Desabafo Margoso

12 Comments




Este início de 2010 não está fácil. Estamos doentes? Sim, estamos. A morte que nos rodeia não é aquela que é ditada pela sua própria natureza mas sim a que é provocada pela acção humana. Definitivamente, estamos a perder a inocência. Urgentemente, há que mudar tudo ou quase tudo. Ultimamente, é o que se tem visto: um rodopio de violência descontrolada que não se resume apenas aos caixões e às filas nos caminho dos cemitérios, mas também nas discussões sem controle, na falta de paciência, nos rastilhos demasiados curtos, nos bandos que invadem a cidade com pedras na mão. Antes, eram as bandeiras negras a seguir Capitão Ambrósio e era porque se morria de fome. E hoje? É apenas porque não se tem mais nada para fazer e porque toda a gente assobia para o lado. Até o dia em que a pedra nos cai em cima da cabeça. Ou na de alguém próximo. E quando acordarmos será tarde demais. Já o foi para alguns. Mão pesada!, gritam uns. Isto vai passar impune, o que seria se fosse um caso de periferia!, acusam outros. Estamos no tempo das não respostas. Da não acção. Do individualismo exacerbado. Da competição impiedosa. Do triunfo absoluto da inveja sobre a generosidade. Estamos apenas a deitar na cama que fizemos, não sei qual é o espanto. Mas dói. A sério, dói mesmo. Até quando? Até quando? Cabo Verde, para onde caminhas? Arquipélago Abençoado, quem te amaldiçoa?

"A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome para qualquer fim

Uma gota rubra sobre a calcada cai
E um rio de sangue de um peito aberto sai"

Zeca Afonso



[e hoje não me apetece dizer mais nada]




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12 comentários:

Anónimo disse...

Há um afirmação que já ouvi muitas vezes pela boca nos brasileiros que ´"estamos em guerra", para referirem-se à onda de violência que há muitos anos assola o país, e confesso que sempre me arrepio ao ouvir isso. E agora, porque "soberba ka tem motchinha", cá estamos nós, em plena guerrilha urbana, uns contra os outros, e ainda não descortinei quais os motivos desta nossa guerra urbana.
Já ouvi várias teses, algumas com sentido, mas parece-me que chegamos a um ponto limite: ou se põe cobro a esse estado de coisas, fazendo estudos sociológicos sérios e tomando medidas de fundo, ou seguimos em frente indiferentes, num caminho sem volta, transfomando-nos, pelos piores motivos, no tão almigerado "brasilim".
Por isso tudo, acho que a questão é séria, e não pode continuar a ser encarada com a mesma "descontra" com que já nos habituaram a tratar outros assuntos de Estado. É que nesse específico o velho ditado "depois da casa arrombada, trancas à porta" não se aplica, pois esta é uma semente resistente, que uma vez "fincada na tchon", tem raízes profundas, poderosas, que não se poderão facilmente arrancar. Veja-se o caso da epidemia de dengue: foi preciso perderem-se vidas preciosas, de gente amiga querida, chefes de família, para que houvesse um despertar generalizado,e um toca a correr atrás dos prejuízos. Não podemos pagar para ver na questão da violência e criminalidade galopantes em Cabo Verde, que já dá mostras de se estar a instalar transversalmente na sociedade.O preço a pagar é altíssimo:vidas humanas.
Concordo com o João, que a nossa sociedade está moribunda.E se os jovens são o futuro deste país, e este problema ataca principalmente essa faixa etária, que esperança nos resta, se se mantiver esse estado de coisas? Não temos outra riqueza senão os homens, e se estamos a matar a única riqueza que temos, que mais nos restará?

Perdoem o desabafo, mas hoje estou assim, revoltada.

Pimintinha

zito azevedo disse...

Ler este texto quando o ano entra na sua segunda semana de vida, é triste... Sentir a raiva da impotencia na voz do lutador, ainda é mais triste...Ouvir palpitar a onda do descontrole social, é penoso...Assistir à cavalgada da violencia gratuita ferindo de morte as nossas convicções, é revoltante...Ter que enquadrar tudo isto numa moldura de indiferença ao mais alto nivel é de perder a confiança nas instuições, no presente e no futuro é desacreditar que há vida para lá do apocalipse...

Ariane Morais-Abreu disse...

JB: "Arquipélago Abençoado, quem te amaldiçoa? "

AMA: Os moradores da terra, ninguem mais!!

...Mais um capitulo da tragicomedia cabo-verdiana....

Sarabudja disse...

