Um Café no Congresso

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O Semana online jura que o congresso do PAICV terminou "em apoteose". Pode até ser que sim e devo dizer mais uma vez que me continua a espantar a capacidade de improviso e o entusiasmo quase tocante com que o actual chefe do Governo pontua as suas intervenções. Um governante que chora, como ele fez questão de referir quando descreveu a sua reacção quando visitou as roças em S. Tomé. Ou como parecia que iria acontecer nalguns pontos dos discursos: tivesse a nossa televisão nacional já um canal HD e certamente conseguiríamos vislumbrar uma lágrima no canto do olho do nosso primeiro.

Eu, sinceramente, penso que faltou ali alguma humildade e auto-crítica. Aliás, e só para dar um exemplo, se juntarmos à utilização nos momentos mais apoteóticos, e num país musical como Cabo Verde, de um tema de Vangelis com décadas e já utilizado em inúmeras campanhas políticas (nomeadamente a que deu a primeira vitória a António Guterres em Portugal), uma moldura com o regulamento do monumento à liberdade mandado publicar pelo Ministério da Cultura nestas últimas semanas, facilmente percebemos da urgência na implementação da educação artística em Cabo Verde, antes que seja tarde demais.

A propósito, em conversa sobre o tema, lembrei-me de um episódio a que tenho assistido quase que diariamente, quando vou buscar a minha filha Inês, de quatro anos, ao jardim infantil. No final da manhã, os meninos e meninas estão todos numa sala, com posters de personagens do Walt Disney e da Xuxa vestida de cor de rosa, voltados para uma televisão, que está a passar um vídeo com músicas infantis cantadas em português com sotaque do Brasil, onde uns bonecos passeiam uma bandeira do Brasil e ensinam às crianças alguns dados estatísticos e geográficos sobre esse grande país continental. Ou seja, estão-nos a transformar num brazilim à força, porque hoje, com os meios digitais ao dispor, que dificuldade teria um Ministério da Educação em produzir um DVD com bonecos e crianças falando crioulo, um representando cada ilha de Cabo Verde, cantando músicas tradicionais do arquipélago e aprendendo algo mais sobre as raízes e os costumes do país? E uma vez produzido esse filme, distribuí-lo, gratuitamente, a todos os jardins de infância, em todas as ilhas?

Talvez se isso fosse feito não haveria tantas crianças a chegar a casa cantando as pombinhas da catrina ou o giroflé giroflá (nada contra, mas convenhamos!) e alguém de bom senso se desse conta que a criatividade é um bem precioso que toda a nação deveria saber germinar, cuidar, promover, reconhecer e nele investir algo que se visse. Porque nem tudo está bem. não senhor. Depois que ninguém se admire que sejam dadas horas e horas de destaque a um congresso político na televisão nacional e que à maior actividade de promoção de dança jamais ocorrida na história de Cabo Verde tenham sido dedicados uns míseros minutos num qualquer telejornal.




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3 comentários:

Sarabudja disse...

Por que motivo este post não foi comentado?
Será que os cabo verdianos não deram conta de que não há preocupação com a formação cultural dos mais pequenos?

Rosi disse...

Já viste o Áudio Livro da Celina Pereira? ela acaba de o refazer, desta vez com pinturas de Chichorro. São historias e brincadeiras de infância, que fazem parte da nossa memoria colectiva e se não forem preservadas perdem-se para sempre. Ministério de Cultura e de Educação deviam fazer um "djunta mo" e distribuir gratuitamente os livros pelas escolas, e levar a Celina a Cabo verde para fazer um tour pelas escolas. imagino k nos todos teríamos a ganhar com isso

zito azevedo disse...

Eu atrever-me-ia a dizer que há trechos musicais que são eternamente jóvens, tal a sua pujança lírica e melódica...Repare-se, por exemplo, em "Pompa e Circunstancia"...