Um Café Universitário

10 Comments



Passou despercebido um corajoso artigo de opinião de Fábio Vieira publicado no jornal A Nação e é pena porque o assunto é importante e pertinente: fala da bandalheira que caracteriza a política de apresentação de monografias de fim de curso em certos estabelecimentos do ensino superior privado em Cabo Verde. O autor está de parabéns porque além de escrever bem - já por si só isso é uma raridade - e com propriedade, põe o dedo na ferida, chama o boi pelos seus nomes e no final, propõe algumas medidas paliativas para minimizar o mal apontado.

Entre outros mimos, Fábio Vieira acusa as universidades de irresponsabilidade no processo de realização destes trabalhos ao referir que esta se tem manifestado em diferentes momentos que vão "desde a distribuição dos orientadores até ao momento da avaliação final do trabalho. (...) A elaboração das monografias tornou-se motivo de chacota" dentro da própria instituição, acusa o articulista. Mas há mais: a maior parte dos orientadores apresentam limitações conceptuais e teórico-práticas no campo da investigação científica ou seja, e por outras palavras, não estão minimamente preparados para exercer com competência a missão que lhes foi confiada.

Depois temos mais argumentos comprovativos da bandalheira actual: professores que orientam n trabalhos em simultãneo, sendo o mais certo não poder dar a devida atenção a nenhum deles; classificações dadas a pensar apenas nas estatísticas da universidade; erros de palmatória nas monografias (desde citações mal feitas, até bibliografias miseráveis, passando por situações de puro plágio) que passam imunes porque ninguém se está para chatear muito com o assunto.

Dito isto - algo que todos já sabem, mas calam - cabe perguntar: onde raio pára a fiscalização?




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10 comentários:

Anónimo disse...

JB,

Eu acrescentaria também: onde raio pàra o promover gosto pela investigação?

Infelizmente ainda não li o artigo, JB. Mas compreendo desde jà a angustia do autor. Tenho o enorme prazer de ser também professor universitàrio hà cerca de 03 anos, e devo confessar que também eu jà experimentei esta angustia quanto ao nivel de trabalhos apresentados. Claro que jà tive excepções, mas a grande maioria evidencia fraquezas preocupantes nesta area.

O problema no entanto é mais complexo, João. Não apenas quanto às causas mas também quanto aos seus efeitos. Não tenho aqui a pretensão de fazer um levantamento exaustivo das razões para que estejamos neste ponto, mas destacaria uma certa cultura de "questionamento" por parte dos proprios alunos (serà este alguma herança do nosso perfil sociologico? Algo a investigar...). O questionamento leva ao querer saber, o querer saber leva ao gosto pela investigação. Mas - vou ser radical aqui com uma provocaçãozinha - nos não somos assim muito dados a questionar... E quando alguém o faz, respondemos de uma forma às vezes tão deselegante (para dizer o minimo) que inibimos futuras perguntas. Por isso preferimos as respostas dadas, as soluções pré-cozidas, o comodismo intelectual, as provas fàceis para não me estragar o final de semana com essa merda de estudar...

Claro està que os professores não estão isentos de culpa. Penso que é nossa responsabilidade não nos cingirmos apenas ao programa do curso que a coordenação nos entrega no inicio do ano lectivo, mas ter sempre em mente que a nossa tarefa é sobretudo formar homens e mulheres. Na sua dimensão académica/técnica/cientifica, na sua dimensão humana, na sua dimensão de membro de um colectivo - de que também nos fazemos parte! - que, para evoluir, precisa ser permanentemente questionado.

Os efeitos desta deficiente cultura de "questionamento"/investigação, especialmente nas Instituições de Ensino Superior (IES's) podem ser perversos, João. Primeiro, porque não estimula a inovação. Sem questionar, corremos o risco de ficar petrificados nalgum ponto do tempo, amarrados aos velhos Deuses e aos dogmas de antanho. Ou então a receber sempre o que os outros produzem/inovam e dizer amén. Isso quando o contexto està sempre em transformação, exigindo portanto novas respostas da nossa parte. Segundo, não contribui para elevar a qualidade das relações humanas desta mesma colectividade. O conhecimento liberta. E melhora a nossa prestação enquanto seres humanos.

