Declaração Cafeana

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Por ocasião do Fesquintal de Jazz, memorável acontecimento que teve lugar em 2002 na Praia, participei num programa da televisão de Cabo Verde sobre o evento. A componente musical esteve a cargo de uma menina chamada Isa Pereira, que não conhecia e nunca tinha ouvido cantar. E devo dizer que fiquei encantado. Maravilhado, mesmo. Com o timbre, com a afinação, com a criatividade colocada na interpretação, com a postura. Ali estava uma cantora com tudo para ser estrela. Não dessas estrelas (de)cadentes que nos aparecem todas as semanas com etiqueta de artista colada na testa e de tamanho inversamente proporcional aos inexistentes currículos pessoais, mas uma daquelas estrelas que justifica a projecção que a música de Cabo Verde continua a dar ao país.

Sete anos depois, Isa Pereira lança o seu primeiro trabalho discográfico. E revela, à partida, inteligência no que podemos chamar de "gestão de carreira" por duas razões fundamentais: primeiro, não teve pressa em lançar o seu disco, esperou, amadureceu, melhorou e enriqueceu o imenso potencial que revelara a cada actuação ao vivo; em segundo lugar, convidou Hernani Almeida para produtor discográfico do seu primeiro trabalho, uma boa decisão, não só pela qualidade inata do músico em causa, mas por ser alguém que consegue tirar dos intérpretes o melhor em cada tema apresentado.

Ainda não ouvi o disco em causa, mas fui ao concerto de apresentação, Sábado passado no Mindelo. Fiquei conquistado, claro. Está ali uma estrela poderosa que pode muito bem marcar a música de Cabo Verde, fazendo o seu caminho, conquistando o seu espaço e deixando espantados os especialistas do chamado mundo da world music. Destaca-se a enorme qualidade dos músicos que a acompanharam, com destaque para o irmão da cantora, Valdo Pereira. Depois de muito aplaudida, Isa Pereira acabou voltando para o palco para cantar a música "Santiago", de Mário Lúcio, e acabo lamentando que esta versão (linda, linda, linda!) não faça parte do primeiro trabalho discográfico da artista. Mas vou cobrar, sempre que a voltar a ver, para que faça parte do próximo.


P.S. A imagem foi retirada do sítio do jornal A Semana, na rubrica "Artista da Semana". Devo dizer que me espanta que um fórum moderado, e possivelmente o que tem maior audiência entre os cabo-verdianos, permita o tipo de comentários levianos e mentecaptos que se escreveram a propósito desta (excelente) entrevista. Não há liberdade de expressão que justifique certo tipo de vómito cibernético.




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10 comentários:

Cilene Sena disse...

Também gosto imenso do trabalho dela!! Ficou-me apenas uma pulguinha do teu texto... acho que este é o seu segundo trabalho. Tenho o anterior, óptimo por sinal, enquanto que este não ainda não tive o prazer de ouvir.

João Branco disse...

Cilene, «Kriola Enkantu» é mesmo o album de estreia da Isa. Fui confirmar isso mesmo na Internet. Segundo se pode ler em várias biografias, Isa "participa com 2 temas na gravação dos CD’S pertencentes ao projectos da Embaixada de França em Cabo Verde-“Cap Vers l’Enfant II” (2001) e “Cap Vers Les Outres” (2002) , tendo feito o lançamento do primeiro no Hotel Porto Grande, em São Vicente, e no Palácio da Cultura, cidade da Praia."

Deve ser por isso que tens essa sensação. Será?

Abraço

Catarina disse...

É Valdo Pereiram Jony White! Beijinho

pedromadeirapinto disse...

não conheço, mas vou procurar aqui por terras lusitanas.
estou sempre pronto para ouvir boa música, e boa música cabo-verdiana é boa música em qualquer parte do mundo.
obrigado pela dica.

abraço e boa semana de trabalho.

pedro

João Branco disse...

Catarina, já corriji, obrigado!

Pedro, ainda deve demorar um pouco a chegar, mas quando chegar é de comprar, sem hesitação.

Lily disse...

Por acaso li a entrevista dela na semana passada e como não conhecia fui ao Youtube fazer uma pesquisa... do muito pouco que ouvi, gostei...vou tentar encontrar a discografia dela.
E não percebo o que teve de mal a entrevista... teria eu o computador ao contrário?!

João Branco disse...

Lily, a pouca vergonha não é na entrevista. São os comentários à entrevista. Tens que clicar na frase "ver os comentários" e a página "cresce" e lá se vê toda a porcaria. Felizmente, que também houve muita gente a protestar e a escrever contra esse género de comentaristas.

Benvindo Neves disse...

Fui assistir ao concerto dela na passada sexta-feira no Auditório Nacional e saí de lá encantado. Foi pra mim uma grande surpresa! Achei magnífico o "tour" que, no concerto, fez pelas ilhas. Até Santa Luzia fez questão de incluir na "digressão".
Para temperar ainda mais a apresentação do Kriola Enkantu, estiveram no palco Nho Nany, Manu Preto e Bety Fernandes (com o encanto das suas coreografias) e Hernany. Foi magnífico

KissFlower disse...

O CD está demais!!! Já chegou ás minhas mãos, aqui por Lisboa, mas ainda não está á venda!
Bijim

Jorge Pires disse...

Não conhecia a música dessa Isa mas gostei muito de ler seu texto sobre como ela homenageia todos os ritmos e ilhas de Cabo Verde. Um disco de conceitos, estou vendo... gostei! Vou tentar checkar esse “Kriola Enkantu”. Mas pela sua descrição, me parece uma estreia bem promissora! Sou brasileiro mas quando há cinco anos fiz uma viagem até Cabo Verde, fiquei rendido à boa música, à boa comida e às boas gentes! Quando voltei no Rio, senti alguma dificuldade em encontrar lojas de discos de morna, por exemplo... Mas, desde então, a Internet e seus conteúdos musicais evoluíram muito e, nesse momento, até tem uma rádio online que só toca mornas – imagina isso, cara? Eu também não até me ligar no http://cotonete.clix.pt/ Bem legal, experimenta!