Um Café na Cidade Velha

4 Comments


José Luiz Tavares é cabo-verdiano. É poeta. É o mais premiado de todos. Dentro e fora. Não é por acaso. Sobre a sua poesia não escrevo a não ser que me enche a alma, como a boa poesia sempre faz com quem gosta dela. 

O poeta é natural da ilha de Santiago e sabe como cantar poeticamente a Cidade Velha, berço da Nação, até porque, como escreveu, construiu o seu destino "por caminhos de cabras e de pedras, ouvindo perto o rugido do mar e os gemidos dos ventos da serra, entre gente de humilde condição, porém, de uma altivez tal apenas comparável aos impassíveis penhascos que outrora me vigiaram a infância."

José Luiz Tavares tem muitos projectos em carteira, um poeta em movimento. Disse-o através da Inforpress e um eco se fez ouvir nalguns blogues cabo-verdianos. Um destes projectos é sobre a Cidade Velha. Berço da Nação. Candidata a Património da Humanidade, com ou sem lobbie montado, com ou sem dossier devidamente estruturado (disso fará a História a sua própria justiça quando o tempo, esse juiz implacável, ditar a sua sentença).

Esse projecto tem um nome. O mais antigo dos nomes para a mais antiga das cidades. O titulo do projecto, em forma de livro é, precisamente (poeticamente) “Cidade do mais antigo nome”, um álbum sobre a Cidade Velha, com textos do poeta e fotografias do português Duarte Belo (as imagens que ilustram este texto são dele). 

Referindo-se a esse projecto, José Luíz Tavares, acrescentou que o mesmo se encontra numa prestigiada editora portuguesa à espera de apoios ou patrocínios para a sua edição, “dado que um álbum daquela natureza tem um custo elevado”. À espera. Como Godot. 

O poeta confessou "algum desalento", como ficam de quando em quando os personagens de Beckett, quando em terra de nenhures esperam por algo que nunca vem. Como Kafka, no processo, tem “batido a todas as portas de entidades públicas e privadas, sem conseguir quaisquer resultados positivos." Entidades públicas, sublinhe-se. As mesmas que lutam, ao que se sabe, de forma estóica e abnegada para que a Cidade Velha seja reconhecida como Património da Humanidade. Além de ser o palco escolhido para as comemorações do 35º aniversário da Independência Nacional. 

Enfim, há coisas que nem a (boa) poesia consegue explicar. 

        «Então erguemos uma morada
        junto à costa bonançosa,
        sob um tecto de altas nuvens»,
        concluiu a voz,

        «e à terra demos o nome de ribeira
        grande, por mor das tumultuosas águas
        que por ela descem caminho do mar.

        E cumpriu-se então, aqui, nossa sina 
        obscura, tecida pelas inextricáveis linhas 
        com que se inventa uma pátria.»

        E se agora te nomeio, ó senhora da melancolia,
        com os rasos signos da poesia,
        é porque nela vivo para a futura morte
        de tantos dedos, tal essa magnificente mulher
        voltejando nos soberanos pátios duma ilha
        onde pulsa o calado fulgor do amado rosto.


Poema de José Luiz Tavares, do livro "“Cidade do mais antigo nome” (por editar)





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4 comentários:

Anónimo disse...

João estas a revelar-te no primeiro mindelense a descobrir as belezas do sul...tarde mas nunca tarde.
Vida longa a ti e ao teu Margoso.
Que não a boicotem ali mesmo.

CV

Anónimo disse...

João estas a revelar-te no primeiro mindelense a descobrir as belezas do sul...tarde mas nunca tarde.
Vida longa a ti e ao teu Margoso.
Que não a boicotem ali mesmo.

Filinto
Arménio VIeira
José Luis
Raiz di Polon

Faltam-te alguns ainda, mas tens tempo claro

CV

Tchale Figueira disse...

As pessoas inteligentes reconhecem aquilo que é bom e mau neste páis seja do Norte, Sul, Este, Oeste, pelos valores dos artistas e criadores. Só os palermas dividem Cabo Verde por meros complexos geográficos.

Tchale Figueira

João Branco disse...

CV, há muitos mindelenses que olham para o seu país desta forma, acredita. Faltam-te aí muitos outros nomes "do Sul" já referenciados aqui no Margoso.

É isso aí, Tchalê...