Crónica Desaforada

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Canta, logo existe

1. Imaginem este cenário: terreiro da Vila, na ilha de S. Nicolau. Um pequeno palco improvisado, com algumas tábuas de madeira colocadas sobre um conjunto de bidões de metal. No início ninguém acredita que «daquilo» possa nascer um palco, mas como se comprovou nessa noite, o palco, é quem o pisa que o faz.

2. Noite. Lua cheia. Os convidados e ilustres estão sentados em cadeiras mesmo em frente ao palco, o povo invadindo o belo terreiro, com a biblioteca municipal ao alto e ao fundo, a Igreja, vaidosa e de cara limpa, do lado direito da Praça.

3. Noite. Lua Cheia. Paulino Vieira vem a Cabo Verde pela primeira vez depois da sua longa convalescença. Houve mesmo quem tivesse afirmado, nesse período, que o Paulino nunca mais recuperaria a alegria suficiente para voltar a cantar e a compôr. Mentira. Ali estava ele, cheio de talento. Com o génio de sempre.

4. Mas não veio sozinho. Ali estavam Bau e Voginha, a dupla de guitarristas, representantes maiores de uma nação de tocadores de violão. E para o final, também depois de muitos anos sem cantar em palcos do arquipélago, o nosso bom gigante, enorme, imponente, houve mesmo gente que duvidasse se aquele frágil palco aguentaria aquela figurona. Mas aguentou. Oh, se aguentou!

5. Bana cantou naquele terreiro as mais belas mornas de B'Leza. Acompanhado por um Paulino renascido para a vida no seu torrão natal e por dois guitarristas de primeira linha. Eu abençoei o facto de poder estar ali, a presenciar aquele momento histórico. Nunca tinha visto o Bana cantar ao vivo e muito menos naquele lugar. Eu estava a poucos metros da lateral do palco improvisado, onde podia ver, detalhadamente, as expressões daquele rosto emocionado.

6. Bana canta morna como ninguém. E apesar da sua visível debilidade física, é um monstro em palco, no sentido metafórico do termo, como é evidente. Ver de perto Bana cantar é como conseguir ver a alma de um povo através de um microscópio super-potente, daqueles que só vemos nos filmes de ficção científica. Um imenso mundo novo, que sabíamos existir, mas que nunca tinhamos visto a olho nú, se nos apresenta bem à frente do nosso nariz.

7. Aquela forma tremida de cantar a morna, o lenço branco na mão, o gesto para limpar o suor (e as lágrimas), a expressão facial que nos dá a impressão que está sempre a sorrir. E o humor e carinho com que se dirige à sua plateia. Nesse memorável concerto do terreiro, ele cantou mais duas músicas do que o previsto, a pedido do seu povo e por vontade própria, e acabou dizendo, porque era um Domingo: «oh menis, amanhâ tud gent tita ba tchgá tard na traboi!». Uma delícia.

8. Foi lançada uma biografia do cantor, que será também apresentada no Mindelo, da autoria de Raquel Ochoa, intitulada «Bana: Uma Vida a Cantar Cabo Verde» e que segundo foi referido na apresentação, está escrito como um romance e retratando a vida de uma pessoa, mas que é também uma espécie de biografia de Cabo Verde. É natural que assim seja, e quem já viu Bana cantar ao vivo entende como isso é possível.

9. Bana foi homenageado na cidade da Praia, no âmbito das comemorações do Dia Nacional da Cultura, e será homenageado na sua ilha natal, S. Vicente, no dia 21 de Outubro, amanhã, numa sessão promovida pela Câmara Municipal. Merece, certamente, esta e todas as homenagens que lhe couber em sorte, porque não são todos os países que tem um homem assim, um homem que carrega nas costas, no corpo, no coração mas sobretudo no jeito de cantar, o espírito indelével de um povo único e orgulhoso.

10. Como afirmou Celina Pereira recentemente, Bana «canta, logo existe.» E nós, humilde e orgulhosamente, agradecemos.


Mindelo, 20 de Outubro de 2008



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9 comentários:

Anónimo disse...

Sao Vicente nao é ilha natal mas de adopçao de Bana!!

João Branco disse...

Bem, está escrito na sua biografia o seguinte:

«Bana, aliás Adriano Gonçalves, nasceu a 11 de Março de 1932 na freguesia de Nossa Senhora da Luz, no Mindelo.»

Que eu saiba, Mindelo ainda fica em S. Vicente. Mas se esta informação estiver errada, corrijam-na, por favor!

Abraço fraterno

Sisi disse...

Sem dúvida, uma voz doce e singular e é incrível como as músicas dele atravessa gerações (digo isso pq é o cantor preferido da minha mãe e da minha avó e na música de CV é dos meus preferidos também) e caem sempre bem a qq altura.

Teatrakacia disse...

Progenitores não sanvicentinos sempre fizeram uma confusão a certas pessoas... em relação à origem do Bana: Nasceu de facto aqui no Mindelo de S.Vicente.
Ansiedade grande em vê-lo a cantar, João, pois eu não estava em S.Nicolau, nem na Praia (há dias)

Anónimo disse...

Nos anos 70 em Luanda, casas cheias no cinema Avis.

Bana era já um caboverdeano prá história!

João Branco disse...

Sisi,sem dúvida um cantor de muitas gerações

Tchá, e ouvi dizer está em forma!

Anónimo, há tanto tempo a cantar Cabo Verde...

Anónimo disse...

Bana como todos os Grandes tem os seus misterios, e por ser cabo-verdiano sao as suas origens multiplas...

João Branco disse...

Hoje é dia de homenagem, na Academia Jotamont!

Ariane Morais-Abreu disse...

Momento historico de reencontro do Bana com a sua gente!! Espero que esta homenagem sera a altura do personagem, que as imagens serao conservadas para a posteridade e que o tempo perdido serve agora tanto o homem como as artes musicais...