Guerra

1 Comments



          Tanto é o sangue
          que os rios desistem de seu ritmo,
          e o oceano delira
          e rejeita as espumas vermelhas.

          Tanto é o sangue
          que até a lua se levanta horrível,
          e erra nos lugares serenos,
          sonâmbula de auréolas rubras,
          com o fogo do inferno em suas madeixas.

          Tanta é a morte
          que nem os rostos se conhecem, lado a lado,
          e os pedaços de corpo estão por ali como tábuas sem uso.

          Oh, os dedos com alianças perdidos na lama...
          Os olhos que já não pestanejam com a poeira...
          As bocas de recados perdidos...
          O coração dado aos vermes, dentro dos densos uniformes...

          Tanta é a morte
          que só as almas formariam colunas,
          as almas desprendidas... — e alcançariam as estrelas.

          E as máquinas de entranhas abertas,
          e os cadáveres ainda armados,
          e a terra com suas flores ardendo,
          e os rios espavoridos como tigres, com suas máculas,
          e este mar desvairado de incêndios e náufragos,
          e a lua alucinada de seu testemunho,
          e nós e vós, imunes,
          chorando, apenas, sobre fotografias,
          — tudo é um natural armar e desarmar de andaimes
          entre tempos vagarosos,
          sonhando arquiteturas.

          Cecília Meireles



You may also like

1 comentário:

ManuMoreno disse...

Levamos muito acerio o nosso Pais,
mas nao nos levamos a nos.
Somos simples e afinada a tolice
- nao estou equivocado.
Simplesmente, pensativo!

ManuMoreno
Kel Abxom Di Kuraxom!!!