Crónica Desaforada

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A primeira escola oficial e depois?


1. O sítio do jornal A Semana anunciou a abertura na cidade da Praia esta terça-feira, 14 de Abril, da "primeira escola oficial de música do país", baptizada de Escola de Música Sinboa e que vai funcionar no Palácio da Cultura. 

2. É uma boa notícia a utilização desta infra-estrutura para um projecto de formação musical. Aliás, eu mesmo já havia defendido que o Palácio da Cultura tinha todas as valências para albergar não uma escola de música, mas um Curso Superior de Estudos Musicais, ligado à Universidade de Cabo Verde, que por diversas vezes nestes últimos meses, tem publicitado a sua vontade em avançar com acções concretas no domínio da formação superior no campo musical.

3. Do que se pode ler de uma nota do Ministério da Cultura, "a Escola de Música Sinboa será para os artistas, jovens e adolescentes que pretendem aprender a música ou aperfeiçoar os seus conhecimentos nesta matéria, bem como promover e incentivar a educação musical no país."

4. Também segundo informação dada, a escola vai ministrar cursos de curta duração, autónomos e sem pré-requisitos, de nível básico e intermediário e tem já constituído o seu conselho pedagógico e administrativo.

5. Resta saber o que significa o facto de esta escola ser "oficial", assim como dar resposta a outras questões que me ocorrem. Os seus cursos tem equivalências reconhecidas pelo Ministério de Educação? Quais? Como? Há propinas? Quanto vão pagar os alunos para terem acesso aos cursos? 

6. O que vai distinguir, efectivamente, esta escola de outras que já existem, municipais e privadas? A Universidade de Cabo Verde foi tida e consultada neste projecto? Este projecto está enquadrado num programa de implementação de educação artística envolvendo os dois ministérios, Cultura e Educação?

7. Devo dizer ainda que o que mais me preocupou neste projecto foi o sublinhar do Ministério da Cultura de que "uma das principais atribuições do conselho [administrativo] é definir os objectivos e as estratégias a perseguir, para além de procurar, incessantemente, a autonomia e a sustentabilidade financeira desta escola que tem o patrocínio do Estado mas deve estar virada para o mundo artístitico e por este sustentada." 

8. Desculpem, mas isto faz algum sentido? Ainda a escola nem foi inaugurada e já está o Ministério da Cultura a lembrar que cabe ao mundo artístico sustentar esta infra-estrutura educativa? Então a escola é "oficial" porquê?

9. Honra seja feita ao corpo docente que abraça esta nova viagem, constituído por Alcides Gonçalves, Henrique Oliveira, Zeca Couto, Casimiro Tavares, Atanázio Monteiro, Odair Rodrigues, Giordano Custódio, Mário Lúcio Sousa, Filomeno Gonçalves Semedo e Eutrópio Lima da Cruz. 

10. Que esta escola dê efectivamente frutos e comprovem que não é apenas uma medida avulsa que tem como principal e primeira consequência positiva a utilização de um prédio nobre que pecava pelo abandono e falta de uso. Pelo menos a partir de agora, espera-se que se possa ouvir, passando por aquela zona nobre do Plateau, solfejos de piano, ritmos de percussão, aquecimentos vocais ou sons de violino. As interrogações e dúvidas ficam, mas não diminuem a grandeza do acto. Aplausos.


Mindelo, 13 de Abril de 2009




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8 comentários:

Anónimo disse...

tens um blog ecepcional

João Branco disse...

Obrigado e volte sempre!

Anónimo disse...

Excepcional e não ecepcional

Amílcar Tavares disse...

Concordo com a sugestão de um curso desses leccionado na Universidade de Cabo Verde.

Assim parece mais do que um... descafeinado!

João Branco disse...

Amilcar, é isso mesmo que eu penso. Claro que desejo que dê certo, embora possa não parecer.

Danízia disse...

Uma observação muito bem feita, pelo que felicito o autor.
Parece-me que agora em Cabo Verde a nova moda é fazer ou criar "coisas" só para que constem das estatísticas, para fins que facilmente podemos imaginar. O resto, depois se verá.

sofia disse...

esta notícia deixou-me indignada.

primeira escola oficial de música??!!!

lá está o nosso ministério da cultuta novamente com as suas barracas.

alguem já ouviu falar da escola pentagrama?

escola de música que já passaram milhares de crianças, que ensina todos os tipos de instrumento e que existe dês de 1989!

sei que muitos vao dizer.. escola de elite.. mas pudera.. o próprio MC o fez tornar nisso.

tó tavares, um homem fantástico.. andava por essas datas (88-89) a ensinar, gratuitamente, nas escolas (sos..) enta a pedido das próprias crianças foi criado a escola. tinha uma propina de 600$00 mensais, mas que só pagavam as crianças em que os pais podiam.

entre 89 e 92 (ou mais) a escola tinha 600 alunos, meninas e meninos a cantar, tocar flauta, guitarra, piano, cavaquinho..

a escola vivia do apoio do instituto cultural portugues, e de alguns pais

o ministério naaaada como sempre.. mas começaram a sentir pressao devido à força que a escola tinha na sociedade.. concertos de natal, tudo o que era visitas internacionais, lá iam os meninos do pentagrama en-cantar as pessoas..

entao o ministério da cultura decidiu começar a dar o apoio e como era o apoio.. mandar buscar professores formados de cuba, russia, brasil e o pentagrama pagava, ou seja fazia os contactos e a escola cobrava aos alunos para poder pagar aos professores..

é claro que era da vontade do tó ter professores formados para poder dar melhor às crianças, mas teve o seu custo e a escola tornou-se nessa tal escolinha de elite..

o pentagrama vive mudando de local.. pois nem um espaço físico próprio tem.. o palácio da cultura está às moscas bem como outros sítios há anos.. porque nao deram ao pentagrama para fazer programas lá? porque nao deixaram que uma escola que já deu provas!!

e veem falar de professores como casemiro.. ele foi professor no pentagrama durante anos.. e junto com ele foram nomes como, orlando pantera, tete alhinho e outros que peço desculpa nao recordar

é triste o nao reconhecimento da escola pentagrama :(

João Branco disse...

Por acaso, a Escola Pentagrama já foi condecorada pelo Governo de Cabo Verde, salvo erro por altura do 30º aniversário da Independência.

Mas compreendo o desabafo da Sofia.