Blog Joint: uma provocação

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Fui recentemente convidado por um professor para ir falar, numa disciplina específica, numa das Universidades privadas existentes no Mindelo, sobre a minha experiência profissional. Aceitei, como habitualmente, o desafio. Preparei uma apresentação em Power Point e lá fui eu, todo basofo, dar a minha palestra. Nunca tive problemas em falar em público, e portanto, sentia-me perfeitamente à vontade. O curso em causa tinha um horário nocturno, pós-laboral.

Quando entrei na sala, fiquei um pouco apreensivo, e essa preocupação acabou por se justificar. Resumindo, e para não entrar em detalhes, devo dizer que a sensação que dava era que aqueles alunos - os que estavam no início e os que foram chegando ao longo da hora e meia de conversa, como se não houvesse algo chamado horário e relógios - estavam ali a fazer alguém um favor, a quem não se sabe. A fazer um frete. Enfim, um aborrecimento. Com uma ou duas excepções, a maior vontade daquele pessoal era ir para casa o mais depressa possível.

Agradeço aos poucos que souberam ou quiseram tirar daquele encontro alguma mais valia. E logo pensei que a culpa da situação só podia ser minha e do tema proposto, que por acaso até estava relacionado com a disciplina em causa. Mas na semana seguinte, foi uma outra pessoa, levar a sua experiência. E o ambiente era mais ou menos o mesmo. Malta a comer pipocas, a conversar como se ali não se estivesse a passar nada, como se não estivessem a receber um convidado, que de livre e expontânea vontade, foi ali partilhar um pouco da sua vida e experiência.

Muito provavelmente, alguém vai ler isto e vai identificar a situação. Vão imprimir o texto e fazer cópias para os colegas, e uma onda de indignação vai-se levantar. Da parte que me toca, peço que pensem um bocado antes de gritar aos sete ventos a fúria perante este atrevimento. Pensem o que é o ensino superior, o que faz, o que implica, o que deve exigir dos alunos, dos professores, dos gestores, dos decisores, dos políticos. Pensem no que andam ali a fazer. Pensem que é uma oportunidade incrível que vos está sendo dada de crescerem enquanto seres humanos, essa de ter acesso a uma aprendizagem de um nível elevado, e que se o vosso estabelecimento de ensino ou os vossos professores não estiverem a corresponder às vossas expectativas, protestem, contestem, reúnam, organizem-se, promovam associações de estudantes, exijam, mexam-se, façam baruuuulho, como se costuma dizer nos concertos e manifestações populares.

Isto para dizer muito simplesmente que a tarefa de edificação de um Ensino Superior digno, de qualidade, prometedor e capaz de dar resposta aos desafios de qualificação dos recursos humanos em Cabo Verde, passa por um exercício de cidadania de todos os envolvidos, e nunca se conseguirá apenas por decretos ou medidas políticas. Aplaudo com entusiasmo o aparecimento da Universidade Pública de Cabo Verde. Acredito que o caminho se está fazendo, mas parece-me que neste, como em outros campos, o maior problema está na regulação. Regule-se mais, controle-se melhor, exija-se o que é exigível a uma instituição do Ensino Superior. E essa exigência, a vários níveis, deve começar pelos próprios alunos.






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19 comentários:

jandir disse...

se algum aluno q tava na quel aula/palestra bossa oia es cronica es deve bem fca q ouvid ta dues e em pe (^_^)

Anónimo disse...

Conheço bem a sensação: já me aconteceu o mesmo, embora em circunstâncias outras. Reconheço que, às vezes, somos também nós próprios (os "palestrantes") quem não tem o engenho e a arte suficientes para motivar a atenção e a adesão dos "palestrados". Mas a grande maioria das vezes é o que sucede quando, independentemente dessas qualidades, se trata de debater matéria extra curricular.

Sinais dos tempos!

Quanto ao resto, assino por baixo.

a) RB, anónimo por obrigação

Kuskas disse...

Oh João
Como eu te entendo.
Ano passado fui dar uma formação em uma das nossas ilhas e foi um "martirio" tanto pra mim como para os formandos.

Lembro que no inicio do segundo dia de formação, não aguentei e perguntei: os senhores estão cá Obrigados os de livre vontade?? Vá lá não tenham medo de responder. Só quero saber para poder saber que magica devo fazer para que tirem essa cara de quem vai para o matadouro.

Alguns riram e todos sem excepção levantaram as mãos respondendo que estavam alí a força.
Então eu disse-lhes: ok, então vamos fazer o seguinte, Voces vão fingir que estão a ADORAR essa formação e Eu vou continuar a fingir que o conteudo da formação que VOCES solicitaram vos interessa.

