Um Café no Éden Park II

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Mais um depoimento nos chegou motivado pela nossa luta em defesa do Éden Park, a principal sala de espectáculos da história do Mindelo, que vai apodrecendo aos olhos de todos na Praça Nova. Desta vez, Luiz Silva, em forma de carta, conta-nos um pouco do que lhe vai na alma sobre este assunto, aproveitando para escrever, de forma mais abrangente, sobre a problemática patrimonial da ilha de S. Vicente.

Então é assim:

"Carta ao amigo Maurino Delgado :

Quando se vê o interesse do Governo, de nacionalistas e ex-presos da prisão do Tarrafal de Santiago, que funcionou antes e depois da Independência, em conservar a memória dessa prisão, onde apenas restam hoje algumas barracas, pergunta-se por que não compreender o sacrifício dos Mindelenses pela conservação do seu património cultural e desportivo, como o Eden Park, o Fortim d’El-rei, o Golf dos Ingleses, etc.

Sem a memória a Nação não existe. E num país de pedras e rochas em que a Nação não se define em termos étnicos ou religiosos, a memória da Nação está inscrita nas suas construções de pedra, como acontece com o Cine Eden Park, o Fortim d’El-rei, o Golf Inglês, o Mercado Municipal, o Palácio do Governo, a Capitania dos Portos, etc.

O meu colega Maurino Delgado ainda se deve lembrar do Dr. Adriano Duarte Silva, homem elegante, vestido com o seu fato limpardo, que passava diariamente pelo portão do Liceu Gil Eanes e que cumprimentava com um largo sorriso todos os alunos do Liceu. O Dr. Baltasar Lopes da Silva, reitor do Liceu no nosso tempo, então falava da sua importância como professor de várias gerações, inclusive de Amilcar Cabral, do seu apoio ao regresso de vários quadros caboverdianos de Portugal e da sua luta em defesa dos interesses de Cabo Verde, como cidadão e deputado. Foi também um grande mecenas e em especial do B.Leza, a quem ele cedeu uma casa para morar em São Vicente e que lhe dedicou uma linda morna. O escritor Teixeira de Sousa, antigo Presidente da Câmara de São Vicente, prestou-lhe a devida homenagem, colocando o seu busto na Pracinha do Liceu (creio que o discurso foi publicado numa revista daquela Câmara Municipal).

Assim como Eugénio Tavares, José Lopes, Pedro Monteiro Cardoso, esta figura importante da História de Cabo Verde continua desconhecida pela nossa juventude. A nossa História continua ignorada devido à falta de bibliotecas, de livrarias, de iniciativas editoriais, tanto do Governo como dos Municípios, falta essa agravada pela passividade da sociedade civil, onde os intelectuais e os políticos deveriam exercer uma actividade cultural mais intensa.

O povo de Mindelo precisa das condições sociais mínimas para poder participar na evolução cultural da sua ilha. Mas como pode o povo comprar livros, educar filhos, sem um salário justo e verdadeiramente controlado pelo Estado e o Município? Como podem os deputados da Nação, que vivem com mais de trezentos contos, ignorar que há pessoas que vivem com salários de cinco mil escudos, numa indignidade total própria à promiscuidade? Aqui está uma das razões da existência dos thugs. Não era isso a Independência prometida. O fosso entre ricos e pobres nunca foi tão largo e fundo em Cabo Verde.

A pedra continua sendo a especialidade dos caboverdianos, dentro e fora de Cabo Verde, e não permitiremos que o trabalho e a arte do homem caboverdiano sejam desprestigiados. O caboverdiano chegou a ser o único africano da África Ocidental a trabalhar a pedra: os prédios de Dacar, Bissau e Bathurst foram construídos pelos caboverdianos; o cais acostável de Dacar também se deve aos caboverdianos. Em Portugal e em França, país que melhor conheço, os caboverdianos são os melhores pedreiros. Os caboverdianos marcaram, principalmente, a reconstrução dos Campos Elíseos em Paris e do Estádio de Mónaco.

A emigração esteve sempre nas lutas por Cabo Verde. E mesmo que continue excluída da gestão municipal do seu concelho ou da sua ilha (não vota nas eleições municipais-verdadeira injustiça) onde investe todas as suas economias, apoia estas manifestações em defesa do património do Mindelo. Mas em vez de estarmos a dispersar as nossas forças deveríamos unir os vários grupos de defesa do património ou sejam os defensores do Golf dos ingleses, do Fortim e do Eden Park e constituir um bloco comum em defesa do património de São Vicente. Devia-se publicar a lista do património do Mindelo com indicações precisas, a fim de garantir o futuro do património Mindelense.

