Declaração Cafeana

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Na semana em que o Blog Joint escolheu como tema a questão da(s) língua(s) houve um cabo-verdiano que comentou comigo, com algum enfado: "outra vez? Mas vocês não se cansam de discutir sempre a mesma coisa?". Entretanto, a edição desta semana do Expresso das Ilhas dedica parte do seu suplemento cultural ao debate sobre a oficialização do crioulo, com opiniões e depoimentos contrários e favoráveis, como é natural. Nos blogues e nos principais sítios de notícias de Cabo Verde, o crioulo continua a ser um tema debatido de forma apaixonada e, muitas vezes, irracional. Aliás, como sabemos, paixão e razão não costumam andar juntas...

Isto para dizer que quem pensa que esta não é uma questão fundamental para o Cabo Verde de hoje, está enganado. O processo de oficialização está em andamento, isso é inquestionável e de aplaudir. As regras da escrita, com o tão polemizado alfabeto unificado, está aí, com força de lei para ser aplicado. Mas o maior erro que se pode cometer é pensar que este é um assunto pacífico, esgotado ou que o tempo resolverá. Não é. Basta ler os comentários a qualquer artigo, seja a favor seja contra, para verificarmos como a Nação cabo-verdiana está completamente dividida em relação a este assunto. E não é só dividida: é também muito mal informada.

Já o disse várias vezes: a forma como os defensores do establishment linguístico entram no debate não tem contribuído para um esclarecimento da opinião pública. Continuam a utilizar-se os termos "alienados", "complexados", "iluminados" ou "neocolonialistas" para classificar aqueles que defendem outro caminho, por convicção ou porque, o que acontece em grande parte dos casos, por estarem mal informados. Há que continuar a debater, discutir, partir pedra, mas de uma forma muito mais pedagógica, arejada, tranquila e inteligente. Há que promover mais debates, conferências, encontros, mesas redondas, onde todos e cada um possam dizer de sua justiça, contribuir para o enriquecimento de uma questão central e, até hoje, fracturante: encontrar a melhor forma de assimilar o carácter bilingue da nossa sociedade.

Ao Estado cabe também fazer muito mais. Como proponente, continua a fazer pouco. E fazendo pouco passa uma imagem da política do facto consumado decidida por uns quantos por motivações pessoais, que mesmo que possa ser injusta se torna compreensível por uma ampla franja da população. A primeira grande medida seria, na minha opinião, a fundação, com carácter de urgência, de um Instituto da Língua Cabo-verdiana, que ficaria responsável pela recolha de toda a informação e estudos já existentes sobre a matéria, mas principalmente que pudesse ser elo e motor para um debate intenso, aberto e pedagógico, envolvendo todos e não apenas alguns, que esclarecesse e não dividisse, que recolhesse subsídios e não se fechasse numa ortodoxia redutora, que preparasse, enfim, o país para que finalmente se dê a dignidade devida a uma língua primeira como é a língua cabo-verdiana, património de todos.

Imagem: pintura de Mito





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30 comentários:

Anónimo disse...

João,
Desejável/necessária é essa criação Instituto de Língua caboverdiana e tem de estar na forja do MC, prestes a SAI quentinho. Benvindo, neste tempo de crise emprgadorial... o seu presidente será? Aceitam-se propostas...

Amílcar Tavares disse...

Ainda bem que a divisão na sociedade cabo-verdiana se resume a este faits divers.

Tem aqui http://tinyurl.com/DebateKriolu um vídeo com depoimentos interessante e construtivos para o debate.

João Branco disse...

Amílcar, esse é um grande erro. A divisão na sociedade cabo-verdiana NÃO SE RESUME a estes faits divers. Ela é fracturante. Vai ler os fóruns da Semana ou do Liberal. Os comentários desde sempre. Esta minha declaração vai precisamente no sentido de chamar atenção para não minimizarmos a divisão existente que é muito mais profunda do que se possa pensar. Quem resume isto a linguístas da Praia versus pessoal do Mindelo, está a cometer um tremendo erro de análise.

Anónimo disse...

Declaração de interesses: sou português (mas amo Cabo Verde mais do que muitos caboverdianos que conheço!).

Não terá a casa sido construída ao avesso? Isto é, terá a sociedade civil sido chamada, invectivada, impulsionada, motivada ao debate prévio à imposição decretal? Se assim é (foi), suspenda-se o dito até que discussão se faça!

