O amor, quando se revela...

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          O amor, quando se revela,
          Não se sabe revelar.
          Sabe bem olhar p'ra ela,
          Mas não lhe sabe falar.

          Quem quer dizer o que sente
          Não sabe o que há de dizer.
          Fala: parece que mente
          Cala: parece esquecer

          Ah, mas se ela adivinhasse,
          Se pudesse ouvir o olhar,
          E se um olhar lhe bastasse
          Pra saber que a estão a amar!
          Mas quem sente muito, cala;
          Quem quer dizer quanto sente
          Fica sem alma nem fala,
          Fica só, inteiramente!

          Mas se isto puder contar-lhe
          O que não lhe ouso contar,
          Já não terei que falar-lhe
          Porque lhe estou a falar...

          Fernando Pessoa



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5 comentários:

lumadian disse...

Fernando Pessoa é assim... mágico!

Sisi disse...

É incrível como qdo se trata de amor até o ser humano mais desinibido torna-se acanhado. Porque será?

Gilia disse...

Fernando Pessoa é mesmo Mágico
mas deixo-lhe um que também escreveu coisas lindas acerca do Amor:

Busque Amor novas artes, novo engenho

Busque Amor novas artes, novo engenho
Pera matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê.

Luís de Camões

MYA disse...

Ate me apetece apaixonar so para dedicar este poema. :)

João Branco disse...

Lumadian, sem dúvida...

Sisi, porque o amor, juntamente com a morte, é o que torna os humanos mais iguais... Calha a todos!

Obrigado, Gi!

Também é para isso que serve a poesia, Mya.