Declaração Cafeana

15 Comments


A noite de ontem veio confirmar o que já desconfiava: por muita boa vontade que houvesse, e havia certamente, a Rua de Lisboa não foi o local ideal para se poder apreciar um concerto como o que Tito Paris e a Orquestra Metropolitana de Lisboa quis oferecer à cidade do Mindelo. Só bem próximo do palco se conseguia ouvir em condições a componente sinfónica da música e essa era a grande mais valia do concerto, até porque uma coisa vos digo: a relação de uma orquestra com a morna (principalmente com a morna, mas também com a coladeira e o funaná) é como a de dois amantes que se entrelaçam, se amam e desfrutam o prazer único que é estar um com o outro. Funciona muito bem e é um deleite para os ouvidos. 

Agora o formato do concerto levanta outro tipo de questões, que não são novas. Na noite de ontem estavam milhares de pessoas na Rua de Lisboa. Dividindo esses milhares em quatro partes iguais, diria que uma parte estava já completamente fusca quando o concerto começou, a outra andava circulando de um lado para o outro, uma terceira estava em amena cavaqueira como se estivessem num bar qualquer, e portanto, a quarta parte que estava ali para ouvir música teve grandes dificuldades para o poder fazer. 

Mas mesmo essa parte do pessoal que lá foi para ouvir música, estava ali como se estivesse a ouvir um CD em sua casa. Impávida e serena. Ora, um concerto vive da comunicação entre os artistas do palco e o pessoal cá em baixo. O Tito Paris bem que se esforçou para animar a malta, incentivando a rua a cantar as músicas mais conhecidas com ele, pedindo aplausos a torto e a direito, gritando "Soncent é sabe..." para a multidão completar "...é sabe pa cagá oh!" sem muito sucesso, e a grande animação da noite aconteceu mesmo quando Isaura subiu ao palco já quase no final do concerto e rebolou à volta do Ulisses que não se sentia muito bem naquele papel. Aí sim, ouviu-se uma multidão ao rubro. Como dizia o outro, afinal de contas, é disso que o povo gosta. 

Cá para mim tenho que uma ida ao concerto só vale a pena quando essa comunicação acontece. Os braços no ar, as palmas em uníssono marcando o ritmo, as músicas cantadas por milhares de gargantas, um entusiasmo Dionisíaco que faça de um grande concerto uma festa. Infelizmente isso raramente acontece por estas bandas, paradoxalmente um lugar viciado em festivais de música. Vai-se aos concertos para "descontrair", "estar com os amigos", quem sabe "ouvir boa música" e só aquela meia dúzia, geralmente alcoolizada, que está bem à frente do palco com aquelas bandeiras do Bob Marley ou dos EUA é que parece realmente empenhada em dar algo em troca. Tenho pena que assim seja, mas certamente a culpa deve ser minha. Estou a ficar velho, é o que é.




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15 comentários:

Anónimo disse...

Não João, estás muito certo. Há muito que já tinha constatado essa característica no crioulo.Crioulo de Sóncent gosta é de discoteca abarrotada, suor, roça-roça, cóc e viçarada...animação, sô na vluntareza e na cama, no resto, é o que já se sabe. Quando é hora de apreciar a música em si, muito poucos...Alías, criol ê raça mas trivid de mund, nô tem sô garganta...E oiá que mim ê criol de gema...

Anónimo disse...

Não estou segura de que estarás certo! Acho que tens um modelo de posturas e de atitudes em concertos fruto seguramente da tua vivencia em Portugal e, como é natural, pretendes que esse modelo se adapte à realidade caboverdiana!
Eu penso que o problema não é do publico, mas da opção do espaço. Já assisti ao Tito aqui na Praia, na AN e foi um grande concerto com as pessoas a fazerem aquilo que para ti deve ser feito...
Penso eu de que...
Ana

João Branco disse...

Anónimo, pois é...

Ana, estás redondamente enganada. Para tua informação, somando os anos vividos nas várias cidades por onde passei, Mindelo e Cabo Verde já dominam claramente a minha biografia, depois de 16 anos e meio de vida por aqui. A minha vivência em Portugal é, ao contrário do que insinuas, muito diferente do que se vê por aqui no que diz respeito à forma de estar nos concertos. Sou um rapazinho da Festa do Avante e dos primeiros concertos dos Xutos e Pontapés nos arredores de Lisboa. Modelos e posturas? Pode ser que sim, mas não gostoda forma como se vivem os grandes concertos em CV. Posso? E, de facto, com o rabinho nas cadeiras da AN como exemplo, claramente se vê que entendeste muito bem o sentido desta declaração. Um abraço.

Kuskas disse...

Quando era estudante nas terras de Vera Cruz, fui a concertos abertos e fechados. Nesse particular (assistir a um concerto) os brasileiros são D+. Interagem com o musico de uma forma excepcional.
Aqui em Cabo Verde, seja no Sal, Praia ou São Vicente, essa interação só acontece quando o concerto é realizado em um lugar fechado e depois de muita insistencia dos musicos....

Dou razão ao JB.

Abraços

Anónimo disse...

Por mais tempo que vivas aqui, serás sempre Portugês!
Nenhum caboverdeano usa a expressão " rabinho na cadeira" por exemplo.
A questão tem a ver com a cultura, facilmente notada na reacção ao comentário da Ana, típicamente portuguesa...
Festa do Avante, xutos e pontapés.
Focus man...

