Crónica Desaforada

11 Comments



Um País Musical

1. Está mais do que claro: em Cabo Verde a música está por todo o lado, em toda a gente. Literalmente. É o maior produto de divulgação do país no exterior. A maior indústria. A expressão artística mais presente, produzida e apreciada, por pessoas de todas as idades, de todo o espectro social. Se a música é, como disse o poeta maior Auden, «a melhor maneira que temos para digerir o tempo», então Cabo Verde é acima de tudo um país abençoado, que sabe aproveitar o seu (tempo) melhor do que nenhum outro.

2. Neste dia mundial da música há que dar um grande bem-haja a todos esses centenas de anónimos hoje menos conhecidos, que andam pelas esquinas, ruas, pracetas, vales, planices e areais com um violão na mão, cantando músicas de ontem e d'hoje. A todos que gastam horas e horas da sua vida a praticar, no piano, no violão, no cavaquinho, numa bateria improvisada, num violino desafinado, com esse sonho de um dia ser um músico conhecido. Como todos aqueles que citarei de seguida, não como especialista musical, que não sou, mas como amante da nossa música, condição que assumo integralmente.

3. Aplausos, pois, a todos os mestres que já se foram. Desde B'Leza ou Luís Rendall, a Eugénio Tavares, Ildo Lobo ou Luis Morais. Seja pela composição, pela poesia, pela técnica inovadora de tocar violão, pela sonoridade única vocal, pelo carisma e talento no clarinete, pela escola que arrastam consigo, são estes alguns dos maiores ícones da historiografia cultural de Cabo Verde. Abençado o país que gerou homens de tamanha envergadura.

4. Aplausos para os revolucionários de ontem como Katchás ou Pantera, os Tubarões ou os Finaçon, ou os de hoje como Princezito e Tcheca ou os Ferro Gaita. Para Denti D'Ôro ou Codê di Dona. Homens e grupos musicais que bebem nas raízes mais profundas de Cabo Verde, que reinventam os ritmos d'outrora, que dão novas roupagens a antigas tradições, que conquistam os jovens para a grande festa dos ritmos, do funaná, do finaçon, do batuco e da tabanka.

5. Aplausos para as nossas grandes vozes femininas, as verdadeiras embaixadoras, desde a nossa maior porta-bandeira Cesária Évora, passando por Tété Alhinho, Lura, Mayra Andrade, Nancy Vieira, Maria de Barros, Celina Pereira, Titina ou Nácia Gomi e a sua infindável sabedoria de vida, difundida quase sempre em forma de canto e alma. Ou ainda Sara Tavares que canta em crioulo e todas essas mulheres meninas que estão aí prestes a rebentar, como Carmen Souza, Jeniffer ou Samira.

6. Aplausos para o nosso maior trovador de sempre, Bana, a personificação viva da alma pura, nostálgica e vibrante da morna. E para todos os outros cantadores enraizados por esse mundo fora, que encantam plateias e multidões, que espalham a nossa palavra, língua e cultura, através da música, como Tito Paris, Dany Silva, Boy Gé Mendes ou Teófilo Chantre.

7. Aplausos para Mário Lúcio Sousa, hoje compositor mais solitário, ontem mentor do mais extraordinário grupo musical da história recente do país chamado Simentera. Um dia, quando o tempo passar e os futuros investigadores tiverem distanciamento suficiente para estudos científicos e fundamentados da e sobre a música de Cabo Verde, se há-de concluir pela importância deste artista na historiografia musical do arquipélago. Para já, podemos nos deliciar com as suas obras, passadas e presentes.

8. Aplausos para os nossos maiores compositores, como o já citado B'Leza, mas também Ano Nobo - que nos deixa um legado extraordinário, de funaná, coladeiras e mornas; o grande mestre Manuel d'Novas, cujo conjunto de letras nos revela e pinta a história, alma e as côres deste povo musical, aventureiro, sofredor e apreciador das coisas boas da vida; passando por Frank Cavaquim ou Nhelas Spencer, Jotamont ou Antero Simas, e ainda Kaká Barbosa - o genial inventor do funambá - e todos os outros grandes compositores dos maiores hinos de Cabo Verde.

9. Aplausos para Vasco Martins, o nosso compositor de música sinfónica, que inspirado pelas montanhas, vales, mares, ventos e areias da ilha de S. Vicente, constrói uma obra musical extraordinária, tocada por importantes orquestras em todo o mundo, elevando a música de Cabo Verde a um novo patamar e abrindo muitas outras portas na descoberta de uma sonoridade erudita, contemporânea e verdadeiramente inovadora.

