Declaração Cafeana

19 Comments


Ter um blogue é como abrir as portas e janelas da nossa casa. Todos entram sem pedir licença, e manifestam-se sem qualquer problema, mesmo não concordando com o anfitrião. A grande maioria faz as suas visitas com máscaras escondendo o rosto, mesmo sabendo que ainda estamos longe do Carnaval e que vivemos num país com uma democracia implementada onde, por princípio constitucional, a liberdade de expressão é defendida.

Depois de um ano de experiência com este espaço de portas abertas, continua ser um mistério o facto de termos um sentido de humor tão pouco desenvolvido, para não dizer obtuso, apesar de a comédia ser, de longe, o género teatral e cinematográfico preferido da maioria. Não é de hoje que penso se seria possível um programa como o Contra Informação ou como o dos Gatos Fedorentos no nosso país ou na nossa televisão pública. A resposta é, neste momento, e ainda, um sonoro não. Não estamos preparados, social e culturalmente, para nos rir de nós próprios. O que é estranho tendo em conta que gostamos tanto de rir dos outros, mas quase sempre escondidos, nos corredores, sem dar nas vistas, já que uma vez de volta ao salão principal, lá estamos nós com o nosso ar de gente séria e respeitosa, afinal de contas, com o brio pessoal e profissional do crioulo, não se brinca!

Será que os brasileiros tem raiva dos Gatos Fedorentos por causa da brilhante caricatura que o actor Ricardo Araújo Pereira faz de Scolari, ou algum sportinguista se sentirá minimamente ofendido pelo penteado e forma de falar no mesmo actor, ambos ridículos, inspirados no também treinador Paulo Bento? Alguém pensa na possibilidade de ele escolher estas figuras por ser um português frustrado ou um benfiquista com sede de vingança ou pensamos apenas que ele é um excelente actor cómico? Alguém pensa que ele é da oposição quando faz a paródia ao Primeiro-Ministro José Sócrates? Seriam os nossos políticos capazes de aceitar, com desportivismo e um sorriso nos lábios, alguns dos sketches e figuras criadas pelos humoristas lusos, numa versão nacional dos mesmos? O mais provável era acabar tudo em tribunal!

Hoje, no âmbito dos blogues apenas ao Hiena lhe é "permitida" alguma liberdade humorística e para isso foi preciso ele esconder a sua identidade. Alguém duvida que se se soubesse quem é o autor que está por detrás dos excelentes cartoons do Jornal do Hiena, ele hoje já não andaria por aí a rir de nós e de si próprio?

Por vezes, parece que nos levamos demasiado a sério. E isso não tem nenhuma piada.




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19 comentários:

Nuno Góis disse...

Excelente post!
É uma pena e uma perda muito grande quando não sabemos rir-nos de nós próprios.

Anónimo disse...

...uma das minhas frases preferidas é do "filosofo" Bugs Bunny ( eh eh cada um tem as suas referências) : "Don't take life too seriously. You'll never get out of it alive!"
não sei se as pessoas não gostam de rir ou se preferem criar atritos(detritos ficava melhor) onde não ha... particularmente, penso que podemos rir(ou fazer rir) de tudo, sempre fi-lo(é minha natureza), claro que sem "baixaria".Certos temas tabus (muitos! ou todos?) em Cabo Verde, e não penso que seja culpa do PAICV ou do MPD, eh eh eh ( que são chamados em todos os temas como justificação quasi invalivél) ainda tou a perguntar-me o que é que o cabelo do Zé têm a ver com a liderança do MPD( vou elaborar a teoria)? pra mim esse é dos maiores problemas as pessoas não sabem, ou não querem separar as coisas, uma citação do filosofo existencialista-situacionista Manolo da novela Torre de Babel: "Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa", desculpem la, as referências mas não tenho as mesmas que o Casimiro de Pina, podemos rir de alguém ou algo, caricaturar ,sem que as pessoas se ofendam e te vejam como inimigo ou sei la que mais? em Cabo Verde é dificil...e pena,tb, é que a situação esteja longe de melhorar...as pessoas preferem a polémica à comédia, a agressão verbal à uma boa gargalhada, e mais e mais ! um conselho é bsot lembra que nô ta li imprestôde, e por isso rir é sempre amedjor ramede.
Quanto a nha "anonimato" foi simplesmente um escolha,prazer de criar um "personagem"-Hiena eh eh eh pa evita possiveis celeumas e paralelismos facéis, e (não) para me "esconder" (até porque tenho um tanque de guerra no quintal, aos possiveis interessados e um batalhão de advogados eh eh eh )

Hiena( braço armado do grupo dont worry , just smile)

Margarida disse...

Grande post João. É uma pena que as sátiras, ironias e frases mais humorísticas caiam por terra numa sociedade com demasiada "mania da perseguição".
Não, não há sentido de humor apurado em Cabo Verde... diria que, às vezes, há mesmo o desejo "anónimo" de rir da desgraça dos outros... quase como uma espécie de sentido de humor mórbido.

