Blog Joint: Declaração Cafeana

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Num estudo realizado em 2006 pelo Instituto Nacional de Estatística ficamos a saber que cerca de 22% das mulheres cabo-verdianas foram vítimas de violência doméstica nos 12 meses anteriores. Ou seja uma em cada cinco mulheres. Na ilha do Fogo, segundo um estudo noticiado pela A Semana em Outubro do ano passado, 43% de mulheres de alguns dos bairros críticos de S. Filipe são agredidas fisicamente dentro das suas próprias casas. A agressão física mais comum são "os socos". As que apresentam queixa à polícia são ainda uma minoria, o que quer dizer que o índice de denúncia dos crimes de violência por parte das mulheres é bastante baixo, ainda que nos últimos anos tem vindo a aumentar devido à influência da comunicação social e ao resultado do trabalho realizado por diversas instituições.

Quase todas as semanas somos confrontados com notícias de crianças violentamente agredidas, violentadas, vítimas de abusos sexuais, obrigadas a trabalhar pedindo ou roubando na rua, e a trazer o produto para casa, sob ameaça de progenitores. Não há dados oficiais, mas não me espantaria nada que a grande maioria das ocorrências com crianças agredidas que vai parar às urgências hospitalares ou aos centros de saúde, ocorram dentro das suas próprias casas. O velho conceito de lar doce lar já deu o que tinha a dar.

Tudo isto para dizer que se queremos falar de (in)segurança temos que começar com o olhar de dentro. Está mais do que provado de que os maiores perigos estão confinados ao domínio doméstico. Muita desta realidade é de alguma forma abafada ou passada para segundo plano, por causa dos thugs, dos cassubodys, dos traficantes ou dos assassinatos por encomenda. Mas a violência doméstica na sociedade cabo-verdiana é um fenómeno transversal. Pode estar acontecendo neste momento na casa do nosso vizinho. E o que fazemos nós? Como em muitas outras situações, calamos. A verdade é que muitas mulheres, velhos e crianças tem monstros a dormir debaixo ou mesmo dentro das suas camas.


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7 comentários:

Anónimo disse...

Muito pertinente este artigo. Contudo gostaria de ver discutida neste fórum uma outra vertente da violência familiar em Cabo Verde, que é a psicológica, muito mais frequente que a física entre as mulheres cabo-verdianas. Às vezes a violência psicológica consegue ser mais destruidora que a física, mas é pouco falada ou discutida. Tornou-se socialmente aceite? Oxalá não, pois há muitas mulheres que sofrem desse tipo de violência inflingido pelos maridos, companheiros, mancebados, namorados, ou o quer que lhe chamemos.

João Branco disse...

Eu pensava também nesse tipo de violência quando escrevia este post. Pertinente comentário.

Redy Wilson Lima disse...

Acredita que há muito mais violência doméstica em CV do que a tão publicitada violência dos thugs.

Anónimo disse...

"não há nada for a que não exista dentro" – Goethe

gostei que tivesses pegado no tema neste prisma, porque para mim realmente tudo começa dentro de nós, de casa.

será que muitos dos que trazem a violência para nossas ruas não são as mesmas vítimas dela no lugar onde é suposto encontrarem a sua primeira protecção, onde é suposto ser a sua primeira escola aprendem (na sua pele) nada mais do que agredir verbal e fisicamente?

Abraço*

Vânia

Catarina disse...

Teria metros e metros de frases para falar sobre este assunto, mas, vou só tecer breves (vou tentar) considerações:

. obrigada por abordares a questão tabú!

. a VBG (violência baseada no Género) é quase sempre confundida com "relação conflituoso" - principalmente a comunicação social aborda sempre a questão do género: "na sua origem esteve uma desavença em relação a..." - temos que chamar as coisas pelos nomes: a origem da VBG é o desequilíbrio de género, dos poderes femininos e masculinos, no espaço público e privado - e esse desiquilíbrio manifesta-se na sua forma mais gravosa na violência exercida sobre a outra pessoa, neste caso a mulher - simplesmente porque o é, simplesmente porque não cumpre as suas funções culturalmente enraizadas e naturalizadas...; para quem tem dúvidas: relação conflituosa não é crime, violência é!

