Crónica Desaforada

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O Elogio da Arrogância

1. Em conversa de amigos, discutiamos sobre o feitio do treinador José Mourinho. Considerado por muitos um dos melhores treinadores de futebol do mundo, é também conhecido por ser portador de uma arrogância quase tão estratosférica quando as suas reconhecidas capacidades.

2. Na sua primeira conferência de imprensa, em Inglaterra, disse: "I'm the special one!" Não só foi uma frase que apanhou todos desprevenidos, nomeadamente a implacável classe jornalística inglesa, como se veio a revelar um notável golpe de marketing. O nominho pegou e esta é uma designação que, de imediato, identifica o técnico em qualquer parte do planeta.

3. Se o seu passado profissional já lhe dava algum crédito para abrir a boca e dizer o que disse, o futuro veio a dar-lhe toda a razão. Não só foi campeão no primeiro ano em Inglaterra, algo inédito, como o conseguiu numa equipa que não vencia o título há cerca de 50 anos. Daí para cá, a história é conhecida: coleccionou títulos, e foi campeão no seu primeiro ano de trabalho em Itália, outro feito inédito.

4. Ou seja, a José Mourinho hoje perdoa-se-lhe aquele ar de enfado e superioridade que coloca em cada gesto que protagoniza em público, mesmo quando jura a pés juntos que é um tipo humilde que gosta de aprender com os outros. A arrogância desta figura é sustentada pelo talento que a justifica.

5. Vem isto a propósito da mais recente entrevista do escritor e poeta José Luiz Tavares ao semanário A Nação, que nos mostra um homem sem papas na língua, que fala curto e grosso, e que se diverte com isso. É um poeta que acredita na sua obra e tem todas as razões e mais alguma para o fazer.

6. Confesso que não pude deixar de sorrir com muitas das passagens da entrevista, não apenas pelos conteúdos e pela forma quase desbragada com que foram ditas, mas sobretudo ao imaginar a reacção ofendida, emproada e saltitante de muitos seus colegas ao ler aquelas palavras. "Mas quem é que este tipo pensa que é?"

7. Ah, podem perguntar, que ele responde. Em primeiro lugar, está-se nas tintas para o que designa de "senhores feudais da literatura cabo-verdiana e da lusofonia, os compadres do elogio mútuo e das palmadinhas no ombro." E depois, mais há frente diz a frase que faz manchete na primeira página: "por ora, sou o único escritor cabo-verdiano do século XXI." O nosso special one!

8. Tal como o exemplo dado no início desta crónica estou profundamente convicto que o poeta assim fala porque conhece a sua própria obra e sabe onde ela está e para onde ela o pode levar. Há, pois, uma diferença muito grande, como da água para o vinho, do preto para o branco, entre a natural e intrinseca basofaria crioula e declarações como estas, sustentadas num percurso sólido, competente e inovador, no que foi designado pelo crítico literário António Cabrita de "um caso literário a que só a miopia de uma certa crítica obcecada com os graus de parentesco não dá o devido relevo."

9. Se há algo que reflecte, numa primeira e apressada leitura, a poesia de José Luiz Tavares, e como leigo falo, é um apuro levado às últimas consequências, uma exigência obcessiva no tratamento dado a cada palavra, diria mesmo a cada sílaba e a cada letra. Um domínio absoluto da língua portuguesa que é resultado, percebe-se, de um trabalho de formiga, paciente, apaixonado e insatisfeito.

10. Portanto, José Luiz Tavares é daquelas pessoas a quem se deve dar o direito pleno à arrogância, não no sentido de um posicionamento em bicos de pés, de quem quer parecer mais alto do que realmente é, mas de quem se conhece a si próprio, sabe e contabiliza cada gota de suor gasto na concepção da sua obra e não vê nenhuma razão para não gostar de si próprio, a não ser por razões de falsas e hipócritas modéstias. Felizmente para nós, nunca foi por aí.

