Um Café com o Ministro da Cultura

8 Comments


Estou espantado. Eis porquê.

A entrevista de Manuel Veiga ao Diário de Notícias, de Portugal


A imprensa cabo-verdiana salienta o facto de o Governo ter concedido 3% do Orçamento do Estado para a cultura. Muitos ministros europeus ficariam satisfeitos...

Os media falam, de facto, em 3%, mas pelas nossas contas será aproximadamente 0,9% do orçamento geral. O que não é mau. Para nós representa um esforço considerável, mas está longe do que gostaríamos. Embora o financiamento da cultura tenha de vir de todos, artistas e criadores incluídos. 

Um recente fórum internacional elegeu em Cabo Verde a cultura como o seu maior recurso natural. É assim?

Em qualquer parte do mundo a cultura pode ser isso. Mas falo de cultura em sentido lato. Não temos ouro, não temos petróleo, mas temos mais do que tudo isso: a nossa cultura. Somos ilhas de rocha e de mar onde as cabras nos ensinaram a transformá-los em pão. Sem a cultura, Cabo Verde não teria o elemento fundamental para o seu desenvolvimento. É o nosso motor.

Nesse sentido, foi anunciada a criação de uma agência para promover a cultura, de forma a transformar Cabo Verde "num centro internacional de entretenimento", e cito o seu primeiro-ministro. Querem captar financiamentos. Acha concretizável, com a crise internacional?

A crise deve ser um desafio para vencer a própria crise e não para baixarmos a cabeça. O primeiro-ministro José Maria das Neves diz que a cultura é um diamante por lapidar, para satisfazer a alma e o mercado de trocas. A crise? Estamos a montar toda esta operação. Cabo Verde sempre transformou a crise numa oportunidade. Já passámos por várias crises. E temos o turismo, onde há muita procura, que representa 15% do produto interno bruto. A minha preocupação é tempo para a cultura responder àquilo que o turismo quer: o diálogo com a nossa singularidade.

A estratégia de apostar na cultura é recente.

Até aos anos 80, a visão era puramente economicista, mas desde então a ideia tem vindo a fermentar. Só ganha a maioridade a partir do ano 2000. Quem tem a cultura que nós temos não é um país pobre. O cantor e compositor cabo-verdiano Princezito diz que só pode ser rico um país como o nosso, onde nunca rebentou uma mina, nem houve golpe de Estado. Repare que Cabo Verde tem um trajecto muito interessante, com a sua cultura sofrida desde o tempo da escravatura. E depois a seca, a fome, a emigração. Fomos aprendendo com isso. A crioulidade tem no sangue a capacidade de dialogar com o Outro. Isso enriquece e amadurece um povo. O nosso país foi um cruzamento de África com Portugal. Hoje cruzamos com o mundo.

Com que países da CPLP tem resultado melhor a ponte cultural?

Temos um relacionamento muito forte na cooperação com Portugal e o Brasil. Mas estamos muito próximos dos países africanos pela matriz cultural. O Brasil dá-nos formação. Com Portugal há grandes projectos de cooperação, subsidiou-nos com 350 mil euros a recuperação da réplica da Torre de Belém, e apoio na Cidade Velha, candidata a Património da Humanidade, os projectos na Sé-Catedral com o arquitecto Siza Vieira. No livro, há mais de 20 anos que Portugal realiza uma feira. Em Cabo Verde temos fome de leitura, somos amigos do livro. 

Também há cultura subaquática. Continuam a permitir nas vossas águas os caçadores de tesouros?

A pesquisa subaquática está parada. Encontraram-se peças fabulosas que, infelizmente, saíram de Cabo Verde para financiar as operações. São peças fundamentais da nossa história. Algumas estiveram num museu holandês, como foi o caso de uma barra de ouro, e depois desapareceram. 

A implementação do Acordo Ortográfico será tão rápida quanto já foi revelado?

Queremos implementar o Acordo até ao final deste primeiro semestre, com um período de transição de seis anos.


Comentário Cafeano: afinal a fatia do orçamento que cabe à Cultura é de 0,9%? E não é mau? É daqui que vai sair a verba para os novos museus, o novo auditório do Mindelo, a promoção cultural, os prémios de incentivo ao crioulo, a dinamização da Cidade Velha? Até aos anos 80 a visão da cultura era puramente economicista? Essa é novidade! Em Cabo Verde temos fome de leitura? Outra novidade! Peças de elevado valor histórico que desaparecem, e não há apuramento de responsabilidades? Muita coisa para digerir...

Fonte: aqui



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8 comentários:

Anónimo disse...

A mim, o que mais me chamou a atenção foi o desaparecimento das peças subaquáticas recuperadas.

Fascinante....!

a) RB, anónimo por obrigação

Eileen disse...

Respostas um bocado fracas e vagas, ou é impressão minha?

Anónimo disse...

Uma definição de fome de leitura impõe-se. Qual é a literatura que se lê em Cabo Verde? Enfim, né...


moreia

gatunix disse...

pra quando um museu da historia nacional?
algo onde pode alberga ques artefacto la, onde no pode tem em imagens ou pinturas ou ate manequins feito de gesso pa mostra nos historia, principalmente historia de CV antes de 5 de julho...

es entrevista ca parcem q ta adequa a realidade...

velu disse...

A mim, o que mais me aborrece, é o tom de "normalismo" com se transmitem essas aberrações! O desaparecimento das peças é um ABSURDO! E essa da Cultura ser o nosso motor de desenvolvimento, dá vontade de... sei lá! Enfim... é o que se tem (ou não se tem!!!!!!).
Aquele Abraço

João Branco disse...

Peço desculpa mas nem consigo fazer mais comentários a certas afirmações.

Dundu disse...

Isso não passa de prosopopeia flácida para acalentar bovinos que todos os ministriaveis ou não, vêm regurgitando toda a vez que interpelados sobre o futuro cultural deste torrão.

Quanto à tradução pratica disso, mera utopia.

Ariane Morais-Abreu disse...

Blablabla do ministro... tudo isso nao passa de conversa oca!! "O cantor e compositor cabo-verdiano Princezito diz que só pode ser rico um país como o nosso, onde nunca rebentou uma mina, nem houve golpe de Estado", portanto continua ele como muitos outros artistas a golpear as artes e cultura quando fingem que sabem...