Crónica Desaforada

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Andamos todos alienados?


1. Já me tinham falado deste documentário e ainda nem sabia que o seu enorme sucesso havia provocado não só o surgimento de um segundo filme - que também vi, e considero melhor e mais equilibrado que o primeiro - e de um movimento organizado, ao qual me apeteceu aderir de imediato.

2. Pela imagem, já se percebe que estou a falar dos filmes "Zeitgeist" (2007) e "Zeitgeist Addendum" (2008), ambos realizados, escritos e produzidos por um então desconhecido, Peter Joseph de seu nome, que lançou o primeiro destes filmes através da Internet, tornando-se em poucas semanas o filme mais visto de sempre alojado nos servidores da Google - 8 milhões de visionamentos, num contador que depois desapareceu misteriosamente.

3. Devo dizer, em primeiro lugar, que qualquer um destes documentários daria para fazer umas 50 crónicas, tantas são as temáticas abordadas, e a forma original, directa, polémica e quase brutal como certos assuntos tão diversos são abordados, como a Religião, os atentados do 11 de Setembro e uma visão particular ao actual sistema monetário e financeiro que domina por completo o planeta, com os resultados que se conhecem e que são amplamente comentados no segundo filme.

4. "Zeitgeist" é um termo alemão que significa "Espírito do Tempo" atribuído segundo alguns filósofos alemães ao avanço intelectual e cultural do mundo, numa determinada época. Muitos, perante uma sinopse ou uma breve apresentação do filme - vulgo tralha - encolherá os ombros e limitar-se-á a comentar, "está bem, mais uma teoria da conspiração". Não é apenas mais uma. Eu diria mesmo que é A teoria da conspiração, por excelência. E assusta porque tem lógica, está bem fundamentada e tem-se a sensação que todos sabíamos de tudo o que é revelado, só que nunca nos apercebemos realmente disso, porque fomos treinados pela sociedade para não pensar muito no que nos rodeia. Se for para protestar, então, nem pensar.

5. Resumidamente, para terem uma ideia do que estamos a falar, o primeiro filme está dividido em 3 partes: na primeira, intitulada "The Greatest Story Ever Told", o autor analisa o que designa de maior encenação da história da humanidade: a existência de Cristo e o papel das religiões como meio de controlo social dos mais diversos povos; a segunda, com o título "All the World is a Stage", não difere muito do que já havia defendido Michael Moore, no seu "Fahrenheit 9/11", dedicado ao atentado do 11 de Setembro, mas trazendo novos dados, imagens e testemunhos.

6. Na última parte, que servirá de ponte para o segundo documentário, intitulada "Don't Mind the Men Behind the Curtain", ficamos a saber como é montada toda a engenharia do dinheiro, dos bancos, dos negócios, do lucro, da dívida, da corrupção, do capital, da inflação, enfim um esquema montado de tal forma que a única conclusão possível é a de que somos todos umas marionetas ao serviço dos donos do dinheiro, e não só não nos importamos muito com isso como, antes pelo contrário, tudo o que fazemos na nossa vida vai no sentido de alimentar esse mesmo sistema.

7. A principal mensagem deste primeiro filme, realizado num tom mais dramático, por vezes demagógico, e até fatalista, revela-nos de forma nua e crua que somos, todos sem excepção, escravos da Religião, do Terror e do Dinheiro, não necessariamente por esta ordem, nem necessariamente em simultâneo. E pior de tudo: que não nos importamos que assim seja.

8. Os dados estatísticos mostram hoje que o mundo está muito pior do que há 70 anos atrás, quando instituições como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional ou a Organização Mundial do Comércio começaram a montar a teia da chamada globalização económica e financeira. Há muito mais pobres, apesar do PIB global ser maior; há uma diferença muito maior entre os mais ricos e os mais pobres; há uma muito maior concentração de riqueza em muito menos indivíduos. Isso é inquestionável.

9. O segundo documentário vai ao fundo desta questão, mas faz mais do que isso, propõe uma alternativa. Utópica, mas muito interessante. Mas antes aborda outros assuntos de forma perturbadora. Por exemplo, na questão do combate ao terrorismo, ficamos a saber que em 2007, o departamento de defesa dos EUA recebeu 161,8 biliões de dólares para travar essa guerra invisível. De acordo com os mesmos dados, sabemos também que no ano de 2004, 1907 pessoas foram mortas intencionalmente devido a actos de terrorismo. Desses, 70 eram americanos. Usando este valor como média, que é considerável, é interessante realçar que morre por ano o dobro de americanos devido alergias ao amendoim, do que de actos ditos terroristas.