No 3º dia pelo menos metade começou a interagir e a reagir aos estimulos, mas foi a pior formação que já dei.

Uma coisa que já notei é que justamente as turmas pós-laborais é que demonstram maior indiferença pelos ESTUDOS que lhes CUSTAM um bom dinheiro.

João Branco disse...

Jandir, se alguém se ofender com este texto é porque, sinceramente, não entendeu nada de nada do que aqui está escrito. E isso já não é um problema meu...

RB, acho que os tempos deviam incentivar mais ainda estes contactos face to face, mas pronto!

Kuskas, foi isso mesmo. Entendeste perfeitamente o espírito. Também eu brinquei com a situação, dizendo "besoute espiá, mim é un gaj mut basofo e un ka ta pode falá se un ka tiver tud gent ta espiam...". hehehe

jandir disse...

kuskas, pos laboral?

ami é universitario e li na portugal, pos laborais é melhores alunos q alunos normais, e nao so em termos de resultados e de forma como es ta encara aulas, ami é diurno, mas avez fruto de vida boemia noturna, mim ta falta aulas de manha e assistis ma pessoal pos laboral, e diferença é de ceu pa terra, concentraçao na aulas é 100% diferent.
mim tita fala de aulas na universidade e de palestras, e de formaçao extra curricular tb é igual, so se diferença é de CV pa PT

csena disse...

Concordo aqui com o Jandir... os pós-laborais são normalmente os melhores! O problema é que aqui em CV, muitas vezes alunos acabados de sair do 12º ano, embora não trabalhem durante o dia, por falta de opção em outros horários, vão para as turmas pós-laborais (pelo menos é o que acontece aqui em SV). O que acontece?? Turmas mistas com amplitudes de idade enormes e com alunos adultos interessados e com ganas de tirar proveito das propinas mensais, e meninos que apenas lá estão a fazer frete à espera que a hora passe (salvo devidas excepções).

Ahn... sou aluna pós-laboral do curso de Gestão do ISCEE!

Anónimo disse...

Jandir, o problema é que NAO vão ligar. Mesmo que se diga mal. A maior parte não está nem aí... Não entendo como alunos meus que vêm de fora da Praia (Assomada, Santa Cruz, etc) MESMO assim não querem rentabilizar o seu proprio investimento.

O outro lado da moeda tem a ver com os professores. Há demasiada gente que só quer "ganhar algum". E colocam-nos mal.Quantas vezes tenho passado por "armado em carapau" por querer exigir o mínimo? Há uma conjugação de factores e uma falta de "cultura de exigência" que doi. Uma vez, fiz de conta que tinha desatado a chorar de tanto desconsolo. Alguns alunos riram-se, outros acharam que eram eles que deveriam estar a chorar... (menos mal- houve alguma consciência - momentânea, pois).

Isto de ensino superior em CV está um caso muito, muito, mas mesmo muito sério. Oxalá a blogosfera consiga movimentar algumas consciências. A situação é dramática, pelo pouco que conheço "de dentro".

Força nesses comentários. A "malta" universitária interessada, agradece reconhecida e penhoradamente.

Inté
(JB: para já prefiro ficar anónimo. No entanto gostei de saber um dia desses que leste um comentário meu e que ficaste mesmo muito curioso para saber com quem estavas a falar. Thanks)

Kuskas disse...

Jandir
os estudantes "pos-laboral" deveriam ser os melhores, uma vez que a maioria trabalha durante o dia e pagam para estudar a noite, com o objectivo de melhorar a nivel profissional (pelo menos é o meu caso pois ando a fazer MBA). Mas aqui em Cabo Verde, da minha experiencia, são os trabalhadores-estutande, ou sejam aqueles que trabalham para poder pagar os estudos que supostamente irá lhes ajudar a melhorar na carreira profissional, são esses os mais apaticos, desinteressados que já me deparei.

João Branco disse...

Quanto ao pos laboral, muitas vezes acontece que o pessoal que trabalha chega tão estourado nas aulas, depois de um dia de trabalho, que já nem tem força para ouvir ou esforçar-se seja para o que for. A questão é cada um se questionar ANTES de se inscrever, se está pronto para o Ensino Superior. O drama é que para muito do ES que temos, não é preciso grande coisa para se estar pronto. Paga-se a propina e está-se. Mesmo que seja a dormir.

