Cafeína: auto-crítica

13 Comments


"Precisamos urgentemente de um mediador. Um mediador entre nós e os nossos egos, entre a banalidade e a arte, entre a mediocridade e a excelência. Precisamos de um mediador para acalmar os ânimos e separar o pretensioso da medida certa. Precisámos de alguém que diga um “não” firme, que diga “isto” e seja, que ponha ordem na contagem e abra espaço à ambição de sermos melhores. Carecemos desesperadamente de um mediador nas artes plásticas, na música, no teatro, na literatura, no cinema (pelo menos no que se tenta fazer), para que não se ergam entre nós fraudes nauseabundas, pequenos feudos e impérios ilegítimos. Precisamos urgentemente de mediadores que nos cure os males da cegueira e nos livre os vícios do ego. Alguém que nos arrume em cantos distintos da mesma sala e nos ensine as nossas diferenças. Já não me satisfaz os opinions makers nas artes plásticas, na literatura, no teatro, no cinema. Tem que haver uma separação clara entre quem faz e quem analisa, quem cria e quem critica. Tem que haver paciência para esperar que a consagração chegue pelo valor da obra e não pela força das palavras dos críticos amigos. Há que respeitar o sentido de se fazer arte e o valor do tempo no amadurecer de cada percurso, de cada obra."

Abraão Vicente - Ala Marginal



Comentário Cafeano: há textos, como este, que faço questão de colocar aqui. Faz(-me) falta essas vozes que observam e analisam com olhar crítico, inteligente, referencial, sem complexos nem ligações perigosas ou afectivas que possam provocar desvios de objectividade, que apontem caminhos ao identificar deficiências, excessos, falta de profundidade criativa, desleixo. Que questionem e nos façam pensar, sobretudo. Nos últimos Cursos de Iniciação Teatral tenho obrigado os alunos a escrever sobre tudo o que vêm, no âmbito da formação: peças de teatro, bailados, documentários, exposições. Há gente com talento. Precisam de estudar mais, conhecer mais e de se prepararem, intelectual, moral e espiritualmente para o que há-de vir. Fazer crítica em Cabo Verde é um desporto radical e isso não é para todos.

Ilustração "Dali" de Victorian Grey



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13 comentários:

Anónimo disse...

Xplikan pamodi ki bu ten ki lambi sémpri AV... mému ki el ê ta pasa témpu ta xobrou kuza?

João Branco disse...

Publiquei este comentário para dizer precisamente o quanto falta uma cultura crítica em Cabo Verde. Cá está, o termo "lambi"... faz todo o sentido, não faz? Abraço e volta sempre!

José Eduardo Fonseca Soares disse...

Aqui estou de acordo. Mas há aspectos diferentes no post do AV que ontem li. Por um lado esse que comentas, da falta de crítica e seu impacto (negativo) em CV quando ela existe.
O outro aspecto, preocupação maior para AV segundo me pareceu do texto: a facilidade de... uma espécie de 'EGOS criarem ou badamecos auto-criarem um artista num dia', que se instalou cá no burgo.

João Branco disse...

Tchá, de acordo. Mas se houvesse crítica a sério, não haveria nascimento de artistas por geração espontânea...

Paulino Dias disse...

JB,

Falando em "artistas por geracao espontanea"... o que eh ser artista?

Pergunta cafeana... eh eh eh.

Abraco

João Branco disse...

Paulino! Andas desaparecido durante tanto tempo e vens agora traumatizar-me com essa pergunta do que é ser artista?! Isso não se faz! hehehe

Ariane Morais-Abreu disse...

Soou bonito o texto do AV mas bonito nao faz sentido aqui porque mais uma vez ele pecou e errou quando diz:"tem que haver uma separação clara entre quem faz e quem analisa, quem cria e quem critica..." Conhece o nosso AV nacional os numerosos e conceituados (palavra horrorosa!!) criadores-criticos como os Baudelaire, Paul Klee, Delacroix, Goethe, Kandinsky, Vassari, Piccabia, Breton, Antonin Arthaud, Chazal e muitos outros???! So um espirito constrangido pode vociferar tal aberraçao. Por acaso deveria o AV, sendo ele artista e productor de talk-show, ler o critico francês Jean-Philippe Domecq, Misère de l'Art", afim de compreender que os discursos nao substituam as obras, nem compensam o trabalho de criaçao que se confunde sempre com o qualificativo "artista". So aqueles que carregam este epiteto sao capazes de criar fronteiras entre a criaçao e o seu espelho. Talvez porque nunca aceitam a critica como parte integrante da obra, talvez porque nao vejam arte como meio de comunicaçao e dialogo, partilha de pensares... Claro, fazer critica ka é arte dos cobardos consensuais e circunstanciais em parte nenhum!!

João Branco disse...

Ariane, há que colocar essa frase no contexto nacional e na nossa realidade artística e cultural... De resto, o teu comentário parece-me pertinente e contribui para o debate, que é o que se quer.

Anónimo disse...

A Ariena M... parece ter pressa de exibi ses conheciment! isso de ler so para ler e comentar para dar show torna-se um pouco cansativ! como disse o JB ver o contexto das coisas evitaria certos "erros"...gostaria de entender a pressa que muita gente tem em criticar o AV, de enfreta-lo...João ainda estou para perceber, como é o AV tira os comentários do seu blog e tu achas que é moralmente coll fazeres que o texto dele seja comentado no teu... não sei se é o mais correcto...tudo uma questão de egos

Lay P. da Sousa

João Branco disse...

Lay, considero que o que está publicado, público é. Isto no sentido de que, desde que se refira a fonte, está sujeito ao comentário, à avaliação, é normal. Embora, entenda o que dizes mas quem é figura pública está sujeito a que se fala do que fazem, do que dizem e do que escrevem. Desde que o faça com nível, não vejo onde esta o mal.

Abraço!

P.S. Esse argumento dos egos, bem, já cheira mal. Escreverei sobre isso mais logo!

Ariane Morais-Abreu disse...

JB acho que omitiste um comentario meu feito a seguida do Lay e para o Lay. Obrigada!

João Branco disse...

Ariane, enviei-te um mail a explicar a situação. Cumprimentos!

Ariane Morais-Abreu disse...

Je comprends, merci...