Declaração Cafeana

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Ficamos a saber esta semana que os ladrões de electricidade não se limitam a ser aqueles pobres coitados com casas clandestinas que conseguem colocar luz em casa a partir de ligações pouco católicas feitas à margem da lei. Neste período de Natal, e graças ao início de uma campanha de fiscalização da Electra, odiada por grande parte da população, ficamos a saber que também nos bairros chiques da cidade da Praia se rouba electricidade e de que maneira.

Segundo foi noticiado no jornal A Semana, mais de 40 ligações fraudulentas foram apanhadas em bairros tão "improváveis" como o Palmarejo, em grandes residenciais de luxo, com garagens com mais de uma viatura. Esquemas sofisticados de roubo de electricidade que permite a essa gente sem vergonha manter a custo zero mordomias, como por exemplo um sistema de ar condicionado central. Uma autêntica teia do descaramento.

Ficou claro, pois, que entre alguns destes ladrões de electricidade estão incluídos "peixes graúdos", colarinhos brancos, ou se quisermos ser mais directos, executivos e pessoas eventualmente ligadas à vida política e pública deste país, alguns dos quais devem ter tido momentos de glória com manifestações públicas e de desagrado em relação a esta mesma Electra. Andam os nossos colarinhos a ter relações com a senhora Electra, em privado, e a dizer mal da senhora, em público. É preciso ter lata.

Segundo foi insinuado os jornais sabem de quem se trata, pelo menos é o que parece das "bocas" que lá vem escritas. Este é daqueles casos em que não se admite segredos. Publicação da lista de caloteiros e fraudulentos já! Se os jornais sabem de alguma figura importante que esteja metida neste esquema, esta deve ser denunciada imediatamente. Com tantas primeiras páginas sem nexo que vemos por aí, eis um assunto que merecia todo o destaque.

A Electra é o que todos sabemos. Mas o lamaçal e a pouca vergonha que este caso indicia não lhe ficam nada atrás.




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12 comentários:

Neu Lopes disse...

Enquanto isso, chegá a nós uma pilha de contas exorbitantes que, pelo menos cá em S. Vicente, pagamos de boca calada senão a conta ainda poderá subir mais.
É por essa e por outras que não devemos nos calar.

Perséfone Hades disse...

Realmente é o cúmulo!
Aqui nas paragens brasileiras também vemos este comportamento fraudulento.
Parece que ninguém pensa no seu próximo...
Sabemos que se todos soubermos usar os recursos, não haverá falta para ninguém.
Até quando este desmando????
Gostei de seu blog, posts bastante petinentes.
Bjs
Perséfone

João Branco disse...

Neu, pois, mas não é o que temos feito.

Perséfone, obrigado pela visita e volte sempre!

Anónimo disse...

Caro João,
Compreendo a sensação de revolta dos clientes cumpridores, mas não posso concordar minimamente com a sua sugestão de denúncia pública.

Legalmente à Electra não é possível denunciar os supostos prevaricadores, sem cair ela própria em incumprimento contratual, mas isto não é o mais importante – o mais importante é que a denuncia pública seria uma prepotência. Discordo totalmente deste tipo de processos públicos que se vão tornando muito frequentes nas nossas sociedades. Este tipo de comportamento resulta da crescente falta de capacidade da sociedade, e nomeadamente da justiça, de actuar em tempo útil e penalizar os prevaricadores com as penas adequadas. Como os cidadãos, as empresas e às vezes o próprio Estado não acreditam na sua justiça, que não é rápida e eficaz, recorre ao mecanismo da denúncia pública como factor de pressão e castigo, e nunca à reforma da justiça.

Sendo o furto de electricidade um crime sujeito a uma moldura legal específica e inscrita no código penal, a Electra depois de detectada a situação irregular deve actuar em conformidade, e em caso de incumprimento reiterado deve colocar o caso nos tribunais. No entanto, se o visado não se reconhecer como autor do ilícito (e em alguns poucos casos é bem possível que tenha acontecido) deve esperar que a justiça o defenda da acusação, e não estar sujeito a ter o seu bom-nome manchado, por uma denúncia injusta, a qual em caso de inocência será irreparável.

As listas públicas de prevaricadores configuram uma prática vexatória e déspota para aqueles que, sem terem ainda oportunidade de se defenderem na justiça, se encontram injustamente denunciados como faltosos. Mesmo que a vítima seja um único cidadão, não é justo que se façam estas listas. Não gostava, por um simples erro administrativo, de o ver a si numa dessas listas.

Cumprimentos,
António

João Branco disse...

Caro António

Em primeiro lugar, deixe-me cumprimentá-lo pela forma correcta como expôs os seus argumentos, mesmo não concordando com eles, neste caso específico.

O que diz teria razão de ser noutras circunstâncias. Neste caso específico não penso que assim seja, por várias razões, que estão explicadas no próprio post (se tratarem de figuras com responsabilidade pública; terem posses que, de forma alguma, possam justificar este tipo de comportamentos; utilizarem argumentos contra a empresa ao mesmo tempo que furtam a mesma, num claro jogo de pura hipocrisia social, etc.)

