Declaração Cafeana

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Este é daqueles assuntos que dão pano para mangas e está relacionado com a forma como algumas pessoas receberam a peça "No Inferno". O texto desta obra é complexo, a situação criada não é de todo linear, por vezes angustia, provoca, faz-nos sentir, como direi, ignorantes, porque há todo um universo que não conseguimos acompanhar, pelo menos na sua totalidade, ou como gostaríamos. Gostamos do que vemos, mas não o entendemos. Ou então, não gostamos do que vemos porque não o entendemos. São duas formas de sentir, a primeira mais válida do que a segunda, na minha opinião.

Qual é a função social da arte? Devemos buscar e preocupar-nos com o que vai ser entendido? Ou temos por missão ir mais além? Devemos ser sérios e empenhados no que fazemos ou procurar uma fórmula "que toda a gente entenda"? A História da Arte, nos vários domínios, sejam eles a literatura, a pintura, o cinema, a música ou o teatro dá uma resposta clara a estas perguntas. Picasso é, provavelmente, a mais importante lição neste domínio, mas há tantas outras. Tantas! Os maiores génios nunca foram os mais populares. Van Gogh morreu na mais absoluta miséria. Dostoievski escrevia para pagar dívidas e sobreviver. Porque são eles grandes, hoje? Pode o dinheiro e a aceitação popular ser medida da qualidade artística? Evidentemente que não. Mas isso também não quer dizer que uma criação que tenha grande aceitação popular tenha que ser medíocre. As coisas não são assim tão lineares.

Li já não sei onde que o acto de criar um novo mundo, quando este se materializa numa forma estética elevada, nova e autónoma, é revolucionário não apenas porque nega a realidade estabelecida, mas sobretudo porque a transcende. Concordo em absoluto com esta ideia e estou cada vez mais convencido que está é uma das funções do teatro: transcender a realidade. Ser espelho distorcido e multifacetado da(s) realidade(s), provocador de uma reflexão da nossa condição, sem ter que ser, necessariamente, existencialista. As alternativas são claras e estão à vista de todos: ver muita televisão, pensar muito no nosso próximo telemóvel, consumir muito zouklove, emociarmo-nos muito com os enredos das novelas brasileiras, fazer muitas compras e por aí afora.

Como disse no início, este é um debate que dura há séculos e nunca vai acabar. Tenho para mim claro isto: o artista faz-se com muito, muito trabalho. Se o resultado é "acessível", acompanha os gostos ou as modas, isso é outra história. O acto da criação é doloroso por definição e a minha luta, certa ou errada, é pela procura da excelência e da qualidade, e esta não é medida pelo grau de compreensão imediata que se possa ter do que se vê, ouve ou sente.

Imagem: peça "No Inferno" (fotografia Doca)




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3 comentários:

Anónimo disse...

Deixo aqui o meu contributo para o tal debate que nunca vai acabar:

www.arqivors.com/jgarcao3.htm

Discutível, certamente, mas de leitura imprescindível.

Eu, por mim, tenho alguma dificuldade em compreender o conceito (claro que redutor) da arte como objecto e destino de quaisquer elites (sociais, intelectuais ou económicas).

Mas os que a elas não pertencem devem ficar obrigatoriamente "amarrados" à chamada "arte popular"?

a) RB, anónimo por obrigação

João Branco disse...

RB, passa-se alguma coisa com esse link. O endereço é mesmo esse? Ou discutir estas coisas da arte é como ir para um link que não existe? :)

Anónimo disse...

Corrigindo: www.arquivors.com/jgarcao3.htm

a) RB, anónimo por obrigação