Crónica Desaforada

4 Comments



Mas errado do que certo

Na primeira crónica desaforada do Café Margoso, publicada no final do ano passado, foram feitas algumas previsões sobre "o que provavelmente irá acontecer em 2008". Esta é uma boa altura para ir verificar se as minhas previsões foram ou não as mais correctas. Então vejamos.

Previsão 1: O Éden Park será destruído, meia dúzia de vozes se levantarão indignadas, mas de pouco adiantará. O progresso e o desafio de Cabo Verde enquanto Pais de Desenvolvimento Médio não são compatíveis com nostalgias antiquadas. O país e a cidade precisam, com muito maior urgência de mais um complexo hoteleiro e/ou Centro Comercial;

Previsão Errada: o Éden Park lá está, inteiro. A apodrecer, mas inteiro. Quem sabe estão à espera que caia sozinho e talvez assim não se possa culpar ninguém pelo crime contra o património histórico, arquitectónico e cultural de Cabo Verde que, inevitavelmente, vai ser cometido. Mas o pior crime é o silêncio cúmplice da maioria da população em relação a esta e a outras barbaridades urbanísticas que vimos assistindo impavidamente nos últimos tempos.

Previsão 2: o Governo de Cabo Verde continuará a atribuir uma verba praticamente simbólica ao Ministério da Cultura, e portanto, as infra-estruturas culturais continuarão a ser alvo de processos de privatização, ou melhor, de auto-sustentação concessionária;

Previsão Errada: pelo menos a primeira parte dela. Olhem que 3% do bolo orçamental não é nada de se deitar fora e faz inveja a muitos Ministros da Cultura por esse mundo fora. Mas infelizmente esse facto não impediu que a segunda parte da previsão fosse verdadeira, o que nos faz pensar que algo não bate certo na forma como essa verba vem sendo gerida.

Previsão 3: continuaremos a assistir, com grau de assiduidade variável, a discussões sem conteúdo, sem interesse e sem nexo, sobre badios e sampadjudos e a importância ou desimportância de cada faceta para o desenvolvimento de Cabo Verde. Dois ou três amigos de longa data ficarão alguns meses sem se falar;

Previsão Errada: embora haja sempre alguns resquícios desta polémica estéril, sinais positivos marcaram o presente ano neste aspecto. O espectáculo "Máscaras", co-produzido pelo Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo e pela Companhia Raiz di Polon foi um bom exemplo. Mas como me disse um amigo, por enquanto que um facto como esse continuar a ser digno de realce é porque o bairrismo ainda é algo muito presente na nossa sociedade. Pior é querer meter a cabeça na areia e fingir que não existe.

Previsão 4: continuaremos a ver muitos agentes culturais a bater de porta em porta, a gastar fortunas nos telefones, a tentar falar com o «senhor Administrador», a propósito de um apoio para uma actividade cultural concreta. Continuaremos a depender da boa vontade e bom senso de uns quantos gestores bem intencionados;

Previsão Incerta: a Lei do Mecenato é ainda muito pouco conhecida e divulgada, e continua a ser uma complicação terrível conseguir confirmar algum acordo que tenha o mínimo de sustentação. Mas como ficou comprovado no episódio do concurso público para a bolsa de criação, relatado numa das nossas últimas crónicas, e que teve apenas um concorrente, por vezes também dá a sensação que muitos artistas estão à espera que os apoios e patrocínios lhes caiam no colo, por obra e graça de Espírito Santo.

Previsão 5: um representante do instituto responsável visitará a cidade do Mindelo, e anunciará com grande satisfação e gáudio geral, em conferência de imprensa realizada para o efeito, a inauguração do novo Centro Nacional de Artesanato, para data a anunciar brevemente.

Previsão Errada: apressadamente lá conseguiram inaugurar um auto-proclamado Museu de Arte Tradicional, cujo conteúdo revela uma total confusão de conceitos e uma pobreza de conteúdos confrangedora. De realçar a boa recuperação do imóvel, decorada mais como Casa de Memória - com um quarto dedicado a cada período histórico do edifício doado pelo Senador Vera Cruz - do que como museu. A pressa é inimiga da perfeição, mas isso nem é grande problema. A dúvida que fica é a seguinte: o que é isso de Arte Tradicional? Alguém sabe? Alguém entendeu porque não se recuperou não só o nome, mas também o espírito e a obra do instinto Centro Nacional de Artesanato?

