Tertúlia dos Mentirosos 49

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Concluído o texto, Robinson, depois de acender um cigarro, leu-o, amarfanhou-o a seguir e atirou-o para o cesto de papeis. O seu semblante era o de um homem triste, convicto de que havia falhado.

E disse de si para consigo:

«Estou metido numa complicação dos diabos – não sei onde estou, nem tenho a certeza de ser gente ou animal ou coisa. Estranho ao mundo, indiferente à vida, perdido nalgum ponto do universo, prisioneiro por dentro e por fora, porventura louco, ou talvez nem isso. Sem substância, nem forma, nem atributos. Em suma: não existo, nem hipótese sou de coisa alguma.»

Entretanto, achando que estava a descambar para uma filosofia excêntrica, reminiscência talvez de algo que tivesse lido há muito tempo, suspendeu o monólogo e tornou à escrita.

Arménio Vieira in "No Inferno"



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6 comentários:

José Eduardo Fonseca Soares disse...

Lindo e forte!
As angústias e pesadelos de quem 'tem que' escrever... numa escrita com arte... e cheia de subtilezas até nas entrelinhas... de uma 'beleza louca' e filosófica de quem tem o dom da escrita:nosso Arménio Vieira

João Branco disse...

Forte, acima de tudo. Que livro!

Anónimo disse...

Lembra-me, sem dúvida, o extraordinário poema "A Tabacaria" de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos", pois também ele dizia:

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo".

"...Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão...".

a) RB, anónimo por obrigação

João Branco disse...

RB, esta tua "mania" de comentares fazendo uso da poesia está a transformar-se num vício! Agradeço mesmo, pela mais valia que trazes a este espaço.

b disse...

Lindo! Obrigada, vou ler.

João Branco disse...

É um grande (e difícil) romance. Vale a pena ler.