
O que os faz correr?
1. Nos últimos meses fomos agraciados com campanhas eleitorais acesas, disputadas e com alguma polémica à mistura, relacionadas com as juventudes partidárias cabo-verdianas. Ambas as disputas tiveram ampla cobertura na comunicação social, mormente nos jornais e envolveram meios financeiros nada negligenciáveis.
2. Candidatos investiram em outdours. Muitos viajaram pelo país tendo percorrido as ilhas de lés a lés. Encontros com a juventude. Com os millitantes. Organização dos Congressos. Cada uma das disputas teve três candidatos, algo nunca visto nos seniores.
3. Temos que aplaudir toda esta movimentação, se sempre nos queixamos do desleixo e do desinteresse dos jovens pelos problemas do país. Mas quando vejo os estudantes que temos (e peço desculpa desde já pela generalização, sempre injusta para com aqueles que estudam a sério), quando vejo que a grande maioria dos Liceus e Pólos Universitários não tem associações de estudantes, onde os seus interesses e direitos sejam defendidos, fico um pouco confuso.
4. Sabem, participei em campanhas eleitorais no Liceu e no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa. Eram eleições disputadíssimas, com amplo debate, discussões de questões académicas, problemas dos estudantes, em particular e dos jovens, em geral. Era ali, no universo estudantil que se começava a "ganhar calo" para as disputas políticas, no bom e nobre sentido do termo.
5. Parece-me, pois, que a juventude cabo-verdiana está (ainda) pouco motivada para o debate político. Para discutir e debater os seus problemas. Quantos conhecemos entre os 16 e os 20 anos de idade, por exemplo, interessados em esgrimir argumentos sobre os reais problemas do seu próprio país? Quantos?
6. Se não houver nenhuma diferença na forma de fazer, na motivação, no conceito, nos alvos, entre as juventudes partidárias e os respectivos partidos, então tudo isso não passará de um grande circo mediático que pouco servirá ao país, muito menos à sua juventude. E quanta juventude temos em Cabo Verde!
7. O Amilcar Tavares, no seu blog, coloca-nos uma questão pertinente: segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, cerca de 60% da população de Cabo Verde tem menos de 24 anos. Aproximadamente 300 mil pessoas. Ora, o lider da JPD, Juventude para a Democracia, tem 32 anos e o lider da JPAICV, Juventude do PAICV, tem 33 anos. Estarão preparados para falar para - e em nome de - tanta gente?
8. Ao que parece o presidente da JPD assim que soube dos resultados do congresso do partido "rival", tratou de escrever ao recém eleito líder da JPAI, congratulando-se com os resultados e propondo encontros e debates sobre e com a juventude cabo-verdiana. Penso que foi uma boa maneira de iniciar um relacionamento que os distinga do algum radicalismo que caracteriza o existente entre os partidos maiores.
9. É urgente promover debates e encontros entre os jovens, dentro das escolas. Faz um bocado de impressão que estes se reunam e organizem apenas quando é preciso arranjar dinheiro para festas de finalistas. Ser estudante tem que ser mais do que isso. É preciso contestar. Para contestar é preciso estar-se informado. Para se estar informado, é preciso ter interesse. É tão simples quanto isso. Não havendo interesse à partida, toda esta cadeia de reacção fica comprometida.
10. Aqui entram, ou deviam entrar, as organizações de juventude, e não apenas as partidárias. Porque senão continua-se a pensar, provavelmente com alguma legitimidade, que estas disputas pouco tiveram de altruistas e foram apenas concretizadas para legitimar mais uma subida na escada do poder.
11. Finalmente dizer que não farei juizos de valor sobre nenhum dos dois candidatos vencedores, porque não os conheço, mas depois de tudo isto, apetece perguntar, o que faz correr estes dois rapazes?
Mindelo, 18 de Fevereiro de 2008