soncent é sabe, é sabe pa cagá, op! E no final, entre cinzas e destroços, íamos para casa certos de que no dia seguinte não estaríamos sujeitos a presenciar o hediondo espetáculo que todos os dias somos obrigados a engolir. 

4. Lembro-me, numa das muitas FIC's do Mindelo, (cuja utilidade questiono, aliás), o Primeiro Ministro ter anunciado, alto e bom som que a cidade iria ter um novo, moderno, amplo e equipado auditório. Apesar de ser na anterior legislatura, lembro-me porque estava lá e o jornalista José Leite veio logo atrás de mim a perguntar "alguma reação?". Lembro-me de ter sorrido para ele e ter dito, "prefiro não comentar. " Foi na há alguns anos e o Éden Park já estava na triste situação em que hoje se encontra. Talvez com mais algumas telhas do que as que tem hoje. 

5. Também ainda não ouvi uma palavra dos responsáveis camarários sobre esta situação. Como se não tivessem nada a ver com a história da cidade que juraram servir quando foram eleitos. Como se o Éden Park não fosse um monumento da urbe que gosta tanto de gritar aos sete ventos que é a Capital Cultural de Cabo Verde. Ainda não ouvi nem vi na comunicação social nem lamentos, nem pressões, muito menos propostas ou soluções. Apenas um silêncio, tão absurdo quanto cúmplice. Mas devo ser eu que ando distraído, só pode!

6. O argumento, quando este assunto vem à baila de tal forma que não se pode evitar um comentário de algum responsável político, seja da administração municipal ou governamental, é que o edifício é privado. Não podem fazer nada. Mas e o interesse público, não conta? O facto de o edifício ter importância histórica e estar ali a apodrecer, não interessa? Não acredito que não possa haver uma solução legal para a aquisição daquele imóvel. Simplesmente, não acredito.

7. O teatro e o cinema continuam a ser artes que provocam grandes paixões numa cidade que curiosamente ou não, não tem nenhuma sala de cinema e apenas um auditório razoável para teatro, muito embora equipado apenas com material de som. Os grupos de teatro da cidade são obrigados a pagar pequenas fortunas para utilizar aquele espaço público. Ao cinema, ainda vá que não vá, a sala é cedida gratuitamente ao cine-clube do Mindelo todas as quintas-feiras. 

8. Mas a arte cénica, por incrível que pareça, continua a ser menosprezada e os grupos hoje procuram desesperadamente vender os seus bilhetes dos seus espetáculos não tanto porque tem muita vontade de ter público - o que seria o natural - mas porque tem que juntar o dinheiro suficiente para pagar pela utilização do auditório, mais os técnicos, mais os custos de montagem, mais isto e mais aquilo.

9. O teatro, que tem sido, é preciso dizê-lo, um importante embaixador da cidade e do país, merecia um pouco mais de consideração e respeito. Mas não. Continuamos sem espaços para apresentar espetáculos, sem salas para ensaiar, sem saber muito bem como concretizar as produções, dependentes de um "dá fala" que resulta melhor ou pior conforme a maior ou menor capacidade de convencer quem decide.

10. O Éden Park corre o risco de arder? Que arda! Duma vez por todas. Quem sabe assim o nosso Primeiro Ministro possa finalmente cumprir a promessa que fez nessa distante FIC e aproveitar o choque nacional, a tragédia patrimonial de um desastre tão tremendo quanto previsível, para em vez de mais uma barragem, um campo de futebol relvado ou uma estrada alcatroada, avançar para a construção de uma infra-estrutura cultural para a cidade que sirva realmente quem precisa e que honre a memória do edifício que de forma tão irresponsável todos deixamos ruir.

Mindelo, 26 de Novembro de 2013





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1 comentário:

Joaquim Djack disse...

Este é um daqueles crimes culturais cujos praticantes têm nomes e apelidos que todos nós conhecemos e em que a culpa não morrerá solteira. Aborrecido, mesmo aborrecido, é que a maior parte sentou-se na cadeira do poder. Ora se ela era de poder e se os sentados não o utilizaram foi porque não lhes apeteceu. Nem no passado, nem no presente. Vestidos de preto, vermelho, verde, azul, amarelo cinzento ou... branco. À esquerda, à direita ou ao centro. No poder central ou no local.

Sorte maldita a de uma ilha em que as "maravilhas" são de facto as que estão a cair aos bocados. Sim, um "maravilhoso" terrível, desgraçado e criminoso...

Consolo final e único: quando se falar do Eden Park que colapsou, ardeu ou foi demolido por já não se aguentar em pé, há-de dizer-se sempre que foi no tempo de fulano, de beltrano ou de sicrano. Sim, fulano, beltrano ou sicrano hão-se ficar até ao fim dos tempos colados ao crime e dele não se hão-se escapar, porque a História não perdoa...

Braça incrivelmente dolorida,
Djack