10. Parece uma anedota, mas não é: actualmente, a causa de morte líder nos EUA são as doenças cardíacas, que matam cerca de 450 mil cidadãos americanos por ano. E em 2007, a alocução de fundos, por parte do Governo, para a pesquisa e prevenção deste problema foi cerca de 3 biliões de dólares. Isto significa, que o governo americano em 2007 gastou 54 vezes mais na prevenção contra o chamado terrorismo, que mata em média 70 dos seus cidadãos por ano, do que na doença coronária, que mata quase meio milhão no mesmo período.

11. O mais espantoso testemunho deste documentário é de um ex-agente americano, que se auto-intitula assassino económico e relata como actuam estes indivíduos um pouco por todo o mundo, dando exemplos concretos de acontecimento em vários países. Então é assim:

A forma mais comum de actuar é esta: identificamos um pais que tem recursos, como o petróleo. Em seguida, conseguimos um empréstimo enorme para esse pais através do Banco Mundial, ou uma das suas organizações irmãs. Só que o dinheiro nunca vai realmente para o país. Ele acaba por ir para as grandes corporações, para criar projectos de infra-estruturas nesse pais. Centrais de energia, parques industriais, portos, etc. Obras que beneficiam alguns ricos desse país, e as corporações que emprestam o dinheiro, mas não a maioria das pessoas. Entretanto, o pais inteiro acaba por ficar com uma enorme dívida. Uma divida tão grande que não pode ser paga, e isso faz parte do plano, que não consigam pagá-la. E nós vamos lá e dizemos: vocês devem-nos muito dinheiro, não podem pagá-lo, portanto agora vendam-nos o petróleo mais barato, deixem-nos construir uma base militar no seu pais, enviem tropas para apoiar uma das nossas acções, votem favoravelmente uma moção no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

É tão clara a forma como o Banco Mundial e o FMI operam: colocam um pais em dívida, e a dívida é tão grande que não conseguem paga-la. E nessa altura oferecem-se para refinanciar a divida e cobram mais juros. E eles exigem ainda esse quiproquó que designam de “boa governação” que basicamente significa que cada pais tem que vender os seus próprios recursos, incluindo muitos dos seus serviços sociais, empresas de serviços básicos, sistemas de educação por vezes, seguradoras, sistema financeiro e até os seus sistemas penais!

12. Não sei se, com este relato, estão a fazer algumas pontes com a actualidade doméstica, mas há aqui tantas considerações e coincidências que nos pomos a pensar se estamos a fazer o que realmente deve ser feito para proteger os interesses da Nação cabo-verdiana. Assim como ficamos a questionar no que poderá um homem como Barack Obama fazer realmente contra os poderes constituídos.

13. Muito mais se poderia dizer, e será dito, em futuras ocasiões. Principalmente sobre a "solução" utópica apresentada para nos livrarmos deste sistema monetário cruel. Certo é que entendo agora a insistência com que um amigo meu quis que eu visionasse estes dois filmes e o porquê de ele ter-me dito que era fundamental que o máximo de pessoas também o pudessem ver. Porque não há nada pior do que morrer na ignorância.

Mindelo, 19 de Janeiro de 2008





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18 comentários:

João Branco disse...

Permitam-me este conselho, em jeito de comentário: vejam os dois filmes. Arranjem maneira de os ver. Espero, depois, pelas vossas opiniões. Há muito para debater!

Anónimo disse...

Bô quei de cama aoje João?

moreia

Amilcar Aristides - TIDI disse...

Jon, eu já vi os filmes e ontem estive a rever o Adendum. A profundidade é tanta que nem vale a pena discutir com quem não viu. Desde que vi que aderi e sim complementou o que eu já sabia. A falta de um projecto para Cabo Verde a bazofaria da graxa que o BM e o FMI passam na gente tem o seu porquê.

O teu resumo está fantástico.
Abrax

Redy Wilson Lima disse...

Por acaso ate tenho o filme mas ainda não o vi, mas já sabia do conteúdo. É por estas e outras coisas sujas deste mundo capitalista e sanguinário que considero-me um socialista libertário, vulgo anarquista.
Confesso-te uma coisa João: quando era um alienado nos meus anos do liceu da Praia, lendo pouco e só consumindo cultura pop comercial americano era mais feliz. Hoje sou um revoltado e um potencial terrorista, dizem alguns...