11. Há mais gente assim. no chão das ilhas. E distinguem-se bem e em primeiro lugar no discurso e na obra, vista em retrospectiva. E em todo o lado é assim: há aqueles que se destacam, não porque tem mais competências na cada vez mais popular arte de lamber botas e subir as escadas do poder às custas de falsas amizades, mas porque são simplesmente melhores que todos os outros naquilo que fazem.

12. Neste sentido, este tipo de arrogância tem tudo de transparente e por isso acredito que é, inclusive, um bem social. Claro que no meio destas pessoas únicas sempre há, e há-de haver, quem queira apanhar uma boleia, pretendendo utilizar um discurso em tudo semelhante, mas facilmente desmontável.

13. O tempo, meus caros, é o maior juiz para tudo. É implacável, justo e não há como fugir ou discordar da sua sentença. E se o ditado nos diz que "dos fracos não reza a história", é porque o tempo acaba sempre por trazer à tona e às páginas dos compêndios aqueles cuja obra deixou marcas, marcas essas que não se compadecem com falsas modéstias. Os special one's existem, e felizmente, Cabo Verde também tem os seus.


Mindelo, 22 de Maio de 2009, 
numa crónica dedicada, naturalmente, a José Luiz Tavares


Ilustração de Kehinde Wiley




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15 comentários:

Licinha Mascarenhas disse...

Sem saber aonde ias chegar no artigo, ao ler a tua descrição do Mourinho automáticamente pensei no José Luís... Li o artigo do "A Nação"...
Na verdade, desde sempre juntamente com a admiração e o respeito, experimento quando os oiço ou leio, sentimentos antagónicos que nunca expresso por palavras mas que no fundo de mim mesma me incomodam...

E com os meus botões, tentando entender-me e o mundo, penso no meu pai que dizia: "ele eh bazof ma'l podê q'sê bazofaria..."

Sofia Fonseca disse...

Ola joao,

Nao conheco bem a obra do luis nem li o artigo de q falas

Mas aqui vai algo q acho

A arte é algo subjectivo e por isso n se pode ter arrogancias e afirmacoes pessoais pois caem mesmo mal

O artista deve ter a humildade de deixar q os outros o apreciem e nao auto-critica

Os premios e reconhecimentos irao aumentar o seu credito mas nek por isso alterar gostos

Nos ultimos anos temos tido alguns casos de auto reconhecimento excessivos principalmente no asemana q a mim pareceram q em CV há tanta frustracao por parte dos artistas pelo n reconhecimento q parece q eles vao la p dizer eiiii repara em mim.. Eu sou bom :)

Mas é verdade o artista caboverdiano é o profissional mais frustrado em termos de reconhecimento q devemos ter em CV

Ninguem consegue no nosso pais ser artista a n ser q faça da sua profissao um hobby.. Ate porque se o fizer a tempo inteiro a familia passa fome e as pessoas chamam de desocupado

Enfim.... Resumindo...

N gosto de auto critica em materia de arte.. Acho q fica mal.. Mas tambem o nosso povo nao ajuda comecando pelo nosso super ministerio

Abraço
Sofia

Tchale Figueira disse...

Sou artista e não sou frustrado. Quando escolhemos aquilo que queremos ser,faze-lo com empenho e paixão. Familia , fome? isto é papo de burocratas armado em artista. Pensar em família, fome, quando um é artista?... Os exemplos de grandes artistas como Van Ghogh, Modigliana, e outros devia limpar vossas cabeçinhas. Estudem mais a história de Arte... Com isso não quero dizer, que sou apologista da Miséria. Será que o José Luis é arrogante como muitos dizem,ou é senhor da sua cabeça e escrita? A mediocridade é uma praga a matar com Baigom.

Sofia Fonseca disse...