João Branco disse...

Anónimo, com certeza que serei sempre português! Ninguém apaga o seu passado. As minhas raízes estão lá, na cidade do Porto, de onde são os meus pais, e onde vivi parte da infância e adolescência, embora tenha nascido em Paris. Qual é o problema? Ser crioulo é estar à frente dos palcos de braços cruzados? Focus man! Há que mudar isso, ou então fica em casa, meu! (outra expressão lusa!)

Tchale Figueira disse...

Viva!!!!!!! Vamos educar o Povo!!!!

Mas como, se a maioria dos politicos que temos são mal educados? para não dizer incultos??? A educação, des da primária um desastre? Se há gente fusca nestes eventos é certamente para fuscar a alma fodida da miséria do dia a dia contemplando carros de luxo e palacetes num atentado a insensibilidade pelo proximo neste País? Deem ao Povinho grogue de pilha e foguetes para alimentarem a pança de Bujiganga, como diz o cantor Jorge Humberto.
Quanto a bandeira do Bob Marley que desfralda sempre nestes eventos, creio ser uma forma inconsciente de gritar liberdade, slogan que o Jamaicano Rastafary transmitia. Belas palavras mas, para mim inconpreensivel, como é que Marley acreditava em Rali Sellasie, um ditador que exterminou milhares de Pessoas? Quanto a bandeira Americana é outra forma inconsciente de acreditar que a América é a salvação dos pobres. Teriam que ir lá e ver, que naquele País também existe, muita injustiça social. Mas em fim, é o American Dream!!!!!!! Mas João e caros amigos: É assim:

Quando o Povinho não merece os musicos que temos, Muda-se o Povinho.

Viva a miséria de espirito????!!! Não!!! Educar educar!!!!!

Lily disse...

Não chamaria velhice...talvez seja refinar o gosto!
Sendo com o "rabinho sentado na cadeira" (já vi muitos concertos assim e foram tão bons!) ou com os pés no chão, nenhum dos casos nos impede de viver o concerto, de cantar, de bater palmas, de sermos expansivos e aproveitarmos o espetáculo.
Assisti a um concerto da Lura no Tivoli, supostamente todos de rabinho sentado na cadeira, mas não foi isso que impediu as pessoas de participarem e interagirem durante todo o concerto.
A expressão que o João usou não me parece infeliz...o que é infeliz é esse comentario (quase xenófobo) que o anónimo fez...

Eileen disse...

Pois eu estive lá, do alto de uma varanda bem colocada, e vi imensos, imensos braços ao alto, a maxerem-se para o mesmo lado, e cantei e ouvi cantar também...
Acredito ainda que, se houvesse um bilhete de entrada simbólico, tipo, 50 ou 100 escudos, já se conseguia um ambiente de quem realmente quer é ouvir música. É que há de tudo entre um público.

João Branco disse...

Pois, Eileen, do alto de uma varanda bem colocada! É para quem pode! Não há empurrões a toda a hora, fuscos a gritarem-te ao ouvido, conversas de bar, etc. etc. Acredito que a acústica, aí em cima, tenha sido melhor!

Quanto ao segundo parágrafo, concordo.

Manu Moreno disse...

Tens 100% de razão Djonsa!!!

...mas para a Ana i anóniminho, ficam a saber que existe uma palavra que é INTEGRAÇÃO e penso que o João já ultrapassou isso.

Por isso vai um palavriadu pa nhós dós ki ta parcem ka sabi kuzé ki é...È pa Cabo verde da Deus Graça pa tem um homi tão SABIDU modál JOÃO ki skodje nós país pa vivi!

INTREGRAÇÃO

Integraçom é versatilidadi
É akulturaçom di vontadi
É kombinaçom di verdadi
É komposiçom di simplicidadi

É tinta negru
Ta beja folha branku
É papel branku
Ta racebi tinta negru

É ingrenagem
É mordi
É dismordi
è ka sta di passagem

Integraçom é um afetu
É ka disfetu
É ruspetu
Pa kualker Tribu

Integraçom é surrizu
É ka conflitu
É kuraçom xeiu di razom
É tem bom compaxom

Blinda bus ideias i bus ilevaçom di palavra Djonsa!!!

Kel abçom di kuraçom!!
ManuMoreno

Anónimo disse...

estou um pouco confuso. então o que é que está a acontecer com a Ilha mais Cultural de Cabo Verde?
Alguém pode explicar?

João Branco disse...

Manu, quem tem um amigo como tu, tem muito! Kel abrasu!

Anónimo, problema transversal e arquipelágico, meu caro. E a tacanhês do comentário é reveladora de outras dores, que não estas, discutidas no presente post!

Mic Dax (francês) disse...

Eileen :
"Acredito ainda que, se houvesse um bilhete de entrada simbólico, tipo, 50 ou 100 escudos, já se conseguia um ambiente de quem realmente quer é ouvir música."

Basta gastar 200 escudos num concerto no MindelHotel para contradizer essa teoria: 30 VIP fazem mais barulho do que toda a rua de Lisboa, não querem saber nada da musica, é so show.

Show d'VIP, show d'povo (que tem muito mais piada), quem paga é musica e musicos.

João Branco disse...

É bem visto, Mic Dax. Mas esses tais vips lá estavam, na Rua de Lisboa, com copo de wiskie na mão, conversando e rindo a altos berros como se não se passasse nada. O costume, só mudou o local.