João Branco disse...

Moreia, não! Ês btam da cama e un kordá num pesadelo...

Amilcar, vamos combinar visionamentos conjuntos Praia - Mindelo?

Redy, ainda não vistes e já estás assim? Ui! Cuidadôd, ke filme é prope vassalôd...

AP disse...

Devo antes de mais dizer que acreditar em Deus, em Cristo, em Buda ... é uma opção de fé e não de ciência... e que não sou religioso, nem faço de não ser religioso uma religião.
Dei ao trabalho de assistir a primeira parte do filme em causa ( aquela em que se fala de Jesus e etc), por sugestão do blog Soncent. O filme seria óptimo se tivesse o mínimo de rigor científico e histórico, mas infelizmente o autor tinha uma história para contar e resolveu inventar os factos, tipo USA /Iraque/ armas de destruição maciças. Na altura tive a oportunidade de responder a dona do blog SV, sendo assim vou fazer copy paste das observações que fiz no blog aí ao lado, pedido desde já desculpas pelo comodismo.
«Dei ao trabalho de assistir ao tube, não deixa de ser uma perspectiva curiosa, mas só. Não sendo nenhum especialista na matéria, dá para constatar que todo o documentário foi construído com base em datas, datas essas do nosso calendário, calendário esse que só existe desde 1582, não tem em conta que na Roma antiga, cada imperador tinha o seu calendário, com os seus meses. Só para teres uma noção Júlio César “criou” o mês de Julho em sua homenagem ( com 31 dias) tende sido sucedido por Augusto, que não se achava menos que o primeiro “criou” o seu mês de Agosto com 31 dias tb, para teres uma ideia da fiabilidade das datas do tempo. Mas para além disso, na Antiguidade não se registavam as datas de nascimento em regra, e como tal ninguém sabe a data de nascimento de Cristo, e a Bíblia em momento algum fala em datas. Essas datas foram dadas aos acontecimento séculos depois dos mesmos, e de forma assumida. Só para teres uma ideia até o séc.IV não se festejava o Natal, então o Papa Júlio I decretou que se deveria comemorar o nascimento de Jesus em 25/12, numa data onde os vários povos já festejariam o Solstício de Inverno, transformando assim uma festa pagã numa festa católica, mas isso no séc. IV, o cristianismo já existia há séculos, mas isso é assumido pela Igreja e está documentado. Assim querer dar algum significado ao dia 25 de Dez. na história do cristianismo, é no mínimo desconhecimento da sua história, pois ele viveu até o séc.IV sem ter um dia para o nascimento de Cristo. Falam da similitude entre um termo “virgo” que denominaria uma constelação, termo esse que seria igual a virgem em latim... ora procurar aqui algum argumento para explicar a origem do termo virgem Maria é muito complicado já que a Bíblia não foi escrita em latim mas sim em grego e em aramaico ... depois falam da cruz, e tentam transforma-la num símbolo astrológico. Ora aqui caem num outro erro, não têm em conta que a cruz só muitos anos depois passou a ser um símbolo cristão. Concluindo e resumindo, o documentário é curioso, mas peca por não ter tido em conta que a simbologia evoluiu, as datas evoluíram , e que para poderem fazer o exercício que pretendiam tinham que ter em conta os dados e as datas ( que não existem de todo, e a Igreja reconhece isso) da época, e não os dados actuais. Beijinhos»

João Branco disse...

AP, é interessante que te tenhas cingido na componente religiosa. Quando escreves, "resolveu inventar os factos, tipo USA /Iraque/ armas de destruição maciças", estás a falar de que invenções? Daquelas que foram os próprios americanos que fizeram para poder invadir o Iraque pela segunda vez? Abraço!

Victor Afonso disse...

Boa análise.
Só vi ainda o primeiro, quero ver este rapidamente.

AP disse...