Também não sou (nem pretendo ser) linguista. Mas considerando o crioulo uma língua de transmissão (e tradição) nuclearmente orais, entendo que a respectiva tradução escrita se deve aproximar, tanto quanto possível, da sua expressão oral. O que, salvo melhor opinião, o ALUPEC não faz.

É claro que se trata de uma questão essencialmente social e cultural. Não devemos escamotear, porém, a vertente economicista que a elas vem sempre agregada. Por isso a pergunta mantém-se: que mercado para as obras literárias escritas em crioulo padronizado?
Para além, claro está, do "bambúrrio que se terá de gastar para o seu ensino nas escolas básicas e secundárias.

Finalmente dói, mas é verdade: Em Cabo Verde fala-se e escreve-se mal (nalguns casos bastante mal) o português, mesmo nas classes possidentes. A oficialização do crioulo (que eu só posso compreender e até aceitar como a sua implantação paritária com o português, ambas como línguas oficiais) irá originar uma (para mim) clara degradação do português enquanto língua de origem.

A tendência será, obviamente, para a progressiva afirmação da língua materna como língua (também) oficial.

Sucede, porém, que para a afirmação de Cabo Verde no mundo se exigirá então o ensino de uma segunda língua de expressão meta-internacional que não o português.

Porque esta é apenas a 6ª língua falada no mundo (e só no chamado "mundo lusófono") mas sobretudo porque, sendo a língua de origem, se confunde demais com a língua de Cabo Verde.

Isto é: não faz qualquer sentido o ensino simultâneo do crioulo e do português nas escolas, devendo optar-se pelo ensino exclusivo do crioulo enquanto língua oficial materna e, em vez do português, o francês, o inglês e/ou o espanhol.

Com o que nenhum mal virá ao mundo!

a) RB, anónimo por obrigação

Manu Moreno disse...

Bem expressadu RB...Djonsa no kapodi para és luta li...!!!

Quem mostra' bo
Ess caminho longe?
Quem mostra' bo
Ess caminho longe?
Ess caminho
Pa São Tomé

Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra Sao Nicolau

Si bô 'screvê' me
'M ta 'screvê be
Si bô 'squecê me
'M ta 'squecê be
Até dia
Qui bô voltà

Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra Sao Nicolau
..........................

È musika mais kantadu na lingua di kau-berdi...Keli é pa fika ta sabedu ma Alupec ka tem razão di bem fazi dezapareci o falar i cantar mais doci di terra ilhado!!!

Força Djonsa...No sta dentul tempural más nós kanoa ka ta funda!!

Kel abçom di kuraçom!!
ManuMoreno-Badio.

Elsie Gomes disse...

João, este teu post levantou-me muitas questões, questões estas que sempre fizeram-me muitas confusões relativamente a oficialização do crioulo.
Sou uma leiga no assunto, mas com o lançamento desta discussão tenho procurado me integrar mais do mesmo. No entanto, vou ser sincera, do pouco que já li sobre o assunto, tenho deparado com uma lacuna comum: muito se falado da mudança a nível linguístico, mas muito pouco se tem falado sobre a parte que,ao meu ver, é a mais importante, a mudança socio-cultural que CV vai sofrer. Assim, pergunto (é mesmo uma pergunta, não é ironia e agradecia que quem souber me responda), foi feito algum estudo junto da população de CV, para analisar o impacto socio-cultural que esta oficialização irá provocar? Pergunto isto porque um processo de mudança, seja ela qual for, é um processo bastante delicado, onde há sempre um lado que não está aberta à ela, e é aí que está o cerne da questão. O que tem sido feito junto desta parte da população para mudar a posição deles?? É que não estamos a falar de uma mudança simples como retirar uma praça do sítio onde ela sempre esteve (que ao contrário do que pensamos também tem o seu impacto), estamos a falar de uma mudança de escala maior com impactos em todas as esferas da sociedade.
Dou um exemplo bastante simples para representar melhor a ideia que quero transmitir: porque é que hoje em dia, nenhuma empresa é maluca de implantar qualquer tipo de mudança sem consultar os seus trabalhadores? Porque em tempos idos, muitos gestores o fizeram e o resultado foi a falência de várias grandes empresas. Pois o mesmo se passa com uma sociedade, porque caso contrário a mudança poderá ter efeitos perversos.
De nada adianta mudar o comportamento das pessoas, quando as suas atitudes permanecem os mesmos, pois acostumar-se ou habituar-se, não é o mesmo que assimilar, e a mudança (a oficialização do crioulo)deve ser assimilada para ter sucesso.

