Plágio 31: Os Jovens & Cabral

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Há algum tempo, por ocasião da apresentação do livro que reúne os textos do IIº Simpósio sobre o pensamento de Cabral, realizado na cidade da Praia em 2004, a Dra. Angela Coutinho leu um texto que me ficou na retina e que, algum tempo mais tarde, lhe solicitei para publicação aqui no Café Margoso. Um texto interessante e que nos coloca algumas possibilidades de reflexão sobre o legado de Amílcar Cabral e o que este representa hoje, para as novas gerações de cabo-verdianos.

Então cá vai. Boa leitura e melhor debate:


Que visão têm os jovens cabo-verdianos de hoje da obra de Cabral?

«Bem, quanto a esta questão, irei proceder a um pequeno exercício cabraliano, “Pensar pelas nossas próprias cabeças, a partir das nossas próprias experiências”, justamente, o lema deste Simpósio, e começarei por dizer que fiquei muito satisfeita quando vi que uma das principais decisões tomadas no final do Simpósio foi a da reedição das obras de Amílcar Cabral. E fiquei feliz porquê?

Porque para se perceber bem a contribuição destes estudos sobre a obra de Cabral é necessário ou pelo menos conveniente ter lido essa obra. Ora, justamente, partindo da minha pequena experiência de professora de História de África e de História Contemporânea aqui na cidade do Mindelo, pude constatar que os jovens manifestam, em geral, um grande interesse pela obra de Cabral. E felizmente, Cabral escreveu num estilo muito claro e directo, bastante perceptível e acessível. Mas também constatei, com tristeza, que em nenhuma biblioteca pública da cidade se encontravam essas obras. Penso que justamente por não terem sido reeditadas desde há décadas, estas bibliotecas não tiveram com certeza a possibilidade de as adquirir.

Por outro lado, e como não tenho vivido em Cabo Verde, não sei o que se passou com os programas de ensino da História no básico e secundário. Mas como pode um aluno perceber a verdadeira dimensão da obra de Cabral, ou seja, a luta pela independência, sem dominar minimamente essa época da História? Tendo uma fraca ou fraquíssima ideia do que era o sistema colonial vigente, o Império português, a ditadura salazarista, enfim, como pode avaliar devidamente os esforços empreendidos, as dificuldades enfrentadas, o contexto em que essa luta foi levada a cabo? Sem ter conhecimento de um dado fundamental, por exemplo, como é o de saber que as chamadas democracias ocidentais, ou seja, EUA, Grã-Bretanha, França, Alemanha Federal apoiaram a ditadura salazarista na chamada guerra colonial? É preciso ter isso presente antes de se afirmar que Cabral era pura e simplesmente mais um comunista.

Terminarei a minha apresentação falando-vos da minha relação com Cabral. Começarei por dizer que o primeiro contacto que tive com Cabral não foi através do estudo científico, nem do meu trabalho de investigação.

Quando ele deixou o mundo dos vivos eu estava na barriga da minha mãe e nasci passados dois meses e meio. Por conseguinte, nunca o conheci, mas desde logo, ele, ou por outra, a sua obra, dizia-me directamente respeito porque apesar de ter nascido em Lisboa, os meus pais são africanos, a minha mãe é da Guiné-Bissau e o meu pai de Cabo Verde. Por conseguinte, eu fui logo descolonizada com poucos meses de idade sem ter de lutar pela minha independência.

No ano seguinte fui viver com os meus pais em Bissau e foi nessa cidade que me lembro de ter pela primeira vez pensado de forma concreta e específica em Cabral. Uma noite, o meu pai disse-me que Cabral tinha sido morto pelos seus companheiros. Eu tive um choque. Na altura via-se a imagem de Cabral com frequência, na rua, nas T-shirts, nas notas, moedas, enfim. Eu julgava que Cabral fosse um ideal, um ideal de liberdade e de justiça. Não sabia que era uma pessoa, um indivíduo. Por isso fiquei chocada com a ideia de que pudesse ser morto. Pensei: “Mas então Cabral pode morrer?” E logo aí, pensei que se era uma pessoa, poderia ter levado outra vida, poderia ter tido outros projectos, que sacrificou. Poderia perfeitamente ter feito outras coisas.

