Crónica Desaforada

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Resistir é Vencer

1. Ando inquieto e vejo, amigos desencantados, querendo desistir; olho à minha volta e vejo que falta-nos a capacidade do querer colectivo, temos medo de nos comprometer com os outros, fechamo-nos nos nossos casulos, treinamos sistemas de alta segurança para que ninguém, nunca mais, invada a nossa diminuída capacidade de crença no próximo.

2. A desilusão, o desencanto, o pessimismo está a tomar conta de nós. Todos sabemos o que se passa. Há muita hipocrisia por aí a circular. Há muitas mãos com facas à espera das nossas costas ao virar de cada esquina, as mesmas que nos dão palmadas de reconhecimento de que somos uns gajos com imenso talento. Dizem-me que há um grave problema de mentalidade. Como se abanam as mentalidades?

3. Lutando. Não desistindo. Porque há também lugar para a esperança, através da criação artística colectiva. Esta é uma convicção feita de vivências. São as melhores, acreditem. Ninguém mo disse. Vivi. Fazem-me falta os meus amigos criadores. O Mano Preto foi-se embora ontem e já tenho saudades. Telefono ao Bento Oliveira, para lhe dizer que correu bem, estamos a crescer e ele diz-me, estava agora mesmo a pensar em ti. Bom sinal.

4. O Mário Lúcio Sousa anda pelo mundo e eu queria tê-lo aqui perto a partilhar um vinho. O César Schofield anda a contar os dias, e apetece-me meter mãos à obra e caiar, pintar, pregar, sujar-me, para montar uma exposição de fotografias dele, e com ele, num edifício abandonado, de uma cidade qualquer, não importa.

5. O João Paulo Brito anda enfiado num blaser, trabalhando que nem um maluco, o que parece que lhe dá ainda maior brilho à enorme cabeça lisa, quando devia estar aqui, à minha frente, como excelente actor que é, a interpretar o Lafcádio de André Gide, numa remontagem que sonhamos os dois há anos, como se precisássemos ambos de provar a nós próprios que esse foi um atrevimento que realmente aconteceu, quando quase nada (ainda) acontecia.

6. O Abraão Vicente, anda desaparecido, só o vejo agora na televisão, e apetece-me partir pedra com ele, discutir, discordar, conspirar, ouvir outra vez com ele o FMI do José Mário Branco e preparar um texto bombástico, inspirador, provocante, para encenar em Março, algo que não deixasse ninguém indiferente. Olha o Djinho Barbosa no piano a compor uma música para a peça. Fantástico!

7. Fico triste quando o Leão Lopes ou o Vasco Martins não vão ver uma peça como "Máscaras", tiveram certamente coisas muito mais importantes para fazer, mas gostava de me sentar com eles e conversar sobre a minha arte, estou certo que me ajudariam a crescer enquanto criador. E ninguém pode conversar sobre o que não conhece.

8. Continua a comover-me a humildade criadora do Kizó Oliveira, uma pessoa que estou a aprender a conhecer, e que pretendo convencer a entrar nalgum projecto maluco um dia destes, possivelmente tocando numa peça, no meio de um coro grego de lindas actrizes do Mindelo, aquele escultural e lindo contrabaixo eléctrico que o tem acompanhado nos últimos concertos. Por enquanto, consegui convencê-lo a pegar na máquina fotográfica e entrar numa sala de teatro. Os resultados estão à vista.

9. Entretanto, começou ontem um novo curso de iniciação teatral. Fiz um pequeno exercício. Fomos todos para o palco. Sentamo-nos no fundo do mesmo, olhando para a plateia vazia. Pedi que imaginassem a plateia como um símbolo do desafio que estávamos iniciando juntos. A última fila, lá no fundo, representaria o conseguir de um objectivo, chegar ao fim do curso, receber o diploma - que vale o que vale - e sentir que se cresceu com aquela formação.

10. Pedi que um a um se levantasse e se sentasse na fila que quisesse. Que só se sentassem na última fila se estivessem absolutamente certos de que levariam este curso até ao fim. Todos se sentaram nessa fila, hesitando não por que estavam com dúvidas, mas para criar algum suspense nos colegas. Torci o nariz e constatei que algum desencanto também se instalou em mim.

11. Fiquei preocupado porque não acreditei. E disse-lhes isso mesmo. Meus caros, a experiência diz-me que isto não vai ser assim. Que no momento em que a exigência aumentar, vai haver, naturalmente, quem se queira ir embora. Vai haver quem não queira arriscar, ousar, criar, partilhar, participar de um acontecimento colectivo. É inevitável. Hoje então? Credo!