João Branco disse...

Elsie, o teu comentário tem toda a razão de ser. Durante todo este debate sempre disse que o que está a ser proposto está longe de estar socializado. A concretização de estudos da natureza dos que referiste, faz parte desse processo, ainda praticamente virgem. Não admira que a sociedade esteja tão dividida. A principal razão é mesmo falta de informação e falta de estudos.

Tiago Leão disse...

Amigo RB, a meu ver, o estado quase deplorável em que se encontra a língua portuguesa em Cabo Verde prende-se exactamente com o facto de as crianças serem obrigadas, quando iniciam a escola, a aprenderem de repente, quase como caída do céu, uma língua, que embora seja a língua oficial, é para a grande maioria uma língua praticamente estrangeira. Basta passear pelas «fraldas» do Mindelo e falar com os miúdos em português para sentirmos a estupefacção nos seus rostos perante a língua portuguesa e a subsequente dificuldade em juntarem quatro palavras. E é também com essa «língua estrangeira» que as mesmas crianças têm de aprender todas as outras disciplinas. Imaginemos o seguinte cenário. Em Portugal, e no resto do mundo, o inglês está permanentemente presente, não é? Das músicas, aos filmes, à televisão... Talvez em certa medida com uma presença mais marcante do que a do português em Cabo Verde. Por cá, música portuguesa, nada, filmes, sim, há as legendas, mas isso é para quem já lê, sobra a televisão, e aí sim, mas não nos esqueçamos que o que se consome são essencialmente telenovelas brasileiras, ou então o português «mascarado» da televisão nacional. Pois então, havia de ser bonito termos as crianças portuguesas a chegarem à 1ª classe e, sem os seus pais falarem inglês em casa, terem de aprender inglês, e também em inglês terem de aprender matemática, ciências naturais, etc. Pode-se achar estranha a analogia, mas salvas as devidas diferenças, que são muitas, eu sei, não me parece que a maioria das crianças cabo-verdianas de 5/6 anos saibam muito mais de português do que as crianças portuguesas (ou espanholas, ou francesas) da mesma idade sabem de inglês... E, para mim, esse é o grande objectivo da oficialização do crioulo. Estou convencido de que o crioulo pode vir a ter um papel preponderante nos primeiros anos de escola. Nada tem a ver com destituir a língua portuguesa, e nada tem também a ver com a utilização do crioulo na literatura ou noutras actividades artísticas ou científicas, embora, num futuro longínquo, muito depois de nós, isso possa de facto vir a acontecer sem perdas significativas em termos de alcance internacional. Claro que há muitas questões que se levantam e é por isso que interessa discutir o assunto até à exaustão. Eu, pessoalmente, não sei responder a todas, mas acho que urge fazer alguma coisa. Abraço.

João Branco disse...

É isso mesmo, Tiago.

João Branco disse...

Elsie, obrigado pelo comentário. Importante mesmo é não pararmos de discutir estes assuntos. Principalmente ESTE do crioulo.

Elsie disse...

Exactamente João, acho que se queremos fazer algo, que ela seja bem feita e acima de tudo, pensada e discutida.

Amílcar Tavares disse...

Concordo com a Elsie quando diz que as coisas devem ser pensadas e discutidas.

Agora pergunto: Sabem quantos simpósio, debates, colóqios, conferência... houve até hoje?

Ninguém saberá dizer. Pois claro, NINGUÉM QUIS SABER! Agora as coisas estão num ponto de quase não-retorno, toda a gente reclama.

My point: o cabo-verdiano chega sempre atrasado, reclama muito, mas em participação cívica, o que seria muito bom, é um zero.

Anónimo disse...

ALUPEK ta signifika un voltar pa fonte de nos patrimone kultural y de nos estade psikosusial Kome kabe-verdianes.
NO PRESIZA LINPA OI PA NO PODE KONXE NOS MESME Y SER UNS KABE-VERDIANES MAS KONSSIENTE. es stade de pretensau ke no ten vivide ten de para un dia. No tra maskara no ser nos mesme. Y nos linga e unike instrumente nes prusese.

No ten de feka e atente pamode senpre nes faze li de estoria e ke ser umane ten kustume de da kes patada ke ja bo ka ta pode reverte. No tive mute tenp kalode nes asunte y de un mument pa ote tude jent ta mitide nes rabulise y sen opiniaun konkrete. Txeu jent dus kontra sen es sabe kontra u ki e kes e nu funde. N ten uvide y alide e txeu preguntas ke ningen kre responde.

