Loas ao Café Margoso

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Texto: Káká Barbosa


Não tenho dúvidas de que há muitas paixões pelo café.
E não são poucos os que aceitam viver amando o cio do grão torrado.
Sempre as pessoas por ele se apaixonam por uma questão de prática.

Porque dá jeito. Porque se dão bem e não se chateiam um com o outro. Porque faz sentido. Porque é barato. Por ser um produto da terra. Por causa da paródia. Por causa do entretenimento. Hoje em dia as pessoas fazem dele uma forma de desinibição. O amor passou a ser passível de ser combinado num café. Os amantes tornaram-se sócios do café.

Reúne-se, discutem-se problemas, tomam-se decisões no café. O café transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. Um bom café é na medida do possível, quente, amargo, meio adocicado.

O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam praticamente dele dependentes. Eu quero fazer o elogio ao café puro, ao café cego, ao café estúpido e amargo. Ao café doente do último fumo do cigarro, ao café tossido em conversas de café, farto de incompreensões, farto de conveniências e farto de baboseiras. Nunca vi café tão embrutecido, tão cobarde e tão comodista como o café amargoso. O café é capaz de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, tem raça, tem abrigo em cantinas, onde a malta tá tudo bem, onde há tomadores de bicas, faladores, discutidores de tudo e mais alguma coisa. Ninguém se rala e se escusa do amargo do café uma paixão pura sem cura, uma saudade sem fim, tristeza, desequilíbrio, medo, nervosismo, tensão alta a comer-nos o coração e que nos dita no peito o vício de ir ao café de manhã, meio-dia, à tarde e á tardinha, aos fins de semana, de segunda à sexta novamente. O café é uma coisa, a vida é outra. O café não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida. O café é para ser lido e sentido nas entrelinhas. Um vão, talvez, entre chão e João.

De Kaka Barboza para o Café Margoso


Série Café Margoso Primeiro Aniversário



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2 comentários:

Teatrakacia disse...

Mali-delicioso texto do Kaká sobre o Café Margoso... esse vício quotidiano dos fisgados... da casa do café.

João Branco disse...

E a gerência agradece. Kaká, o homem dos trocadilhos. E mais não digo!