Cafeína

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«Parto do príncipio de que nós, criadores, atiramos as coisas para humanidade e elas deixam de nos pertencer. E só aceito os direitos de autor porque a sociedade não me dá outra maneira de sobreviver. Em teoria, até sou contra os direitos de autor.»

«O Almada Negreiros dizia que somos uns meninos a brincar no jardim e a dar uns recados que vêm dos deuses ou não sei de onde, e portanto não somos os donos do que inventamos (...) A minha relação com a música é uma relação de amantes, não é um matrimónio. A gente encontra-se, junta-se e vai para a cama quando apetece.»

«O que procuro é respeitar os nossos valores: a gente a praticar aquilo que pensa, lutar pelo fim do sofrimento humano. Ser de esquerda é não suportar o sofrimento da Humanidade.(...) A questão que se põe é: queremos ou não tentar? Gostamos disto? Se a gente está bem assim, não é preciso mais nada. O meu objectivo de vida, os meus valores não são os da bolsa nem os do Belmiro. O amor, a justiça, esses é que são os meus valores. Portanto não posso estar contente com isto. (...) Espiritualmente a minha consciência está muito inquieta, porque vejo televisão, leio jornais, vou à internet procurar redes de informação alternativas. Isto está horrível. Vou para a cama? 800 mil mortos cívis no Iraque... Caguei, vou dormir na mesma...»

«Tenho que ter, como dizia o Pessoa, uma grande razão para subir a um palco. Venham cá que eu tenho uma grande coisa para vos dizer. E depois digo o quê? Eu tenho dois amores?»

«Continuo a sentir que quero ser feliz porra! E isto não é uma primeira pessoa do singular, porque, apesar de muito visceral, é extensível aos outros. As pessoas têm direito à felicidade. Que sentido faz a vida se não for para ser feliz?»

«Cristo veio dizer: esse Deus de que vocês andam a falar há não sei quantos milénios és tu. É do caraças! Ele humanizou a religião. Para uma pessoa com uma visão progressista da vida e do processo histórico humano, isto é lindíssimo. E depois há o lado político e revolucionário de Cristo naquele tempo. Nem me interessa muito saber se é verdade ou mentira. A história é muito bonita.»

«Tenho 65 anos e ando entalado há 50 entre duas igrejas. Uma que me conta a história de Cristo de uma maneira que não posso aceitar e outra que me conta a história do socialismo de uma maneira que não posso aceitar. Quer isso dizer que tudo o que li e em que acredito está provado que não funciona? Não. O que está provado que não funciona é a distorção de tudo aquilo em que acredito. Os se faz a sério ou não se faz.»

José Mário Branco (excertos de entrevista ao semanário Sol)




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3 comentários:

Catarina disse...

É mesmo sábio, caraças! Um verdadeiro gurú espiritual....

João Branco disse...

Podes crer, Catarina, podes crer!

JFS disse...

Continua a dizer as coisas "complicadas" de uma forma tão "simples", não é?
Nas canções e na vida.
A coerência do Zé Mário é daquelas coisas que nos fazem acreditar que a mudança é possível e que está aí para quem a quiser fazer