Nos tude ta merese resposta.

No no tita nesesita de respostas frankas pa no pode kontinua. ese situasau ka ten de ser un inpuzisaun deslial kon pretensau de algen ke kre feka forsozamente na estoria.

Es prusese e ireversivel. Ja no txega na Point of no return. So pa frente e ke kamin agora.

Era bon no konsegise mante purtuges iternamente au lode de kabe-verdiane ma estoria ta dze nos ke isse e un utupia. Latim ka foi mantide na teras onde kel foi inplementode. apezar ke nos estoria e ote atualmente. Nos pove e relativamente mas eskolarizode du ki konde latim tava rege na Portugal, Espanha, fransa y Italia.

Na verdade no pudia ter ultrapasode es faze de valorizasaun de nos kultura diaza se governes y autoridades de nos tera na setor de edukasau y kultura tinha temode loge a primera un ote pustura na pulitika kultura-l. as vezes n ten inpresau ke Kabe-verde nunka tive un pulitika kultura-l voltode pa levanta nos kultura. Foi kriode sin txeu instrumente pa deturpa nos mente na du ke ta dze respeite nos kultura nasiunal. Poke e kunxide pamode nos governantes senpre pensa ke kultura ka divia ser prioritare na dezenvolvimente de nos tera. kultura foi senpre fidje de fora kriode pa madastra. Investi na kultura nunka foi un priuridade de nenhun guverne de kabe-verde ate agora. Txeu denher korre pa mar na nome de kultura. Ma ningen proveita. nen mesme na kultura de peska.

Y nes mumente ke fome rejent de konxe nos orijen, nos estoria, nos tradisau y tude sub-kultura de nos tera no ka ten un instrumente pa fixa-l devidamente. pamode somente na kriol e ke nos kultura e pure.
na tude ote linga el ta ser deturpode.
Un dakes izemple klasike e konde n ta inkontra Katxupa eskrita Cachupa. Es cachupa li e sen kolde, sen robe de porke, sen mandioka e super insose y sen goste. Ma sobretude un deturpasau de un palavra kon un signigfikode para alem dakel alimente kel e.

Ken ke dze katxupa ta dze otes palavras y otes vertentes de nos kultura e ke ta ser deturpode pamode no ka ten un eskrita padronizode pa no rejista na linga e ke ta espresa nos alma, imusau y manera de faze, nos tradisau y folklore popular.

Inplementasau de ALUPEK ou ortografia Kabeverdiana ten de ser agora. Sen mas demora.

ja ta sink pa meia note

Un abrase Djon

Guy Ramos
guyramos@hotmail.com

Anónimo disse...

Um abraço ao Tiago Leão. Gostei do seu comentário.

João Branco disse...

Guy, excelente pedagogia, e em crioulo de Barlavento, para mostrar como é possível! Abrasu grand.

Amílcar Tavares disse...

Sobre as considerações de RB (anónimo por obrigação) e Tiago Leão, Maria Alice Correia Forte Alcobia Gomes na sua tese de doutoramento Papia, lé y skrebe na skóla kauberdianu : a emergência de práticas identitárias chega às seguintes conclusões:

1.ª - O ensino da língua portuguesa é desprovido de aspectos identitários da cultura cabo-verdiana e por isso não revela qualquer isomorfismo com a vida sociocultural.

2.ª - Para o tipo de ensino existente concorre a formação de professores, pois é uma formação muito teórica, que não proporciona os meios suficientes para os professores transferirem a teoria para a prática, não os confronta com práticas inovadoras e não consegue formar professores proficientes em língua portuguesa.

João Branco disse...

Amílcar, o grande desafio (e as dúvidas em questões metodológicas) no que diz respeito ao teu comentário está relacionada com a forma como se vai conseguir ensinar as crianças do ensino básico duas línguas - a cabo-verdiana e a portuguesa - em que dois sistemas de escrita são radicalmente diferentes. Um baseado no som das palavras e outro na etimologia e origem das mesmas. Não sei se em algum outro lugar já foram confrontados que esta dualidade, mas é um facto que há muito, muito caminho a percorrer se não se quiser atolar as futuras gerações em confusões pedagógicas e erros de análise que podem ser fatais se tudo isto não for muito, muito ponderado.

Amílcar Tavares disse...

Não percebo de pedagogia...

Amílcar Tavares disse...