Mais tarde, vivendo em Lisboa, a minha família comentava com frequência as dificuldades crescentes na vida quotidiana dos que tinham ficado na Guiné. Já sem falar da situação política.

Então, quando na Universidade tive a oportunidade de escolher um tema para desenvolver, um trabalho de final de curso, decidi escolher um tema relacionado com a Guiné e Cabo Verde. Escolha que muitos jovens na diáspora fazem, como forma de reaproximação com as terras de origem. Como não tínhamos vindo para Cabo Verde, como era desejo do meu pai, eu pensei que tinha ficado sem conhecer a História de Cabo Verde e que seria uma oportunidade de colmatar essa lacuna, que eu não teria tido se tivesse estudado aqui. Por outro lado, como ouvia sempre falar da degradação das condições de vida na Guiné, quis responder à seguinte interrogação, fruto da minha ignorância: “Afinal, porque é que quiseram a independência?” “O que queriam fazer depois disso?” Digo ignorância porque de facto eu desconhecia a situação vivida por qualquer povo sob domínio colonial. Em Portugal também não estudámos isso no Liceu. Mas hoje sinto-me muito feliz por ter feito essa pergunta e vou dizer porquê.

Na altura, decidi começar pelo que considerei ser o início, ou seja, pensei: “Vou começar por ler os textos de Cabral. Saber o que é que ele pretendia fazer.” E fui ficando entusiasmada, empolgada, maravilhada, até, pela leitura dos seus textos, que fui descobrindo na sua clareza e complexidade.

Com o passar do tempo, fui pensando cada vez mais: “Que sorte que tive, que tivemos, por Cabral ter sido cabo-verdiano e guineense. Podia ter pertencido a uma outra nação qualquer. Por se ter interessado por Cabo Verde e pela Guiné. Podia ter feito outra coisa, outras coisas, assim como os seus companheiros que se dedicaram à luta pela sua independência, mas também pela nossa.”

Hoje, quando penso no jovem estudante universitário que não tem, a dada altura, dinheiro para pagar as suas fotocópias – como eu também não tive, como o meu pai também não teve -; na criança que aos dois anos é separada da mãe que emigra para Portugal, enfim, em todas as dificuldades, pequenas e grandes que os jovens cabo-verdianos ainda têm e terão de enfrentar – apesar de sem comparação com as dificuldades enfrentadas há algumas décadas – em cada um desses momentos, penso em Cabral e nessa luta que foi travada pela independência e isso é uma fonte inesgotável de força moral para mim.

Então, pergunto-me cada vez mais se Cabo Verde é assim tão pobre. Penso em jovens da minha idade, de países ricos, dos mais ricos do mundo, como a Alemanha, por exemplo. Os jovens alemães têm de confrontar-se com o nazismo no seu passado histórico e assumi-lo. E isso não é fácil. Também sei que os jovens luxemburgueses entram a dada altura das suas vidas em crise, quando descobrem que o seu país, um dos Estados mais ricos do mundo, acumulou riqueza com a perseguição aos judeus, por exemplo. Por vezes, só pensamos na riqueza, na herança material. Mas eles têm uma herança histórica e moral pesada para assumir. E que têm de assumir. E eu tenho de assumir uma luta gloriosa pela liberdade. Por isso, muitas vezes sinto-me com mais sorte e mais rica. Porque quem tem força moral e sabe onde quer chegar, facilmente chega aos bons salários ou a ter dinheiro, se quiser.

Então, como se costuma dizer: “Mais cego é o cego que não quer ver”, não adoptemos essa atitude, pois eu poderia afirmar que mais pobre é o pobre que não pode, não consegue ou não quer ver a riqueza que tem.»

Angela Coutinho



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17 comentários:

Anónimo disse...

O legado de Amílcar Cabral para a (actual) juventude da Cabo Verde é, provavelmente, o mesmo que o 25 de Abril representa para os jovens portugueses. Ou seja, nada!