Enquanto Cabo Verde continuar a parir filhos de ninguém; enquanto Cabo Verde continuar a julgar que democracia e liberdade são sinónimos de "ter o rei na barriga" e falta de educação, enquanto Cabo Verde tiver diferenças sociais, culturais, económicas abismais; enquanto pais/encarregados de educação continuarem a desculpar os seus meninos diante de professores que os chamam a atenção; enquanto Cabo Verde tiver governantes que vivem a anos luz da realidade; enquanto Cabo Verde se irritar quando alguém de fora põe o dedo na ferida; enquanto Cabo Verde investir em Prados e Pajeros e ignorar Édens Parks; enquanto Cabo Verde sentir só dores de umbigo e não se condoer com dores de outros umbigos que moram na casa em frente; enquanto Cabo Verde se calar bem caladinho para não ser incomodado à hora da novela AS NOTICIAS VÃO SER SEMPRE ASSIM: tristes, medonhas, violentas, sangrentas.

JB disse...

sarabudja, pertinente comentário que transformarei em post, com a devida vénia. Abraço grande.

Sarabudja disse...

Caro João, obrigada pela consideração. Pena que o tema seja tão, como dizer (?), triste, elevado ao extremo.

Sarabudja é mulher, mãe, filha, irmã, amiga e conhecida. Sarabudja tenta resolver as coisas sem cientificidades e teorias. Talvez por isso possa ser pertinente por vezes.
Ah! Quase me esquecia: os meus sinceros votos de um bom ano. Que este ano lhe dê 365 dias com coisas boas, de força para superar as coisas menos boas, com inteligência para querer ser cada vez mais e melhor.
Beijinho

JB disse...

Que fala (escreve) assim não é gago (gaga). Abraço grande e bom ano (na medida dos possíveis).

Sisi disse...

A Saradjuda falou e disse, e acho que não fica muito mais por dizer.
Na minha opinião, a base de todo este problema é a formação, não académica como muitos pensam, mas sim a formação pessoal de cada um, e escusado será dizer que ela vem, na sua maioria, do pilar familiar, que em nada tem sido construído na sociedade caboverdiana.

Votos de um bom ano para todos!

Mic Dax (francês) disse...

Cabo Verde sem violença, paquê? CV devia ser Terra Santa sem sentimente / boné / inveja / mau olhar / manda boca / ciumes? Manê q'é nome daqel anjo que dxi d'céu té ess "arquipelago abençoado"?

Li ness blog ca tem gente que crê mata alguem pa um mandaboca, pa um olhar, pa um falta d'respet, pa um fala, pa um inimizade de diasa? Bô tambem, nho Jom, bô foi push-to-murder ha dias.

Ninguem li tem q'fazê ess tipo de contabilidade, ma CV inda ta fca um pais c'poco crime violente (ainda mas qond no t'sabê tonte droga t'anda pra li). Cada crime é crime a mais, cada violença tem q'fazê gente pensa, ma ca tem nada a ver ma qês cosa de la fora.

Qês gang ta junta tonte gente? 0,1% do povo, 0,2%?
Tonte pssoas involvid la na briga d'bar na Voz di Povo? 5, 6? 7?

Gente tem q'fala e bsca rmêd sim, ma dramatiza ca ta servi nada, mens se nô ta crê radicaliza e perdê juiz.

E mais : né mextid bta culpa e cuspi na gente q'ta prefiri fca calod na qel storia d'violença ou na qel luta (justificada) pa Eden Park. Imensa parte da populaçon tem sês problema, sês vida complicod, até sês ignorancia, es é respetavel sima tud bsot pensamente, refleçons, dsejo e conhecimente. Bta pedra assim é perigoso, cuidod na efete boomerang.

ManuMoreno disse...

"...falta de paciencia..."[APLAUSO]

ManuMoreno
Kel Abxom Di Kuraxom!!!

Ariane Morais-Abreu disse...

Mic Dax, é pa panha "santidades e anjos" pox num saco, marax e dax um ponta pé de saida até Jupiter... No deve aceita imperfeiçao e realidade cv pamode se é criote ilusao de riqueza, progresso, desenvolvimento, competitividade (pa fala in!)... violência é sombra des ilusao ki ta caracteriza "brasileirizaçao" desagregadora de CV.

Anónimo disse...

"Um dia (in)feliz"

Hoje vai ser um dia feliz.
Dizem que avança
A lança
Na ponta da pluma
Que assina a lei
Mais uma
Que combate os fora-da-lei.

Vai ser feliz
Já se diz
Pois proíbe o desemprego
E mais ninguém terá
Nem aqui, nem lá
O seu futuro no prego.


Vai ser feliz
Estou certo
Pois a carência
Em decreto
Vai gerar a paciência
Que vai gerar a indolência
Que apagará a violência
Que não mais andará
Nua e crua
Disputando a rua
Com o menino que lá está.

Algum dia
O homem deixará de sofrer
Ou deixará de viver
O que sem ser o mesmo
Para ele é igual.
Pode ser o seu dia feliz
Esse ponto final.

Vai ser um dia feliz
Quando antípoda for força de expressão
Norte e Sul imaginação
Guerra
Nem sequer recordação.

Logo hoje alguém me falou de utopia.
E sobre ela a falar feliz
O infeliz sorria.
E eu ouvia
E ouvia
Sem perceber de onde vinha
A minha vontade de chorar neste dia.

Jacinto E.