Congresso Internacional do Medo

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      Provisoriamente não cantaremos o amor,
      que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
      Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
      não cantaremos o ódio porque esse não existe,
      existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
      o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
      o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
      cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
      cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
      depois morreremos de medo
      e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

      Carlos Drummond de Andrade




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3 comentários:

Anónimo disse...

"Quase sempre é o medo que nos conduz à poesia"


1

Não pode o poema
circunscrever o medo,
dar-lhe o rosto glorioso
de uma fábula
ou crer intensamente na sua aura.
Nós permanecemos, quando
escurece à nossa volta o frio
do esquecimento
e dura o vento e uma nuvem leve
a separar-se das brumas
nos começa a noite.

Não pode o poema
quase nada. A alguns inspira
uma discreta repugnância.
Outras vezes inclinamo-nos, reverentes, ante os epitáfios
ou demoramo-nos a escutar as grandes chuvas
sobre a terra.
Quem reconhece a poesia, esse frio
intermitente, essa
persistência através da corrupção?
Quase sempre a angústia
instaura a luz por dentro das palavras
e lhes rouba os sentidos.
Quase sempre é o medo
que nos conduz à poesia.

2

Voltando ao medo: as asas
prendem mais do que libertam;
os pássaros percorrem necessariamente
os mesmos caminhos no espaço,
sem possibilidades de variação
que não estejam certas com esse mesmo voo
que sempre descrevem.
Voltando ao medo: o poema

desenha uma elipse em redor da tua voz
e cerca-se de angústia
e ervas bravias — nada mais
pode fazer.

(Luis Filipe Castro Mendes, "A Ilha dos Mortos")

a) RB

zito azevedo disse...

Muito francamente, há temas sobre os quais devía ser príbido versejar, mesmo ao Carlos...

Mya disse...

nao sei se conheces, mas é um dos meus poetas favoritos. Aqui vai:

W. H. Auden


Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.

The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.