Blog Joint: Crónica Desaforada

23 Comments


Porque considero que estamos longe do PDM turístico:

Há um ano escrevi uma Crónica Desaforada que tinha precisamente este título, mas o que se abordava então era o panorama cultural da Nação. Hoje, respondendo ao desafio do tema proposto, o Turismo, a melhor forma que encontrei de sintetizar o que penso sobre o modelo turístico que nos está a ser impingido pelos políticos e empresários foi este, até para não me enervar muito. Questiono-me mesmo se ainda vamos a tempo de emendar a mão, para que isto não se transforme numas horrendas e novas Canárias, no que ao turismo diz respeito.

Primeiro, tudo o que for aqui dito não invalida algo que continua a ser um facto inquestionável: muitos dos nossos visitantes adoram Cabo Verde, ficam impressionados com o país e com vontade de voltar. Isso deve-se a algo que é a nossa maior riqueza e que nenhuma política ultra-liberal conseguiu ainda fazer desaparecer: as pessoas e a sua simpatia. Mas por quanto tempo essa forma de bem receber aguentará ou disfarçará os inúmeros problemas de que padecemos a este nível? Nas principais cidades já se anuncia a "morte da morabeza", por causa da violência urbana, da pobreza e dos graves problemas sociais a ela associados. Terá este modelo adoptado algum futuro? Não. Vão os muito empreendimentos anunciados fazer o tal milagre, diminuir o emprego e ajudar a acabar com alguns dos nossos maiores problemas estruturais? Também penso que não. E o que mais desejo é estar enganado.

Eis, pois, as razões porque considero que estamos longe de ter um turismo PDM:

1. Porque não há forma aproveitar a maior riqueza do arquipélago: a sua diversidade. Visitar as 9 ilhas habitadas de Cabo Verde é como visitar 9 países, com características geográficas e culturas diversas. Mas é impossível fazê-lo com o nosso actual sistema de transportes, principalmente, marítimo, totalmente obsoleto;

2. Porque, apesar da diversidade, se continua a promover o turismo de pacote, reduzindo Cabo Verde a um destino de praia, crioulas bonitas e Sol todo o ano;

3. Porque nunca houve uma aposta séria numa diplomacia cultural, que deveria estar sempre lado a lado com a chamada diplomacia económica, a tal que procura atrair investimentos para o país. Para mim é simples: onde vai um empresário, devia ir um artista. No mínimo;

4. Porque não existe - pelo menos até hoje - formação profissional na área, e isso percebe-se à vista desarmada, pela forma como somos servidos em qualquer restaurante do país;

5. Porque se continua a confundir cultura com folclore, arte com artesanato, criação artística com animação;

6. Porque os próprios turistas que nos visitam nesses tais pacotes, são aconselhados a nem sequer saírem dos hotéis, pelo que essa dos empregos indirectos é uma grande treta;

7. Porque os nacionais, ou por falta de iniciativa própria, ou por falta de apoios de quem de direito, raramente conseguem aproveitar as sinergias originadas com o negócio do turismo;

8. Porque os preços de uma vinda a Cabo Verde são desajustados, porque muito caros, em comparação com outros destinos turísticos mais longínquos dos potenciais turistas;

9. Porque se está a fazer pouco para combater os fenómenos resultantes do chamado turismo de massa, como a prostituição, a pequena criminalidade e o consumo de droga;

10. Porque quando se vai a Santa Maria, a vila mais turística do país, se ouve falar mais italiano do que o crioulo;

11. Porque quase todo o turismo é concebido para fora, sendo que há muitos cabo-verdianos que nunca saíram da própria ilha e vão continuar sem fazê-lo, porque a aposta no chamado turismo doméstico é exígua ou mesmo inexistente;

12. Porque me custa perceber para onde vão os dejectos orgânicos (vulgo "caca") e não orgânicos (vulgo "lixo") de tantos milhares de turistas se nenhum destes empreendimentos turísticos de alto standart tem, que se saiba, estações de tratamento de águas residuais ou locais para reciclagem dos seus próprios resíduos;

13. Porque os preços praticados pelos locais de maior influência turística são abusivos. A mentalidade do lucro rápido em tempo de crise, não me parece que resulte muito bem, mas eles que são donos do negócio, lá sabem o que fazem.


