Declaração Cafeana

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Saramago disse em várias ocasiões ser um crime escrever quando não se tem nada para dizer, uma frase que até aparece estampada numa música do raper luso Sam (the) Kid, que sabe-se lá porque artes mágicas foi parar ao mp3 da minha filha adolescente (e deste aos meus ouvidos foi um ai). Isto para dizer que nestes dias estranhos não é bem não ter o que dizer que é o problema. É antes uma total indefinição perante o mundo louco que nos rodeia, às tantas já não sabemos às quantas andamos. A sério, por vezes apetece é ficar quieto, não mexer um músculo que seja.

Falar de sorte ou de azar, nomeadamente nosso, é puro egocentrismo, até porque estamos já todos cansados de saber que o mundo é demasiado grande para andar ao redor de qualquer umbigo, por muito nobre que o seu dono possa ser (ou considerar-se). Não faz qualquer sentido classificar de sorte ou azar o facto de uma pessoa com problemas de saúde no outro lado do Atlântico tenha nos obrigado a adiar o projecto da próxima peça, com estreia marcada e tudo, quando o mais importante mesmo é que no final do episódio fique sobretudo o alívio de ver alguém querido escapar de uma situação mais complicada (neste caso próximo de uma das actrizes envolvidas).

Não faz sentido falar de sorte ou azar, quando Vadú se perdeu nas profundezas de um mar revolto ou um país imenso (um país parecido com o nosso) se desfaz que nem um baralho de cartas em pouco mais de sessenta segundos. Não faz sentido falar de sorte ou azar, quando diariamente temos provas acrescentadas da (falta de) noção que responsáveis públicos tem do que é a criação artística, sendo que neste último caso apetece mesmo dizer só temos o que merecemos (por vezes me ouço a dizer, certamente influenciado pelas novelas, ninguém merece!). Não faz sentido falar de sorte ou azar, quando vemos os nossos filhos, irmãos, amigos a degladiarem-se ou a destruirem património privado pelas ruas das cidades apenas porque sim, porque não tem nada melhor com que se entreter.

Tudo é relativo, afinal de contas, depende das proporções e do nível da análise que fazemos ao mundo que nos rodeia. Por exemplo, neste momento posso me lembrar do almoço maravilhoso que tive há dois dias com a minha filha Inês de quatro anos de idade, apenas nós os dois, conversando sobre a vida com a simplicidade plena de surpresa e graça únicas desta idade abençoada; podia ver como estão a ficar bonitos mais uns passeios da cidade do Mindelo, dos poucos locais em Cabo Verde onde é dada a mesma importância a quem anda a pé ou de carro; podia rejubilar com as notícias que dão conta da instalação de dois parques de energia solar nas ilhas do Sal e Santiago, no prazo louco de sete meses, anunciadas como as duas maiores centrais fotovoltaicas do continente africano; ou finalmente, posso ver-me a mim próprio no meio da rua a ler o último livro de Arménio Vieira (como é possível que não tenha sido lançado e apresentado no arquipélago?!), sem dar muitas topadas, com um Sol que nos acaricia, uma calma que nos engana e uma brisa que nos avisa que não é para nos queixarmos muito porque, ao contrário do que possamos pensar, somos uns tipos cheios de sorte.

E agora questiono: se cada um de nós tiver estas pequenas luzes (ao fundo dos túneis dos nossos desesperos ou das nossas dores); se cada um de nós tiver estes amores por quem suspirar, esperar, partilhar, abraçar, crer, bendizer ou acordar; quem sabe o mundo tenebroso que temos hoje não fica um pouco menos sombrio. Eu (ainda) acredito no Homo Sapiens, apesar de tudo.

Imagem: Roy Lichtenstein





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4 comentários:

Deina disse...

Há aluras em que só mesmo essas pequenas luzes para nos fazer continuar a caminhar neste mundo louco

zito azevedo disse...

Estou convicto que todos e cada um de nós, temos as ferramentas necessárias à construção da felicidade...Mas também nos falta um pouco de habilidade para as utilizar!

Anónimo disse...

Só para desanuviar, João, só para desanuviar: Luz no fundo do túnel, ou túnel sem fundo na Luz?

Hehehehe!!

a) RB

Pss disse...

Todos podemos construir a felecidade. Mas uma coisa é certa, onde estiveres, se fores rico o caminho para felecidade estará sempre a ser desimpedida. Veja-se ISTO