O que fazer então, caramba? Fiscalização, sim. Controle de qualidade das IES's, também. Mais publicações cientificas independentes. Despolitização de debates cientificos. Promover/estimular a argumentação, a confrontação de ideias, o respeito intelectual. Desenvolver nos estudantes o gosto pelo "perguntar". E, quando não se sabe a resposta, não se acanhar: em vez disso, mobilizar os alunos para descobrirem a resposta juntos.

Ufa, sorry, este coment/desabafo jà vai longe eh eh eh...

A proposito, deves-me um café. Real. Não soube que estiveste na Praia. Pena, fica agora pra proxima, meu caro.

Abraço,
Paulino Dias (não estou a conseguir publicar sem ser em anonimo, sorry...)

Ivan Santos disse...

caso para uma pergunta cafeana!!!

JB disse...

Paulino, tens razão quanto ao café, mas só em parte! Estive na abertura da exposição do IGallery na bela livraria Nho Eugénio e contava ver-te por lá!

Abraço e obrigado pelo comentário, muito pertinente. Para quando um novo espaço blogueiro? Fazes falta.

HFontes disse...

JB, a primeira causa dessa falta de questionamento, inovação e mesmo indignação e reivindicação, está na reforma do ensino de 1994. Fui uma das poucas mães que interpelou o MEducação perguntando se queriam que os jovens, então com 7 anos, viessem a ser "cidadãos" marionetas nas mãos dos políticos, já que, sem se ter socializado o novo modelo da reforma do ensino com todos os sujeitos, alteraram todo o curricula escolar, do ensino básico ao secundário, sem se preocuparem em introduzir métodos pedagógicos que induzissem à pesquisa, à procura, ao gosto pelo conhecimento and so on.

Os alunos passaram a ser mais espectadores e passivos em relação ao ensino, como está aí a ver-se. E o gosto pela escola, o respeito pela escola, pelos professores, pela sabedoria, pela excelência, nem se fala.

Para não falar da qualidade dos docentes produzidos à pressão e sem vocação aqui na tapadinha...

Tirando poucos casos em que as familias desempenham activamente, como deve ser!, o seu papel na educação dos filhos, a maior parte destes não tem ou teve esse direito...

Outra causa possivel, terá a ver com a própria maneira de ser da actual geração, que eu chamo de Praia FM, ou da Democracia, aquela que veio logo a seguir à geração Independência, que é do deixa andar, nada a ver, ipod nos ouvidos, psp nos dedos e hi5 na net, etc. Estão anestesiados perante o que se passa no seu bairro, sua cidade, seu país, e o mundo.

Lembro-me da minha juventude e reparo que tinhamos sede de saber, de perceber, de questionar o mundo movidos por um ideário: justiça, cidadania, participação, igualdade, liberdade... sem que ninguém nos "dissesse" para fazê-lo. Tinhamos iniciativa e a nossa vontade de fazer, de procurar, e de tentar mudar.

Outro aspecto aliado aos demais tem a ver com a própria natureza individualista e umbiguista crioula. Só reclamamos e exigmos se estiverem interesses pessoais ou familiars a defender. As primeiras reacções ao caso do Dudu Teixeira são um dos exemplos.

Acho que não devemos ter licenciados e mestres com altas notas dadas nessas instituições (já havia referido a este aspecto em outro comentário) a competirem no mesmo mercado de trabalho com outros colegas que suaram as estopinhas para obter com mérito e qualidade o grau que possuem, quando a selecção para a vaga faz-se em regra pela entrevista e pela CVitae. Devia-se fazer exames de selecção, obrigatoriamente! Uma forma de repor a justiça no acesso ao emprego.

Enfim, temos o ensino que merecemos, e os licenciados que vamos continuar a produzir durante mais anos, e que só nos damos conta do que está mal quando este aparece, e o produto está aí pronto a ser consumido bem ou mal.

Devemos ter sempre uma visão mais holistica e pro-activa das coisas, para não estarmos aqui a chorar sobre o leite derramado ou a culpar o governo, a fiscalização, and so on.