Os valores, os ideais, as referências, tudo foi engolido na (e pela) voragem dos tempos, como se o passado não fosse imprescindível para (re)conhecer o presente e perspectivar o futuro.

É a ingratidão dos homens e da história que estes vão fazendo à (e na exacta)medida da mudança dos interesses (sociais, económicos, de casta, em suma,ideológicos) que há que em cada momento preservar.

Porque é indubitavelmente mais fácil dominar quem desconhece de onde vem!

Ou, numa outra formulação a que Brecht deu voz, "sempre e sempre escrevem os vencedores a história dos vencidos".

a) RB, anónimo por obrigação

Anónimo disse...

O legado de Cabral ficou...reflecte-se num país que em nada se compara com o da independência. Há uma democracia que ( apesar de tudo) funciona, uma população que (apesar de tudo) em quase todos os aspectos têm melhores condições, começa a haver uma massa crítica ( mesmo que embrionária) , há (agora) liberdade de imprensa, e fundamentalmente há cada vez mais liberdade ( de falar, criticar, de construir...).
Quanto a referência a Cabral ser comunista, ele nunca se assumiu como tal, muito pelo contrário. E quando se diz que os EUA, a França e afins, apoiaram o colonialismo Pt, é desconhecer a história ( refiro-me a fase da Luta), é desconhecer a forma como PT defendeu sozinho da Assembleia da ONU a sua política colonialista contra , nomeadamente os EUA, é desconhecer o que países como a França deram asilo, bolsas de estudos a dirigentes, que aliás os EUA a partir da década de 60 passaram a ter uma política abertamente anticolonialista, pois descobriram que era a melhor maneira de alargar a sua zona de influência nos países ditos do 3º mundo, que estava a perder para a URSS... É certo que não há livros vermelhos oficiais, nem frases a serem recitadas por uma trupe de crianças... mas a obra ficou, podia ser melhor, é verdade. Mas está muito melhor....

Anónimo disse...

Perfilho a opinião do anónimo anterior se considerarmos que a independência de Cabo Verde é o legado que Amílcar Cabral deixou às gerações futuras.

Não entendi assim, porém, a questão posta em debate, ou seja, a resposta à pergunta "que visão têm os jovens cabo-verdianos de hoje da obra de Cabral".

Nesta perspectiva, creio que essa visão é a que deixei no meu comentário anterior, e exactamente pelas razões que ali tentei expor.

Paradigmática, aliás, a reportagem efectuada pela RTP África no dia dos Heróis da Pátria (creio ser assim), em que alguns jovens entrevistados manifestaram total desconhecimento de Cabral e da sua decisiva importância para a independência do País.

O mesmo se passou, de resto, em Moçambique, a propósito da celebração da morte de Eduardo Mondlane e exactamente o mesmo se passará se indagarmos à juventude portuguesa o que significou (para Portugal e para as ex-Colónias)o Dia da Liberdade.

Trata-se de uma regra geral que, como é evidente, comporta (algumas, mas honrosas) excepções.

Quanto às cumplicidades com o regime colonial português, a verdade é que o regime só sobreviveu porque, objectivamente, elas existiram, nomeadamente por parte das potências ocidentais.

Uma coisa era o que se afirmava nos areópagos internacionais, outra a prática da ajuda encoberta, na lógica de "uma mão lava a outra".

Foi assim, aliás, que o exército colonial português se armou.

a) RB, anónimo por obrigação

Anónimo disse...

que bonitinho!

Anónimo disse...

Para informação sobre Amilcar Cabral visitem também este excelente sítio, recentemente criado pela RTP em http://www.guerracolonial.org/

Anónimo disse...

Aconselho a todos que assistam ao documentário a “Guerra” ( RTP), aí se fala da qualidade do armamento ( ou falta dela) de Pt... armamento da II Guerra !!! Pt teve tanta dificuldade em se armar, que começou a utilizar armamento da NATO, armamento esse que pelas regras de então nunca poderiam sair do país em causa ( e teve problemas com isso). Ora quem conhece a história sabe que Pt nunca teve ajuda militar ( pelo menos relevante ) dos EUA. Agora, não nego que a diplomacia tem seus pontos escuros, mal esclarecidos... nomeadamente tendo em conta o período em causa.