Acho que a tua tese sobre o fracasso do duplo ensino do Cabo-verdiano e do Português no ensino básico está errada. O Programa de generalização do Inglês no 1º Ciclo do Ensino Básico de Portugal tem tido muito sucesso e estende-se também por aquilo que percebi ao pré-escolar.

Convenhamos que a distância entre o Cabo-verdiano e o Português é bem mais curta do que aquela que existe entre o Português e o Inglês.

João Branco disse...

Amilcar. Não falei em "tese", nem falei em "fracasso". As palavras são tuas. Chamei atenção para as grandes dificuldades do processo. E estás também enganado quanto ao segundo capítulo: precisamente por serem línguas mais próximas é que faz com que seja extremamente complicado utilizar no sistema de ensino em simultâneo com metodologias completamente distintas. Uma fonológica, outra epistemológica. Imagina a confusão na cabeça das crianças. Não estou a dizer impossível. Estou a prever, muito complexo conseguir alcançar metodologias equilibradas de forma a conseguir que as duas andem de par em par.

O inglês e o português tem a vantagem de serem muito diferentes mas se basearem numa estruturação semelhante, ou seja, são línguas baseadas na origem das palavras e não no som das mesmas.

Não sei se me fiz entender. Até porque estou a conversar contigo como leigo não como linguista, que não sou...

Amílcar Tavares disse...

Há uns anos conheci em Aveiro o Miguel Horta na lançamento do livro dele Pinok e Baleote.

Ele é pintor, animador social... um multifacetado. E contava-me a experiência dele precisamente nesta área: filhos de cabo-verdianos que vivem na Cova da Moura (Buraca) com dificuldades de aprendizagem quando chegam à escola. Os professores, sem experiência nenhuma na área de crianças bilingues, quase que os classificavam de menos "dotados". O trabalho do Miguel era fazer a ponte. Percebeu os conceitos de língua materna e lingua estrangeira.

Fiz o trabalho da casa. A divisão da Educação da União Europeia tem um site muito interessante sobre o multilinguismo. O tópico Famílias multilingues e Aprendizagem das crianças em idade pré-escolar acabam com os teus receios.

Dizem que o preconceito: "Uma criança que aprende duas línguas não domina bem nenhuma." está errado porque: Esta ideia sem verdadeiro fundamento provém do facto de haver crianças que não conseguem identificar-se com nenhuma das línguas que aprenderam ou das culturas em que cresceram. Os adultos que cresceram num ambiente multicultural geralmente não apresentam problemas e as crianças que se sentem aceites por ambas as culturas identificam-se com ambas.

Em minha opinião, a questão é: Cabo Verde tem professores à altura do desafio?

A minha resposta é: Não.

João Branco disse...

Amílcar, sabes, estou a apreciar bastante esta "conversa" porque estamos um pouco à frente da questão do alupec, do K, das variantes, do bla bla bla habitual.

Os dados que deixas aqui são muito interessantes. Vou ver os sítios que indicas e vou escrever sobre isso. E repara, a minha questão nunca foi a de uma criança poder ou não poder aprender duas línguas ao mesmo tempo, mas sim salientar a dificuldade de aprender duas línguas que são parecidas na "forma", mas tão diferentes nos seus conceitos básicos de construção das palavras.

Os teus dois últimos parágrafos dizem muito e estou de acordo com eles. Neste momento, o nosso sistema de ensino não está pronto para receber o que os senhores lá de cima andam a impor. Nem de perto nem de longe.

Façam-se os estudos. Preparem-se os agentes de educação. O caminho faz-se caminhando...

Abraço

P.S. Em princípio, segunda-feira, vou preparar uma Declaração Cafeana sobre o tema, inclusive utilizando esses teus dados, e lá poderemos continuar a "conversar"

Anónimo disse...

Oh Joao era bom considerares tambem o caso das Antilhas Holandesas. No ensino basico adoptaram para uma escrita do Papiamento, primo do creolo cabo-verdiano, e usaram a mesma forma do ALUPEK. Ou seja a fonologia. a unica diferenca 'e que o holandes e o papiamento se encontram a leguas uma da outra. papiamento ten as mesmas derivacoes do nosso creoulo somente desenvolveu-se ainda com influencias espanholas, holandesas e inglesas. Hoje em dia se escreve em papiamento e 'e lecionada nas escolas paralelamente com o holandes. Livros sao escritos em papiamento e 'e tambem lingua oficial nas Antilhas( Coracao, Aruba, Bonaire, St Autacius, St Martin etc).