Cingi-me a análise religiosa dos factos pq basicamente o primeiro dos filmes trata apenas deste tema ( quando digo 1º filme quero na verdade dizer, primeira parte do primeiro filme – no youtube a primeira parte do 1º filme aparece como um filme autónomo, daí a imprecisão) . Dado ao facto dessa primeira parte estar repleta de inexactidões históricas, não me dei ao trabalho de assistir às outras. O autor deixou de ser credível. A mensagem pode até ser relevante e pertinente, mas a sua sustentação cientifica deixa muito a desejar. A pertinência de uma determinada posição, não justifica a criação e manipulação artificial de factos para a sustentar ( a diferença entre uma opinião de rua e um documentário/estudo/ensaio, reside não na mensagem mas na sua sustentação científica e factual). Uma mensagem em si de grande relevância pode ser posta em causa de forma letal por uma tentativa não séria de a sustentar. E é por isso que rejeito o pseudo documentário como um trabalho sério, não pela mensagem, mas pela forma como manipula os factos ( de forma deveras convincente) de maneira a suportar uma determinada posição ( ainda que esta seja da maior pertinência ). “Uma mentira nunca pode servir para sustentar uma verdade”.
Sim, quando mencionei a armas/Iraque/EUA estava a falar da manipulação da verdade dos factos para justificar uma guerra sem justificação.

Anónimo disse...

Acabo de ver o primeiro documentário, que é efectivamente perturbante. Não sou, porém, adepto das teorias da conspiração (quaisquer que elas sejam) porque, fundando-se essencialmente elas em ditames de fé (e não de ciência), normalmente impedem ou "empecilham" uma análise materialista e dialéctica da história e, como tal, podem exactamente conduzir à mesma alienação que se pretende combater.

Comungo, de resto, com a opinião do AP sobre a falta de rigor científico e histórico da primeira parte do documentário.

Sendo bom relembrar, em qualquer caso, que já muito antes Hegel havia teorizado que "a religião é o ópio do povo" (crítica da filosofia do direito).

Como também já muito antes Karl Marx percepcionara a diferença entre a infraestrutura (a relação dialética do homem com a natureza através do trabalho, no sentido proposto por Engels, e também as relações de produção estabelecidas entre os homens) e a superestrutura (ou seja, a base ideológica de um determinado sistema de produção).

E, segundo creio, é justamente este sustentáculo ideológico do sistema capitalista global que autoriza e legitima todas as maldades que o realizador documenta e que, se não tiverem acontecido como as relata, bem que poderiam ter assim mesmo ocorrido.

Pena é que se não tenha referido (e que aliás tenha totalmente caído no esquecimento, após algum "alvoroço" inicial) à famosa TRILATERAL que, esta sim, tem existência real e documentada.

a) RB, anónimo por obrigação

Anónimo disse...

Fiquei sem saber qual a real opinião do(a) AP. Podia explicar melhor por favor? obgrigado

João Branco disse...

Victor, obrigado. Vê o segundo, melhor que o primeiro.

AP, as das últimas partes do filme são bem mais interessantes... E pertinentes! Porque, todos precisam dos seus Deuses. Inventados ou não, tanto me faz.

RB, o comentário anterior também serve neste caso! Veja o segundo documentário e volte cá! Quem sabe com um bom poema.

Anónimo disse...

Podem encontrar o filme on-line (não acrescenta nada ao que já foi escrito mil vezes por vários filósofos e pensadores recentes e antiquíssimos) através dum post do Con(ou sem)tigo em versão integral e legendado em português:
http://mdoisemes.blogspot.com/2008/04/zeitgeist-movie-final-edition.html
Permitam-me intervir dizendo que é preciso não perder a consciência crítica... e ler, ler, ler. Compreender os nossos tempos não é tão fácil como parece nem se consegue vendo um ou dois filmes e caindo da cama.

João Branco disse...

Anónimo, concordo. Mas o segundo filme não é um "final edition", é mesmo um segundo filme. Abraço.

Anónimo disse...

AP, há quem prefira a ignorância. Normal.
Recomendo muita pesquisa e cruzamento de dados, Também recomendo que assista o filme inteiro e que veja o segundo. Então depois faça a sua análise e aí estaremos prontos para uma eventual discussão do tema. Até lá, penso que não estás ainda suficientemente "documentada".

hasta!

Anónimo disse...

[...]the idea that the Christian religion is an amalgam of other spiritual traditions is well-documented and supported by any number of scholars. We know with almost complete certainty, for example, that Constantine purposely changed the date of Jesus' birthday to coincide with the "pagan" festivals associated with the winter solstice. If we don't know that, then more or less the whole project of history before the modern era is probably invalid[...]

comentário acerca do filme no blog:
http://singinginthereign.blogspot.com/2007/07/zeitgeist-movie-is-christianity.html

.. e esta hein AP?

Anónimo disse...

Quem quiser saber as fontes do Sr. Peter Joseph:

http://zeitgeistmovie.com/sources.htm

João Branco disse...

A discussão está muito interessante. Vamos manter o nível, ok? Abraço a todos!