Deixe-me dar-lhe um exemplo recente acontecido em Portugal: quando do escândalo das rendas das casas pertencentes à Câmara Municipal de Lisboa, veio a público uma lista com os beneficiários. Algumas destas casas foram entregues para "ateliers de artistas plásticos" e veio a constatar-se que eram utilizadas como residências; outras casas eram alugadas a preços sociais a pessoas com altos rendimentos que nunca justificariam a sua escolha num programa desta natureza, etc. etc. Se não tivesse sido o escândalo e a denúncia na comunicação social possivelmente, ninguém mais pensaria no assunto. Hoje, ao que parece, o assunto está a ser revisto, os critérios e as casas atribuídas pela CML passadas a pente fino.

Alguns dos nomes tornados públicos vieram também eles defender-se e explicar as suas razões. Nada mais simples. Quem não deve não teme.

E este caso do roubo de luz é tão descarado que, embora entenda perfeitamente o peso da sua argumentação, me faz defender a divulgação da lista de caloteiros. Se por lamentável engano, o meu nome constar na mesma, só me restaria vir a público desmentir a notícia.

Abraço fraterno

Teatrakacia disse...

Não é só lata, não! É cara de aço e outras aliagens para endurecer ainda mais...
Não estou de acordo com a ideia de 'lista de prevaricadores', pelo aspecto de sociedade policial anti-pecado-total. Mas pela pesquisa jornalística, citar o nome de eventuais homens de estado ou figuras públicas, por motivos óbvios.

João Branco disse...

Isso mesmo, Tchá. Apanhaste o espírito da coisa. Por vezes é preciso exigir 1000 para se conseguir 100... :)

Anónimo disse...

João,
Apesar de não estar completamente por dentro do caso, acho que o exemplo português que dá (da Câmara Municipal de Lisboa) é mal comparado – nesse caso era uma lista de beneficiários de uma ajuda pública, não há, como não ser uma lista pública, e do conhecimento dos contribuintes. Depois houve uma tentativa de associar os beneficiários a critérios de favores pessoais, parece-me diferente do que estamos a falar aqui.

Quanto ao facto de estas serem figuras públicas correm o risco de, se condenados pela justiça, serem acusados publicamente (nos jornais, na televisão, no parlamento), mas só no caso de condenados, não agora.

Abraço,
António

Anónimo disse...

Caro António

Pela sua escrita deduzo que seja advogado. Pois acredita o senhor que há cerca de 9 meses que a minha conta de electricidade triplicou sem que para isso eu tenha contribuido nem com o aumento de electrodomesticos ou com o aumento dos habitantes da minha casa.

Moro sozinha com a minha filha.
Não que foi um grande espanto meu quando os técnicos da Electra foram a minha casa e descobriram que o um ilustre vizinho meu, um respeitável advogado havia feito "gato" a minha ligação electrica?????

E mais, o meu ilustre vizinho ainda teve a cara de pau de ameaçar a Electra com um processo caso a Electra decida processa-lo??? Isso porque no entender dele, como esteve durante TRINTA dias a espera que a Electra lhe pudesse efectuar a ligação e como demoravam muito ele "deu o expediente" e decidiu roubar LUZ a casa vizinha mais proxima.

É justo eu ter pago cerca de 10 contos mensair acima do que eu consumia, enquanto esse ilustre cidadão pagava népias, sendo que ele tem mais posses que EU????

Pode ser que legalmente a Electra não possa fazer isso, publicar os nomes dos "CALOTEIROS E CARA DE PAU", mas se o fizesse uma vez que fosse serviria de lição...

João Branco disse...

António, este exemplo é esclarecedor. Não quero ser rude, mas lembrei-me agora de uma cena do filme "Advogado do Diabo" com o Al Pacino, numa das suas mais espantosas interpretações, em que ele explicava que a advocacia era o caminho que permitiria o triunfo do mal sobre o bem. Ganhando caso sobre caso, e colocando todos os bandidos na rua... :)

Anónimo disse...

Para a Anónima e para o João,
Anónima, esse seu caso é infelizmente exemplar, mas é também simples de resolver. A Electra deve actuar e aplicar o que está estipulado na lei, e exigir ao “ilustre advogado” uma indemnização por perdas e danos, e ressarci-la, a si, do montante que pagou a mais e com juros de mora. O seu ressarcimento deve ser feito na factura seguinte à detecção da fraude, e no caso do “ilustre” não querer pagar deve a Electra interpor, de imediato, uma acção judicial, entenda-se que estas duas acções são independentes. Para o caso da Electra se sentir intimidada e não agir contra o faltoso, deve ser esta a denunciada por incumprimento da lei da República.

Só um detalhe para que não haja equívocos, não sou advogado, mas quero acreditar que é possível uma justiça dos homens para com os homens, sem linchamentos públicos, nem processos de intenção.

Cumprimentos aos dois,
António

PS. João, só mais uma reflexão, quase todas as piadas sobre advogados tem algo de verdadeiro, o que é uma garantia de sucesso. Tenho observado que o nível de litigância tem estado a aumentar significativamente em Cabo Verde, estamos lentamente a transformarmo-nos numa sociedade de advogados, jurisconsultos, juízes, etc. Já percebi que também está a começar a reflectir esta realidade nacional no seu Café…o que não é mau nem bom, é natural.

João Branco disse...

António, mais uma vez ressalvo o espírito construtivo dos seus comentários. Volte sempre. Principalmente quando não concordar, como é o caso presente. Abtraço fraterno.