Nenhum programa televisivo dos que mencionas vingaria aqui, simplesmente porque as pessoas iriam fica presas ao pormenor da crítica e não alcançariam o lado humorístico.
Certamente que o Paulo Bento deve dar umas boas risadas ao ver o seu "sósia". Até mesmo o Sócrates, no seu intímo deve achar piada a ele mesmo, satirizado pelos "gatos".
Aqui imagino que as sátiras iriam todas terminar em processos judiciais e acusações de difamação...

Rirmo-nos de nós próprios é o princípio mais saudável de aceitação das nossas fragilidades... ou simplesmente da confirmação da nossa boa disposição... da certeza de estarmos bem com a vida!

É uma pena que, por cá ainda não se tenha alcançado isso.
Porque rir é, sem dúvida o melhor remédio!

Grande post... tocáste lá no ponto(mais uma vez)!

Teatrakacia disse...

É uma pena, mesmo!!! Mas também é verdade que essa cultura não nasce de geração espontânea. Ainda não estamos prontos! Há muito caminho ainda para andar... ainda só aceitamos rir dos outros... de nós, não há 'arcaboiço'! É uma pena, mesmo!!!
Tchá

João Branco disse...

Nuno, obrigado pelo comentário e visita, volta sempre.

Hiena, gosto das tuas referências, principalmente a da Torre de Babel, que volta e meia, também utilizo nas minhas argumentações mais filosóficas. Agora, essa do teu anonimato. Está bem, conta-me histórias. Nem com tanque de guerra te safavas! Mas é como digo, o homem aranha ou o Batman, não teriam piada nenhuma sem as respectivas máscaras. Portanto, keep going!

Margarida, e se pensarmos nas figuras do Contra Informação... ui!

Tchá, Tu que és um gajo mais vivido, diz-me, como combater isso?

Anónimo disse...

JB , no que toca ao humor penso qu temos é que insistir, por acaso pensei no batman (sou fã de comics)mas hoje vou revelar a identidade do hiena...
Hiena

João Branco disse...

Hiena, não faças isso! Perdia metade da piada que tem. Digo eu...

Anónimo disse...

lol tarde de mais ja està
Hiena

Margarida disse...

É verdade o contra informação! E sabes que há até Ministros, deputados e outras figuras ilustres do país a pagar para terem os seus bonecos no Contra?

Teatrakacia disse...

Na minha modesta opinião 'de vivido' acho que é preciso insistir, insistir, insistir... mas sabendo fazer!
Tchá

João Branco disse...

E onde se aprende, já que não se nasce ensinado? Ou melhor, onde se cultiva essa maneira de bem receber o humor sobre nós próprios e de bem fazer o humor sobre os outros? Vendo televisão?

Teatrakacia disse...

Eu estava a responder a tua pergunta sobre o como combater isso(?) lembras-te? E a minha resposta aposta na necessidade de insistir, insistir, insistir fazendo, mesmo enfrentando esse não saber 'encaixar', com as reacções que conhecemos...

João Branco disse...

Entendido, Fonseca!

Catarina disse...

Houve uma pessoa marcante, um senhor inglês, que no início da minha adolescência - naquela fase em que temos medo do ridículo e do que os outros pensam - que me disse uma frase tão simples, forte e profunda que me tem acompanhado como um dos lemas da minha vida: "people will like you more if you are able to make fool of yourself"...

Anónimo disse...

Bem, o humor da forma que alguns aqui falam até existiu...para quem não sabe procurem descobrir o "sopinha do alfabeto" ou o grande Pirilampu.

Agora há que fazer até vingar. Em qualquer parte do mundo isto foi assim acho.

Djinho barbosa

João Branco disse...

Djinho, acabaste de me lembrar do Djunga, que tinha programas na rádio, com crónicas e teatro, que enfim! Eram simplesmente demolidores. E no tempo colonial...

Abraço fraterno!

Xaquitim disse...

Ó joão, conheces até o Nho Djunga?...bpo ta prei diazááááááá, hein?

Anónimo disse...

Quando o jornal dinamarquês Jyllands-Posten decidiu publicar umas caricaturas de Maomé, seguido posteriormente por mais alguns jornais de outros países, a Europa assistiu ao despoletar de uma série de problemas com as comunidades islâmicas.

À vontade de provocar de uns correspondeu a esperada irracionalidade e fanatismo de outros. 
Perante o costumeiro radicalismo dos islâmicos ergueram-se uns quantos defensores de ocasião do Ocidente (muito de ocasião) em defesa de uma presumida ideia de liberdade tomada como valor civilizacional da Europa.