Mas onde ficou e fica a nossa responsabilidade social??

Mas sabes JB, aqui na tapadinha quem reclama, quem indigna-se, quem põe o dedo na ferida, ou quem denuncia, das três uma: ou é confusento e não se deve ligá-lo, antes pelo contrário há que ter COMISERAÇÃO por ele, ou, então, leva com processos disciplinares nas costas, para aprender a não desconversar. Para não falar das sanções "sociais".

Mas entre ser resignada e calada prefiro continuar a ser confusenta. Faz parte do meu ser.


HFontes

Pss disse...

Poder-se-ia esclarecer se o articulista é docente, aluno, um observador atento?
Sim eu sei que deveria ler o artigo e provavelmente está lá mas sinceramente não há dinheiro para "esbanjar" em jornais.

Sisi disse...

Acho que os 1ºs a reclamar deveriam ser os alunos, pois esses são os maiores prejudicados, mas pelos vistos os mais interessados (salvo excepções, é claro)... espírito crítico, zero! Não tiro, é claro, a responsabilidade ao ministério da educação que deveria estar mais atento a estas questões.
Infelizmente João, os alunos hoje não querem perder tempo com investigações, têm o Google (que é uma ferramenta muito mal utilizada pelos alunos)e toca a fazer copy paste de trabalhos já realizados.

Anónimo disse...

Só para dizer, que estou chocada com a qualidade (fraca) de muitos dos alunos de instituições superiores, aqui em Cabo Verde...alunos que pensam que ainda estão na primária, que atendem telemovel dentro de sala de aula, porque pensam que podem tudo. Alunos que têm preguiça de ler, sobretudo se for textos em inglês...e o que mais me assusta alunos que escolhem cursos mas se lhes perguntarmos porque aquele curso e não outro, não sabem dizer...virou moda estar na universidade...

Mas também com o nível de alguns professores, que abrem a boca para dizerem que são professores, mas que não cultivam entre os alunos o gosto pela leitura, pela discussão cientifica nas salas de aulas...

Universidades e instituições privadas que não fazem a triagem de alunos, tudo porque estão numa de competir para ter o máximo de alunos possíveis.

E que falar das bibliotecas..modestia à parte, eu em casa, tenho mais livros que a biblioteca municipal e de muitas instituições universitárias aqui de São Vicente..

ou seja...a culpa é de todos e por isso vamos lá deixar de lamentar e começar a pensar em fazer alguma coisa...

Ps: o meu maior prazer é partilhar, os meus livros, que adquiri, ainda era eu aluna...

Anónimo disse...

Deixem de reclamar sem conhecimento de causa. Por acaso sabem investigar?

Nininha disse...

Não li o artigo do Fábio, mas acho que esta matéria levanta outras questões ... alguns professores universitários não estão preparados para serem orientadores ... porque não sabem fazer investigação ou o país é que não tem condições para isso?

Sou bióloga (Mestre em Ecologia) e cai na dura realidade do nosso pais ... 9 meses sem trabalho porque não fazemos investigação ... depois não me venham falar em fuga de cérebros.

Há professores mal preparados? há ... mas temos excelentes professores ... acho que as monografias deviam ser vistas com mais seriedade para que as nossas universidades ganhem credibilidade não só em Cabo Verde mas a outros níveis ... uma monografia é o produto cientifico do que está a ser desenvolvido em Cabo Verde

Quanto a questão dos professores orientarem n monografias ... infelizmente isso acontece em todos os lados ... se não estão a dar a devida atenção já é outra historia (andam preguiçosos) ... eles deviam saber que já não são professores da primaria ... e os alunos também deviam saber que já não têm a papinha feita como antigamente ... enfim isto dá pano pra muita manga

Nininha disse...

e HFontes concordo plenamente contigo quanto à selecção de Professores não só Universitários mas a nível do Primário e Secundário ... é uma vergonha os alunos que entram na Universidade ... vêm mal preparados do ensino básico ...e se calhar deviam fazer concursos a todos os níveis ... os profissionais de Cabo Verde deixam muito a desejar ... se nós não investirmos em profissionais competentes ... daqui a uns anos estamos como o pessoal desses países mais pobres da África