E volto ao início. Há que apostar na diversidade. Na riqueza humana. Na arte. Na promoção cultural. Na paisagem. Abençoado país que possui tal diversidade. A chave do turismo cabo-verdiano tem que estar na mão das pessoas. Nada como cantar a morna de Antero Simas, "Doce Guerra", para sabermos e termos consciência de que estamos a fazer (quase) tudo errado.





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23 comentários:

Anónimo disse...

por favor define cultura, folclore, arte, artesanato etc!
fico a espera da resposta.

Ariane Morais-Abreu disse...

Errar voltou virtude na ciência dos contrarios... Sem uma visao abrangente e complementar das potencialidades das 10 ilhas sera sempre o cada uma por si. Este turismo de exploraçao selvagem nao da, nem dara resultados sustentaveis e duraveis(para usar palavras na moda!!). O turismo implantado em CV desde dos anos 1990 é lixo, produçao de lixos (organico, predial, industrial, humano, mental...) que vao ter de tratar os Cabo-verdianos se nao querem que a terra se transforma em "monti mosca". Portanto seria facil apontar e analizar os erros cometidos nos paises da Macaronésia ou, ao lado, na costa africana. Nao, neni, os cv sao the best one!!

Quanto a arte, deveria sem nenhuma forma de favoritismo mas com bon sens e logica ter desenvolvido Sao Vicente na sua vertente artistica, recreativa e festiva. Felizmente, os Mindelenses nao aguardaram os governos...E nao é somente uma sampadjuda que fala assim também os badius que muito têm a ganhar com a afirmaçao da coisa artistica em CV.

João Branco disse...

Anónimo, sei que falando deles, estamos a falar de conceitos diferentes, certamente. Há vasta bibliografia sobre essa temática, inclusive na Internet. À distância de um clique... Um destes dias farei uma crónica sobre isso, pode ser? Aqui o assunto é turismo.

Ariane, mas olha que no Mindelo vive-se muito hoje dessa ilusão da "vertente artística". Os megaprojectos anunciados para a ilha, maiores que o próprio Mindelo, são assustadores....

Anónimo disse...

O que conheço da realidade de Cabo Verde (e já é alguma coisa!) permite-me subscrever, ponto por ponto, a visão do JB.

Salvem-se, ao menos (porque ainda se está a tempo), o Fogo, a Brava, o Maio, Santo Antão e São Nicolau.

E uma coisa mais: o preço monopolísticamente exagerado das passagens aéreas prejudica sobretudo milhares e milhares de emigrantes que assim se vêm injustamente impossibilitados de rever a terra mãe.

Porque os turistas, enfim, sempre vêem "all incluso".

Ó João: quanto aos megaprojectos de São Vicente estou como o São Tomé: ver para crer se, à 1ª pedra, se seguirão ou não as 2ª, 3ª, 4ª, etc....!

a) RB, anónimo por obrigação

João Branco disse...

Nem mais, RB, nem mais.

Anónimo disse...

voce disse k as pessoas confundam estes conceitos.

entao define-os e tire as pessoas da ingnorancia, mas tem de ser uma definicao sua por favor!

João Branco disse...

Anónimo, eu sei o que você pretende com essa conversa, mas apenas lhe digo que os conceitos não tem dono, são claros ou não são claros. Mas se tanto insiste, vamos à famosa Wikipédia?

Cultura: Cultura (do latim cultura, cultivar o solo, cuidar) é um termo com várias acepções, em diferentes níveis de profundidade e diferente especificidade. São práticas e ações sociais que seguem um padrão determinado no espaço. Se refere a crenças, comportamentos, valores, instituições, regras morais que permeiam e identifica uma sociedade. Explica e dá sentido a cosmologia social, é a identidade própria de um grupo humano em um território e num determinado período.

Folclore: Folclore é um gênero de cultura de origem popular, constituído pelos costumes e tradições populares transmitidos de geração em geração. Todos os povos possuem suas tradições, crendices e superstições, que se transmitem através de lendas, contos, provérbios, canções, danças, artesanato, jogos, religiosidade, brincadeiras infantis, mitos, idiomas e dialetos característicos, adivinhações, festas e outras atividades culturais que nasceram e se desenvolveram com o povo.

Arte: Arte (Latim ARS, significando técnica e/ou habilidade) geralmente é entendida como a atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepção, emoções e idéias, com o objetivo de estimular essas instâncias de consciência em um ou mais espectadores.

