Declaração Cafeana

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Gosto de futebol. É verdade que falo pouco disso aqui no Café Margoso porque também admito que é dos poucos assuntos que me tira do sério, por várias razões. Mas não é só a mim. Os meus melhores amigos, alguns deles pessoas de grande inteligência, ficam subitamente parvos e atrasados mentais quando discutem futebol, vendo coisas que mais ninguém vê, perdendo muitas ocasiões a completa noção da realidade. Admito também que isso possa ter acontecido comigo, ou melhor, que algum destes meus amigos possa dizer exactamente o mesmo sobre a minha pessoa.

Mas também é inquestionável o poder que o futebol tem no mundo, para o bem e para o mal. Do meu ponto de vista muito mais para o bem do que para o mal, embora veja que exista muita gente que veja neste desporto apenas um conjunto de vedetas milionárias e dirigentes corruptos. Mas é muito mais do que isso e o chamado desporto rei tem aproximado povos e muitas vezes dado o exemplo, colocando equipas de nacionalidades em guerra a jogar uma contra a outra. Foi o caso de um célebre jogo Inglaterra - Argentina, quando decorria a Guerra das Malvinas, ou um Estados Unidos - Irão, quando os respectivos países andavam de relações cortadas (como estão, aliás, até hoje).

Ontem aconteceu mais um exemplo de como pode o futebol ser portador de mensagens com elevada carga simbólica à escala global: o jogador do Mali do Sevilha, Frederic Kanouté, num gesto sem precedentes, festejou um golo que marcou num jogo da Copa do Rei contra o Desportivo da Corunha mostrando uma camisola debaixo do equipamento, negra e com inscrições de solidariedade para com o povo da Palestina. O árbitro da partida, como mandam as regras, exibiu o cartão amarelo, mas o gesto esse, já correu o mundo.

Uma nota inicial reveladora de falta de bom senso: por regras pouco compreensíveis, a nível mundial (FIFA e UEFA), o momento mais belo, excitante, mágico e justificativo do sucesso deste desporto, ou seja, o momento em que se marca um golo, é condicionado pela regra de que os jogadores não o podem festejar como bem entendem, desde que isso vá contra o fair-play. Qualquer coisa mais exuberante, é multada, seja tirar camisola, ter uma dedicatória debaixo do equipamento, mesmo que seja uma dedicatória ao filho, ou festejar a alegria com os adeptos. Para quem não entende, fica a metáfora: é como se fossemos obrigados a morder uma almofada no momento do orgasmo, quando a nossa vontade seria gritar aos quatro ventos, mas não o podemos fazer por alguma razão particular.

E uma nota final reveladora de grande hipocrisia: é muito provável que o jogador venha mesmo a ser multado pela Federação Espanhola. Daqui se vê como são sinceros os uivos europeus relativamente à guerra fratricida. Nada que seja para admirar num continente cujo campeonato de selecções (da Europa) tem como um dos intervenientes, precisamente, a equipa de futebol de Israel. Lógico.

Kanouté, graças ao poder mediático do futebol, terá feito com este simples gesto mais pela divulgação da causa palestiniana do que as declarações de pesar e de boas intenções dos dirigentes europeus, no seu conjunto.




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9 comentários:

Anónimo disse...

Lembra-me, antes do 25 de Abril, a Associação Académica de Coimbra a jogar de luto académico.

Será que no Glorioso alguém vai seguir o exemplo?

a) RB, anónimo por obrigação

João Branco disse...

Glori-quê? :)

Anónimo disse...

Rectifico: O PAI DA PÁTRIA! (a mãe é a C.G.D., hehehe!)

a) RB, anónimo por obrigação

Amílcar Tavares disse...

Sobre essa organização mafiosa que dirige o futebol não direi uma única palavra.

O Kanouté mostrou que tem-nos no sítio e mostrou a sua indignação.

Os meus aplausos e respectiva assinatura por baixo.

OG disse...

Viu-se em Outubro do ano passado Cuba - EUA.

Bom exemplo, esse do Kanouté.

Anónimo disse...

Concordo com o Amílcar Tavares: quer a Uefa, quer a Fifa são sítios mal frequentados!

a) RB, anónimo por obrigação

João Branco disse...

Concordo!

OG disse...

Federação da Palestina distinguida com o “Prémio Desenvolvimento”

http://www.ojogo.pt/Directo/NoticiaHoraFutebolInternacional_Palestina1201_104061.asp

João Branco disse...

Obrigado, OG!