Declaração Cafeana

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Um amigo, aluno de teatro do último curso que ministrei, saiu de casa na noite de passagem d'ano para ir até casa dos pais. Foi rodeado por quatro indivíduos, bêbados ou alterados (um raio trapalhod, como se diz em crioulo), e levou um arraial de porrada. Assim, sem mais nem menos. Não foi assaltado, não se meteu com a namorada de nenhum dos seus agressores, nem ofendeu ninguém (ele é uma paz d'alma que não faz mal a uma mosca). Partiu um dedo e ficou marcado por umas semanas. Podia ter sido pior.

A zona da Belavista, em S. Vicente, esteve estes dias em polvorosa - ainda está - porque, ao que parece, um rapaz morreu numa luta de gangs de zona, e todo o ambiente indicia a preparação de uma vingança que até ao momento em que escrevo este texto, ainda não se consumou. Eu não tenho dúvidas nenhumas que isso vai acontecer e que outros jovens vão cair prematuramente. É só sentir o cheiro nauseabundo que invade esta sociedade, e que num local pequeno e onde todos se conhecem, é facilmente reconhecível.

Ontem, na cidade da Praia, mais uma cena de inusitada violência, no bar mais in da capital, envolvendo rapazes de "boas famílias". Pelos relatos (ler aqui), tudo começa com uma mijadela na rua, uma chamada de atenção, escaramuças, ida a casa para buscar arma e preparar vingança, e sabe-se lá movido porque demónios mais uma morte acontece, para consternação de muitos, principalmente de familiares e amigos ou pessoas que conheciam a vítima (o que não é o meu caso).

O maior problema, o grave de toda esta situação, é que isto tudo nem sequer é novidade. Já por várias vezes abordamos este assunto. Sinceramente, não sei se a melhor forma de atacar este problema é ver a montante - onde tudo começa - ou a jusante - na procura de soluções. Se temos que atacar os sintomas ou a doença. Podemos falar que o problema está na pobreza e no desemprego, mas o caso último da cidade da Praia mostra-nos que não, já que envolve jovens da classe média alta. Podemos falar do tráfico e consumo de droga, de mais polícias (e até militares) nas ruas, do combate contra o banditismo urbano, puro e duro. Podemos falar de revisão urgente das penas a aplicar a este tipo de crimes violentos, tendo em conta que é possível, com o sistema penal actual, que poucos anos depois de acontecerem, os assassinos estejam de novo nas ruas. Podemos falar de tudo isso.

Neste momento, mais duas famílias choram mortes estúpidas e prematuras. Seja qual for a abordagem por onde se analise esta questão, uma coisa parece-me mais do que evidente: é tempo de acordar. Definitivamente. Começa a ser tarde demais. E não podia ter havido pior forma de começar o ano.




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12 comentários:

Carla disse...

Sentimento de impunidade, João. segundo os relatos, o agressor tem cometido vários actos violentes, e ............continuava solto.
o que move estas pessoas é a impunidade. justiça lenta, advogados bons que conseguem arrastar os casos por tempo indeterminado, aliado a outras questões.......... tudo junto e temos uma sociedade podre!!!!!!!!!!

Mestrando disse...

Para mim q m encontro longe das minhas ilhas,fico muito triste qd abro um site de noticias para saber estão as coisas e para matar essa saudade eu veja estas noticias.
e tão comuns e repetidos q as vezes fico na duvida s estou num site de cabo verde ou de algum outro país aonde a violência é um prato comum.
aonde q vamos parar??espero q n estejamos relamente nos transformando num Brasilim em toda a magnitude desta palavra(q me desculpem os brasileiros pela comparação,alem de q tenho mt amor por este país por ter vivido durante sete anos nele e por saber q várias das coisas q passam na TV são exageros)

Ariane Morais-Abreu disse...

Podemos também e sobretudo, JB, falar da responsabilidade de cada um, privilegiado ou "laissé pour compte"!! Vluntareza compulsiva, brio d'corpu, frustraçao sao cocktails devastadores para os individuos, sejam eles formados ou filhos de coitados. A vida humana nao parece ter mais valor do que a porqueza dos que mijam nas ruas e na cara do OUTRO. Que valor tem o outro nesta sociedade cv muito contente do seu dito desenvolvimento, dito progresso e da sua "puteka" imagem de vitrina!! Pitu k'nunca viu canhote, ta foga na propi fumaça... Ess mecanica "infernal" ka é fatalidade, somente miseria d'spirt e bandalhagem geral dos Cabo-verdianos.

Kopu leti disse...

Já agora era bom saber em que fase processual se encontra o processo crime de homicidio frustado contra a gravida psicóloga do palmarejo que foi agredida por uma ex namorada do actual marido da vitima, filha de um deputado da nação e que se encontra nos EUA a especializar-se em Medicina, apesar de ter tido como medida preventiva a interdição de saida do país.

Em que pé é que está o processo de assalto as bombas de gasolina que aconteceu no ano passado nesta altura, realizado por filhos de um grande pequeno advogado da Praia, de um alto dirigente da Policia Nacional e outros.

Como está o caso da violação de uma jovem que se encontrava drogada no interior de um carro e que foi usada sexualmente pelo namorado, (filho de uma jornalista cabeleireira) pelos amigos deste e por uma lata de red bull, e até deu direito a filmagem que correu o mundo pela net, Ipods, etc.

