Crónica Desaforada

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Se eu nada fizer, isto nunca vai mudar


1. Em tempos de ditadura ou em períodos de grandes dificuldades económicas e sociais, a música sempre foi um veículo poderoso de transmissão de mensagens. 

2. Quem não se lembra nos últimos anos da governação portuguesa de Cavaco Silva, a forma como uma música de Pedro Abrunhosa se tornou um hino da luta e sintoma da mudança que se confirmaria pouco tempo depois. 

3. Passados todos estes anos, vive-se hoje em Portugal um fenómeno semelhante, com uma música dos Xutos & Pontapés, intitulada "Sem Eira Nem Beira", que se está a transformar numa cantiga de protesto contra o estado de coisas actuais, mais especificamente contra o governo de José Sócrates. 

4. A música é poderosa, fica no ouvido e a letra... bem, a letra serve como uma luva aos tempos que correm (ouvir a música, aqui):

      Anda tudo do avesso
      esta rua que atravesso
      dão milhões a quem os tem
      aos outros um passou bem
      Não consigo perceber
      quem é que nos quer tramar
      enganar
      despedir
      e ainda se ficam a rir

      Eu quero acreditar
      que esta merda vai mudar
      e espero vir a ter
      uma vida melhor
      Mas se eu nada fizer
      isto nunca vai mudar

      conseguir
      encontrar
      mais força para lutar…

      Senhor engenheiro
      dê-me um pouco de atenção
      há dez anos que estou preso
      há trinta que sou ladrão
      não tenho eira nem beira
      mas ainda consigo ver
      quem anda na roubalheira
      e quem me anda a comer

      É difícil ser honesto
      é difícil de engolir
      quem não tem nada vai preso
      quem tem muito fica a rir
      Ainda espero ver alguém
      assumir que já andou
      a roubar
      a enganar
      o povo que acreditou.

5. Hoje, 25 de Abril, é uma boa altura para nos questionarmos porque é que num país musical como Cabo Verde a chamada canção de intervenção ou de protesto anda arredada das preocupações dos nossos compositores, grupos e intérpretes. Afinal, não se passa nada?

6. Aliás, como se sabe, a música de intervenção têm uma longa tradição na música cabo-verdiana, directamente ligada à luta anticolonial e à posterior afirmação de uma nova Nação independente. 

7. Posso estar enganado, mas parece-me que desde essa época, a canção de protesto praticamente desapareceu do panorama musical crioulo e talvez a única excepção seja algum do movimento hip-hop cabo-verdiano, mas que tem pouca expressão social.

8. Rui Machado que organizou a colectânea Música de intervenção cabo-verdiana escreveu que surgiram outras músicas após a independência "criticando o regime de partido único e as inerentes limitações democráticas, mas mesmo em situação de eleições livres continua a haver motivos de desagrado que levam alguns poetas e músicos a exteriorizar através dessa forma de arte, a revolta que sentem perante certas e determinadas situações."

9. Pode até ser assim, mas tendo em conta a importância que a música tem no país parece-me que em certas situações a música de intervenção e a canção de protesto deveria ter um peso muito maior no conjunto da música que se ouve todos os dias nas rádios nacionais.


Mindelo, 25 de Abril de 2009




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3 comentários:

Anónimo disse...

Há dias vi isto pela net...

pensadu ma mudança
ê tra di li pô la
nu tra mo di moda
sinau kau ta mâria
pa más dimocracia
nôs guentis ka kebi…
nada ka muda
mudança ka tem
palanki, orador, carnaval
ês krê fazi
cambalachu na pulitika
palanki, orador, festival
ês krê brinca
ku futuru kabuverdianu
na nôs dôs metro
i meio di tchon
ka fazi terra
um simplis ecran di tv
pa muda
nu duspi nos midiocridadi
nu bari cabeça
nu prutchi discursu
nu torna bari cabeça
nu prutchi discursu
nu rucupera ku humildadi
beku ki nu mora n´el
pensadu ma mudança
ê tra di li pô la

Guilherme (LX)

João Branco disse...

Muito bom! Um abraço, Guilherme e obrigado.

Sarabudja disse...

É meio estranho comentar isto hoje com quase três meses de atraso, mas a verdade é que cheguei a este fantástico blog há muito pouco tempo. Hum, para dizer a verdade por cá passo há algum tempo, porém com atenção, só muito recentemente.
Não é uma música de intervenção no sentido real, todavia parece-me boa e acutilante: Konsiencia, de Mayra Andrade.
Espero pelo dia 22 de Julho para vir cá, agora sempre com atenção.