. Quanto aos números: o estudo que mencionaste mostra outros números que ainda são mais graves do que as percentagens das mulheres que se consideram vítimas - mostram os números das pessoas (desagregados por sexo) que legitimam essa violência, naturalizando-a e, portanto, se ela existir, não se consideram vítimas - no total, em Cabo Verde, temos que 17% dos homens e 16% das mulheres legitimam/não consideram VBG certas situações;

. para dar um exemplo: só no fogo 30% das mulheres consideraram-se vítimas, mas 33% LEGITIMAM - da mesma forma, nas ilhas, nas faixas etárias, nas zonas rurais/urbanas, nos níveis de instruções esses números têm que ser cruzados sob pena de não entendermos o fenómeno: porque é inversamente proporcional o número de vítimas e a sua legitimação, ie, nos contextos onde mais mulheres se declaram como vítimas quase que invariavelmente é onde existe menor percentagem de legitimação - ficou claro? (vou-te mandar por email os números certos, tá? Porque o fenómeno, analidados este, pode ter dimensões ainda mais catastróficas)- há muito a fazer e muito a trabalhar, mas, sem dúvida, não se pode trabalhar nada sem trabalhar as representações sociais ;

. quanto ao tipo de violência sofrido... as vítimas declaram sempre a física, mas a verdade é que as outras não são tão visíveis: a psicológica, a social, a financeira - mas, na minha perspectiva, a sexual é a mais escondida, a mais abusiva e, concerteza, se todas tivessem a noção do que consiste - atingiria os píncaros das percentagens;

- e no meio de tudo isto, as crianças, vítimas directas e indirectas! O que dizer?? O Dr. Rui Abrunhosa Gonçalves (psicólogo forense) diz que se uma criança for mera espectadora da VBG doméstico-conjugal tem tanta maior probabilidade de vir a ser agressor... e a sociedade cada vez mais violenta e a sociedade também ela mera espectadora de toda esta violência... pois "entre marido e mulher não se mete a colher": MENTIRA, entre marido ku mudjer nu meti kudjer sim! - e não se importem se ela desistem...têm que entender que a média de vezes que uma mulher desiste até ir ao fim do processo é de 6 vezes!!!! E porquê? Porque à volta deste fenómeno há mil mitos, há um ciclo de violência associado que contribui para a esperança de que tudo vai melhorar e que ele apenas estava nervoso... e porque quando finalmente rompe com o silêncio encontra os preconceitos sociais dos outros e de um sistema judicial extremamente moroso e denegador de justiça!

. João, desculpa o abuso... mas acredita que não disse 1/6 do que teria a dizer sobre o assunto...

bjinho

João Branco disse...

Catarina, estás completamente à vontade para usar este espaço para denfender causas como esta. Nós é que agradecemos.

Anónimo disse...

Gostei Catarina. Parabéns pela abordagem. Foi suficientemente esclarecedora, mesmo havendo muito mais para dizer. Na verdade quase sempre as estatísticas "mentem". Elas só nos mostram parte do visível. E os números por si só não falam, por muito que esclareçam. Analisá-los é fundamental para os fazer 'falar'. Mostram-nos só a ponta de um imenso e profundo Iceberg. Este é um combate sem tréguas, que obriga ao Estado, e a toda a sociedade civil. A Escola tem de ter um papel fundamental no combate a algumas ideias feitas. Estarão preparadas para tal esforço? Crianças sujeitas à violência directa ou indirecta (não apenas sexual) têm de ter acompanhamento psicológico. Temos condições para lhes assegurar isso? O debate é necessário. A pressão (social, política) para que estas condições existam, ainda mais. Um dos principais problemas da violência 'intra-muros' é a incapacidade de uma detecção rápida, e a correspondente eficácia na acção. Ou seja, afastar o(s) agressor(es) das suas vítimas, e devolver a estas o sentimento de segurança de que carecem para uma vida tranquila e saudável. Agradeço o comentário, e aguardo os tais números aqui no Margoso, ou em qq lugar deste BLOG JOINT!
Alex/ZC