Caro Tchalé q tanto prezo
Entendeste exactamente o oposto
Em cabo verde n se da valor aos artistas e muito menos aos q vivem em territorio nacional
O vosso trabalho n é pago como merecido e se tu o consegues fazer como teu meio de vida como eu faço em ir para a funcao publica tds os dias és dos poucos
Na praia onde eu vivo qdo no kapa aparece por duas semanas seguidas o mesmo artista, da segunda vez ninguem sobe para o palco para ver pois dizem ja tou farto de o ver.. Ou seja é um desocupado q la esta de novo
Toda a regra tem excessao
Nao sou artista e nem sei o q é ser mas amo arte principalmente musica.. E isto magoa-me muito
Principalmente qdo aparece qq musico q n vive no territorio e dao credito muito a mais q tantos nacionais
A cultura n é valorizada!

Peço desculpa se n me entendeu bem

Abraço
Sofia

Anónimo disse...

Bem dito Sofia. Bom comentário. Ignora o Tchalé.

Tchale Figueira disse...

Sofia teve ovários para ripostar-me e se foi um mal entendido, tudo bem. Agora! este anonimo que vá TRÁ BUFE NA CINZA. OU BÁ PASSEÁ MACOQUE.

João Branco disse...

Mesmo tendo entendido de início o que a Sofia queria dizer, acho que fez muito bem em explicar-se melhor para afastar mal-entendidos e concordo com ela. Tudo bem quando acaba bem.

Anónimo disse...

O anónimo não se identifica para evitar quezílias desnecessárias. O Tchalé tem a tendência para ser brusco (ou mesmo bruto) e por isso o meu conselho à Sofia. De qualquer modo, peço desculpas se se sentiu ofendido. Não foi essa a intenção de todo.

Cesar Schofield Cardoso disse...

Entendam uma coisa: se José Luis Tavares não tivesse aquela atitude que tem, não teria sobrevivido. Um pouco no estilo de José Mourinho, sim. Isso aprende-se: sem uma boa dose de arrogância e atrevimento, não se rompem as pesadas cortinas do conformismos e feudalismos instalados.

Agora vamos à obra, que é realmente o regulador entre humildade e arrogância de um artista: José Luís Tavares, chamem-lhe o nome que quiserem, faz um trabalho a todos os títulos espantoso no espaço da - atentem bem nisso - lusofonia! Não é espaço de CV, senhores, alguns Km2; espaço de Portugal e Brasil, onde estão os mestres (até agora inultrapassáveis) de domínio da língua portuguesa. É isso que interessa, sem basófias, nem dívidas para com ninguém. Ler JLT exige de cada um de nós ir à estante, rever os mestres, consultar o dicionário, rever conceitos de teoria de literatura, ter paciência, ir lendo, até conseguir realmente ler (um pouco) JLT.Muitos preferem um literatura mais "ligeira". Eu próprio sou adepto da já chamada nova poesia de língua portuguesa, mundana e leve. Questões de opções. Só.

Tchale Figueira disse...

Afinal seu Anónimo: Sou brusco, ou sou bruto? posso ser até filho da puta mas nunca escondo no anonimato. Não era necessário por o bruto entre aspas... KEM EN DEM KU EN TA BIBE MEL

Anónimo disse...

Bem eu já pedi desculpa pelo meu deslize e você já disse que não se esconde no anonimato. O melhor agora é sair de cena e deixar esta discussão voltar a centrar-se. Numa boa (ta bibe mel).

João Branco disse...

É isso mesmo, Anónimo. Voltar a discussão centrar-se no tema: ser ou não ser arrogante, eis a questão! E volta sempre!

Tchale Figueira disse...

Eu é que não volto mais.

Não farei mais comentários em nenhum blogue.

Anónimo disse...

Ô ke trapaioçom! :D

Manera gente? bzote ti tarri de manera "anonime"? :op



moreia

Ariane Morais-Abreu disse...

Demais faz mal... Até este post elogioso sobre o poeta JLT parece suspeito !! Deixem falar a obra (nao o poeta que fala da sua obra) e tentam de vez em quando ultrapassar o espaço lusofono. Respira assim melhor a poesia.