O Eden Park não pode morrer. Merece ser modernizado para responder às novas necessidades de São Vicente; o Fortim d’El-rei pode ser um lindo museu com um restaurante, livraria e miradouro à volta do Porto Grande; o Golf Inglês pode servir como um dos museus históricos dos ingleses em São Vicente. A actual direcção do Golf de São Vicente (Golf dos ingleses), fez desaparecer da sede várias recordações do clube, como taças, documentos importantes da história dos ingleses no desenvolvimento de São Vicente. Essa direcção, constituída por traidores da causa de São Vicente, pretende associar-se com a empresa do antigo Ministro Agualberto do Rosário, (figura muito conhecida no mundo dos negócios em Cabo Verde) de forma a fazer desaparecer a presença inglesa em São Vicente, que foi fundamental na sua história económica, social e cultural. Os terrenos do Golf, hoje tão cobiçados, estão na base da criação dessa sociedade criada em Santa Cruz-Santiago (uma pouca vergonha, indigna para São Vicente).

Unidos que estão os defensores do património do Mindelo numa frente comum, tanto a Câmara Municipal como o Governo Central terão que recuar. Se for necessário, o povo de São Vicente deverá sair à rua e manifestar o seu descontamento. E mesmo nos vários pontos da emigraçao poderemos também nos organizar e manifestar junto das Embaixadas e Consulados.

São Vicente não pode morrer! Foi esvaziada dos seus quadros em benefício da capital e outros foram obrigados a emigrar. Felizmente que temos um povo que não dorme, não se deixa enganar e sabe manifestar o seu descontentamento nas urnas. Os partidos políticos estão assim alertados… O Aeroporto de São Pedro traz-nos esperanças, mas somente em condiçoes modernas a ponto de funcionar 24 sobre 24 horas.

Mais uma vez, meu caro Maurino, velho amigo e colega, tens todo o meu apoio, bem como da emigração mindelense e não só! Vamos precaver contra outras topadas no coração do Mindelo, para que as próprias pedras, abandonadas num canto qualquer de uma esquina, não chorem desalmandamente por Mindelo, como cantaram os grandes compositiores nacionais B. Leza, Manuel d’Novas, Luluzinho e Lela de Maninha, falecido recentemente em Angola com os olhos fixos em direcção à mamãe terra – São Vicente.

Um forte abraço,

Luiz Silva - Paris, 29/01/2010"

Na imagem: frame 0238 do filme Number Seventeen (1932) de Aldred Hitchcock




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5 comentários:

Caboverdiano disse...

Olá JB! Ess comentario li tava merece estod ne primeira pagina de qualquer jornal. Sério!

Pa ca dze, primeira página de tud jornal de CV (Bom....isso seria mais dificil...no sabe pq.)

Parabens pa Luiz Silva.

Um grande aplauso pa ess artigo pessoal. É o cum te pedi.

Mestrando disse...

Bem JB ,apesar de ser completamente a favor da petição e da salvação do Eden da minha infância e juventude,gostaria q lançasses tb aki um repto ás pessoas q são "contra" para escreverem algo desse tipo cm os argumentos que achem válidos para não se salvar o Eden-Park de todos nós.
Só para ter uma ideia do pq q alguem pode ser contra isso.

zito azevedo disse...

SUBSCREVO COM IMPACIENTE VEEMENCIA TODOS OS CAFÉS SOBRE O EDEN-PARK QUE DEFENDAM A SUA PRESERVAÇÃO OU ADAPTAÇÃO A UM LOCAL DE CULTO LUDICO-ARTISTICO-DESPORTIVO...

Denis Rodrigues disse...

Caro JB,
Enquanto os Mindelenses, estão com esta Luta reninha pela Salvaguarda do nosso Eden Park, no sabdo aconteceu algo que deixou triste e até então a matutar. È seguinte como fanatico do Cinema no sabado fui ao Cinema da Praia no Plateau, ver o filme " Lua Nova" da saga Twilight e com medo de não encontar bilhete fui bem cedo . Para o meu espanto quando o filme começou vejo cerca de 20 pessoas na sala que tem lotação para + de 100 . E volto para minha companheira e digo Cinema é Cultura e para este povo aqui esta uma amostra de até quanto valorizam esta cultura. E veio a minha afirmação se calhar é por isso que a quem de direito esta a marinbar para o Eden Park! Posso estar errado. Mas digo desde que vou aquele cinema da Praia nunca vi mais de 20 pessoas nas salas ! e os filmes são bem recentes. Tomara JB tivesses aquela sala neste momento em Mindelo !!

José Lopes disse...

Caro Luís, concordo contigo que a preservação do património do Mindelo é um
problema de vontade política e algo que vem arrastando desde a
independência. O Éden-Park é mesmo um património material e imaterial. O
papel cultural e educativo que teve até aos anos 70 ficou mais do que
evidente pelas pessoas assinantes da petição, e suas reacções, mas que
infelizmente poderá morrer para sempre se não houver as vontades faltarem.
Terá que haver uma política cultural global e moderna para S. Vicente,
fortemente financiada pelo estado, privados e cooperação internacional, que
inclua as diferentes manifestações culturais ocorrendo nesta cidade e outras
novas que poderão incrementar as actividades culturais nesta ilha. Não se
pode deixar morrer o nosso património e substituí-lo por modernices
duvidosas. Ideias novas precisam-se para Mindelo. Infelizmente para o Estado
o que conta agora culturalmente é a Cidade Velha