Anónimo disse...

Exm Senhor,

Em 1º lugar parabéns pelo Blog

Cabral foi um homem de excepção: inteligente, visionáriio mas utópico.

Utópico porque idealizava um universalismo Guiné cabo Verde impossível de concretizar. Impossível pelas óbvias diferenças, e pelo racismo dos Cabo-Verdianos, e pela desconfiança dos guineenses. Tragicamente foi morto pelos seus, e a diferença abissal entre os 2 países no séc. XXI é a machadada final nesse utopia.

Seria Cabral verdiano ou guineense, ou um misto, tal como muitos i/emigrantes? Tal como Obama era um homem de excepção, porque viajou, teve uma visão ampla do mundo, fortemente marcado por uma vida onde Portugal, Guiné e Cabo Verde se misturaram. Casou com uma portuguesa, algo raro na altura, e conhecia como poucos as 3culturas. Mais do que conhecer era resultado de ambas.

Grande Homem, enredado numa vida complexa, plena de aventuras, coragem como só alguém com a coragem e inteligência dela poderia.

É duvidoso, para além da propaganda do PAICV, que o legado de Cabral seja a independência: esta resultou mais por força do 25 de Abril (com grande ajuda da Guiné, é claro), mas foi ainda um projecto utópico e ditadorial, condicionado pela legitimade emanada dos movimentos de libertação que, como se sabe, praticamente não existiam em Cabo Verde.


Os jovens não conhecem a História porque vivemos na era pastilha elástica que, se prova, mastiga e deita fora como diziam os "Taxi". Não conhecem Amílcar, em provavelmente outras personagens da história Mundial e do seu país.

Para finalizar, e perdoe a ousadia: soube que é filho de JM Branco. Discordei e discordo muito dele, mas admiro a sua obra e o seu carácter, parece-me um homem sério e a sério, deve ser bom ser filho de alguém assim.

João Branco disse...

Obrigado pelos comentários. Não percebi o Anónimo "bonitinho", mas pronto, devia estar a tentar ser engraçadinho. Sempre lhe digo que não teve muita piada, mas pronto.

Obrigado a este último anónimo pelo cumprimento e elogio ao blogue e ao meu pai. Sim, senhor, tenho um grande orgulho em ter o pai que tenho,

Abraço fraterno.

Anónimo disse...

oh! voce nao entendeu, a intencao era mesmo esta de desentendimento.
fartei-me de rir. hahaha...

HOW NICE, BONITINHO!

João Branco disse...

Novamente.... (Sorriso amarelo & suspiro...)

Ariane Morais-Abreu disse...

Viva Angela, ka de Paris (se me permites JB) gostaria saber pois que fizestes uma alusao ao teu trabalho universitario se pensas divulga-lo. Nunca sao demais as dissertaçoes cientificas sobre quem deu sentido a nossa historia, alias nossas historias.

Ariane Morais-Abreu disse...

Muito de acordo contigo anonimo RB!! Sera a Uniao Europeia também uma utopia ?!! Tudo é possivel com trabalho afincado. Estou em parte de acordo com o outro anonimo : a independência de Cabo Verde foi adquirida "par dommage colatéral", os cv nao ganharam a independência, a receberam de maos!! Se explica entao todo o seguimento da historia pos-independência.

Contudo, interessantes comentarios...

Anónimo disse...

Parem de viver do passado.
Haja paciencia...!

João Branco disse...

Anónimo, quem não conhece o seu passado histórico, não tem qualquer futuro.

Anónimo disse...

Como eh k vce sabe se eu conheco ou n o meu passado.

Para o seu governo conheco e bem o meu passado.

João Branco disse...

Acho que não entendeu o que eu quis dizer, mas tudo bem. Avancemos!

Anónimo disse...

Entendi sim, avancemos.

Eu acho optimo k cada qual tem o direito de conhecer a sua historia,mas tb acho uma cretinice viver nela.

Eh a minha opininiao