Aposto que estes filhos de papais estão todos na estranja a estudar e a continuar as suas deliquencias sem regras nem limites, o que não lhes foi dado pelos pais em criança, em vez de terem dado chave de carro (uns até carros do Estado) aos 17 anos, calças e sapatilhas de moda, playstation da última geração, dinheiro no bolso todos os dias para asa nights saborosas de Cabo verde, viagens de férias todos os anos para a estranja, estojos XPTO para a escola e outros. Deram-lhes tempo de conversa, de família, correctivos, regras, valores, moral, respeito pelos outros, pela vida humana? Claro que não?

Não se pode dar o que não se tem ou se teve, e kel la ka ta atxadu na txon!

E o caso do advogado traficante como está? Já foi solto aguardando o julgamento em liberdade?

E o outro advogado de Santa Catarina que trabalhava no Sal que usou informação priveligiada para levantar dinheiro da conta de uma traficante e baronesa da droga, sua cliente, por onde anda? Últimas noticias dão conta dele nos EUA a usufrir os bons ares da liberdade americana.

Agora lembro-me também de uma morte esquisita que aconteceu há uns bons pares de anos no Sal de um solicitador que até hoje não se sabe de nada. Apenas que encontraram o carro do dito cujo a beira mar e mais nada.

Enfim, mistérios, muito mistérios em que a mão da lei e da justiça não se faz ver nem sentir.

Se o agressor fosse um anónimo, coitado sem eira nem beira a mão pesada da justiça já daria o ar da sua graça.

zito azevedo disse...

JOÃO! O QUE É QUE ESTÃO A FAZER COM A NOSSA TERRA ?!

Lily disse...

Esta violência gratuíta que ocorre em tantos países é sinal de uma paz podre e de podridão social...
Também nem sei se a solução passará por prevenir ou por tratar o que está mal...

Anónimo disse...

Esse episódio trágico da Travessa do Mercado fez-me lembrar, lamentavelmente, do livro de Gabriel Garcia Marquez, "Crónica de uma morte anunciada", em que em se podendo evitar, como parecia, todos os astros se reuniram para que culminasse em tragédia.
Com Dudu foi igual: o alegado homicida saiu do local,após uma discussão, prometendo vingança, foi para casa buscar uma arma, voltou ao local cheio de gente e conseguiu chegar até à vítima, ultrapassando tudo e todos, e enfim conseguiu o seu intento. Isso só pode ser destino. Se podia ser evitado, parece que sim, mas não o foi e ninguém consegue explicar porquê. Dá que pensar.

Em todo o caso, lamentável o infortúnio desses dois jovens e famílias.

Pimintinha

Anónimo disse...

Não é já o tempo, creio, para grandes debates sobre a génese da violência que assola praticamente todas as Ilhas de Cabo Verde. Nem para análises teóricas sobre as respectivas causas, em roupagens sociológicas, antropológicas ou, como se diz agora, numa perspectiva multidisciplinar. Temo, sinceramente, que a situação esteja já fora de controle e que, por isso, é chegado o tempo de agir. Rapidamente e em força. Prevenir, pois claro! Mas reprimir é absolutamente necessário, quando a segurança de (quase) todos é sistematicamente posta em causa pela libertinagem de alguns. Já o disse algumas vezes e repito-o: Dê-se-lhes o pão, mas desde já o pau. E a sério!

a) RB

Ariane Morais-Abreu disse...

"Já o disse algumas vezes e repito-o: Dê-se-lhes o pão, mas desde já o pau. E a sério!" De quem e para quem fala o anonimo RB?! Final muito e mesmo ambiguo...

Anónimo disse...

Nenhuma ambiguidade, creio.

"Dê-se-lhes o pão", como metáfora para a necessidade de se atacarem as causas sócio-económicas que estão (também) na génese da violência urbana e na fermentação dos "gangs" que a praticam, muitas vezes de forma absolutamente gratuita. (desemprego, aculturação, deseducação, etc.).

Mas "dê-se-lhes desde já o pau", também como metáfora para a urgência da adopção de medidas repressivas imediatas e duras, que tendam a recolocar a normalidade da situação que, reafirmo, me parece já fora de controle (dou, como exemplo, um "carjacking" em plena luz de um destes últimos dias, à porta do Expo Café na Achada de Sto. António, Cidade da Praia, com utilização de arma de fogo).

E a sério!!!

a) RB

Sisi disse...

Não é uma solução de todo, mas acho que devia-se começar a fazer mais barulho e alarido, não só quando o mal atinge pessoas conhecidas, porque o que aconteceu não foi um caso pontual, muito pelo contrário.Quando a vítima não é conhecida, a história é esquecida no dia a seguir ao acontecido, e pior muitas vezes tenta-se culpabilizar a vítima, para não ser desfeito a nossa crença no mundo justo ("cada um tem aquilo que merece").

Ariane Morais-Abreu disse...

Entao anonimo RB, para o assassino Stefan é pau ou pao ? A barriga dele esta cheia. A tua metafora atropela-se no seu "simplismo" agudo que, ao identico dos governos neo-conservadores de direita extrema, preconiza unicamente a improdutiva REPRESSAO. E de repressao ja sofreram bastante os Cabo-verdianos, os pobres na historia. Nao achas??