Previsão 6: não se prevê a inauguração de nenhum teatro, ou cinema, ou sala de espectáculos, ou sala de ensaios para grupos locais, em nenhum concelho do arquipélago. Não está previsto, sequer, o lançamento de primeiras pedras para o efeito (sempre era uma esperança);

Previsão Errada: errada, se considerarmos a reabertura do Cine-Teatro da Praia e a promessa da Câmara Municipal da capital em equipar convenientemente o local e promover espectáculos de dança, teatro, música e, claro, o indispensável cinema. Aplausos mil, pois! Mas ao contrário do que acontece no Desporto, a aposta na infra-estruturação cultural em Cabo Verde é quase sempre esquecida. Não se trata assim um diamante, pois não?

Previsão 7: provavelmente, vamos continuar que ter que esperar por uma ida ao estrangeiro – e à FNAC – para encontrar o tal livro, ou quando muito, aguardar pela Feira do Livro, e esperar que esse título esteja no grupo dos seleccionados. Livrarias continuarão sendo muito raras e havendo-as, tem os livros a preços absurdos, comparativamente com os do local de origem;

Previsão Errada: palmas para a livraria Eugênio Tavares, na Praia, e para a Semente, no Mindelo, uma mais recente do que a outra, mas que sempre dão alguma alternativa a quem procura algum título mais recente e não quer esperar pela Feira do Livro. Além disso, os esforços para venderem livros a preços competitivos também são de aplaudir. Mas as duas tem algo em comum: são iniciativas privadas, sem qualquer apoio do Estado. Qual a política do Estado para o livro em Cabo Verde?

Previsão 8: vamos continuar a ir a exposições de artes plásticas – interessantes, algumas; apenas bem intencionadas, outras – mas com obras expostas sem qualquer critério e/ou preocupação estética. A esperança de ver uma exposição colectiva com a participação de alguns dos nossos melhores artistas plásticos, é bastante remota;

Previsão Errada: esta previsão foi totalmente trucidada pela magnífica exposição de Luisa Queirós na réplica da Torre de Belém, na cidade do Mindelo, e que nos mostrou, entre outras coisas, que é possível montar uma exposição de artes plásticas digna, pensada, bem iluminada, com um percurso definido, entre outras características importantes mas quase sempre negligenciadas, como se viu na forma patética como foi apresentada a mostra de Arte por altura do Fórum da Economia da Cultura. Ficamos também a saber que existe em Cabo Verde um fantástico edifício, com excelentes características para ser uma galeria de arte moderna, cuja recuperação custou uma pipa de massa, paga pelo Estado português e oferecida ao Ministério da Cultura, mas que embora esteja pronto, está fechado vai para quatro anos! Ficou claro que o edifício recuperado - espectaculares interiores e fantástica localização - já precisa de uma nova recuperação, por falta de uso...

Previsão 9: o tipo de música passada nas rádios continuará a ser o mesmo de sempre; se, por acaso, ouvirmos música clássica na rádio, com certeza que é porque alguém importante morreu;

Previsão Incerta: não ouvi assim tanta rádio este ano para poder avalizar sobre o nível geral das escolhas musicais nas nossas estações emissoras. Mas desconfio que não terei andado muito longe da realidade. Seja como for, este foi um excelente ano a nível musical, com destaque para Hernani Almeida e Princezito.

Previsão 10: vamos continuar a ter alunos do ensino secundário e/ou superior a procurar artistas ou intelectuais para entrevistas, onde, entre outras banalidades, se pergunta o que é o teatro ou a música e como apareceram certas manifestações culturais em Cabo Verde. Felizmente, já existe bibliografia especializada sobre o assunto, o que torna tudo mais fácil.

Previsão Errada: este ano foi, no meu caso particular, um ano calmo. Um bom sinal.


Como se vê, as minhas previsões foram quase todas erradas. Melhor assim! Embora em alguns casos, foram-no porque a realidade ainda conseguiu ser pior do que o pesadelo; noutros porque algo aconteceu que veio comprovar que ainda há razões para ter esperança, que é possível fazer bem, que há talento e vontades para que não tenhamos que nos cruzar tantas vezes com sinais de preocupante mediocridade.


Mindelo, 22 de Dezembro de 2008




You may also like

4 comentários:

FernandoT disse...

Proposta para a primeira previsão para 2009 - Que todas as de 2008 se tornem verdadeiras.
Proposta para as seguintes - manter a esperança, sem enumerar nada em especial. Muitoa assuntos pode confundir quem vai tentar satisfazer a primeira.
FernandoT

João Branco disse...

:) E acho que muitos dos desejos da crónica original se mantêm...

Anónimo disse...

EXMO. Sr. Doutor das Verdades Culturais da Terra, não concorda que antes de avaliar os trabalhos deve solicitar o diálogo com os seus insignificantes alunos? Assim faria jus à doutrina de ensinar e não apenas de avaliar cega e intransigentemente.

Colégio da Verdade
Turma X
Aluno nº000

João Branco disse...

Anónimo, lamento imenso mas essa carapuça que vieste vender aqui no Café Margoso não me serve. Abraço!