Declaração Cafeana

6 Comments


Ao que parece o texto do Mário Fonseca no último número do Expresso das Ilhas deu o mote para que se fale de corrupção. Falemos então disso. Mas sem papas na língua. Sem medo de processos nos tribunais por difamação. Sem medo de ter dezenas de anónimos verdes ou amarelos a carpir banalidades avulsas sem nos conhecerem de lado nenhum. Porque provavelmente pior que a corrupção - talvez ligada a ela - é esse cancro social banalizado no nosso país chamado riola (tradução mais ou menos literal da expressão má língua). E depois, mistura-se uma e outra e ninguém se entende. Não há denúncias, há bocas. Não há relatos de ilegalidades, há curtos artigos nos radares do nosso contentamento. Não há processos-crime ou investigações contra poderosos, há jogos político partidários que não convencem nada nem ninguém. Não há jornalismo de investigação, doa a quem doer. A verdade é que parece não haver quem esteja disposto a dar com a boca no trombone. Toda a gente teme as consequências. Muito provavelmente porque metade do país é primo, amigo, conhecido ou familiar da outra metade e não fica bem estar a lavar roupa suja em público.

Falemos, pois, de corrupção. Vamos lá. Como é possível que a grande maioria da população não confie, por razões "ninguém sabe ninguém diz", nas alfândegas deste país? Como é possível que circulem viaturas de milhares de contos e sejam erigidos certos palacetes que vemos por aí? De onde vem o dinheiro que sustente certos estilos de vida e formas de estar de pessoas que fazem da ostentação o seu dia-a-dia? Que salários pagam os luxos que circulam debaixo dos nossos narizes? Alguém sabe? Silêncio. Alguém actua? Imobilidade. Ninguém fala do que toda a gente vê. Porque razão não chegam a entendimento os deputados da Nação sobre tudo o que diga respeito à reforma da Justiça, sem a qual tudo o que se possa dizer ou mesmo fazer não passa de água em balaio furado? É assim tão difícil de entender, porra?

Isto tem a sua lógica. Todos somos inocentes até prova em contrário, não é? Viu-se no caso do roubo da electricidade por certos barões do Palmarejo. Denunciar? Não! Todos somos inocentes até prova em contrário. Pronto. Ponto. Mas como a justiça não funciona ou funciona mal, é um pouco complicado, para não dizer improvável, que alguém com carteira recheada e sentado nalguma cadeira confortável do poder, seja ele qual for, possa vir a ser confrontado em Tribunal. Não é novidade. Foi dito publicamente por gente identificada que há juristas com nome e responsabilidade a defender gente suspeita por crimes muito pouco católicos. Há por aí muita promiscuidade e não é de admirar que uma personalidade como Vital Moeda provoque tanta reacção na população. Olhem! Um gajo que fala, que faz, que não se deixa comprar! Há algo que me perturba bastante na forma entusiástica como se olha para o jovem procurador. Aliás, ele sabe disso melhor do que ninguém, parece-me. Se este fosse o país das maravilhas no campo da justiça, o Vital Moeda era a regra e não a excepção.

Há um grande equívoco em relação a este estado de coisas. É que não parece haver nenhum desentendimento em relação a este assunto. O que parece é, pelo contrário, haver um entendimento tácito, claro, não assumido porque inadmissível publicamente, em relação a uma não-reforma. Que tudo fique como está. Não mexer. Não tocar. Senão ainda vão andar por aí esqueletos saídos dos armários de alguns poderosos a circular impunemente pelas ruas da cidade. Shiuuuuu, kalam ess boka.


Ilustração de Pedro Madeira Pinto


Ver também: blogue geração 20j73




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6 comentários:

Anónimo disse...

Caro João: Infelizmente não pude ir beber um café no aniversário, mas há mais marés do que marinheiros.

O grande Problema nestas ilhas é que existem duas forças. Uma é a dos politicos e a subterranea dos adevogados(acredito que existem alguns honestos) que tem a (justiça) a seu bem mandar. Fala-se de democracia e direitos Humanos neste País mais do que em outras Terras. Nos USA ou na França por exemplo, quando há gente a corromper ou a por em causa a segurança das pessoas, vão para o xelindró. Já viram a CRS a dar porrada em delinquentes?... Aqui já ousam atirar pedras aos Policias e os poitcos continuam com tretas sobre direitos Humanos? ´Não é que eu seja a favor da brutalidade mas basta de papo furado. Um abraço e mitos anos de vida ao Café.
TCHALE FIGUEIRA

Salim disse...

"É que não parece haver nenhum desentendimento em relação a este assunto. O que parece é, pelo contrário, haver um entendimento tácito, claro, não assumido porque inadmissível publicamente, em relação a uma não-reforma. Que tudo fique como está. Não mexer. Não tocar. Senão ainda vão andar por aí esqueletos saídos dos armários de alguns poderosos a circular impunemente pelas ruas da cidade".

Nem mais!!!

Depois os políticos queixam-se (hipocritamente) quando dizemos que são "todos iguais", que é "tudo a mesma merda, mudam-se apenas as moscas".

Não há responsabilização, não há fiscalização, não há justiça, e, para completar o quadro, não há (melhor, não se dá) meios para reverter a situação.

Para quê um PM ou Governo "honesto", quando só olham para dentro dos seus gabinetes, e não vêem (ou deixam passar e prosperar) a corja à sua volta.

Serão apenas grãos que provêm de uma boa espiga, mas que, dentro de uma saco de farinha podre, não fazem (ou farão) qualquer diferença.

Ou perdem-se solitários pelo meio da farinha, ou, então, diluem-se nela e tornam-se parte da própria podridão.

Bali

pedromadeirapinto disse...

olá joão.
parabéns pelo aniversário do margoso. espero que a festa tenho corrido bem, e que pelo menos, tenha estado ao nível do blog.
fica aqui um convite para, se quiseres ver o desenho acabado, ires a uma exposiçao de desenho que vou fazer no centro cultural do mindelo, com início a 12 de janeiro.
bom ano de 2009.
abraço

pedro pinto

João Branco disse...

Tchalé, fizeste falta. O vinho jorrou e irias gostas. Quanto ao comentário, está lá tudo. Não preciso dizer mais nada.

Salim, sabes que apesar de tudo ainda acredito neles?

Pedro, envia-me para o mail algum cartaz ou flyer de divulgação, para passar aqui no Café Margoso. E lá estarei, certamente!

Zé disse...

Parabéns para o teu blog.
Quanto à corrupção, como diria o Jorge de Sena: - tal pai, tal filho!
Um abraço

Salim disse...

É, JB, talvez (e como diria o outro), o problema seja o "sistema". :-)

Podemos até acreditar, mas como é que mudamos (ou obrigamos a mudar) o sistema?

É essa a questão.

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