Papiamento pode ser um exemplo. Ja existe um estudo comparativo entre o papiamento e o creolo feito por um cabo-verdiano americano que neste momento nao me lembro o nome, que podera ser um guia ou um instrumento de estudo na implementacao do Alupek como base da nossa lingua escrita.

Se bem que sou somente um curioso e interessado neste desenvolvimento da nossa lingua e de pedagogia nada percebo.

Abraco,

Guy Ramos
guyramos@hotmail.com

Redy Wilson Lima disse...

Quanto à discussão de sempre como dizes sobre o K e não sei mais o quê, de repente fiquei curioso sobre o que achas então sobre este post:http://kufrontalidade.blogspot.com/2009/03/necessidade-da-lingua-cabo-verdiana-no_19.html

João Branco disse...

Redy, estás desactualizado. Estou noutra. Não ando a discutir kapas à bastante tempo. Estou a discutir, com outros companheiros, sobre soluções, sobre o futuro. Sobre questões pedagógicas, económicas e sociais, e sobretudo, práticas. Não discuto a oficialização ou a sua necessidade. Discuto a forma de a pôr em prática. Não queres passar a este patamar de conversa? Pode ser que te surpreendas com o que descobrimos com pessoas como, por exemplo, o Guy Ramos.

Anónimo disse...

Nome do pesquisador que fez um estudo comparativo do creoulo de Cabo BVerde e o Papaiamento das Antilhas neerlandesas 'e Rosendo Evora Brito natural de Santo Antao mas emigrante e estudioso nos EUA.

Creio que ele foi no passado candidato a presidente da camara do Porto Novo como candidato da UCID.

Muito bem dito Joao. devemos passar a uma outra plataforma. deixemos os detalhes dos Kapas e dos Ques na mao dos linguistas. Refletamos sobre o futuro e os entraves e quica nasca ideias e conclusoes que podem levar o governo e seus miniterios a melhor dirigir esse processo levando em conta os varios argumentos que aqui e acola se apresentam nos debates online. desempenho da cidadania? creio que 'e isso pois o meu dominio do portugues 'e bastante franco e fruto de autodidactismo. o dominio do meu portugues e do meu creoulo Alupec sao todos frutos de auto didactismo. Nem sei se esta palavra existe no portugues. estou a traduzir do neerlandes(holandes 'e dialecto do neerlandes falado nas provincias do Noord e Zuid-Holland. Nesta duas provincias existem ainda dezenas de sub-dialectos que eu percebo mas nao falo)

Boa noite

Guy Ramos

Redy Wilson Lima disse...

Pois é amigo, o grande problema é que enquanto alguns discutem, outros (des)actualizados como eu, que há muito ultrapasou esta parte estão numa que nem os atentos como tu conseguem imaginar.
Mesmo assim, como se pode fazer uma casa sem saber como construir o pilar?

Redy Wilson Lima disse...

Outra coisa: continuaste a não responder a minha questão. Ou preferes simplesmente ignorá-la?

Redy Wilson Lima disse...

Quando quiseres saber (para informar até alguns incautos) os nomes dos muitos estudos e investigadores que trabalharam ou trabalham a língua cabo-verdiana ou outras línguas em situação mais ou menos parecida, podes perguntar-me que terás muitas surpresas.
Deixa mas é de especular e pega em coisas mais concretas.

João Branco disse...

1. Redy, não ignoro, simplesmente acho que neste momento não é prioridade discutir essa problemática dessa forma e só serve, precisamente, para afastar das pessoas do que realmente interessa.

2. Agradeço a tua colaboração. Acredito que és capaz de seleccionar n estudos que possam ir de encontro com o que tu defendes. Ainda bem. Estarei atento e interessado, como sempre estive.

3. Eu não especulo. Nem insulto quem não pensa contra determinada solução, mesmo que inúmeros estudos comprovem que essa pessoa possa não ter razão. Aliás, não sou dono da razão, não sou linguista, nem sou mais papista do que o papa. Limito-me a constatar factos e, principalmente, comportamentos. Mais concreto, não há.

4. Fico contente por saber que estás muito à frente vendo coisas que o comum dos mortais ainda não percebeu. Ainda bem. Como comunicador nato que és, certamente conseguirás passar essas preciosas informações, esses veículos que permitiram que estejas, hoje, a milhas de distância dos seres normais que continuam a discutir coisas vagas e/ou incertas.


Abraço, e a propósito, já fiz outro post, para continuarmos a conversar sobre isto.