Ficção Cafeana

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(Primeira parte, aqui)

Esperou, esperou e nada acontecia. Recitou de cor a peça "À Espera de Godot" e como seria de esperar, Godot não veio. Mas sabia que não estava louco. Não estava. Ele tinha visto o que tinha visto e nada o faria pensar de forma diferente. Os óculos não enganavam. Mindelo estava invadido de seres estranhos, com caveiras metálicas, e corpos em forma de gente, e apenas com aqueles óculos seria possível perceber quem era quem.

Depois de uma longa espera que lhe pareceu uma eternidade, ganhou coragem e resolveu telefonar a uma amiga de confiança. Ela era mesmo a única pessoa em quem ele realmente confiava na vida. Ligou o telemóvel, certo de que aquela chamada, se não caísse na caixa do correio, ira ser interceptada. Se houvesse uma enorme conspiração, certamente a companhia dos telefones estaria no centro das operações. Mesmo assim resolveu arriscar. 

"Vem cá depressa. O caso é grave", revelou. Pouco depois a amiga chegou e quando viu o companheiro naquele estado de ansiedade, e a casa virada de cabeça para baixo como se por ali tivesse passado um tornado, temeu o pior. Mas nem ela escapou ao teste definitivo. "Fica aí e nem penses em mexer-te, senão acabo contigo sem contemplações." Ficou renitente e até chocada com aquela violência verbal tão inédita quanto inusitada, mas o rapaz lá colocou os óculos e verificou, para seu enorme alívio, que a amiga não fazia, pelo menos por agora, parte deste esquema gigantesco. "Percebo agora porque é que ninguém faz nada. Ninguém quer saber. Ninguém diz nada. Ninguém reage. Está tudo adormecido. Qual crise qual quê! Isto está tudo dominado por uma corja que anda aí disfarçada, tu nem imaginas, eu com estes óculos posso muito bem ver quem é quem. Ah, mas a mim não me apanham eles, eu sei muito bem o que se está a passar!" 

E lá continuou frenético a despejar um enredo que para a sua amiga não fazia qualquer sentido e se bem já o tivesse como a pessoa mais desconfiada que conhecia, nunca pensou que algum dia o pudesse ver naquele estado de quase demência. "Empresta-me esses teus óculos milagrosos, para eu tirar esta história a limpo. Já sei que vou ficar ridícula com eles em plena morada, mas para que saias desse transe, todo o esforço é bem-vindo." O pragmatismo e o sentido prático das coisas sempre fora uma das suas mais elogiadas características. 

E embora muito contrariada pelo amigo, lá saiu à rua. Respirou fundo, colocou os óculos especiais e olhou em volta, pronta para tudo. Nunca acreditou em gongons, não ia ser agora.




P.S. Qualquer semelhança com a realidade, não passa de pura coincidência. Naturalmente.
P.S. 2 To be continued



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5 comentários:

carlos ferreira santos disse...

João,
costuma ajudar que se ponha uma panela de alumínio (tigela também serve) na cabeça. Isso poderá impedir que os E.T.s leiam o pensamento da vitima… Ele que tente.
Abç
Kiko

PS – serve também de protecção à cachimónia, caso os E.T.s pretendam atacar com marretadas…

João Branco disse...

Quem sabe o nosso protagonista segue o teu conselho? hehehe :)

Anónimo disse...

O "big problem" não são os gongons: são as "canelinhas"

a) RB, anónimo por obrigação

João Branco disse...

Quando escrevia o texto estava na dúvida: gongons ou canelinhas? Acabei por decidir assim, mas para o caso, tanto dava!

Anónimo disse...

Bô squecê de "catchorrona"? :o°


moreia