Artesanato: Artesanato é essencialmente o próprio trabalho manual ou produção de um artesão (de artesão + ato). Mas com a mecanização da indústria o artesão é identificado como aquele que produz objetos pertencentes à chamada cultura popular.

Não é preciso ir mais longe, pois não?

maria disse...

obrigada !

cultura tem uma definacao mto mais vasta n se resume em poucas palavras penso eu.

bom dia pra ti.

maria disse...

ah esqueci-me voce acredita nas definicaoes da wikipedia?

serao suficiente "bastante"?

e conceitos tem dono sim.

João Branco disse...

Maria:

1. De nada;
2. Tem sim senhor. Mas não é este o lugar para uma tese sobre o assunto.
3. Bom dia também.
4. Há boas e más definições. Mas a Wikipédia é hoje uma ferramenta preciosa para milhares de pessoas.
5. Para o caso presente, sim.
6. Quem é dono destes conceitos?

Abraço, sem copy paste!

João Branco disse...

E já agora, sobre o assunto da crónica, nada? Ou vamos continuar a debater fait-divers e desviar-nos do que realmente interessa aqui? Back to road, please!

maria disse...

sem copy past?
what do you mean?
are you out of your mind?

ciao "meu" caro!

João Branco disse...

Maria, "sem copy paste" está relacionado com outras situações e é uma brincadeira que no fundo quer dizer que aquele cumprimento era para ti e para mais ninguém.

A propósito, gostei do pormenor das aspas na palavra, "meu".

Bola pra frente que atrás vem gente!

Ariane Morais-Abreu disse...

Os megaprojectos culturais para SV podes deitar no lixo. Tem de ter em conta a dimensao do espaço, claro! Il faut tout repenser em termos realmente culturais e artisticos, nao mercantis (e "umbiguistas") apesar do facto que a cultura tb genera recursos e riquezas...

João Branco disse...

Ariane, "posso deitar no lixo"? Não tenho poderes para tanto! Eles estão mais do que aprovados... Devem estar há espera do novo aeroporto internacional. Ou estarão à espera de Godot?

maria disse...

eu n sou jogador(a) de futebol.

foi voce caro k comecou a discussao.
Adeusinho!

João Branco disse...

Maria, respira fundo, sorri e olha à tua volta. Ainda há motivos para uma atitude mais positiva? Eu acho que sim! E sobre o tema do post, nada?

Como diz o povo, antes aqui que na farmácia! (e sim, possivelmente, não és médica!)

Abraço!

maria disse...

Qual tema?

Eu sei quem o Senhor eh.
Voce n me conhece, com eh sabe se sou negat. ou positiv. etc e tal...

n sou medica,mas midia!

Arriverdeci

João Branco disse...

Maria, o tema deste post que vossa excelência tem vindo aqui comentar, sem comentar. Turismo e tal, helooooo!

Se é negativa ou positiva, não sei, apenas sei do que transparece nesta conversa que já não faz muito sentido. Além de que Senhor - ainda por cima com letra maiúscula - está lá no céu e não sou eu de certeza.

Tenha lá calma e viva a vida com um pouco de mais desportivismo e sentido de humor. Pode ser?

João Branco disse...

A propósito. De onde, de Itália? Veneza, Verona, Roma, Milano, Florença? Gosto muito do seu país, cara mia!

maria disse...

sobre o turismo CABOVERDIANO deixa mto a desejar, eu acho k so bla bla eh desnecessario, tem sim k ter accao eu n sou espert em turismo t pouco vive em CV.

2- sou bem humorada diverti-me imenso contigo, mas quem irritou comigo foste tu e mandou ir trabalhar.

3- realmente esta conversa j n faz sentido estou de acordo.

4- eu vivo na Europa do Norte caro (em portugues), comecaste a escrever em Frances por isso escrevi Italiano.

para terminar n me interessa fait diverse, mas como estudei Frances durante mtos anos,

au revoir mon chere.

João Branco disse...

Maria, vamos tomar um café? E porque é que está sempre a dizer-me adeus - em diferentes línguas - mas acaba sempre por voltar cá? Não é que eu não goste, antes pelo contrário, ma cherie, c'est toujours un plaisir!

Ariane Morais-Abreu disse...

"Mon cher " escreve-se assim no masculino... (em voz off)