O direito de caricaturar um profeta religioso e abordar livremente as questões 
da fé foi então tornado a bandeira simbólica da oportunidade de livre expressão que distinguiria as democracias ocidentais do «obscurantismo» de outras partes do mundo.

Por vezes a roçar o histerismo esses defensores de ocasião do Ocidente, que quando toca a defendê-lo integralmente se encontram sempre ausentes, asseguraram-nos que os movia simplesmente a apologia da «liberdade», que se tratava de uma questão de valores. a liberdade seria uma condição fundacional da «Europa democrática» e eram limitações a esses valores base que estavam em causa e não poderiam em consciência aceitar.

Outro exemplo foi um proprietário de uma livraria em Barcelona, foi detido pela polícia da Catalunha. Segundo as forças de autoridade o objectivo principal seria a Associação Cultural Editorial Ojeda, sedeada na referida livraria. Na operação foram confiscados vários milhares de livros. As acusações dirigidas foram de «delito contra o exercício de direitos fundamentais e liberdades públicas» e «delito contra as liberdades públicas por apologia do genocídio». A sustentar as acusações apresentaram-se os livros editados pela Ojeda e vendidos na livraria, desde obras de ficção a livros nacional-socialistas, revisionistas ou estudos sobre diferenças raciais.

Esta detenção não choca os defensores da tal liberdade que dizem valor civilizacional da Europa, pelo menos a julgar pelo silêncio generalizado a que os outrora histéricos defensores dos «valores fundacionais do Ocidente» se remeteram neste caso e noutros semelhantes. Em qualquer livraria podemos encontrar obras que apresentam visões revisionistas sobre os crimes do comunismo, e muito bem, acrescento, uma vez que considero ter o direito de conhecer outras opiniões para além das que são correntemente aceites como verídicas. As pessoas têm o direito de avaliar posições distintas e em posse de informação variada 
tomarem as suas decisões e fazer os seus julgamentos sem que uma qualquer autoridade lhes passe atestados de menoridade mental legislando o que podem ou não ler, o que podem ou não escrever ou pensar. Mas isto não é válido para a História da II Guerra Mundial ou para questões que abordem o tema 
racial, aí essa «coisa» da liberdade de expressão transforma-se frequentemente em «apologia do genocídio».

O proprietário foi preso por vender livros. Onde estão as boas consciências que lembram que a censura ou confiscação de livros é um sinal inequívoco de se estar na presença de Estados autoritários e inimigos da liberdade? As mesmas que criticam a censura literária em Cuba ou que falam da destruição de obras 
na Alemanha nazi como sinal profético do que estaria para vir? Afinal não vivemos em democracias cujo valor central é a possibilidade de dissidência e de livre opinião? Não é sempre essa a diferença fulcral que apresentam na defesa da superioridade democrática ocidental?

Pois. estão de férias agora os defensores dos «valores civilizacionais do Ocidente» que há alguns meses se insurgiam energicamente na defesa do direito à liberdade de expressão, esse dogma das nossas democracias de «homens livres».
Esta «liberdade ocidental» cujos limites são impostos pelo poder político dominante, que decide em função dos seus interesses os critérios do que podemos dizer e escrever é a mais cínica negação do conceito. Ninguém é livre se não puder aceder a informação diferente e for forçado a aceitar as teses únicas da verdade institucionalizada, pois essa é a verdadeira limitação que impede o livre juízo e a decisão autónoma.

De facto, o «homem livre» europeu é como uma criança de 6 anos a quem o poder político, fazendo o papel de adulto responsável pela sua educação, estabelece os limites do que pode ou não saber, e, tal como um adulto faz com uma criança, justifica a sua acção para o próprio bem desse «homem livre» europeu, em boaverdade infantilizado. A liberdade apregoada por alturas da polémica em torno das caricaturas de Maomé quando comparada com a sua negação em tantos outros casos, faz lembrar a liberdade que se permite aos fedelhos: que façam umas caricaturas, uns bonecos e uns rabiscos, mas não se intrometam nos assuntos sérios dos adultos; eles é que sabem o que é melhor para a criançada, incapaz de raciocinar por si.

A Contra-Informação em Portugal, tem feito e dado levemente a possibilidade de criticar pessoas, órgãos, clubes, sociedades, mas já teve algumas emissões “congelada” , e por vezes alguns episódios não são emitidos. Porque é que será????

Tal como vários países, nem todos tem a capacidade de rir-se deles próprios, em Portugal não existe muita voz activa e isso sente-se no País e na sua política e principalmente cultura.

Digam-me cá uma coisa... Qual o país da Europa tem capacidade cultural e intelectual para eleger um Presidente Negro como a América fez? ou melhor ainda: um Cigano ou então um Mulçulmano?

BeijaFlor

João Branco disse...

Xaquitim, nunca ouviste falar da palavra "investigação"?

Beija flor, excelente comment. Muita substância. Muito que pensar.