10. Aplausos para os nossos instrumentistas que, acompanhados pelo espírito de Travadinha, fazem da música instrumental em Cabo Verde um género maior. O virtuosismo de um músico como Bau deve orgulhar a Nação cabo-verdiana. Já lhe disse pessoalmente, e mantenho, considero Bau um dos maiores guitarristas do mundo. Ao nível dum Paco de Lúcia, por exemplo. O seu trabalho, que desenvolve juntamente com Voginha, de recuperação de sonoridades tradicionais no violão é notável e importante. A estes se juntam as centenas de instrumentistas que por esse país fora ecoam em cada bar, rua, bairro, num jeito basofo de tocar, personificado nessa força da natureza chamada Malaquias.

11. Aplausos para o grande génio de Paulino Vieira, que compõem muito e toca sete ou mais instrumentos, anima uma plateia como poucos e produz obras musicais de terceiros como nenhum outro. É o único que consegue tocar sozinho uma guitarra de doze cordas e fazer o ouvinte ter a sensação que estão dois ou três grandes músicos a tocar ao mesmo tempo. Dá poucas entrevistas, mas quando fala é para ser ouvido, para transmitir ensinamentos e uma maneira de ser e estar em sociedade que é um exemplo para tantos outros.

12. Aplausos para toda uma nova geração de futuros-grandes-músicos, que andam por aí, alguns a dar cartas, outros a estudar, outros a tocar pelos bares e hoteis nas ilhas mais turísticas. Uma geração cujo principal representante será hoje Hernani Almeida, um músico novim, ainda com ar de rapaz malandro, mas cujo toque de Midas já deu frutos nalguns dos mais brilhantes trabalhos musicais produzidos nos últimos anos, incluíndo o seu próprio.

13. Certamente muitos nomes ficaram por referir e haverá quem se queixe disso. Não foi propositado. Isto foi escrito assim, de um só jorro, olhando para a minha prateleira de discos. Lembro-me agora de dois amigos, músicos e de diferentes gerações, que provavelmente nem saberão que os tenho em tamanha consideração, mas a quem quero dedicar este singelo e incompetente texto. Aplausos para vocês também, Djinho Barbosa e Kisó Oliveira. Agora, seja o que Deus quiser!


Mindelo, 01 de Outubro de 2008


P.S. Finalmente, em jeito de nota de rodapé, como quem não quer a coisa, aplausos para os compositores, letristas e tocadores da nossa música pimba, com destaque para o tão incompreendido Zouk Love, que me fez passar alguns dos melhores momentos da vida, sempre com uma crioula nos braços...


Imagem: pintura «Musicas Apreensivas» de Luisa Queirós




You may also like

11 comentários:

Cesar Schofield Cardoso disse...

Diria antes "Crónica Musicada"...

Adorei esta homenagem. A música na nossa terra parece brotar da rocha, porque não é devida a escolas de música, nem a estúdios de ensaios, nem a salas adequadas, nem a instrumentos disponíveis, nem a incentivos e nem a premiações justas. Temos música porque o destino quis assim. Alguns tem ferro, cobre e outros minérios; nós temos música. Mas principalmente temos músicos e eles fica muito bem toda a nossa homenagem.

Coragem músicos.

Gilia disse...

Olá João
Acho que estão todos :), e certamente muitos mais estarão na sua fase embrionária.
Obrigada pelo teu contributo e tua capacidade de mostrar ao mundo tdos nossa cultura :)
Bijim

Sisi disse...

Adorei a nota de rodapé...eu apenas ñ compreendo é o facto das pessoas insistirem em tomar o Zouk Love como música tradicional e original de CV.

zé disse...

e onde estão as partituras com música de cabo verde?

parabéns para a vossa música e músicos.

João Branco disse...

Cesar, a música é o nosso «diamante»? hehehe

Gilia, nós é que agradecemos a todas essas pessoas tão extraordinárias, não é?

Sisi, tradicional não é certamente. Agora, se é ou não música de Cabo Verde, sobre isso tenho uma opinião bem particular (e polémica), que um destes dias poderei partilhar com a clientela.

Zé, isso agora, já não é do meu departamento. Mas a pergunta fica, para quem quiser responder.

lamanary disse...

sei que a intenção não é uma listagem estensiva e global,mas no paragrafo dos aplausos para os nossos maiores compositores tinha de caber o Betú!
"manu tev ki dexa ce mãe..." foi escrito nos seus 15 anos de idade.
de resto, quem importa está lá.

lamanary disse...

Zé, partituras não sei mas aqui http://www.humbertoramos.net/b2ramos/index.php?option=com_chordbase&Itemid=31
encontras cifras.

João Branco disse...

Lamanary, obrigado pela opinião e colaboração. Volta sempre.

MYA disse...

É que provavelmente atras do Zouk veio a curiosidade por outros generos da mesma origem. Porque se vamos falar em difusao, divulgaçao e afins... pra esquecer.
Maquina do tempo da Revoluçao Industrial.

João Branco disse...

Bem visto, Mya...

MYA disse...

Songo - ´falando de musica - "Parabéns a Voce" pela linda menina que faz parte da Familia. :)))
beijo grande de Aveiro para ti - Ze