12. Esta é a minha luta. Trazer os amigos para perto. Tirá-los dos casulos. Juntar-me a eles. Ser chato para alguns, previsível para outros. Errar, mas continuar presente. Fazê-los ver que há sempre causas pelas quais vale a pena lutar, mas que essa luta se transforma em prazer quando é assumida como causa comum.

13. Gostava que houvesse um dia, pelo menos uma vez por ano, em que nos fosse dada a oportunidade de estarmos juntos. Sem agenda. Para criar? Reflectir? Sim, mas não necessariamente. Para conversar, discutir, gargalhar, beber e carregar as energias para que possamos continuar a cumprir a nossa função social enquanto artistas. Porque sempre existiu uma função social. Quem estudou Sociologia de Arte sabe disso perfeitamente. E qual é a função da Arte hoje, em Cabo Verde? A resposta é simples e ao mesmo tempo assustadora: não desistir.


Mindelo, 03 de Dezembro de 2008


Imagem: pintura de Jean-Michael Basquiat



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9 comentários:

Anónimo disse...

Aplausos. Ideias, projectos, "vontade de", mas a vida (pelo menos tento acreditar que seja ela, e não somente falta de coragem) não me permitiu até agora torná-las realidade. Se calhar um café um dia com pessoas como o João Branco podia ajudar estes projectos a tornarem realidade.

Anónimo disse...

belo belo...
incrivel como ao ler este post (re)tive, (re)lembrei-me da força, dimensão, qualidade, enfim da existencia de tanta gente bonita... bela sensação
abraçissimo
obrigadopeloblog
(especialmente obrigadoporestepost)

Neu Lopes disse...

E o neulopes a fazer um curso com que sonha terminar e ser uma mais valia para levar adiante a sua arte. Atrevida, desafiante, inovadora, contagiante, marcante - é essa a arte que gostaria de levar ao palco, e não vou permitir que meu sonho morra. No entanto, é tempo para investir em mim, meus conhecimentos e, quiçá, corrigir os erros que posso ainda ter na minha "alma de artista" (lembra-me agora o Arlequim em "Máscaras"). Mas tenho saudades, sim, dos meus amigos, meus colegas de luta, minha companhia teatral a trabalhar como um bando de loucos. Vontade de me encontrar com o Vasco Martins, beber aquele bom vinho e comer aquela sua comida com temperos orientais, jogar conversa fora com o Tchalê.
Ontem falei um pouco com o Hernani. Foi à minha casa e mostrou-me uma nova música. Fiquei encantado. O Kisó, meu amigo de infância, compadre, padrinho de casamento e colega de trabalho tem sido sempre um bom conselheiro e um aliado no meu processo de aprendizagem. Aprendemos muito um com o outro. Com o Ricardo de Deus, mesmo por telefone, a conversa é uma satisfação enorme. O João anda sempre a chatear-me a vida, mas se fico uma semana sem saber notícias do gajo preocupo-me logo. Afinal, opiniões à parte, ele é um dos meus gurus do teatro, e um bom amigo. Enfim, João, um artista é sempre um artista e o mundo em que vive é dele; é ele quem o constrói.

Um forte e sincero abraço.

João Branco disse...

Obrigado pelos comentários. Eu sei lá, ando com vontade de subir ao Monte Verde e dar um daqueles gritos. Uma raiva e angústia contida que nem sei. Mas isto passa.

Neu Lopes disse...

João, se vais ao Monte Verde, não precisarás de dar um grito se fores acompanhado do Vasco Martins, aliás, Vasco de Monte Verde. Ele conhece aquilo como a palma de sua mão.

Teatrakacia disse...

Resistir é Vencer! Acredito nisso, piamente!... mas muitas vezes, mesmo repetindo pra dentro mil e uma vezes... não produz efeito... Também eu estou num período desses de 'querer nada querer'... fases/ciclos/luas... o que vale é que é algo bem humano! Mas a certeza mantém-se: Resistir é Vencer!

João Branco disse...

Tchá, tu és um exemplo para todos nós. Não foi por acaso que já te meti aqui na pele de "heroi nacional". O teu "desaparecimento" é sim preocupante, mas é sim, apenas uma fase. Também não foi por acaso que te chamei para vires para o curso de teatro. Não tive ninguém para me ajudar com o som, pá! Do que é que estavas à espera? Bem, em Março, seja lá como fôr, não escapas! hahaha

Anónimo disse...

"Não compreendo um Pierrot que não seja romântico, branco como o marfim, magro como um caniço, enchendo o mundo de ais, sem nunca passar disso."
-Menotti Del Picchia

Será do espírito da época que se avizinha ou saudades de nós próprios? Ou serão saudades do futuro?

Saudações de fora.

João Branco disse...

Boa pergunta...