Cafeína

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"Hoje os meus olhos começaram a arder de um momento para o outro e deixei de ver durante largos minutos. Estava na estação de Campanhã, no Porto, e senti-me imediatamente perdido. Um homem deu-me o braço para me conduzir até à farmácia mais próxima, não muito longe dali mas difícil de atingir quando não se vê nada. A sensação de desconforto e desamparo é enorme quando as coisas surgem assim sem aviso, mas bastou-me ouvir uma voz com disponibilidade para me ajudar que me senti logo mais calmo. Acho que há qualquer coisa disto no amor entre duas pessoas. Tentamos ter alguém para não nos sentirmos assim perdidos. O amor não é inútil."

Bagaço Amarelo, Ensaio sobre a Cegueira (aqui)


Ilustração de Delilah



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5 comentários:

Anónimo disse...

Há quem entenda, porém, que às vezes o amor resulta inútil:

"Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação".

(Carlos Drummond de Andrade)

a) RB, anónimo por obrigação

João Branco disse...

Mesmo esse, RB, não podia viver sem ele (o amor). O poeta é um eterno fingidor, já dizia Pessoa!

Lily disse...

Não é inútil, não!
Interessante analogia do amor e da cegueira!

"But love is blind, and lovers cannot see What petty follies they themselves commit".
William Shakespeare

Anónimo disse...

Tá aí um livro que me meteu medo .Leiam porque vale a pena...

Mya disse...

Sabes Joao, o Ivar quando vai ao Porto fica assim....ceguinho com as gajas!! Depois diz que deixa de ver por largos minutos :))))

Tou a brincar.
O Sr.Gajo em questão ta fino e de boa saude e realmente a situação não deve ter sido minimamente engraçada.

"O amor não é inutil"...já foi bom ter perdido a visão por momentos...concluiu algo muito importante. Afinal a cegueira já vinha de trás.


Bj