Aliás, o comentário do Anónimo, que desconfio quem seja (hehehe) toca num outro ponto crucial: os professores. Uma grande parcela está ali só para garantir um extra e não tem a mínima vocação para o ensino, quanto mais para o ensino superior. Mas foi propositado: quis falar dos alunos. Os que pagam. E que exigem pouco quando deviam exigir muito. A si mesmos e aos outros.

Vamos continuar que a conversa está boa!

Tiago disse...

Completamente de acordo Jandir. Da minha experiência retirei o mesmo. Em Portugal os alunos de horários pós-laboral destacam-se normalmente por se tratar de gente mais velha, já no mercado de trabalho e que não vai para as faculdades para jogar às cartas ou brincar às praxes: vão aprender. Tive, de algum modo, a sorte de começar o curso aos 23 anos, e parece-me que está aí também um factor importante, a idade. São raros os meninos e meninas de 18/19 anos que encaram o ensino universitário de um modo sério. Usualmente, começam a aproveitar quando já estão de saída. E depois, estranha-se que não saibam nada!

Cuca disse...

Eu apenas quero elogiar a forma como lidaste com a situação... transformas te a tua "frustação" em ensinamento... com este texto tentas mostrar como o ensino superior deve ser encarado... podias apenas criticar mas não... "tiro te o chapéu".

João Branco disse...

Tiago, mas que há por aí muito licenciado na paródia, isso agora...!

Cuca, thank's. Aliás, costumo dizer que há sempre um lado positivo para se retirar de algo menos bom. basta pensarmos que podia sempre ser muito pior!

Anónimo disse...

Como desconheço se o meu comentário anterior "entrou" ou não (deu-me sinal de erro) e com o antecipado pedido de desculpas se se tratar de repetição, eis o que comentei:

O núcleo central da questão talvez se situe na pergunta cafeana de ontem.

A verdade é que, por totalmente desvalorizadas que são as profissões técnicas e/ou manuais pela Sociedade em geral e pelo Estado, em particular, o que interessa é a obtenção rápida e não exigente (ante ou pós laboral)de um qualquer "canudo" que permita a ascenção e a consideração sociais que o título académico implica.

Ainda que, em termos de mercado de trabalho, a mais das vezes tal signifique mais do que zero!

Em Cabo Verde ou em Portugal.

a) RB, anónimo por obrigação

João Branco disse...

RB, falas muitas vezes dos teus comentários "não entrarem", mas olha que a malta aqui não censura quem gosta tanto de poesia! Quanto ao comentário, tens razão. É a tal herança de que se fala...

jandir disse...

falando em licenciados na parodia, portugal ta cheios, ca so pulas nao, criolos tambem, tes li avontad, tem pessoal q ta studa e faze parodia, tem ques q ta faze parodia e faze cadeiras e tem ques q ta so faze parodia, escola conche so localisaçao... e algum dia por ventura es tita volta pa cv, licenciados ou nao, mas garganta e bazofaria es tita ba leval sem problemas..

manu moreno disse...

É uma falta di Étika...com isso deixo aqui um palavriadu:

Separadu di mundu
Ligadu a tempu
Sta alunu
Alunu dizatentu

Alunu ku preça
Sem vontadi di djunta peça
ki ta interrompi
Pa ka tem kuzas di fazi
....MAS....
Na bó sta vida
Na bó sta scola
Na bó sta futuru
É pa midjora compotamentu

Na bó sta o despertar
na bó sta o querer
Na bó sta o caminhar
Na bó sta o aprender

ManuMoreno
Kel abçom di coraçom!

Anónimo disse...

Oh João, nem tal coisa me passou pela cabeça!

Trata-se certamente de deficiência minha umas vezes (ainda pouco habituado que estou a esta coisa de "blogar") e, outras vezes, à existência objectiva de erro técnico de transmissão (como ocorreu no referido comentário).

Abraço

a) RB, anónimo por obrigação

João Branco disse...

Jandir, com certeza. Isto não é um exclusivo dos crioulos! Basta ver as semanas académicas...

Morenu, a bo tra´curso di kuzé, di poesia na nos línga? hehehe

Sisi disse...

Na minha opinião, pós laboral ou não, em CV existe uma enorme falta de espírito crítico e participativo por parte dos alunos, não só do nível superior como do liceu. E agora pergunto, a culpa é de quem? De todos, inclusive dos professores que também não procuram conhecer melhor as turmas que têm e descobrir uma forma de suscitar neles a vontade de participar, interagir, criticar, duvidar, etc. Os alunos por sua vez simplesmente acomodam-se e jogam as culpas nos professores.